Outras Grécias

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Outras Grécias

Elegia Grega: Uma Antologia, de Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara

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(Arquíloco)

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por Tadeu Andrade

Hoje, quando se fala de literatura grega antiga, não é difícil imaginar as primeiras associações: Homero, Hesíodo, a tragédia ateniense e, caso queiramos incluir os filósofos, os escritos de Platão e Aristóteles. Não há muito que procurar as razões: são evidentes. Os próprios gregos e romanos deram a estes autores lugar de destaque em seus cânones literários e filosóficos, o que se reflete nos corpora, certamente entre os mais bem preservados da Antiguidade. Ainda que por motivos diversos, a recepção posterior, medieval e das diferentes fases da modernidade, acabou herdando essas preferências. Também não se pode dizer que esses autores e gêneros não são representativos. Além de relativamente extensos, seus escritos tratam de inúmeros temas, cobrindo diferentes áreas da vida grega antiga: a cidade e a política, a guerra, a paz, a condição humana, a natureza dos deuses e o próprio ser. Alguém que tenha lido Homero, Hesíodo, as tragédias restantes e todas as obras de Platão e Aristóteles certamente terá um acesso privilegiado a muito do mundo grego antigo. Mas não a todo ele.

Platão e Aristóteles testemunham muito dos tempos em que viviam, mas os julgam e analisam de acordo com suas próprias noções filosóficas. Em muitas passagens, é possível ver o quanto esses autores rejeitam pensamentos correntes naquela sociedade, como, por exemplo, as convicções acerca da poesia, dos deuses e da alma. As tragédias, por sua vez, por mais que contenham muitíssimas tramas de variados personagens, têm seus limites. Por mais ambiciosos que os tragediógrafos fossem, por mais que constantemente desafiassem os limites de sua linguagem, a tragédia era um gênero poético convencional. Certos tipos de temas, classes sociais e usos da língua permanecem inacessíveis ao gênero. O mesmo se pode dizer de Homero e Hesíodo, cujos poemas quase enciclopédicos ainda são regidos pelas leis da epopeia. Os gregos antigos não tinham nada semelhante às ambições do moderno romance, com (para usar a expressão consagrada do filósofo e escritor alemão Friedrich Schlegel) a “poesia universal progressiva”, um macrogênero que se apropria de todos os demais, buscando abarcar todos os recônditos da vida. O mundo da poesia grega era compartimentado, com diferentes gêneros se dedicando a diferentes aspectos do mundo. Decerto, havia constantes diálogos e misturas entre essas formas literárias, mas as fronteiras permaneciam. Desta forma, uma verdadeira incursão ao universo grego antigo exige uma visita aos inúmeros gêneros que existiam ao lado da tragédia, a epopeia, o diálogo e o tratado: os hinos épicos, a lírica, a narrativa historiográfica, os escritos médicos, a oratória política e judicial, a comédia em suas diversas fases.

Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia, lançado em fins de 2021 pela Ateliê Editorial e pela Editora Mnēma, vem ajudar quem deseja conhecer mais profundamente as faces da cultura e da poesia grega antiga. Os poemas foram organizados, traduzidos e comentados pelos professores de língua e literatura gregas Giuliana Ragusa (FFLCH-USP) e Rafael Brunhara (IL-UFRGS). É resultado das investigações acadêmicas dos autores, que há muitos anos têm se dedicado à poesia grega arcaica, em especial do que hoje chamamos “lírica”. Embora o nome derive do grego (luriké, “poesia que se canta ao som da lira), o conceito é moderno, abrangendo diferentes gêneros antigos, que têm em comum as tendências à brevidade, ao emprego da primeira pessoa e ao ancoramento no presente. Os gêneros, que não se confundiam na Antiguidade, eram três: a mélica (composta para o canto com acompanhamento musical), o iambo (versos de numerosos temas, mas particularmente associados ao escárnio e à obscenidade) e, enfim, a elegia, objeto da coleção.

