Um contra-populismo para vencer Jair Bolsonaro?

por Rodrigo de Lemos

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Crises revelam inteligências, e o cientista político Miguel Lago tem empreendido, em seus artigos da piauí como “Leviatã e os Lobos” e “Procura-se um Presidente”, um dos melhores diagnósticos dos diferentes momentos de que se compõe nossa lenta desagregação como sociedade viável. No mais recente, “‘Batalhadores do Brasil…’” , Miguel Lago não decepciona ao completar seu retrato movente da nossa catástrofe in process; de fato, ele abarca seus dados mais atuais, depois de um ano e meio de pandemia e na perspectiva de uma eleição presidencial que talvez seja a mais decisiva da nossa história, bem no ano em que ela completa duzentos anos. A sua leitura casa-se bem com outras excelentes análises de Marcos Nobre e de Paulo Arantes, ao tomar medida da gravidade do nosso momento e ao contradizer as predições mais otimistas quanto a uma derrota líquida e certa do atual ocupante temporário do Planalto.

Sua leitura não despreza a inteligência do incumbente, nem amesquinha a do seu eleitor. Faz o contrário: aponta os limites das apostas excessivamente confiantes no poder da democracia de reverter sua própria degradação. No departamento Poliana da oposição, haveria uma leitura afetiva, típica da esquerda (e da esquerda lulista, eu diria), que se fia na memória do eleitor dos bons e velhos tempos de Lula, em contraposição à débâcle subsequente do país; haveria uma leitura materialista, situada ao centro, que se apegaria à incapacidade de entrega do Capitão para prever seu inelutável fracasso; por fim, uma leitura instrumental distinguiria no manejo efetivo das redes sociais o manancial da sua força eleitoral, bastando uma estratégia digital tão competente quanto a sua para batê-lo nas Eleições do Fim do Mundo que transcorrerão ano que vem.

Os motivos de Miguel Lago para trazer um bemol a essa autoconfiança suicida são precisos e certeiros. Bolsonaro disporia de contra-discursos para neutralizar as três teses do departamento Poliana — afinal, é ele não somente o principal ator da política brasileira contemporânea, mas também seu diretor e contra-regra: dita ritmos, falas, figurinos, mesmo e sobretudo a seus adversários. Sua resiliência é notável. Prova disso é a discrepância entre seus cataclísmicos resultados e suas taxas de aprovação, muito acima do esperado para um operador de Chernobyl ou para um carcereiro num campo de concentração. Ele logrou uma “aliança umbilical’, como diz Lago, com uma parte importante do eleitorado; os ingredientes de seu sucesso: um discurso sobre a liberdade que a entende como abolição de regras, notadamente daquelas que impeçam a satisfação imediata dos desejos de seu eleitorado cativo (sobretudo quando homens, brancos e heterossexuais); em seguida, pela retórica religiosa de tipo pré-milenarista, segundo a qual a salvação final depende de um período de provações e de perseguições por inimigos representantes do Mal. O combate final está sempre a um passo, e a Redenção sempre a ponto de ser perdida. Daí que o combatente do bom combate redobre a aposta a cada revés ou a cada derrapada do Messias: o que é um revés ou uma derrapada perto da entrada na Terra Prometida? E como não defender com a própria vida o Messias diante das investidas de Satã sob as vestes de feministas, de esquerdistas, de togados e de ativistas negros ou sindicais?

