A física fora do eixo: o CPF da URGS

por Carlos Alberto dos Santos

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Não faz muito tempo, qualquer manifestação cultural de grande impacto no Brasil se concentrava no eixo Rio-São Paulo. No caso da física, só em meados dos anos 1970, com o advento do Programa Institucional de Capacitação Docente (PICD), administrado pela CAPES, é que iniciativas institucionais começaram a se espalhar pelo país. A história da pesquisa em física anterior aos anos 1970, parece concentrar-se no eixo Rio-SP. Veremos neste ensaio que não é bem assim. Já no início dos anos 1950, se estabelecia em Porto Alegre o Centro de Pesquisas Físicas.[1] instalado na então Universidade do Rio Grande do Sul (URGS). O CPF teve vida curta; foi criado em 1953 e extinto em 1959, para dar lugar ao Instituto de Física, mas nos seus seis anos de existência pavimentou com muita competência o caminho para a história da física experimental no RS.[2]

Como em todas as universidades brasileiras, os cursos de formação de biólogos, físicos e químicos na URGS, até o final dos anos 1960, se davam nas faculdades de filosofia. Embora as faculdades de filosofia concedessem títulos de bacharel e licenciado, um destinado em princípio à pesquisa, e o outro à docência, não havia no Brasil grande perspectiva de aproveitamento de bacharéis em pesquisa científica. Até os anos 1940, as iniciativas de pesquisa em física no Brasil restringiam-se essencialmente à USP, e em menor escala à UFRJ (até 1965, a UFRJ denominava-se Universidade do Brasil).[3]-[7] No início dos anos 1950, a UFRGS resolveu fugir dessa norma. Era um período de inflexão na história da pesquisa científica no país. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) havia sido criada em 1948; um ano depois era a vez da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF); o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e a Coordenação Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) foram criados em 1951, e no ano seguinte foi a vez do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA); a Sociedade Brasileira de Genética foi criada em 1955; no ano seguinte foi criada a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); em 1957 a Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis), e no ano seguinte a mais icônica do ponto de vista administrativo, mas que teve vida curta: Comissão Supervisora do Plano dos Institutos (COSUPI). Como veremos na sequência, foi a criação da COSUPI que facilitou o surgimento do Instituto de Física da UFRGS, mas foram os seis anos do CPF que formataram o DNA da física experimental no RS.

Essa história exemplar é quase desconhecida pela comunidade científica nacional. Talvez isso se deva, em parte, a uma idiossincrasia cultural. Em sua maioria descendentes de imigrantes europeus, aqueles que participaram do processo de criação do CPF e do IF, deram prioridade à busca de colaboração no exterior, provavelmente, mesmo inconscientemente, para “escapar das influências do eixo”. Em uma das avaliações da FINEP, nos anos 1980, um avaliador externou seu sentimento, segundo o qual o IF era muito endógeno em relação ao Brasil, com mais interação com o exterior do que com centros de pesquisas nacionais. Naquela época isso já estava mudando, mas o sentimento do avaliador faz sentido se considerarmos o período que vai até os anos 1970.

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Nasce o Centro de Pesquisas Físicas em Porto Alegre

Em 1951, o primeiro licenciado em física na UFRGS, Antônio Estevam Pinheiro Cabral, foi fazer um estágio com César Lattes no CBPF. A ideia era concluir o doutorado em física na Faculdade Nacional de Filosofia, mas o projeto foi interrompido no final daquele ano, quando Cabral foi convidado para assumir a cátedra de mecânica racional, celeste e física matemática da Faculdade de Filosofia da URGS. Condicionou a aceitação do convite à criação de um centro de pesquisas nos moldes do CBPF. Foi assim que em 3 de setembro de 1953 nasceu o CPF-URGS. Não há erro de digitação na sigla. Embora federalizada em 1950, a URGS só adotou a denominação Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no final dos anos 1960.

