Editorial: Apresentações e reapresentações

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We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
—T.S. Eliot, ‘Little Gidding’

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'A Calm Sea', Claude-Joseph Vernet

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O Estado da Arte retoma hoje suas atividades com publicações inéditas. Após um período de atividades intermitentes, novos ensaios, artigos, entrevistas e podcasts voltam a circular em nosso site e em todas as nossas redes com a regularidade de sempre.  Não é a única novidade: a partir de agora, assumo as funções de deputy editor, trabalhando em sintonia fina com Eduardo Wolf e Marcelo Consentino. Algumas coisas mudam, é verdade, mas o leitor notará, primeira e fundamentalmente, a semelhança entre aquilo que foi e aquilo que vem a ser. Joseph Brodsky dizia que o sentido da história está não no caráter de sua decoração, mas na essência de suas estruturas. Plus ça change? Bem, às vezes a ideia por trás da mudança de algo é exatamente a de preservar suas estruturas, suas condições de possibilidade e de significado.

Sobre a história, o mesmo Brodsky dizia que existe algo ainda mais poderoso que ela: a luz da consciência, da cultura, da arte, da linguagem, de tudo aquilo a que chamamos “civilização”. Procurar a fonte dessa luz, seguia Brodsky, é a única escolha, a única alternativa fora da qual um indivíduo invariavelmente comete um crime antropológico contra si mesmo. Essa é a escolha do Estado da Arte: construir, descobrir e atribuir sentido à realidade por meio da mais refinada percepção, pelo prisma da sensibilidade e do pluralismo. A escolha é por buscar a fonte dessa luz. Ou melhor, buscar a fonte de não apenas uma luz; de mais de uma luz. A escolha é por articular e abrir espaço a mais de uma voz, mais de um ponto de vista. Em tudo aquilo que publicamos — nas esferas da filosofia, da literatura, da prosa e da poesia, da música, da religião, das ciências sociais e humanísticas, da psicologia, da psicanálise, do cinema, da arte, do direito, do teatro, da economia, da arquitetura, da gastronomia, da moda —, os mais variados ângulos, conceitos e concepções. Tudo isso, evidentemente, só é possível graças à excelência do trabalho dos inúmeros colaboradores que fazem do Estado da Arte aquilo que ele é; escritores, poetas, pesquisadores, acadêmicos, filósofos, tradutores, críticos, das mais variadas áreas e das mais variadas visões. Mas há aí algumas coisas em comum, alguns critérios a partir dos quais podemos visualizar uma unidade naquilo que é plural: o alto nível dos autores, o raro equilíbrio entre a clareza e a profundidade, o cuidado e a atenção de quem se compromete a buscar e dizer a verdade. Nossos colaboradores — que, afinal, constroem este espaço — não apenas demonstram amor pelas ideias e pelo saber desinteressado como procuram, aqui, propagar o conhecimento. De nossa parte, sempre, a promessa de honestidade intelectual e a esperança da recepção de leitores verdadeiros. Rejeitando o dogmatismo, optamos pelo caminho da boa tradição.

O trabalho volta, portanto, com o propósito que sempre teve. Existe um vão que separa os debates acadêmico e público. Não pode ser assim, e é nesse “não pode ser assim” que reside uma de nossas premissas mais fundamentais. Not to mind the gap, but to bridge it. A tarefa é difícil e adquire um caráter quase que hercúleo quando se leva em consideração o elevadíssimo padrão que a iniciativa pioneira, única no país, de Eduardo Wolf e Marcelo Consentino estabeleceu até aqui; talvez se diga até que se trata de uma causa perdida. Mas o fato é que — e talvez por razões outras que não aquelas apresentadas por algumas correntes e tradições filosóficas — há algo de sublime naquilo que transcende os limites de nossa capacidade imediata de elaboração, ordenação e compreensão.

Talvez fracassemos. Não importa. O fracasso pelos princípios que constituem a cultura é preferível ao sucesso que anda na linha de tudo aquilo que a degrada. Talvez a causa seja mesmo perdida. Penso até que este é o caso. Daí por que, encerrando meu primeiro editorial, faço exatamente aquilo que me proponho a fazer: volto ao começo e recorro a Eliot, com quem abri estas linhas. Eliot dizia que não existe uma causa ganha. “Lutamos por causas perdidas porque sabemos que nossa derrota e nosso fracasso pode ser o prefácio da vitória de nossos sucessores.” Não lutamos com a expectativa de que algo triunfe; lutamos, em vez disso, para manter algo vivo. O fim desta nova exploração é revelar que ela não é nova, e que ela chega exatamente ao lugar onde tudo começou. Meu fim aqui será o começo.

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Gilberto Morbach