Falando de Música: Uma conversa com Anders Beyer

O Festival Internacional de Bergen (Festspillene i Bergen) é um evento internacional de música e cultura em Bergen, na Noruega. É produzido anualmente desde 1953, e tem por modelo o Festival de Salzburgo (fundado em 1920). Realizado durante catorze dias, do final de maio ao início de junho, espalha-se entre vários espaços como o Grieg Hall, o Haakon’s Hall, Troldhaugen, Lysøen, Siljustøl, além de ruas e praças da cidade de Bergen (no mesmo período, acontece o Festival Internacional de Jazz, Nattjazz). Trata-se do maior festival do gênero nos países nórdicos.

Em 2020, foi uma das primeira programações culturais de verão a enfrentar a atual crise mundial. Frente aos desafios de um cancelamento, seu Diretor Artístico e CEO, Anders Beyer, tomou a decisão de reorganizar toda a programação, e adaptar todo projeto para o mundo digital. Ao final, foram 57 eventos ao vivo, sem público e pensados diretamente para as câmeras. Reuniram alguns dos maiores artistas locais em performances de diversas naturezas, além de conferências e mesas redondas.

Formado em música e filosofia pela Universidade de Copenhague, Beyer ingressou no Festival Internacional de Bergen em 2012, após quatro anos como Diretor Artístico e Diretor Executivo do Festival de Ópera de Copenhague. Antes disso, o diretor dinamarquês também foi CEO e diretor artístico do grupo de música contemporânea Athelas Sinfonietta Copenhagen e do Athelas New Music Festival.

Para o Estado da Arte, uma conversa do Maestro Leandro Oliveira com Anders Beyer.

(Crédito: Anders Beyers | Foto: Hans Jørgen Brun)

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Maio passado, o Festival Internacional de Bergen transmitiu todas suas atividades. Podemos imaginar não se tratar de uma decisão fácil… Você poderia contar um pouco dos desafios envolvidos no processo de digitalizar seus eventos?

Talvez, a decisão mais difícil teria sido a de cancelar o Festival como um todo. Felizmente, não o fizemos. A partir do momento que ficou claro não ser possível apresentar a programação original da edição de 2020, trabalhamos realmente duro para reunir um festival alternativo online. Com as restrições de viagens internacionais, a ênfase passou a ser nossos excelentes artistas noruegueses. Temos muita sorte de encontrar tantos talentosos músicos no pais.

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Certamente, foi uma experiência diferente para os músicos, apresentando-se sem o público, e a uma audiência — na verdade, usuários da internet e telespectadores pela televisão. Quais têm sido as respostas?

As respostas foram ótimas, comoventes, por vezes. Todos nossos assinantes sentem falta da sala de concertos e do teatro, claro, mas nós temos tido comentários entusiasmados de telespectadores de muitas partes do mundo e encontramos uma audiência muito mais ampla e global, este ano. Vários disseram ter cultivado a ideia do Festival por muito tempo, mas se viam incapazes seja por questões de saúde, seja por questões financeiras. Este ano, o festival veio a suas casas. A crítica de modo geral também foi muito positiva, e somos todos muito gratos por aqueles que escolheram algumas de suas horas de artes e música conosco.

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É impossível não pensar que a digitalização do Festival tenha trazido experiências positivas e negativas. Vocês já são capazes de refletir sobre elas, e avaliá-las?

Embora tenhamos trabalhado com a transmissão de eventos em anos anteriores, nunca havíamos feito nada nesta escala. Tivemos uma curva acentuada de aprendizado e fizemos algumas descobertas ao longo do caminho. Criar eventos com foco em transmissões é muito diferente de produzir com a presença de uma audiência, ao vivo. O festival contou com uma equipe muito experiente e dedicada e, em muito pouco tempo, meus colegas chegaram a um resultado impressionantes, transformando o festival em um projeto digital. Formamos um time para as atividades online e contratamos forças criativas externas para trabalhar conjuntamente com nossa equipe, montando um grupo de trabalho forte. Claro, podemos sempre melhorar e refinar nosso produto final. No próximo ano, vamos desenvolver o festival ainda mais, oferecendo produções ao vivo, esperamos, com plateias, e trabalharemos pensando numa programação digital substanciosa, criando novos produtos nascidos e desenvolvidos para o formato digital.

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(Avslutningskonsert m/Oslo-Filharmonien & Leif Ove Andsnes. Foto: Bård Gundersen)

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A ênfase nos artistas nacionais é uma maneira eficiente de praticar a agenda “pense globalmente, aja localmente”. Em um mundo reconfigurado, você acha que poderia ser uma boa estratégia para outros festivais internacionais de música clássica também?

Eu acho isso interessante, como elemento inspirador. Os melhores festivais geralmente pensam em grandes nomes e convidam artistas caros que viajam pelo mundo como estrelas. Você pode encontrar esses artistas em todas as grandes cidades e festivais internacionais. Embora eu ame e respeite muito esses artistas, eles não contribuem para a singularidade do festival, e raramente fazem parte do DNA do evento.

A recepção da música escandinava no exterior tem sido, há muitos anos, baseada na natureza estereotipada de uma seleção aleatória, obtida esporadicamente a partir das relações de mercado em suas campanhas de divulgação. Você provavelmente já ouviu alguns poucos nomes, como Grieg (Noruega), Nielsen (Dinamarca) e Sibelius (Finlândia). É possível que as instituições musicais dos países nórdicos estejam profundamente enraizadas nos critérios convencionais da Europa Central. Diz-se que tentamos competir nos termos dos outros, na luta por obras famosas, compositores famosos, orquestras, valores e nomes.