De fato, a criação do CPF começou em 1952, quando o reitor nomeou uma comissão de quatro professores, Cabral entre eles, e tendo como secretário o então estudante de física Darcy Dillenburg, que viria a ter participação importante na comunidade científica nacional, ocupando importantes cargos, de diretor do IF e pró-reitor da UFRGS, até diretor de avaliação da CAPES. O plano de trabalho elaborado pela comissão, que seria rigorosamente seguido pelos gestores do CPF, traçava o cenário da pesquisa em física no Brasil naquele início dos anos 1950, e o desejo da UFRGS de se inserir naquele contexto científico de vanguarda, por meio da “promoção de pesquisas no setor da física moderna”. O documento faz referência unicamente às iniciativas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Era o eixo mencionado no título deste ensaio, sempre presente no imaginário de todos. Não por acaso, a comissão destaca o laboratório de raios cósmicos em Chacaltaya (Bolívia), o projeto de construção do sincrocíclotron no Rio de Janeiro, o betatron e o gerador de Van der Graaf em São Paulo. Eram projetos de física nuclear experimental que estavam no horizonte da comissão, diga-se, no horizonte de Antônio Cabral. Para além desse horizonte estritamente científico, a comissão vislumbrava algo que se tornou realidade ao longo de toda a história do CPF e do IF: a possibilidade de contribuir em futuro próximo com uma parcela de físicos, técnicos e pesquisadores, para os grandes empreendimentos em perspectiva no país. De fato, das bancadas do laboratório de eletrônica do CPF e da oficina que o sucedeu no IF, partiram alguns engenheiros para a criação da Edisa, a fábrica de computadores que originou o pólo de informática do RS. Outros partiram para a criação do Curso de Pós-Graduação em Ciência da Computação, a semente do Instituto de Informática da UFRGS. Inúmeros estagiários de engenharia no CPF e no IF montaram pequenas fábricas de produtos eletro-eletrônicos. Também são incontáveis os bacharéis em Física que foram trabalhar na indústria.

Portanto, quando foi instalado, o CPF não apenas incorporou a estrutura administrativa do CBPF, como também sua linha de pesquisa: física nuclear experimental, que no CBPF era liderada por César Lattes. Como disse acima, esse era o assunto predominante na época.[7] Então, parece natural que o CPF, além de um Conselho Deliberativo (CD) e de um Conselho Técnico Científico (CTC) tenha sido idealizado com as seguintes divisões: eletrônica, matemática, radioquímica, ensino, emulsões nucleares e microscopia, física teórica e alto vácuo. Essa estrutura mimetiza aquela existente no CBPF, mas não pôde ser mantida no CPF, pela falta de pessoal qualificado em física teórica e em alto vácuo. Logo depois da criação do CPF, seu diretor científico, Antônio Cabral, viajou ao Rio de Janeiro para convencer Helmut Schwarz a deixar o CBPF e instalar a divisão de alto vácuo no CPF. O engenheiro Helmut Schwarz, especialista em alto vácuo contratado com financiamento da Unesco, era o chefe da divisão de alto vácuo do CBPF. O ambiente no CBPF não estava bom, como bem sabia Cabral, mas Schwarz não aceitou convite para trabalhar no CPF. Meses depois ele se transferiria para o Centro Técnico da Aeronáutica.[8] Com a negativa de Schwarz, a divisão de alto vácuo do CPF não saiu do papel, e suas atividades foram incorporadas à divisão de eletrônica. Com relação à divisão de física teórica, a situação foi um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, Gerhard Jacob e Darcy Dillenburg, que alguns anos depois começariam a realizar pesquisas nessa área, com grande sucesso, eram recém-graduados, razão pela qual não podiam coordenar a instalação da divisão de física teórica. Em segundo lugar, a física teórica não estava no radar de Antônio Cabral. Era a física experimental de Cesar Lattes que Cabral pretendia implementar em Porto Alegre. Nas atas do CD há indicação de que o CPF estava em busca de um físico teórico experiente para organizar essa divisão, mas depois não há indicação das tentativas. A divisão de física teórica só voltaria à tona em 1958, depois que Darcy e Gerhard fizeram uma especialização na USP, e a busca por um físico experiente para coordenar essa divisão só ocorreria em 1959, com a criação do IF, como veremos mais adiante.