A elegia era um gênero poético bastante difundido na Antiguidade, remontando ao séc. VII, época em que já encontramos compositores de muitas partes do mundo grego, do Peloponeso à Ásia Menor, passando pelo arquipélago cicládico. Todavia, apresenta grandes dificuldades para os modernos. Primeiramente, como é habitual em outros gêneros antigos, a elegia grega restou principalmente na forma de fragmentos, em citações de outros autores ou em danificados papiros encontrados em escavações arqueológicas. Há apenas uma obra elegíaca preservada por uma tradição de manuscritos, a Teognideia, composições atribuídas a Teógnis de Mégara, conhecido por seus versos sapienciais e eróticos. Em segundo lugar, os poucos resquícios não mostram qualquer unidade temática, abrangendo muitíssimas esferas da vida, como o vinho, o desejo, a política, a fundação de cidades, conflitos militares, a condição humana, a memória coletiva, a religião etc. Em terceiro, o lamento fúnebre, associado ao gênero desde a Antiguidade, é pouquíssimo atestado no corpus restante. Os elementos unificadores desta produção heterogênea parecem dois. O primeiro, inequívoco, é o ritmo, pois toda elegia é composta em dísticos elegíacos, pares de versos desiguais que combinam o metro típico da epopeia (o hexâmetro dactílico) com uma variação mais breve (o pentâmetro dactílico). O outro, provável, é a performance. Como o restante da poesia grega arcaica e clássica, a elegia é um gênero oral, composto para recitações. A julgar pelos testemunhos antigos, em seus primeiros estágios, apresentavam-se as elegias ao som do aulo, um instrumento de sopro de palheta, grave. Palco da performance era sobretudo o simpósio, reunião de homens aristocratas em que se bebia o vinho, conquanto alguns poemas pudessem ser apresentados em festivais cívico-religiosos de maior escala.

Ragusa e Brunhara traduzem e comentam porção essencial deste corpus. Como diz o título, o livro é uma antologia, reunindo fragmentos representativos de dez poetas elegíacos do período arcaico (sécs. VII-VI a.C.) e início do clássico (séc. V a.C.): Calino de Éfeso, Tirteu de Esparta, Arquíloco de Paros, Mimnermo de Esmirna, Sólon de Atenas, Teógnis de Mégara, Anacreonte de Teos, Xenófanes de Colofão, Simônides de Ceos e Ásio de Samos. O recorte é justificado. Por um lado, é no período arcaico que se estabelece o primeiro cânone do gênero, ao qual se referem os autores gregos e latinos das eras posteriores. Por outro, esses poetas elegíacos partilham de poética, arcabouço e condições de performance semelhantes. No decorrer das eras clássica e helenística (sécs. IV-I a.C.), o gênero passará por profundas alterações, não se ligando mais tão estreitamente à oralidade e à performance. A elegia torna-se erudita e letrada, tendo seu principal representante em Calímaco de Cirene (sécs. IV-III a.C.), poeta associado à Biblioteca de Alexandria.

Elegia Grega abre-se com introdução geral sucinta, mas densa e informativa. Comenta-se a complexa definição do gênero, passando por seus diversos nomes e pelos sentidos que eles atingiram na Antiguidade e além. Segue a antologia, dividida pelos autores, organizados em ordem cronológica. A cada um dedica-se um texto introdutório, que reúne dados pertinentes à biografia, à obra e à recepção do autor entre os antigos e os modernos. Seguem os fragmentos traduzidos, precedidos do original grego e acompanhados de detalhados comentários. Fecham o livro as referências bibliográficas empregadas, numerosas e atualizadas, e um índice onomástico, que contempla sobretudo o leitor menos familiarizado com a tradição greco-latina.

O texto grego baseia-se em edições de autoridade. A principal referência é Iambi et Elegi Graeci (1971), do helenista britânico Martin West, que reúne os fragmentos da elegia e do iambo arcaicos e clássicos. No entanto, os autores não se furtam a incluir leituras de outros estudiosos quando as consideram mais adequadas, informando as alterações devidamente em nota de rodapé. Adicionaram também importantes achados posteriores à primeira edição de Iambi et Elegi Graeci, alguns dos quais redefiniram a própria compreensão do gênero. Alguns são os novos fragmentos de Simônides, descobertos em 1992 (e incorporados por West na segunda edição de seu livro), entre os quais está um poema sobre a Batalha de Plateia (479 a.C.), contemporânea ao poeta, que selou a vitória grega durante a Segunda Invasão Persa. Outro, encontrado em 2004, é um poema mitológico de Arquíloco, que narra um episódio dos inícios da Guerra de Troia. A presença do texto grego é especialmente valiosa, tornando o volume prático para o manuseio de estudantes e professores de poesia antiga. A triangulação entre texto, tradução e comentário mostra-se bastante proveitosa.

