Estado da Arte/Nexus Instituut: Uma conversa com Rob Riemen

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Esta entrevista marca o início de uma parceria institucional entre o Estado da Arte e o Nexus InstituutFundado na Holanda em 1994, por Rob Riemen, o Nexus surgiu como uma proposta de contraponto ao foco dominante e praticamente unidimensional em valores meramente instrumentais ou comerciais. Ao longo dos anos, reunindo pensadores, filósofos, pesquisadores, acadêmicos e intelectuais públicos proeminentes — promovendo conferências, palestras, simpósios, debates, entrevistas e publicações —, sua proposta sempre foi a de tornar acessíveis às pessoas, no mundo todo, os valores da autêntica tradição humanista na cultura e na filosofia.

“Como devemos viver? Como podemos dar forma a nosso futuro? O que podemos aprender com o passado? Quais são os valores que realmente importam e no que eles são baseados?” Com um espírito animado por um ideal de “tolerância e erudição”, a ideia é do Nexus é “compreender por meio do contexto”.

Essa ideia toda é muito bem explicada por dois intelectuais que fazem parte da grande história do Nexus, John Gray e, claro, Sir Roger Scruton (cuja última grande entrevista foi concedida a nosso editor-chefe, Eduardo Wolf, em uma parceria do Estado da Arte com o Spotniks).

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Pelas ambições e ideais compartilhados, aproximamo-nos do Nexus. Dando início à parceria, trazemos a conversa, conduzida por Gilberto Morbach, com Rob Riemen, fundador do Nexus e autor de obras como Nobility of Spirit: A Forgotten Ideal e To Fight Against This Age: On Fascism and Humanism.

Uma conversa sobre cultura, sobre educação moral, sobre a tradição humanista na Europa; sobre Thomas Mann e Albert Camus, sobre nosso tempo, sobre o fascismo, sobre o fascismo em nosso tempo, sobre os livros que Rob Riemen recomenda para que possamos fazer sentido disso tudo.

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Rob Riemen (Reprodução: Nexus)

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Professor Riemen, esta conversa significa uma enorme honra para nós; não apenas pelos valores que compartilhamos, mas também porque sabemos o quanto você valoriza a própria ideia de conversa como uma fonte desses valores mesmos. Basta ver, afinal, os diálogos com intelectuais públicos que o Nexus tem desenvolvido ao longo de sua história: George Steiner, Vargas Llosa, Amós Oz, Joseph Frank, J.M. Coetzee, John Gray, Roger Scruton… Nessa linha, por gentileza, gostaríamos que falasse um pouco do projeto e da história do Instituto sob a luz de seus valores.

Bem, deixe-me começar pela seguinte ideia: Quando estava ainda no ensino médio, eu li A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Essa obra transformou minha vida, porque foi ali que pensei: “Este sou eu”. O livro é sobre um jovem que está se tornando adulto, que vai atingindo a maturidade por meio da leitura, pelos livros, conversando e confrontando-se com diferentes mestres e professores. O Instituto Nexus, em diversas formas, é uma ampliação da ideia subjacente a A Montanha Mágica. É um lugar onde diferentes pessoas, com diferentes visões, reúnem-se para discutir aquilo que realmente importa.

Nós podemos dizer com segurança que é quando se encerra a conversa que há guerra. Não há diplomacia, diálogo, não há a ideia de, bem você pensa isso, eu penso aquilo, sentemos e resolvamos o desacordo descobrindo um denominador comum, descobrindo quem tem os melhores argumentos. Infelizmente, muito dessa arte do diálogo já se perdeu, por uma série de razões. Lembremos de outra grande obra: O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Trata-se de uma obra profética, porque ela já procurava pela grande ideia, e descobriu não ser possível encontrá-la. Isso diz muito sobre o século XX, o século no qual nós perdemos a grande ideia: a ideia que nos unia enquanto humanidade. Enfim, neste livro, reúnem-se várias pessoas de diferentes grupos: filósofos, matemáticos, empresários, militares, etc., etc. Nós, agora, estamos em uma era na qual as pessoas só conversam com aquelas que pertencem ao mesmo grupo. Os acadêmicos dialogam com os acadêmicos, pessoas do mercado falam com pessoas do mercado, pundits com pundits — além dos monólogos com a audiência —, e por aí vai.