Ao contrário de Schwarz, Gerhard Hepp, engenheiro eletrônico da Philips, especialista em dispositivos de alta voltagem para monitores portáteis, igualmente insatisfeito com o ambiente no CBPF, aceitou de pronto ir para Porto Alegre.

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Um engenheiro da Philips em Porto Alegre

Tão logo chegou a Porto Alegre, Hepp foi objeto de matéria no jornal Folha da Tarde, em 18/3/1954. Na matéria consta que: (1) Hepp chegara ao Brasil em 1951 para realizar uma missão da Unesco junto ao CBPF; (2) Durante a entrevista ele estava acompanhado do engenheiro Paulo Pedro Petry, que acabara de instalar os primeiros transmissores da Rádio da Universidade; (3) O CPF estava oferecendo um curso de especialização e extensão universitária, em assuntos pertinentes à sua atuação acadêmica.

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Excerto da matéria publicada no jornal Folha da Tarde, em 18 de março de 1954, sobre a chegada de
Gerard Hepp. A partir da esquerda: Paulo Pedro Petry, Gerard Hepp e o repórter. (Acervo do IF-UFRGS)

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Portanto, a matéria da Folha da Tarde dá indícios do sucesso que seria alcançado pela divisão de eletrônica, com um jovem e competente engenheiro local (Petry) e um experiente engenheiro oriundo de um grande fabricante de produtos eletrônicos (Hepp) à frente do projeto. Como veremos mais adiante, Hepp voltou para a Holanda no início dos anos 1960, mas Petry, aposentado em 1990, continua indo quase diariamente ao IF, com seus 96 anos de idade e sua indefectível gravata borboleta. Fez seu concurso de cátedra em 1958, e desde então formou uma legião de engenheiros e técnicos especializados em instrumentação para a pesquisa em física experimental.

Sob o espírito empreendedor de Hepp e a competência de Petry, o que se costuma denominar de instrumentação para a pesquisa foi preparada no CPF e muito bem aproveitada pelo IF, quando o sucedeu, em 1959. Além da instrumentação eletrônica, o CPF fez avanços consideráveis em mecânica fina, com a contratação de Joel Bellanca, um artesão de primeiríssima qualidade, que serviu de exemplo e mentor para uma plêiade de técnicos, começando pelo seu irmão Eri Bellanca, que nos anos 1960 construíram inúmeros equipamentos de pesquisa. Também foi muito importante para as primeiras pesquisas experimentais no IF, a expertise adquirida no tratamento de materiais radioativos pelo pessoal da divisão de radioquímica.

Na comemoração do primeiro aniversário do CPF, em 3 de setembro de 1954, menos de seis meses após a chegada de Hepp, o Centro exibiu equipamentos em avançado estágio de construção na DE. Digno de nota é o microscópio óptico com imagem projetada em um cinescópio. Eles o denominaram telemicroscópio. O equipamento funcionava como um circuito fechado de TV. Não há registro escrito, mas em depoimento que colhi de Gerhard Jacob, ele foi testado em exames oftalmológicos. Duas fotografias ilustram o andamento dos trabalhos. Na fotografia (A), durante a visita do Reitor por ocasião do primeiro aniversário do CPF, observa-se a parte do equipamento correspondente à transmissão da imagem para o cinescópio. Na fotografia (B), obtida entre 1954 e 1955, vê-se o equipamento completo.

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(A) Circuito de TV para ser acoplado a um microscópio óptico. A partir da esquerda, no primeiro
plano: Não identificado (de perfil), Elyseu Paglioli (Reitor da URGS), Gerard Hepp (Chefe da Divisão
de Eletrônica), José Reinaldo Salvador (Técnico em eletrônica) e Antônio Bernardo João Batista
Todesco (Chefe da Divisão de Radioquímica).