Quanto à tradução, a preocupação principal é, na palavra dos próprios autores, manter “a relevância e a sequência das imagens semanticamente importantes nas composições”. Tanto quanto possível, buscam-se encontrar em português equivalentes para os termos e as expressões do texto de partida, evitando-se paráfrases, supressões e adições que alterem muito o campo simbólico e valorativo dos poemas. A escolha é particularmente significativa por tratar-se de fragmentos em que a ausência ou a adição de uma mera palavra pode alterar ou enviesar a interpretação de todo o texto. Contudo, como em qualquer tradução, adaptações são inevitáveis e necessárias para que o texto continue legível num sistema linguístico diferente do original. Frequentemente, quando foi necessário o desvio ou uma tomada de posição num trecho em que o grego é ambíguo, os tradutores o indicam no comentário ou nas notas de rodapé.

A versão não é métrica, isto é, não tenta reproduzir o ritmo dos poemas gregos ou encontrar-lhe substituto vernáculo. Ainda que assim se perca uma dimensão importante do original (afinal, como dito acima, a definição da elegia é sobretudo métrica), a escolha colabora com a proposta tradutória, permitindo construir em português formulações bastante semelhantes às gregas, sem necessidade de cortes e adições para conformar as palavras ao ritmo. Todavia, ainda que não sigam nenhum padrão rítmico, os autores respeitam as unidades métricas, não traduzindo os poemas em prosa, mas segmentando-os em versos livres, correspondentes aos originais em número e organização. Também se ressalta visualmente a estrutura dos dísticos, com o recuo gráfico do segundo verso. A solução, já tradicional em traduções das elegias greco-latinas, preserva elemento importante, pois tanto verso como dístico são bases sonoras sobre as quais os elegíacos organizam suas sentenças e pensamentos. Na ausência do metro, a organização visual imprime um ritmo à leitura, recuperando algo do suporte sonoro original. Ragusa e Brunhara  buscam organizar as palavras pelos versos de acordo com a estrutura do texto de partida, embora também aqui a correspondência plena seja impossível. Visto que a ordem das palavras grega é muito mais livre que a portuguesa, mantê-la totalmente tornaria os versos ilegíveis. Os tradutores conseguem encontrar um bom meio termo entre clareza e semelhança estrutural com o grego.  Enfim, buscam-se preservar outros traços de estilo para além do metro, como as figuras de linguagem e jogos semânticos e sonoros.

O livro destaca-se, contudo, pelos comentários. Embora, em alguma medida, sejam sempre bem-vindos em qualquer tipo de obra, nos gêneros gregos antigos de preservação fragmentária eles são praticamente indispensáveis. Em alguns casos, sequer dispomos de versos completos, e as poucas palavras restantes são incompreensíveis para um leitor não especializado. Ali, os autores mostram que, localizados em sua tradição, às vezes dois versos isolados revelam interessantes ecos. O fragmento 4 de Calino, por exemplo, é incompreensível sem anotações:

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… guiando guerreiros de Treres…

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O comentário confronta o fragmento com uma observação do geógrafo Estrabão (sécs. I a.C.- I d.C.) sobre os nomeados combatentes, indicando que são um dos grupos invasores que, no século VII a.C., assolaram a Ásia Menor que o poeta habitava. Trata-se de indício, portanto, de que Calino teria composto poemas narrativos sobre conflitos militares da história recente.

Os versos 211-212 da Teognideia, parecem apenas aconselhar como beber:

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Sim, beber muito vinho é um mal! Mas se alguém

…..bebe com saber, não é mau, mas bom.

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As observações dos tradutores, entretanto, revelam ali a manifestação de um ideal ético de moderação, de importante dimensão sociopolítica para a aristocracia que frequentava os simpósios. Também não deixam de indicar que a postura não era hegemônica entre os poetas gregos, havendo espaço para o excesso em seus cantos.