Agora, uma terceira premissa, quando falamos sobre a ideia de civilização… bem, não precisamos ser estudiosos especializados em Freud para perceber que a civilização é sempre uma fina camada. Uma fina camada porque nós somos o que somos: somos também animais. Por nosso sangue, nossos desejos, nossos instintos, nossos medos. Todos tempos essa natureza animal, faz parte de ser humano. É impossível não sentir nenhum grau de raiva, inveja, agressividade, medo. Mas nós também temos um espírito. E é por nosso espírito, nossa consciência, nosso intelecto e nossa razão que podemos saber que há coisas que estão para além de nós. Nós sabemos que há verdade, que há o bem, que o amor existe, assim como a paz e a liberdade. E todo esse mundo de ideias — falo de ideias porque essas coisas não são materiais, tangíveis —, toda a ideia de civilização depende daquilo que Sócrates chamou de paideia; os alemães chamariam Bildung, a liberal education do mundo anlgófono. Nós precisamos de um certo tipo de educação que mantenha viva aquilo que George Steiner dizia lindamente: a esperança de tornarmo-nos aquilo que somos de melhor. Sem essa esperança, não somos capazes de tornar este mundo um lugar no qual a justiça e a verdade encontram seu lugar. Sem essa esperança, não há como viver de modo civilizado.

Ao longo da história, chegamos à conclusão de que a democracia é a única forma de governo que torna possível que pessoas de diferentes visões, diferentes grupos, diferentes backgrounds coexistam em paz, cultivando a dignidade humana. Mas esquecemos algumas coisas. Primeiro, esquecemos que a ideia de democracia é uma ideia elitista: é elitista porque exige que todos tenham o compromisso de participar enquanto cidadãos em uma comunidade, e que se eduquem, e que pensem. Trata-se, portanto, da melhor, mas da mais difícil forma de governo. Para que tenhamos esse governo, as pessoas têm de praticar a arte do diálogo.

Aqui, lembro de outro de meus livros favoritos: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert Pirsig. Você precisa da ideia de qualidade. Qual é nossa situação agora? Não mais sabemos do que se trata a democracia. As democracias modernas têm se tornado meras democracias de massas, que são o oposto da democracia. Temos democracias de massas porque perdemos a ideia de qualidade, de qualidade de vida. Substituímos essa ideia por uma fé sagrada na quantidade. Tudo, hoje, é em números. E os números são sagrados, e então os economistas podem decidir sobre aquilo que é importante. Isso reorganiza uma sociedade com base em um modelo de negócios, um business model. Como consequência, perde-se a qualidade. Perde-se tudo aquilo que você não é capaz de mensurar por meio de números. É com os números, afinal, que vem a ideia de utilidade: tudo precisa ser útil; se não for útil, não é importante, porque não podemos calcular o valor aritmeticamente. Imagine um mundo no qual só é importante aquilo que é útil. Esqueça a ideia de amor; o amor não é útil. Esqueça a amizade; se você baseia suas amizades de acordo com quem é útil para você, não se trata de amizade. A beleza? Não há utilidade. Criamos uma nova Santíssima Trindade nas sociedades ocidentais: ciência, teconologia, dinheiro. O culto ao Espírito Santo, que está no Vale do Silício, vem da fé de Washington, Pequim, Berlim, Bruxelas, porque a ciência, a tecnologia e o dinheiro resolverão todos nossos problemas. Infelizmente, isso não é verdade.

Há poucos anos, o cientista americano Steven Pinker — um dos grandes propagandistas desse novo sagrado que tem em Bill Gates seu semideus — lançou seu livro dizendo que, vejam só, está tudo indo bem, não há tantos problemas assim… Eu tive um debate com Pinker, na BBC, no qual eu disse que isso simplesmente não é verdade. Não é. Mencionei algumas coisas, falei na Shoah, e, bem, são apenas “incidentes na história”. Mas veja, Pinker é o de menos, trata-se de uma boa pessoa, escreveu seu livro, ótimo para ele. O verdadeiro problema é que milhões e milhões de pessoas, pessoas jovens, querem acreditar nisso. A neurociência é algo ótimo, é claro que é, mas não a tornemos uma religião. Quando a ciência é uma religião, quando a política e os novos fascismos são formas de religião, é aí que estamos com problemas.