Por isso, a pandemia não basta a abalar as convicções desse eleitorado. Tão mais porque o Presidente logrou — ao menos aos olhos da sua base — transferir a responsabilidade da catástrofe para os governadores, paradoxalmente os que mais fizeram para contê-la; afinal, teriam sido os governadores que “não deixaram o homem trabalhar”, e foram aqueles que trabalharam que acabaram arcando com o ônus das medidas duras. Com isso, ele também definiu o discurso dos seus opositores, restritos a defender uma chamada pauta iluminista (instituições republicanas, ciência, direito de minorias, “liberdades liberais”), de baixa adesão fora das elites. Finalmente, conseguiu o feito de não apenas se servir das redes, mas de se fundir a elas; ele próprio é um Presidente-perfil, e tudo o que ocorre fora das telas — mesmo atos de Estado — é pretexto para alguma narrativa virtual, essa sim o centro pulsante da sua política. Os três motivos para a esperança da oposição Poliana ficam por aí bem mais frágeis. E é fato: o que Lago distingue são os ingredientes de uma aliança visceral de um Duce contemporâneo com seu séquito, como nenhum líder brasileiro anterior jamais conseguiu consolidar, indo muito além do vínculo tradicional e carcomido da representação.

Se até aí essa descrição combina a argúcia à sensibilidade para sintetizar perfeitamente as linhas gerais do inverno da nossa desesperança, em certo momento Lago dá um passo que me parece mais incerto: para ele, essa seria uma lógica revolucionária, de eliminação do inimigo. Por enquanto, é verdade que a ideia eliminação retorna de tempos em tempos; porém, não será mais um extremo retórico do que um real objetivo? Em situações revolucionárias, a eliminação do inimigo faz par com a imposição de um projeto (digamos, no caso bolchevique, o da sociedade soviética, que implicava a despossessão dos que eram capitalistas na sociedade anterior). Por outro lado, Miguel Lago observa corretamente que este é um governo do desgoverno, da irrealização e do impedimento; o que o Presidente faz é sentar na bola e deixar que o outro time tente recuperá-la. Ora, governar pela inação, sem projeto, só é possível porque há inimigos. Defender-se deles é a única razão de ser de um tal governo e o que dá ânimo a seus apoiadores. A Pátria está eternamente em perigo, e defendê-la é uma tarefa extenuante e auto-justificatória. A extrema-direita governante até agora depende do fato de que os comunistas (ou os globalistas, ou as feministas, e assim por diante) sigam existindo, ameaçando, rosnando. Sem eles, ela teria de governar. E governar como — sobretudo, governar o quê?

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(Foto: Gabriela Biló/Estadão)

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Claro que, a depender da conjuntura, a extrema-direita pode realizar um intento persecutório mais definitivo e violento – seus discurso se compõe de diferentes cartas, que ela pode lançar à mesa “em caso de necessidade”, como disse famosamente uma ex-Presidente. O que chama a atenção é que, dentro da análise de Miguel Lago, essa insistência no caráter revolucionário do bolsonarismo tem por função marcar um contraponto à sua própria proposta de terapêutica: a instalação de uma estratégia populista no campo das oposições para vencer Bolsonaro em 2022. Seria esse uma forma de opor uma política conservadora e totalizante, típica dos populistas, à política no modo do aniquilamento, empreendida pelos extremistas de direita. E é aí, no terreno do prognóstico e da terapêutica, que o raciocínio de Miguel Lago merece um exame mais preciso.

Primeiro, porque a oposição entre populismo e revolução pode ser mais deslizante do que ele faz crer, sobretudo em nosso caso atual. Talvez o bolsonarismo seja ele próprio um populismo; se é assim, a recomendação de Miguel Lago pode corresponder, em realidade, à de um contra-populismo, antídoto suposto (e não sem riscos) ao primeiro. É importante que Lago tenha recorrido a Ernesto Laclau e Chantal Mouffe para imaginar esse populismo anti-bolsonarista ainda por vir. Isso porque a própria estratégia populista de Laclau e Mouffe descreve bem o bolsonarismo, embora com sinal contrário. Para a petite histoire: ambos, Laclau e Mouffe, frequentam os textos mais empedernidos do núcleo ideológico do bolsonarismo, tanto os discursos de Ernesto Araújo quanto artigos da década de 2010 de Olavo de Carvalho. Aliás, em alocução de 11 de setembro de 2019, Araújo cita Laclau e Mouffe como teóricos que pensaram a transferência do conflito social da esfera econômica para a simbólica, dando como exemplo dessa mudança o socialismo do século XXI na Venezuela, onde o eleitorado bolivariano se aferraria ao “êxito simbólico” de Chávez ou de Maduro, independentemente de seu próprio e imediato “êxito econômico”. Essa mesma constatação da predominância do afeto e da identidade sobre os fatores econômicos e pragmáticos, esses tradicionalmente associados à “democracia normal” (It’s the economy, stupid!), é trombeteada em vídeos por Olavo de Carvalho desde, no mínimo, o início dos anos 2010, igualmente para explicar a sobrevivência do chavismo. Não temos aí, em contra-luz, uma evocação mais do que adequada da estratégia bolsonarista? “Acuse-os do que você faz”?