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(B) Microscópio óptico, com imagens em tubo de raios catódicos. A partir da esquerda, no primeiro plano: Não identificado, Ary Nunes Tietböhl (Diretor do CPF), Elyseu Paglioli, Gerard Hepp e Paulo Pedro Petry. (Acervo do IF-UFRGS)

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Outro equipamento que merece destaque é o computador analógico montado no CPF. Todos esses equipamentos, com sofisticados recursos tecnológicos, serviram para o treinamento de inúmeros estagiários de engenharia, e para estabelecer uma escola de desenvolvimento tecnológico. A ideia foi bem tratada e influenciou marcadamente as primeiras gerações de físicos formados no IF. Nos anos 1970, o percentual de equipamentos desenvolvidos localmente, em relação aos importados era claramente maior no IF-UFRGS do que em outros centros de pesquisa nacionais.

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Computador analógico montado no CPF-UFRGS, anos 1950 (Acervo do IF-UFRGS)

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O prestígio da DE logo ultrapassou a porta do CPF e até mesmo os muros da Universidade. Para a Varig, foi desenvolvido um sistema de alto vácuo para calibração de altímetros, e nos arquivos do IF, foram encontradas inúmeras solicitações de outras faculdades e de órgãos externos à UFRGS, para o conserto de diferentes equipamentos eletro-eletrônicos, incluindo-se aí o complexo caso do sincrocíclotron do CNPq.

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1958: A UFRGS socorre o CNPq para a remontagem do sincrocíclotron

Uma abordagem completa dessa história, sobretudo referente ao envolvimento de políticos e militares, foi apresentada no livro de Ana Maria Ribeiro de Andrade.[8] Uma abordagem mais técnica sob o ponto de vista da física, foi apresentada em artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física.[9] Apresentarei aqui os aspectos mais relevantes da história. No embalo da euforia com os resultados obtidos por César Lattes e as possibilidades de avanços na pesquisa em física das partículas elementares com o uso de aceleradores de partículas, o CNPq adquiriu, em 1952, um pequeno sincrocíclotron da Universidade de Chicago. Inicialmente, a instalação e a operação do equipamento ficaram a cargo do CBPF, mas quando o equipamento chegou ao Brasil, em 1954, a equipe responsável se dispersou e seus técnicos foram substituídos por outros de menor experiência. Os atropelos resultantes de tudo isso, levaram Marcelo Damy de Souza Santos a sugerir ao CNPq, no final de 1955, a paralização das obras em Niterói. Em outubro do ano seguinte, o reitor da UFRGS escreveu ao presidente do CNPq manifestando interesse em utilizar o sincrocíclotron para pesquisas no CPF. Quase um ano depois, exatamente em 3 de setembro 1957, o reitor recebeu um ofício comunicando que o Conselho Deliberativo do CNPq decidiu que a máquina deveria continuar em Niterói, para uso de pesquisas programadas pelo CNPq.

A obra só foi retomada depois de 23 de setembro de 1958, quando o CNPq firmou convênio com a URGS “para revisão total das instações e assistência no funcionamento do sincrocíclotron de 21 polegadas, de propriedade do Conselho e que se encontra em Niterói, Estado do Rio de Janeiro”. O convênio era válido por dois anos, sendo prevista a prorrogação, que de fato ocorreu em termo aditivo de 1961, por solicitação do próprio CNPq9. A remontagem do equipamento, entre 1958 e 1961, esteve sob a responsabilidade de apenas três profissionais do CPF-URGS: os engenheiros Gerard Hepp e Engelberto Werkmeister, e o técnico em eletricidade e eletrônica Ennio Ferreira Porto.

