Galileu e a ciência moderna

por Claudemir Roque Tossato

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Um dos principais expoentes do processo de elaboração da ciência moderna foi, sem dúvida, Galileu Galilei (1564-1642). Junto com Copérnico, Kepler e Newton seu nome é referenciado como um dos grandes personagens que pensaram os problemas surgidos quando se admite que a Terra se move e o Sol está no centro do sistema dos movimentos planetários. Galileu foi o primeiro astrônomo a utilizar o telescópio como um instrumento de observação do céu — que lhe forneceu indícios relevantes contra o universo ptolomaico-aristotélico, pois Galileu observou, dentre outras coisas, que a Lua tem relevo; que existem mais estrelas do que vemos a olho nu; que Júpiter tem satélites; fora essas observações, Galileu elaborou um conjunto de argumentos para dar plausibilidade à Terra se mover. Além disto, seu nome também figura como um dos grandes da mecânica, quando da elaboração da lei da queda dos graves. Contudo, além dessas contribuições eminentemente científicas, Galileu também foi um pensador dos problemas da física, tratando tanto dos métodos adequados para esta ciência como da solidificação da física como autônoma no que concerne ao desenvolvimento de seus trabalhos. Em outras palavras, Galileu pode ser visto tanto como um físico como um filósofo.

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Galileo Galilei por Justus Sustermans, 1636

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É nesta linha de tratamento de Galileu como cientista e filósofo que Pablo Rubén Mariconda e Júlio Vasconcelos publicaram a segunda edição de seu livro Galileu e a nova física, pela Associação Filosófica Scientiae Studia. 2020. A segunda edição revê e amplia os estudos feitos na primeira edição, de 2006. Inserem-se na segunda edição três novos capítulos, referentes, primeiro, aos trabalhos de Galileu sobre as mecânicas, especialmente sobre máquinas e desenvolvimentos técnicos. Segundo, um capítulo bem mais circunstanciado em relação ao da primeira edição sobre o processo que conduziu à condenação de Galileu por parte do Santo Ofício, com um aprofundamento do segundo processo que sofreu Galileu. Terceiro, um desenvolvimento na conclusão do livro sobre a importância de Galileu não apenas para a elaboração da física matemática clássica, mas também sobre a sua importância para a Revolução Científica e para a constituição da ciência moderna.

Na primeira edição, os autores já apresentam um rico material para a compreensão da importância de Galileu para a constituição da ciência moderna, não ficando apenas na formulação da biografia de Galileu, muitas vezes centralizadas em aspectos secundários ou mais pessoais — que, de uma certa forma, é agradável para a grande maioria do público, mas que pouco diz sobre os processos de obtenção de conhecimento. A primeira edição traz elementos para os leitores do livro pensarem os problemas que estão presentes quando se elaboram conhecimentos de ordem científica. Digno de nota dessa primeira edição é todo o tratamento dado ao Diálogo sobre os dois máximos sistemas de mundo: ptolomaico e copernicano, obra fundamental de Galileu, publicada em 1632, para determinar as possibilidades de admissão de uma Terra movente. Mariconda e Vasconcelos apresentam com muita competência os argumentos de Galileu — contidos especialmente, na segunda jornada dos Diálogos – contra as objeções físicas postas quando se postula que a Terra se movimenta. Galileu analisa e responde a nove conjuntos de argumentos baseados no senso comum que vão contra à observação de que a Terra se movimenta.

Com a segunda edição, é possível apreciar com muitos detalhes aspectos centrais da produção científica galileana. O capítulo 3 da segunda edição, intitulado “A teoria das máquinas simples e os desenvolvimentos técnicos” não consta na primeira edição; neste novo capítulo, é analisado o procedimento de Galileu para a elaboração de máquinas simples, exposto na obra As mecânicas, escrita entre 1592 e 1603, texto destinado a ser um manual voltado para o ensino técnico. Mariconda e Vasconcelos apresentam a estrutura da obra, que reproduzo, abaixo

