Deirdre McCloskey deveria encontrar Sérgio Buarque de Holanda

A economista americana Deirdre McCloskey

Por Vinícius Müller

Há muito que os estudos sobre desenvolvimento econômico, por tempos relacionados às ciências econômicas e seus métodos, buscam em outras áreas do conhecimento conceitos e abordagens que possam superar alguns limites de sua própria ciência. Não que seja novidade, essa interdisciplinaridade passa por períodos mais férteis, assim como por baixas, promovendo, de tempos em tempos, uma reciclagem no modo como pensamos não só o desenvolvimento econômico, mas também as relações entre a Economia, a História, a Sociologia, a Filosofia, entre outros campos do saber.

Quando isso ocorre, novos debates se estabelecem e, principalmente, novas interpretações ganham corpo. Nesse sentido, como não lembrar de Max Weber e seu ‘tipo ideal’ do ‘capitalista protestante’ quando, muitas décadas depois, o vencedor do Nobel Douglass North falou em instituições informais que impactam no funcionamento do mercado? Assim, esses nossos dias revelam-se promissores para a formação de novas associações entre abordagens e autores que, em princípio, nada de comum guardavam entre si.

A economista norte-americana Deirdre McCloskey, que recentemente esteve no Brasil para algumas apresentações, trouxe na bagagem suas reflexões acerca de sua mais nova obra Bourgeois Equality. How ideas, not capital or institutions enriched the world (University of Chicago Press, 2016), terceira parte da sua trilogia que conta ainda com The Bourgeois Virtues (2006) e The Bourgeois Dignity (2010). Nela, McCloskey ressalta o papel da burguesia no desenvolvimento econômico dos últimos duzentos anos. Ou, como ela gosta de classificar, o período do The Great Ennrichment”. Em sua tese, a economista de Chicago estabelece algumas relações imediatas, seja pelo formato que a aproxima do magistral Fernand Braudel e sua trilogia sobre as origens do capitalismo entre os séculos XV e XVIII, seja pela relevância que credita às ideias, se aproximando de Joel Mokyr e sua defesa de uma ‘cultura’ científica que teria antecedido a transformação conhecida como Revolução Industrial. (A Culture of Growth. Princeton University Press, 2016).

Contudo, no afã de aproximar sua tese ao Brasil, ansiedade que muitas vezes esteve do lado de suas imensas plateias, McCloskey estabelece, quase que inadvertidamente, um debate que, em geral, exige uma capacidade que não esteve presente na história brasileira. O que a professora de Chicago nos oferece depende da compreensão sobre a importância de um conjunto de valores ou, como gosta de falar, de ideias que estiveram amparadas em dois princípios relacionados àquilo que atribui à burguesia: a liberdade e a propriedade. Esses são em verdade complementares, numa relação que dificilmente poderia ser caracterizada como causal. Só há liberdade porque há propriedade. E vice versa. E, tais conceitos, não estão vinculados a uma formalização do que seriam suas defesas e proteções. Ou seja, não é o direito à propriedade, formalizado por uma lei (de patentes, por exemplo, como apontado por Douglass North); ou o direito à liberdade, formalizado, por exemplo, pelas leis de liberdade de expressão. Mas, sim, uma ideia que antecede a formalização. E que a justifica.

O problema é que essa definição depende de uma capacidade de abstração muito pouco trivial. Liberdade e Propriedade como ideias, conceitos vagos, mas que se usados como princípios podem nortear uma série de leis formais que organizam a sociedade. E essa capacidade de abstração não é peculiar ao Brasil. Ao contrário, a baixa capacidade de estabelecermos relações que dependem de abstração nos configura como sociedade. E essa incapacidade pode ser vista tanto em quantidade como em qualidade. No primeiro caso, a famosa máxima ‘brasileiro não tem memória’ é um exemplo. Quando mais tempo passa, menos identificamos aquilo que nos trouxe até aqui. E, inversamente, quanto mais tempo imaginamos necessário para algo acontecer, menos capazes somos de planejar. Ou seja, lidamos mal sempre que o tempo é longo, para o passado ou para o futuro. Pouca história, pouco planejamento: ‘brasileiro deixa tudo para a última hora’.

A segunda, qualitativa, deriva da primeira. Quanto mais o tempo exige que tenhamos capacidade de abstração – o que não temos – mais buscamos elementos concretos que garantam uma razoável sociabilidade imediata. Muros que nos separam, objetivamente, da violência urbana. Cola que nos afasta do risco de reprovação ou de um mal resultado escolar. Drible que nos isenta do treino tático ou do estudo e definição da estratégia. Ajuste que garante que o filho da autoridade jurídica se safe da prisão. Antes de ser um criminoso, ele é filho do juiz.

Não que tal característica seja em absoluto ruim. Contudo, ainda não encontramos um modo melhor de organizar a sociedade moderna. Ela nasce da declaração de que somos iguais perante a lei. Muito Abstrato. Muito pouco aderente a uma sociedade com tamanha dificuldade em superar sua crônica deficiência em se identificar a partir de conceitos tão abstratos, como liberdade e igualdade.

Por isso, nossa baixa capacidade de abstração faz com que a leitura que fazemos da obra de McCloskey dependa de outras. Sintoma disso é a ansiedade da plateia em perguntar a ela sobre o que fazer, objetivamente, para que os ideais de liberdade e igualdade que, segundo ela, são as causas do “The Great Enrichment”, vigorem no país. Não há resposta certa. Mas, algumas sinalizações ou passos necessários. Talvez termos uma burguesia; o que não temos, de fato. Talvez termos uma burguesia que, de fato, conheça nossa História. O que também não temos. Ou, talvez, reler Sérgio Buarque de Holanda. Eis um bom debate e uma urgente aproximação.

Vinícius Müller

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.