Hoje, a civilização está seriamente ameaçada por três lados: primeiro, essa obsessão pela quantidade, quantidade, quantidade. Ignoramos os avisos do Clube de Roma nos anos 1970, que nos alertavam que essa ideia do crescimento econômico como a coisa mais importante entre todas acabaria com o planeta. Aqui estamos. O segundo problema é que transformamos nossas democracias em democracias de massas e, com isso, vimos o retorno do fascismo. Você vive em um país cujo líder é um fascista. Os EUA têm um fascista. Aqui na Europa temos vários deles: Polônia, Hungria, em ascensão na Itália, em meu país [Holanda]. E o terceiro problema é essa ideologia do Vale do Silício, de que ciência-dinheiro-tecnologia resolvem todos os problemas.

Aqui entra o Nexus Instituut. Nós propomos um retorno aos princípios que devemos valorizar e proteger. A ciência é maravilhosa e, hoje, rezamos que ela dê o caminho para que nos livremos deste vírus. Mas a ciência não lida com questões morais. As questões do significado estão para além da ciência. O mesmo vale para o dinheiro, para a tecnologia. Precisamos recuperar a verdadeira essência do que é a educação. É interessante ver que, por muito tempo, durante o século XX, os EUA foram o centro da civilização ocidental. Por várias boas razões: depois da Segunda Guerra, por exemplo, o que ficou foi que, sem os EUA, ficaríamos com Hitler. Daí surgiu a ideia do excepcionalismo americano. Mas veja: os EUA não estão tão diferentes do Brasil agora. Os números… os EUA são um grande país: para as pessoas que têm dinheiro. Como o Brasil. Se você não tem dinheiro, é um país cruel, em que as pessoas são abandonadas sem qualquer senso de solidariedade. Ainda assim, muitos estadunidenses querem acreditar em um excepcionalismo americano. “A América deve liderar o mundo”. “Temos as melhores universidades”. Com base no quê? Eu posso criar meus próprios critérios e dizer que o Nexus é o melhor centro cultural da Europa. Não faz sentido nenhum. Eles não têm as melhores universidades. Têm bons hospitais, mas ninguém consegue pagar por eles. Desemprego. Mortes por armas de fogo. Crise de opioides.

Os EUA não são mais o centro do mundo. É por isso que precisamos de iniciativas. Como a sua, como a nossa, como a de muitas à nossa volta. Algumas delas, a maioria delas nós desconhecemos. Mas eu sei, estou convicto de que os jovens são capazes de perceber e dizer que “veja bem, não somos tolos, não queremos ser reduzidos à mera noção de utilidade para a economia, queremos encontrar sentido às nossas vidas, também precisamos de alimento espiritual, sabemos da corrupção, sabemos que muitos dos que estão no poder não querem mudar as coisas”. É por isso que as coisas têm de vir de baixo para cima, from the bottom-up. É o que vocês estão fazendo, é o que nós estamos fazendo. É como no Renascimento: o Renascimentou começou com vinte, quarenta pessoas. O Cristianismo: alguns poucos pescadores. É isso. Estou mais esperançoso, porque as pessoas têm percebido, muito melhor do que se percebeu nos anos 1990, no início do século XXI, que estamos lidando com uma verdadeira crise civilizatória. Crises econômicas, crises sociais, crises climáticas. Tudo isso gera uma enorme crise da civilização que, por sua vez, é uma crise de valores. Precisamos de mais lugares onde as pessoas podem descobrir quais são os verdadeiros valores, o que deve ser a verdadeira educação.

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Thomas Mann

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Muito do que você disse liga-se perfeitamente à segunda coisa que quero trazer. Não apenas por se tratar de outro livro seu, é impossível não falar sobre nosso tempo; sobre a importância de lutar contra esta era. É exatamente sobre isso que você fala em To Fight Against this Age: On Fascism and Humanism. Gostaria que você falasse daquilo a que chama, no livro, de “eterno retorno do fascismo”; das lições que você tira de Albert Camus, e do aviso de Thomas Mann: a possibilidade de o fascismo chegar reivindicando o nome da liberdade.