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As mecânicas estão divididas em quatro partes. O tratado começa com uma discussão introdutória sobre a utilidade das máquinas, na qual se pode apreciar a crítica de Galileu à concepção tradicional e sua proposta de uma nova concepção de máquina. Na segunda parte, Galileu apresenta a fundamentação teórica (físico-geométrica) dos instrumentos mecânicos, formulando as definições de gravidade, momento e centro de gravidade e estabelecendo três suposições, por meio das quais chega à formulação do princípio mecânico geral da proporcionalidade inversa entre o peso e a distância de suspensão, dando a esse princípio uma interpretação dinâmica em termos de velocidades virtuais. As duas partes seguintes dedicam-se a desenvolver as consequências instrumentais (as aplicações) do princípio de proporcionalidade inversa entre peso e distância segundo uma estratégia expositiva que consiste em apresentar a divisa instrumental básica geradora do que se pode chamar de “famílias instrumentais”. Assim, a terceira parte apresenta a família instrumental cujo princípio se encontra na equivalência entre o funcionamento da balança e da alavanca, tratando a seguir das aplicações instrumentais desse princípio: a balança romana, a alavanca e os instrumentos que dependem do funcionamento da alavanca perpétua, a saber, o eixo da roda, o cabrestante (guindaste), a roldana (ou polia) e as talhas (ou associação de polias). A quarta parte introduz o princípio instrumental do plano inclinado e a família de instrumentos que lhe estão ligados: a cunha, a cóclea ou parafuso de Arquimedes. O tratado conclui com uma investigação sobre a força de percussão, no que se pode considerar como uma espécie de anexo especulativo, no qual Galileu procura explicar a operação mecânica do martelo e do malho, instrumento cujo funcionamento é de difícil redução seja à alavanca, seja ao plano inclinado. Esta mesma investigação será retomada de modo mais aprofundado, mas ainda bastante inconclusivo, na jornada postumamente publicada, que se costuma tomar como Sexta Jornada do Discorsi. (P. 59-60).

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A passagem, apesar de longa, é muito importante, pois mostra, segundo os autores, a preocupação de Galileu com o funcionamento das máquinas simples, determinando a) uma nova concepção para essas; b) a necessidade de uma fundamentação teórica, estabelecendo definições e formulando princípios gerais da mecânica, como a relação entre a proporcionalidade peso e distância com as velocidades virtuais; c) feito isso, passa-se a tratar das famílias de instrumentos, analisando as relações mecânicas contidas na balança, alavanca; d) análise do plano inclinado e dos instrumentos ligados a ele. A análise de As mecânicas feita na segunda edição da obra de Mariconda e Vasconcelos fornecem aos leitores elementos para a compreensão de Galileu no âmbito do processo de matematização das relações que são encontradas nos fenômenos corriqueiros de ação: o funcionamento de instrumentos utilizados para gerar movimentos.

Outro ponto de destaque da segunda edição, como já foi dito, é o aprofundamento da apresentação do segundo processo de Galileu. Os processos que Galileu sofreu por parte do Santo Ofício representam uma das páginas mais significativas para o que se pode chamar de “autonomia da ciência” frente a outros setores da cultura humana, no caso, em relação à religião cristã. A questão que envolve os dois processos se refere às propostas copernicanas de movimentos da Terra e de centralidade do Sol. No primeiro julgamento, que ocorreu em 1616, Galileu sofreu uma admoestação verbal do cardeal Bellarmino, a pedido do papa Paulo V, para que ele abandonasse a opinião copernicana. O que se sabe ao certo é que Galileu e Bellarmino reuniram-se no dia 26 de fevereiro para Galileu receber a admoestação e que apenas eles fizeram parte da reunião, sem a presença de outra pessoa. O problema aparece no segundo julgamento, em 1633. Como escrevem Mariconda e Vasconcelos:

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Em 21 de fevereiro de 1632, o Diálogo é finalmente publicado em Florença. A recepção é vigorosa, quer pelos admiradores, quer pelos adversários: se os primeiros explodem em entusiasmo, os últimos não tardam em acionar os mecanismos de crítica e denúncia. Em particular, Urbano VIII, ao tomar conhecimento da publicação do Diálogo, emite uma ordem para que frei Nicolau Riccardi, mestre do Sacro Palácio, principal sensor da Inquisição, explique como a obra foi impressa sem que ele a tivesse autorizado. Desse relatório que compõe os documentos que dão início ao processo contra o Diálogo, além da suspeita de ter enganado os censores da Congregação do Índice obtendo dois imprematur para o livro, um em Roma e outro em Florença, Galileu é acusado ainda de (a) não ter utilizado a abordagem hipotética, afirmando categoricamente a mobilidade da Terra e a estabilidade do Sol; (b) ter calculado mal o existente fluxo e refluxo do mar com base na estabilidade do Sol e na mobilidade da Terra não existentes: e (c) “ ter fraudulentamente silenciado de um preceito que lhe foi feito pelo Santo Ofício no ano de 1616” e, desse modo, ter desobedecido à admoestação de Bellarmino de “não manter, ensinar, ou defender quovis modo (de modo algum), verbalmente ou por escrito (…) a opinião copernicana. Assim, apenas cinco meses depois da publicação, o Diálogo é proibido e Galileu advertido para não defender as posições nele expressas. (p. 215-7).