Mas o grande especialista francês do mundo nórdico, Jean-François Battail, enfatiza repetidamente que o Norte nunca triunfará no mundo mais amplo simplesmente fazendo conhecer seus “grandes nomes” — aqueles a partir dos quais, pacificamente, somos percebidos no exterior. Não, o que há de fascinar o mundo em geral é a nossa cultura cotidiana, a que não encontra paralelos em outros lugares. Battail cita todos os fatores que compõem o folkelighet, um conceito que desafia uma tradução precisa, mas significa algo como caráter popular, a Cultura no seu sentido mais amplo. Ele menciona os folkeuddannelse (“educação comunitária”), os movimentos populares, a literatura operária, cultura camponesa, o humanismo de base. E a natureza notavelmente difusa do conceito de cultura nos países nórdicos. Se aplicarmos isso ao mundo da música, a coisa mais interessante a ser comercializada no exterior seria, em primeira instância, nossas atividades em sociedades e clubes, o movimento da música amadora, músicos de grupos tradicionais, música coral e ensino de música pelas pequenas instituições locais: tudo isso, no lugar do clássico, o elenco do cânone internacional.

[Na Noruega], o movimento Folk High School traz um programa de educação continuada, e há muitos outros movimentos espontâneos conhecidos, como por exemplo, o Movimento Trabalhista, o Movimento da Temperança, o Movimento da Igreja Livre: todos eles se combinam na geração de uma consciência dos valores democráticos fundamentais. O conceito nórdico de justiça está diretamente associado a referências próprias muito antigas, honra e integridade pessoal como base para a liberdade e a inviolabilidade. É essa visão de humanidade que fez com que os países nórdicos emergissem como os “bons moços”, aqueles cujos valores em muitas áreas podem liderar o caminho para o resto da Europa.

Deixe-me dar um exemplo de “pense globalmente, aja localmente”. Alguns anos atrás, criamos para o Festival, o projeto Nordvegen – um projeto que diz ao público de frequentadores algo sobre a região em torno da cidade de Bergen e da costa oeste. O projeto lida com a tradição e dialoga com o tempo presente.

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Enfim, quando viajo para o Brasil, ouvir a alemã Anne-Sophie Mutter tocando Beethoven com uma orquestra sinfônica não é minha primeira prioridade. Quero experimentar algo único no país e nas condições de vida das pessoas que encontro. Quero obter informações sobre o processo criativo e sobre assuntos importantes na vida das pessoas.

No futuro, provavelmente não poderemos viajar tanto quanto antes. Essa situação dá suporte à idéia de pensar globalmente e agir localmente. Já enfrentamos a necessidade de um reajuste social colossal se não quisermos deixar nossos filhos com um planeta que foi privado de seus recursos naturais, devastado por guerras violentas e cheio de seres humanos exaustos. E agora, além disso, também enfrentamos uma pandemia que torna o reajuste ainda mais massivo. No entanto, o objetivo ainda deve ser o de evitar sermos reduzido como seres humanos a colunas e números em uma planilha que nunca será capaz de explicar o que realmente torna a vida digna de ser vivida. Beleza. Solidariedade. Amor.

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Voltando para a edição histórica de 2020: como foi a relação entre os músicos no palco e a equipe criativa de transmissão? Encontraram alguma dificuldade especial?

Não que tenha chegado a mim. Alguns dos artistas falaram da situação especial de tocar para câmeras no lugar da plateia. Foi uma transformação mental que nos permitiu algumas reflexões e ajustes em relação a práticas prévias. Eu não acredito que tenha havido tensão entre estes dois grupos de artistas: ao contrário, eu notei que todos envolvidos estavam super felizes simplesmente por poder trabalhar e agradecidos em estar ativos e artisticamente produtivos, enviando aqueles eventos para tantos fãs e entusiastas de arte em todo mundo.

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Coleções digitais e seus produtos são provavelmente, para música clássica, um dos mais benéficos efeitos colaterais da atual crise sanitária. O reconhecimento pelo poder galvanizado dos eventos presenciais, outro. Diante desse jogo de forças aparentemente contraditório, você acha que transmissões audiovisuais e outras estratégias digitais vieram para ficar no mundo da música clássica?

A resposta é sim. Agora, enquanto percebemos gradualmente que os efeitos da crise deve se estender por anos, há razões para pensar profundamente sobre como a vida cultura pode não apenas sobreviver mas prosperar em essa nova realidade. Uma realidade que podemos imaginar de um modo ou de outro transformada, mesmo quando a crise estiver oficialmente terminada, pois em níveis globais a humanidade parece ter sido tão agredida e ficado tão alarmada que nossos comportamentos coletivos certamente mudarão por toda uma geração. Falar sobre a volta dos “bons e velhos dias” é provavelmente um sonho que não vai se tornar realidade. E por que devemos achar que os bons e velhos dias foram melhores do que os caminhos futuros de consumo de cultura? Nós temos, como seres humanos, um medo inerente do desconhecido. Todas revoluções foram feitas pela soma das coragens individuais de agir. Agora é tempo de agir, e abraçar as novas possibilidades.

(Crédito: Anders Beyers | Foto: Hans Jørgen Brun)

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Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto "Falando de Música" da Osesp.