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Laclau e Chantal Mouffe

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Como quer que seja, o bolsonarismo apela, por instinto ou não, a elementos da estratégia populista. Também se trata para ele de “criar um povo”. Também se trata de fazê-lo ao contrapô-lo a uma “elite”. Usa das palavras “povo” e “elite” como significantes vazios, em realidade performáticos — daí que vejamos “elite”, “globalista” ou “comunista” aplicados a professores secundários, celebridades televisivas, repórteres mal pagos, escritores de internet ou a governadores do PSDB, ao passo que “povo”, “trabalhador”, “brasileiro” e “cidadão de bem” valem para empresários milionários à margem da lei, milicianos, pastores estelionatários e mesmo a homossexuais “não-gayzistas”. A surpreendente flexibilidade do discurso bolsonarista passa ao largo de qualquer categoria sociológica e cria suas próprias realidades, exatamente como descrevem Laclau e Mouffe, mesmo — e especialmente — “democracia” e “liberdade”. Apenas: uma parte daqueles que Miguel Lago gostaria de ver no polo dos “batalhadores” é classificada pelo populismo reacionário como “elites” (feministas, ativistas LGBT, intelectuais, agentes do movimento negro), enquanto os que ele entende como “encostados” (do empresário sonegador ao miliciano e à própria família governante) são aos olhos de seus opositores o próprio “povo”: não bebem cerveja ruim, falam palavrão e são indefectivelmente jecas como qualquer um de nós? Estamos no discurso e no contra-discurso, no populismo e no contra-populismo. E com o mesmo objetivo, também designado por Laclau e Mouffe: o da construção de uma hegemonia no aparelho do Estado, sem uma obrigatória destruição formal da democracia, mas a partir dela, como nos regimes híbridos, ou democraturas, do Leste Europeu conservador ou da América Latina popular, modelos mais do que suficientes a um novo autoritarismo populista. Talvez seja esse ânimo de hegemonia — radical e duradora, há tempos inédito à direita — que suscite em Miguel Lago uma apreensão mais do que justificada quanto a uma retórica da eliminação. Mas, na teoria do populismo contemporâneo, a hegemonia está inscrita no âmago da estratégia populista, e o que Bolsonaro fez até agora foi buscá-la, com a veemência retórica típica do populismo.

Quanto à terapêutica de Miguel Lago, é lícito nos perguntarmos se podemos improvisar um “povo” em pouco mais de um ano, até as eleições de 2022. Se ela de fato existe, como suponho, a estratégia populista da extrema-direita brasileira levou, no mínimo, vinte anos para se gestar, primeiro em palestras e em colunas de jornalões, depois pela capilarização em fóruns, blogs e vídeos virais de influenciadores da direita. Será possível convencer tantos eleitores quanto sejam necessários de que eles são “batalhadores”? Numa sociedade atomizada e pouco organizada como a brasileira, o precariado estaria em posição de assumir a identidade coletiva do “debaixo” (do que sofre, do que luta), enquanto a sua construção de identidade pelo bolsonarismo passa pelo empoderamento narcísico individual, de “empresário de si” ou de Hell Angel de motociata? Mais ainda: será possível selar com eles uma aliança umbilical por meio de um líder que não apenas os represente, mas com quem eles se identifiquem? Não é que isso seja impossível… Miguel Lago está longe de ser um lulista, mas confia que Lula é ainda capaz de encarnar essa identidade. Talvez as evidentes violações em seus processos penais contem a seu favor numa narrativa de martírio — mas as notícias de abusos no seu governo não estão frescas na memória de uma parte do eleitorado, tornando-o um alvo por demais fácil da identidade de “encostado”?

