Estado da Arte: Cinco anos

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L’ignorance reconnue, le refus du fanatisme,

les bornes du monde et de l’homme,

le visage aimé, la beauté.

Albert Camus

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Vermeer, ‘Meisje met de parel’, c. 1665-1667

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Este 21 de setembro de 2021 marca os cinco anos de existência do Estado da Arte.

Foi há cinco anos, portanto, que Eduardo Wolf e Marcelo Consentino inauguraram aquela que seria a marca de nosso propósito contínuo: “um espaço que conecte o público com nosso patrimônio cultural de modo vivo e atual para que o conhecimento do passado seja uma experiência contemporânea e relevante”. Não é por acaso que recupero as palavras. Um fracasso por esse padrão por eles estabelecido é ainda preferível ao êxito baseado em outros critérios — critérios que não contemplam, no limite, as poucas coisas que valem a pena: as tentativas de fazer algum sentido de nossa experiência comum, o saber desinteressado, a busca pela verdade.

A gratidão, a humildade genuína e o reconhecimento daquilo que herdamos são imperativos sem os quais essas poucas coisas que valem a pena perdem muito de seu significado. É por isso, portanto, que a tônica deste editorial é a do agradecimento. Começo por agradecer, assim, àqueles sem os quais eu não estaria aqui escrevendo estas palavras.

Agradeço ao Marcelo, nosso Melvyn Bragg, que esteve com o projeto em seu início como fundador ao lado de Eduardo (e faz hoje um trabalho incrível, verdadeiramente incrível, na condução do Cânone em Pauta, nosso podcast. Talvez alguém diga que sou suspeito, mas convido todos a conhecerem o trabalho do Marcelo. Fui econômico nos elogios.)

Agradeço de coração ao Eduardo, grande amigo, grande mestre, referência intelectual e moral para mim; um exemplo vivo de consciência e lucidez, inteligência e caráter, honestidade e independência — um ponto de orientação, um professor na mais genuína acepção da palavra, ‘to whom the reasons of the head and of the heart are alike familiar’ . Quando foi a hora de seguir em frente, Wolf acreditou em mim, confiando-me a tarefa hercúlea de exercer o papel de editor. A tarefa é hercúlea por culpa dele mesmo, tendo conduzido com tanto brilho, rigor e sensibilidade a editoria e curadoria ao longo dos primeiros anos da revista. É difícil estar à altura da excelência.

Mas como o próprio Wolf costuma dizer, lembrando Isaiah Berlin, we can do only what we can: but that we must do, against difficulties. Só nos resta a tentativa — o resto não é de nossa conta. Buscar sempre a excelência, ainda que inatingível, também faz parte daquelas poucas coisas que valem a pena, afinal.

Agradeço, fundamentalmente e com todo meu entusiasmo, àqueles que colaboraram conosco ao longo desses anos. Se o Estado da Arte é hoje reconhecido por aquilo que se pretende, isso só foi e só é possível porque temos colaboradores cujas palavras colocam o projeto sob sua melhor luz. Se conseguimos manter viva a ideia de um espaço independente e de livre acesso, absolutamente gratuito, é porque há aqueles que, acreditando em nosso propósito, se dispõem a materializar em textos e ensaios nossos princípios mais genuínos. Manter a pluralidade de perspectivas e opiniões e orientações, em fina sintonia com esses princípios mesmos — isto é, sem tomar o pluralismo por relativismo, sem conceder nas coisas essenciais —, é nossa promessa aos leitores.

Nossos leitores verdadeiros, a quem agradeço por último — mas definitivamente sem menos importância. Há, sempre haverá leitores: é essa crença que nos faz seguir em frente e ela não é vazia porque sabemos que eles existem; sabemos que vocês existem. Do contrário, não estaríamos aqui.

Não estaríamos aqui porque as circunstâncias do aqui-e-agora, é certo, nem sempre oferecem motivos para esperança ou otimismo. É por isso, entre outras coisas, que Johan Huizinga tem razão quando diz que “de algo podemos ter certeza: é preciso continuar criando cultura para poder conservá-la.”

Afinal, é certo, “a crise do pensamento pode causar espanto; mas desespero, somente naqueles sem a coragem de aceitar o mundo e a vida em que nos coube existir”.

O aqui-e-agora não é tudo que existe.

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Gilberto Morbach

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J.W.W. Turner, ‘The Fighting Temeraire tugged to her last berth to be broken up’, 1838

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