O primeiro feixe de prótons foi obtido na primeira semana de 1960, mas em decorrência de vários defeitos de alguns componentes, o equipamento só ficou pronto para inauguração no final do ano, e o evento ocorreu no dia 27 de janeiro de 1961, com a presença do Almirante Álvaro Alberto (fundador e primeiro presidente do CNPq) e do prof. João Christovão Cardoso, então presidente do CNpq. Depois disso, entre disputas e intrigas políticas, o destino do equipamento foi o completo abandono pelo CNPq. Em abril de 1998 foi transferido de Niterói para o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST).[8]-[9]

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Inauguração do Sincrocíclotron, em 27/1/1961: O engenheiro Engelberto Werckmeister introduz amostra na câmara de análise (Acervo do IF-UFRGS)

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Inauguração do Sincrocíclotron, em 27/1/1961: Painel de controle (Acervo do IF-UFRGS)

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1959: A COSUPI fomenta a substituição do CPF pelo IF

Em 28 de fevereiro de 1958, o MEC constituiu a Comissão Supervisora do Plano dos Institutos, mais conhecida pela sigla COSUPI, visando a criação de institutos especializados com o objetivo de centralizar em somente um órgão de cada universidade o ensino e a pesquisa em certos setores da ciência e da tecnologia. Sobre este controverso evento, existe uma ampla literatura, da qual selecionei os documentos que considero mais interessantes para sugerir ao leitor interessado.[10]-[14] A COSUPI foi fortemente criticada pela comunidade científica brasileira. O principal canal dessa crítica foi a SBPC. Aquela década de 1950 foi o palco de intensa disputa de modelos universitários, envolvendo, de um lado a USP e a Universidade do Brasil (UB), e de outro lado o Centro Tecnológico de Aeronáutica e seu Instituto Tecnológico de Aeronáutica (CTA-ITA), sediado em São José dos Campos. Portanto, tudo girava em torno do eixo Rio-SP, nada fora desse eixo tinha relevância naquele debate. Em Porto Alegre, aqueles que viriam a criar o IF estavam concluindo sua formação básica. Não tinham a menor ideia do que fariam em termos de pesquisa. Mas, havia um ambiente “beligerante” na comunidade acadêmica. De um lado os cientistas na USP e na UB que defendiam o desenvolvimento tecnológico baseado na pesquisa básica. De outro lado, professores do ITA que consideravam a pesquisa básica um luxo para o deleite de pensadores despreocupados com o desenvolvimento tecnológico do país. Não se pode esquecer, contudo, que a reforma universitária de 1968 tem muitos traços da estrutura do CTA-ITA, criado em 1947 à semelhança do Massachussets Institute of Technology (MIT).

Foi justamente nesse conturbado ambiente acadêmico que surgiu a COSUPI. Inicialmente foi criada por uma portaria do MEC, em 1958. Quando a SBPC começou a questionar a autoridade de um órgão criado através de portaria, o governo editou o decreto 49.355/60, ratificando a portaria de 1958, mas isso não resultou em arrefecimento das críticas. A COSUPI foi criada por inspiração de Ernesto Luiz de Oliveira Júnior,[14] e por ele presidida, da criação à absorção pela CAPES, em 1964, quando este órgão deixou de ser Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, para ser Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. A nova CAPES englobou a COSUPI, e o Programa de Expansão do Ensino Tecnológico (PROTEC).