Eu escrevi este livro ainda em 2010, em razão daquilo que vivíamos em meu país, a Holanda. A Holanda é um país muito pequeno, muito rico, muito próspero, e eu pude ver o surgimento de elementos fascistas neste país. Já então eu percebia que, bem, se pode acontecer aqui, pode acontecer em qualquer lugar. Infelizmente, eu estava certo.

As pessoas que discordaram de mim à época, e que estão ainda discordando, vêm de três grupos: acadêmicos, políticos, a assim chamada mídia política. Os políticos, eu sei, é um pouco constrangedor pra eles. Agora, os acadêmicos, que deveriam ser inteligentes o suficiente para entender, também negaram. Os acadêmicos mostraram-se ignorantes: eles não entendem a política. Desde muito tempo, nas universidades, para provar que você é científico, você deve adaptar-se ao paradigma da ciência. O que se esqueceu aí foi a natureza humana. Nossa sociedade não se encaixa no paradigma científico. Toda a esperança nos dados, nas análises empíricas, tudo isso é maravilhoso, mas não o torna capaz de compreender o que acontece em nossas sociedades. Interessante: ontem mesmo, lia sobre dois grandes pensadores políticos nos EUA nos anos 1950, Leo Strauss e Leo Löwenthal. Já então, esses dois judeus alemães que emigraram lutaram contra uma cultura acadêmica que queria acreditar apenas em análises de dados, que dizia “bem, por que deveríamos saber sobre Aristóteles, Hobbes, Maquiavel, quem se importa?”. Isso não é novo, é uma luta antiga.

O líder da campanha presidencial de Hillary Clinton, Robby Mook, só queria analisar dados e esqueceu de ler os jornais. Se os tivesse lido, em 2016, teria percebido que as coisas iam mal e que se precisava de um outro tipo de campanha.

Veja a minha situação. A pergunta sempre era “Rob, qual é a sua definição?”, e eu dizia que não há uma definição. “Onde está sua teoria?”, não há uma teoria. Estamos aprisionados em um paradigma incapaz de compreender a política. A consequência? O mundo acadêmico é completamente disfuncional no que diz respeito às ciências sociais. Absolutamente. E quando o que é pra ser o centro intelectual não está funcionando na democracia, não é de se surpreender que estejamos onde estamos agora.

Terceiro grupo: veja o New York Times, veja o Washington Post.  Nenhum deles escreveu, jamais vai escrever que Trump é um fascista. Eu sei disso porque, a pedido do Times, enviei três op-eds sustentando o argumento e eles recusaram-se a publicar. Eu perguntava por que, qual seria o problema, e a resposta era que, abro aspas, abro aspas, “vai contra nosso modelo de negócios”. O New York Times e o Washington Post não publicarão artigos de opinião que trazem o argumento razoável, fundamentado, de que, com Trump, se tem uma mentalidade fascista na Casa Branca. Porque eles perderão acesso à Casa Branca, porque Trump não os deixará comparecer, porque muitos leitores ficariam irritados. Porque contraria a ideia do excepcionalismo americano.

“Há muita coisa acontecendo, mas ele não é um fascista.” “É uma palavra contaminada”. “Todos hoje são chamados de fascistas, então não podemos mais usar essa palavra”. Isso é muito interessante. Sempre digo isso para meus amigos, os pundits e os cientistas políticos. Eu conheço uma palavra que está ainda mais contaminada que “fascismo”. É a palavra “democracia”. Saddam Hussein declarava-se um democrata, como Hosni Mubarak. A China diz ser uma democracia. Será que essa então é uma razão para abandonarmos a palavra “democracia”? Ou será que é então a hora de recuperar o conceito? É o que quero fazer com o significado da palavra “fascismo”. Eu não estou dizendo que estamos diante da volta do nazismo. Sei que é algo diferente. Mas estamos, sim, lidando com um retorno do fascismo, e precisamos compreender isso, porque então estaremos ainda mais cientes das consequências, e então poderemos tomar as atitudes adequadas. É o mesmo com o coronavírus. O fascismo é um vírus.