Admitamos que o contra-populismo é uma estratégia viável para 2022, sobretudo na falta até agora de qualquer outra. Deixemos de lado as dúvidas sobre sua interpretação de figuras como Getúlio Vargas (que seria o nec plus ultra do populismo brasileiro, logo do espírito de conciliação entre o velho e o novo avesso a saídas violentas, embora os porões do Estado Novo contem outra história…). Ainda que nada reste como estratégia à oposição além do contra-populismo, não deveríamos deixar de pensar, a longo prazo, em estratégias para nos preservarmos dos próprios populismos, em um debate mais abrangente sobre o anti-populismo. Entenda-se: momentos populistas e momentos não-populistas se alternam normalmente nas democracias, como ensinam Laclau e Mouffe. E, no entanto, também eles teorizam o populismo como mobilização de afetos políticos e de identidades, cristalizados frequentemente em um líder cuja própria presença carismática constitui um meio para estabelecer equivalência entre significantes díspares, relacionados a demandas insatisfeitas muito heterogêneas (de novo, vide Bolsonaro: milicianos, policiais, financistas, ruralistas, sulistas antinordestinos, incels masculinistas, famílias da classe média antipetista, nostálgicos da ditadura, e assim por diante — mundos distintos e desconhecidos se reconciliam por meio do amor congregatório a um mesmo César bufão…). As possibilidades imprevisíveis deixadas em aberto por uma política desse tipo não são em nada meramente teóricas; ao contrário, não faltam oportunidades de caos, as experiências populistas contemporâneas o mostram bem. É preciso refletir, portanto, sobre formas de aferrolhar o sistema, de torná-lo mais resiliente aos assaltos de turbas irascíveis ou de candidatos a tiranos que as conduzam habilmente, e isso por meio da própria democracia. Em uma coisa os influenciadores do núcleo ideológico têm razão: como o caso venezuelano ilustra bem, o voto identitário guarda potências destruidoras temíveis, contrárias à sobrevivência mais imediata mesmo do próprio votante (somente: seria bom que esses mesmos que o denunciam não apelassem a ele…). Outros exemplos de democracias falidas ou inviáveis pela predominância do voto identitário não faltam pelo mundo, seja por etnia, seja por religião.

No Brasil, o anti-populismo não me parece tão discutido quanto mereceria. Eis uma discussão que deveria começar logo; ela concerne a questões estruturais do Estado. Talvez uma estratégia de bloqueio anti-populista do sistema requeira uma divisão mais acentuada dos poderes. Nosso presidencialismo monárquico não nos oferece salvaguardas suficientes, como vemos em base quotidiana. Onde estaria uma alternativa? No semi-presidencialismo francês ou português? Nos modelos de voto da Alemanha? Num modelo próprio, desconhecido até ser inventado? Tampouco nos asseguram os pequenos poderes absolutos no Judiciário e no Legislativo (como a discricionariedade absoluta do presidente da câmara para aceitar um processo de impeachment, à revelia da casa). Também um novo compartilhamento supranacional de certas soberanias, em questões relativas a direitos humanos e ambientais, por exemplo, seria uma utopia que valeria a militância — isso sem falar na esfera infranacional, no reforço ao nosso combalido federalismo. Pode ser que um contra-populismo nos seja urgente para amanhã, mas um anti-populismo nos é imprescindível como estratégia de futuro.

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‘Foundation of the American Government’, John Henry Hintermeister, 1925

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Rodrigo de Lemos

Rodrigo de Lemos é doutor em Literatura pela UFRGS-RS e professor de Língua e Cultura Francesa na UFCSPA-RS. Escreve sobre Cinema e Literatura no Estado da Arte.