Oliveira Júnior, na época da criação da COSUPI, era professor de geometria na Faculdade Nacional de Filosofia, e depois professor do ITA e membro da Junta Consultiva da Escola Superior de Guerra (ESG). Era ferrenho defensor da formação universitária tecnológica, em detrimento da ciência básica. Para ele, “o Brasil não é pobre por falta da chamada ciência pura. Essa existe por aí, em larga escala (!), publicada em livros, em compêndios e em revistas de todo o tipo (…) Não se compreende que a maioria dos recursos que a Nação emprega em pesquisas, sejam desviados para investigações que apenas interessam à fome de saber de seus autores e constituem, quase sempre, a duplicação de pesquisas que estão sendo levadas a efeito em países mais ricos, em laboratórios e em organizações que dispõem de recursos com os quais não podemos sequer sonhar em nosso atual estágio de desenvolvimento econômico.”[10] Com relação ao CNPq, ele declarou: “Eu nunca me envolvi com o Conselho Nacional de Pesquisa porque nunca acreditei nele, é uma organização de gente que só esperava por verba, só isso. Eles não têm base para fazer a coisa compreende? Eles não têm base para poder realizar alguma coisa na dimensão do Brasil.”[15] Nessa entrevista que ele concedeu ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp (CLE-Unicamp),[15] em 1988, em um momento mais coloquial, ele deixa transparecer suas premissas ideológicas, que de certa maneira justificam a reação da comunidade científica, coordenada pela SBPC.

Tudo começou por volta de 1953-1954, quando o presidente Vargas lhe concedeu auxílio financeiro para ele viajar por onde quisesse a fim de conhecer os sistemas de educação tecnológica e sugerir algo para o Brasil. Visitou a Turquia, porque este país recebia altas somas de dinheiro dos EUA, várias capitais europeias, e terminou seu périplo nos EUA. Quando estava nos EUA tomou conhecimento do suicídio de Vargas. Voltou ao Brasil e engavetou a ideia que resultaria na COSUPI. Quando soube pela imprensa do discurso de posse de Clóvis Salgado, ministro de educação de JK, mencionando o interesse no ensino técnico, viu renascer a viabilidade de seu projeto. Convenceu o ministro, que convenceu o presidente, e foi em uma reunião entre os três que Oliveira Júnior tornou-se presidente da ainda inexistente COSUPI, que estava nascendo naquele momento, em 1956. Levou dois anos para ser oficializada em portaria do MEC, e mais dois anos para ser ratificada em decreto presidencial.

Bem antes dessas iniciativas de Oliveira Júnior, a comunidade científica tinha articulado a criação do CNPq e da CAPES, em 1951, mas ele conseguiu, sete anos depois, fazer com que a COSUPI fosse criada no mesmo nível desses dois órgãos. Para ele, a fim de assegurar uma organização técnico-científica adequada para a expansão das atividades culturais e econômicas do Brasil, foram organizadas três instituições: o CNPq, a CAPES e a COSUPI.[14] Obviamente não era assim que a comunidade científica via o cenário técnico-científico do Brasil.

Depois daquela reunião com JK e Clóvis Salgado, Oliveira Júnior conseguiu, com a ajuda do senador Roberto Campos e de um economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, descobrir uma “fuga” de 240 milhões de cruzeiros do orçamento do MEC para o orçamento global. Foi por meio de uma emenda parlamentar que essa verba retornou ao MEC e constituiu o primeiro orçamento da COSUPI, em 1958. Inicialmente essa verba deveria ser dividida entre os vários órgãos responsáveis pelo ensino médio, ensino universitário, INEP, etc., mas Oliveira Júnior convenceu o ministro a colocar tudo na COSUPI, e à revelia da comunidade científica começou a negociar com algumas universidades a criação dos institutos.

Pelo histórico apresentado até aqui, não há surpresa no fato de que os institutos criados com recursos da COSUPI tenham sido: Instituto de Física (UFRGS), Instituto de Matemática (UFRGS), Instituto de Mecânica (UFPR), Instituto de Genética (USP-Piracicaba), Instituto de Economia Rural (UFRRJ), Instituto de Química (UFBA), Instituto de Minas e Metalurgia (UFOP), Instituto de Geologia (UFPE) e Instituto de Tecnologia Rural (UFC). Como se vê, nenhum da UFRJ, nem da USP (São Paulo).