Outro exemplo é o fragmento 26 de Sólon:

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Mas agora me são caras as obras da Ciprogênia e de Dioniso

…..e das Musas, que trazem alegria aos homens …

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O leitor pode saber que a Ciprogênia (“nascida em Chipre”) é Afrodite e que o poeta se refere aos prazeres associados às divindades mencionadas. Porém, as anotações lhe informam que aqui se resumem elementos fundamentais do simpósio: o erotismo, o vinho e a poesia. O poeta encerra num exíguo dístico todo o universo de performance da elegia.

Mesmo nos casos em que sobraram poemas mais longos, por não possuirmos numerosas composições do gênero, é muito difícil localizar o fragmento na tradição e delinear os possíveis significados que ele atingia na sua audiência original. Nesses casos, embora a simples leitura já nos diga algo, os estudiosos nos oferecem mais camadas. Observe-se outro exemplo, o fragmento 14 de Mimnermo:

Não eram o ardor daquele homem e o ânimo viril

…..tais como ouvi falar dos meus ancestrais que o viram

romper dos cavaleiros lídios as cerradas fileiras

…..pela planície do Hermo, homem porta-lança.

Dele nunca de todo reprovou Palas Atena

…..o pungente ardor no peito, enquanto à vanguarda

ele avançava no combate da sangrenta guerra,

…..repelindo afiados dardos de adversários;

pois nunca os inimigos eram melhores do que ele

…..para cumprir a tarefa da violenta luta,

quando ele se lançava aos raios do rápido sol.

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É evidente que o poema trata de uma batalha e elogia um guerreiro, destacado por seu valor e habilidade bélica. No entanto, só o comentário pode nos dizer não somente como os eventos mencionados se relacionam com a obra de Mimnermo e sua cidade nativa, mas também como ali há muitos ecos da tradição épica, com notáveis paralelos nas epopeias homéricas.

Dessa maneira, os autores estabelecem relações numerosas entre os fragmentos e o restante da cultura grega: os valores políticos, as noções sobre o humano e divino, as concepções sobre o desejo, a beleza, a velhice, a glória etc.  Revela-se o grande interesse da elegia arcaica e sua vasta variedade temática. O comentário aos poemas, consequentemente, leva o leitor até os mais diversos aspectos da cultura e do pensamento grego arcaico. Além disso, como normalmente essas ideias distam profundamente dos valores ocidentais modernos, as análises e observações são particularmente informativas, evitando equívocos de uma leitura ingênua e anacrônica. Fica evidente que, apesar dos ecos familiares, o entendimento que os gregos arcaicos poderiam ter de um poema é bastante diverso do que esperaríamos.

Por fim, como os fragmentos, por sua própria condição, raramente são entendidos de forma unívoca pelos estudiosos, os tradutores contrastam múltiplos entendimentos modernos, mostrando o quanto a cultura e a poesia da Grécia arcaica se esquivam a leituras definitivas, abrindo espaço para olhares bastante diferentes. Interessados em história das ideias, das mentalidades e da filosofia certamente encontrarão nas análises rico material.

Em suma, Elegia Grega é uma bem-vinda contribuição para os estudos clássicos brasileiros. Soma-se às traduções da literatura greco-latina, cujo número e variedade seguem crescendo, apesar do contexto desfavorável e os cortes orçamentários que a pesquisa acadêmica sofre no país. Primeira antologia em língua portuguesa inteiramente consagrada ao gênero, o livro complementa os trabalhos publicados previamente pelos autores. Por um lado, expande o trabalho de Rafael Brunhara publicado em As Elegias de Tirteu (Humanitas, 2014), com tradução e comentário detido dos fragmentos do poeta espartano. Por outro, tem em Lira Grega de Giuliana Ragusa (Hedra, 2013) um irmão mais velho, dedicado aos resquícios de outro dos gêneros “líricos” da Grécia arcaica, a mélica. Espero que, em breve, os autores possam compor uma terceira antologia, dedicada ao iambo, que ainda não conta com qualquer coleção semelhante no país. De todo modo, por enquanto, os leitores de Elegia Grega estão bem munidos, com esta bela tradução de um dos mais variados corpora da literatura grega. Com ela, para além da imagem cristalizada no imaginário moderno sobre os antigos, poderão visitar outras Grécias, tão numerosas quanto instigantes.

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(Reprodução)

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Tadeu Andrade

Tadeu Andrade é Professor de Língua e Literatura Gregas na Universidade Federal da Bahia (UFBA).