E o retorno do vírus, você está certo, foi de fato previsto por Albert Camus. E Thomas Mann. E alguns outros. E eles foram capazes de prever isso lá em 1947 porque, tendo vivido a era do fascismo, eles sabiam o que ele era. Um vírus que pode sempre voltar quando você tem uma democracia de massa. Quando não são mais valores morais que estão no centro da sociedade, mas medo e ganância. Quando o modelo de uma sociedade não está mais em valores morais e espirituais, mas nos negócios, no crescimento, na quantidade, na eficiência, na análise. É por isso que eles viram ser preciso lutar contra a época. O nosso tempo não é assim tão diferente do deles no século XX. Mas enganamos a nós mesmos: a economia estava indo bem, a tecnologia avançava, tínhamos mais gadgets. O coronavírus deve servir como um grande alerta.

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Donald Trump (Reprodução: TIME)

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Pensando tudo nisso, lembro de um amigo seu, John Gray, que se tem mostrado bastante cético com relação ao futuro do liberalismo tal como viemos a conhecer. Com tudo isso que viemos discutindo, e acrescentando aí o ceticismo de Gray, o que você teria a dizer sobre isso, e sobre o futuro da democracia liberal?

Aqui, é preciso começar por uma importante distinção, entre o liberalismo e a democracia liberal. John Gray é meu bom amigo, tenho por ele uma profunda admiração, mas temos um importante desacordo. Temos um desacordo que se dá na leitura que fazemos da obra de Isaiah Berlin. Gray foi aluno e é um entusiasta, admirador de Berlin, enquanto eu sou bem menos. Por algo que encontro, por exemplo, em um adversário teórico de Berlin, Leo Strauss. Em Leszek Kołakowski, que eu também conhecia bem. Eles apontavam a um vácuo que existe no liberalismo. Um vazio. A dificuldade é a seguinte: uma dificuldade de aceitar a fé, de aceitar a ideia de que há valores morais transcendentes — e você não precisa necessariamente de uma crença em um deus; Spinoza, por exemplo, dizia que a mais alta forma de conhecimento é a intuição, e nunca negou o fato de haver valores morais espirituais transcendentes. Infelizmente, muito do liberalismo do século XX parece ter conduzido à ideia pós-moderna de que tudo é válido, anything goes. E isso é vazio.

Nesse vácuo, Bill Clinton, Tony Blair, o primeiro ministro de meu país, introduziram, nos anos 1990, a ideia do neoliberalismo. À época, essa era a terceira via, para tornar todos mais ricos. Essa era uma doutrina baseada no liberalismo. Sabemos hoje o que se saiu. O neoliberalismo, na ausência de valores morais, introduz a ideia de valores de mercado.

Meu mestre intelectual Thomas Mann sempre trazia o argumento de que a democracia não é possível sem um espírito aristocrático. Leo Strauss dizia o mesmo. Mann escreveu, em 1945, um livro maravilhoso, Adel des Geistes: a nobreza do espírito. Mais tarde, eu também publiquei o meu Nobility of Spirit, mas com um subtítulo: A Forgotten Ideal. Um ideal esquecido.

Porque a democracia, e o espírito aristocrático de que falava Thomas Mann, inseria-se na tradição do humanismo europeu, que não negava a religião. Na Holanda, a propósito, temos muito orgulho em sermos o país de Erasmo, que, como Petrarca, na Itália, foi um dos primeiros humanistas. Eles descobriram exatamente a nobreza do espírito: que não é baseada no sangue, não se trata do lugar ou da família em que se nasce, não se trata de dinheiro ou status social. É um tipo de nobreza que poderia e deveria ser defendida por qualquer um, por se tratar de uma nobreza que significa a consciência daquilo que faz com que a vida valha a pena. A consciência de perguntar, todos os dias, as perguntas que Sócrates indicava que deveríamos perguntar: O que é uma boa vida? O que é uma boa sociedade? Se não se sabe mais como viver a vida, o que significa uma vida que vale a pena ser vivida, então temos problemas. Você faz escolhas erradas, escolhe os amigos errados, as relações erradas, frustra-se, tem medos, obsessões, e etc., etc. etc.