A impressão que se tem, da leitura de documentos da época, é que os professores da UFRGS não tinham, ou não expressavam, uma opinião crítica à COSUPI, como faziam os professores universitários de SP e do RJ. Excetuando as portarias, o primeiro documento sobre a criação do IF é o relatório de David Mesquita da Cunha, diretor do IF, encaminhado ao reitor Eduardo Zaccaro Faraco, em 11/6/1970, dez anos depois da criação do IF. Neste relatório, o diretor do IF faz um breve relato sobre a COSUPI e informa que o reitor já vinha tratando o assunto de modo informal com Oliveira Júnior, desde 1957, tendo recebido pareceres favoráveis da Faculdade de Filosofia, da Escola de Agronomia e Veterinária e da Escola de Engenharia. Além disso, recebeu parecer favorável da comissão constituída pelos professores Pery Pinto Diniz da Silva, Luiz Pilla, Ary Nunes Tietböhl, Luiz Leseigneur de Faria e Gastão Dias de Castro, nomeada pelo reitor para analisar a questão. Era o início do Instituto de Física, tema do próximo ensaio.

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Notas

[1] dos Santos, C. A. O Instituto de Física. in Instituto de Física da UFRGS. 50 anos de inovação científica, pedagógica e tecnlológica. (ed. dos Santos, C. A.) 30–77 (Editora da UFRGS, 2013).

[2] dos Santos, C. A. A efêmera e produtiva existência do Centro de Pesquisas Físicas da URGS. Rev. Bras. Ensino Física 39, e2601 (2017).

[3] Azevedo, F. As ciências no Brasil – vol. I. (Edições Melhoramentos, 1956).

[4] Fávero, M. L. A. Universdidade do Brasil: das origens à construção. (Editora UFRJ, 2000).

[5] Silva, P. P. D. & Soares, M. P. Memória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: 1934-1964. (Ed. da Universidade / UFRGS, 1992).

[6] Guedes, P. C. & Sanguinetti, Y. T. UFRGS: identidade e memórias – 1934-1994. (Ed. da Universidade / UFRGS, 1994).

[7] Ferri, M. G. & Motoyama, S. História das ciências no Brasil – vol. 1. (Editora da Universidade de São Paulo, 1979).

[8] Andrade, A. M. R. Físicos, mésons e política. A dinâmica da ciência na sociedade. (Hucitec, 1999).

[9] dos Santos, C. A. O sincrocíclotron do CNPq: da concepção ao abandono. Rev. Bras. Ensino Física 35, 1607–21 (2013).

[10] Lopes, J. L. Ciência empobrecida e tecnologia de segunda classe. Pro-Posições 19, 207–214 (2008).

[11] Botelho, A. J. J. Da utopia tecnológica aos desafios da política científica e tecnológica: o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1947-1967). Rev. Bras. Ciências Sociais 14, 139–154 (1999).

[12] Mendonça, A. W. P. C. A universidade no Brasil. Rev. Bras. Educ. 14, 131–150 (2000).

[13] Fernandes, A. M. A construção da ciência no Brasil e a SBPC. (Editora da Universidade de Brasília, 1990).

[14] Oliveira-Júnior, E. L. de. Aspiração do povo brasileiro. Rev. da Esc. Super. Guerr. II, 75–83 (1985).

[15] Kumasake, H. B. & Barros, L. O. C. Entrevista com Ernesto Luiz de Oliveira Júnior. https://www.yumpu.com/ 1–35 (1988). Available at: https://www.yumpu.com/pt/document/read/33433956/entrevista-com-o-ernesto-luiz-de-oliveira-janior-cle-unicamp. (Accessed: 29th November 2020)

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Agradeço ao professor Luiz Fernando Ziebell, do Instituto de Física da UFRGS, pela cuidadosa leitura do manuscrito.

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Carlos Alberto dos Santos

Carlos Alberto dos Santos é professor aposentado pelo Instituto de Física da UFRGS. Foi Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA e pesquisador visitante sênior do Instituto Mercosul de Estudos Avançados. Premiado com o Jabuti em 2016 (3º. Lugar na categoria Ciências da Natureza, Matemática e Meio Ambiente), atualmente é professor visitante no Instituto de Física da UFAL.