Precisamos saber o que dá significado às nossas vidas. E não estamos isolados, não estamos sozinhos, estamos agora mais conectados — o coronavírus prova isso —, então a pergunta da boa vida conduz naturalmente à busca por saber o que constitui uma boa sociedade. De novo: essas perguntas não são perguntas utilitárias. As respostas não serão dadas pela ciência. Elas só serão encontradas por seres humanos que pensam, que educam a si mesmos, que buscam o mundo das ideias e abrem-se ao diálogo. Afinal, ninguém pode dizer que sabe tudo. É muito básico. E esquecemo-nos.

Nada disso é novo. Essas questões são tão antigas quanto a própria humanidade. Maquiavel, no século XVI, viveu na Toscana, um campo de batalha da Europa. Desastre após desastre. Nesse cenário, ele escreveu os Discursos, reflexões, e sua maior obsessão a decadência e a queda do Império Romano. Como foi que aquela grande civilização veio a desaparecer? Sua conclusão foi a de que a culpa era dos bárbaros: não os de fora, mas os de dentro das muralhas. Os bárbaros de dentro de Roma. (Vemos algo assim hoje.) E ele concluía que esses bárbaros eram corruptos: a corrupção era a doença da época. Então ele perguntava, como podemos lutar contra a corrupção? Seu insight era o de que você não consegue combater a corrupção com mais regras, mais leis. É impossível. Primeiro, porque, em uma sociedade corrupta, sempre haverá modos de burlá-las. Segundo: as próprias leis e regras serão elas mesmas corrompidas. Essa não é a solução. A solução, dizia Maquiavel, está no seguinte: os institutos e organizações, que devem ser os pilares da civilização — as universidades, os partidos políticos, o sistema judiciário, a Igreja —, devem retornar a seus princípios primeiros. Em seus primeiros princípios está o espírito genuíno do qual se pode derivar a energia para ser um verdadeiro alicerce da sociedade, da civilização.

Veja, essa é exatamente a história de nosso tempo. Os bárbaros estão dentro de nossas muralhas: estão no poder, constituem as estruturas de poder, são os pundits que hoje opinam e comandam o show, estão nas universidades (que, hoje, são dos lugares mais corruptos que pode haver)… não se consegue combater esse tipo de corrupção com mais regras, com o que quer que seja que estejam pensando em Bruxelas, em Frankfurt, no FMI, sei lá. Só se combate esse tipo de corrupção com um retorno aos princípios originais. Devemos reinventar-nos, conhecer-nos a nós mesmos, refletir novamente no seguinte sentido: “Certo, somos uma universidade. Qual é o significado da palavra universidade? Ok, certo, é deste tipo de conhecimento que se trata. Como podemos chegar a este tipo de conhecimento? Bem, precisamos priorizar uma educação de formação perfectiva, precisamos priorizar os clássicos.” A mídia? “Não estamos aqui apenas para vender, estamos aqui para informar as pessoas, e de forma correta, e não estamos aqui para servir de máquina de propaganda para este ou aquele partido político.” Partidos políticos? Não estão lá para servirem aos interesses do próprio grupo, mas à sociedade. Evidentemente que a partir de suas próprias ideias, suas próprias perspectivas, mas a quintessência de sua missão é proteger o bem comum. Assim, em uma posição de poder, sobretudo em um sistema democrático, os partidos devem servir à sociedade. E já que o poder é algo tão viciante, que saiam em seis anos no máximo. E não voltem nunca mais.

É muito simples. Coisas muito simples. Podemos ser pessimistas, mas prefiro ser otimista. Não é tão difícil. Não é. O problema, e é o último capítulo de meu livro, é que você precisa de pessoas corajosas. Precisamos de pessoas que sejam suficientemente corajosas para reconhecer que é o que devemos fazer. Há pessoas muito corajosas, sei que há. Infelizmente, talvez ainda não tantas nos lugares onde as decisões são tomadas.

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Detalhe do Maquiavel de Santi di Tito

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Para que possamos encerrar em uma nota de otimismo, esse seu otimismo de que tanto precisamos, gostaria de pedir uma recomendação sua para nossos leitores. Já falamos aqui sobre algumas de suas inspirações, sobretudo Thomas Mann, mas particularmente para este momento que vivemos, o que Rob Riemen recomenda aos leitores que querem fazer um pouco de sentido disso tudo pelo que estamos passando e discutimos aqui?

Acho que dois livros em particular vêm à mente. O primeiro livro que eu gostaria de recomendar é aquele que mencionei rapidamente, de Robert M. Pirsig: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, publicado em 1974. Trata-se de um livro autobiográfico. É sobre a jornada de um pai e seu filho de 13 anos, em uma motocicleta, do centro à Costa Oeste dos Estados Unidos. O livro conta a história do homem que ele era e do homem que veio a se tornar. Antigamente, você sabe, problemas psiquiátricos eram tratados com ECT (“eletrochoques”). Isso aconteceu com ele, e ele tem flashbacks do homem que costumava ser e já não é mais, porque teve seu cérebro destruído. E então ele vai narrando a jornada na motocicleta, alternando com flashbacks que contam um pouco de sua história. Quando ainda era esse, digamos assim, primeiro homem, ele tinha um Q.I. impressionante, era super, super, superinteligente. Isso levou-o à universidade quando ainda tinha 14 anos. Uma série de problemas acabaram impedindo sua formação acadêmica e, uma vez fora da universidade, ele é convocado para servir o Exército na Coreia, onde ele acaba tendo contato com a filosofia oriental. De volta aos EUA, depois de muito tempo sem conseguir trabalho, ele finalmente arruma um emprego como professor de escrita criativa em Bozeman, Montana, uma cidade quase que absolutamente Republicana [no sentido partidário, com R maiúsculo]. Lá, nesse novo emprego, ele conhece uma velha professora de grego que lhe diz um dia num intervalo: “Esses alunos! Eles não têm ideia sobre o que significa qualidade. Alguém devia ensiná-los!” Pirsig diz então que vai ensiná-los. Ele volta para casa e, tendo a mente científico-analítica que tem, se dá conta do seguinte: bem, o que é qualidade? Como ensinar isso? Como definir? Qual é a “teoria da qualidade”? É claro que não há nenhuma. E aí que ele vai contando sobre quem ele era, sobre seus contextos, e sobre como ele começou a ensinar qualidade sem saber exatamente o que ela significava. Uma das primeiras coisas que ele decide, por exemplo, é parar de notas. “Vocês estão aqui para aprender algo, não para receber uma nota”. Ah, é um livro incrível. É um livro sobre a busca humana, de todo ser humano, por qualidade.

Há uma famosa história de bastidores por trás desse livro que, espero, sirva de consolo aos jovens escritores de agora. Pirsig não conseguia publicá-lo de jeito nenhum. Carta de recusa número 1, carta de recusa número 2, carta de recusa número 20, 60, 80. 80 editoras e nenhuma delas quis publicar o livro. Foi então que seu agente à época teve uma boa ideia: ele enviou o livro para um jovem crítico literário da New Yorker. Seu nome? George Steiner. George começou a ler o livro e percebeu: “Isso é absolutamente brilhante”. Foi aí que ele disse a seus editores que escreveria uma resenha sobre um livro que ainda não havia sido publicado. O livro foi finalmente aceito então, graças a George Steiner, e fizeram um filme, e mais de 25 milhões de cópias foram vendidas. Esse é o primeiro livro que eu recomendo aos seus leitores em tempos de corona.

O segundo livro… vamos lá, uma breve história. A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói. A história de um burocrata que vai se acomodando, e vai planejando os próximos passos de sua carreira, mas vive uma vida vazia, sem sentido, até que descobre que está doente e que vai morrer. Ele sabe que vai morrer. É então que ele percebe o que realmente importa. Para o momento, é isso. E claro, em meu Nobreza de Espírito, há vários outros livros que podem servir de referência.

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Robert M. Pirsig

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Rob Riemen (Reprodução: Bertelsmann Foundation)

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