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A acusação de Galileu por Cristiano Banti, 1857

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As críticas ao Diálogo, que servem como base para a segunda condenação, que obrigou Galileu a abjurar o copernicanismo, refletem a posição intransigente da Igreja frente a questões que devem ser eminentemente de caráter científico, no caso astronômica-cosmológicas. O apego contra a defesa da Terra em movimentos não se liga a um debate entre argumentos de um defensor de um sistema ou de outro, mas de valores da Igreja que extrapolam argumentos científicos. Principalmente o item (c) apontado na passagem acima mostra claramente a questão: a acusação de Galileu não seguir o pedido de Bellarmino de não ensinar, defender ou falar do copernicanismo de modo algum, trazem uma artimanha montada contra Galileu. Como dizem os autores:

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Não se pode deixar de dizer aqui que, nos documentos do processo, encontra-se uma intimação do Santo Ofício feita pelo padre comissário, segundo a qual Galileu foi instado a abandonar a “opinião” copernicana e intimado a não a sustentar ou defender quovis modo (de modo algum). Esse documento não traz a assinatura do cardeal Bellarmino e, sem dúvida, foi produzido sem seu conhecimento e acrescentado posteriormente ao processo da Inquisição (p. 135).

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Em outras palavras, quem agiu fraudulentamente foi a Igreja e não, Galileu. Mas, talvez mais importante que a fraude, o exemplo posto pelos dois julgamentos de Galileu apresenta elementos importantes para a compreensão do processo de fundamentação da autonomia da ciência em relação a outras áreas da cultura. A Igreja argumentou contra Galileu não astronômica ou cosmologicamente, mas por outras vias, que expressam as suas posições teológicas. A Igreja teve, sem dúvida uma posição autoritária, determinando a “falsidade” do copernicanismo por uma ordem, como um murro na mesa, e não por razões científicas.

Para compreender a autoridade da Igreja na questão do segundo julgamento, temos que saber que Galileu, antes do segundo processo, tratou da questão que está subjacente à condenação de 1633: a autonomia da razão científica. Novamente, vale a pena reproduzir uma passagem do livro de Mariconda e Vasconcelos que ilustra a questão;

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…Galileu formula um pleito de autonomia da ciência natural que conduz inevitavelmente a delimitar o âmbito de competência da teologia ou a estabelecer uma distinção clara entre ciência e fé, traçada de modo que o domínio científico fica separado do domínio moral e religioso, tornando a ciência distinta e independente da moral, em suma, questionando a hegemonia do poder espiritual da Igreja: um dos traços marcantes cultura da modernidade. A atuação de Galileu é claramente de defesa da liberdade da pesquisa científica, pois propõe que as controvérsias científicas devem ser decididas à luz do conhecimento obtido pelo uso da razão natural (sentidos, intelecto, linguagem), conhecimento esse certificado por demonstração e observação e, portanto, propõe que a ciência possui critérios de avaliação independentes dos critérios de autoridade teológica e religiosa (p. 133)

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Galileu separa o que é do âmbito da ciência do que é da teologia. Ciência e fé estão separadas. Cabe à ciência o uso da razão natural, os nossos sentidos; o uso de nossos intelectos e de nossas linguagens (em que será a linguagem matemática a utilizada para a física), e a justificação do conhecimento científico é dada por critérios objetivos: observações e demonstrações, em outras palavras, de maneira impessoal. A autoridade religiosa e teológica nada contribui para elaborar o conhecimento científico.

Sem dúvida, o processo de consolidação da razão científica, elaborado com primazia no século XVII por Galileu, é atual, isto é, podemos perceber que a questão da autonomia da razão científica ainda é algo discutido, trazendo, em muitas situações, consequências danosas para a sociedade. Infelizmente, ainda não é claro para uma grande parte de nossa população — e a do Brasil representa uma parcela significativa nesta falta de clareza – que a ciência tem critérios que legitimam suas leis e descobertas, através de suas pesquisas objetivas e de seus métodos rigorosos; critérios esses que permitem que a resolução de problemas básicos seja tratada fora da esfera da subjetividade e de interesses, pessoais ou coletivos. A autoridade e a falta de escrúpulos exercidas pela Igreja Católica nos dois processos movidos contra Galileu, que não podem ser compreendidas numa discussão astronômica e cosmológica, refletem interesses políticos. Da mesma forma, hoje em dia, grandes ataques e desconfianças não epistemológicas ou metodológicas contra a ciência também apresentam razões que vão além da esfera da autonomia da razão científica. O maior perigo da não consideração da história, no caso a dos processos contra Galileu e da defesa deste para a autonomia da razão científica, é termos de voltar a discutir coisas que já deveriam ter se solidificado em nossas culturas. Talvez veremos mais processos inquisitórios contra a ciência; novamente, a razão natural poderá ser atacada por interesses não epistemológicos ou metodológicos.

A segunda edição da obra de Mariconda e Vasconcelos aborda com detalhes os dois processos contra Galileu. A obra fornece muitas informações para a compreensão do longo trajeto que levou a consolidação da astronomia e da cosmologia como ciências autônomas, em que a autonomia se traduz pela razão e pelo método. Galileu e a nova física torna-se uma obra importante para compreender tanto a relevância de Galileu para a constituição da ciência moderna como para a questão da autonomia da ciência frente a outros setores da sociedade.

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Galileo Galilei por Justus Sustermans, 1636

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Claudemir Roque Tossato

Claudemir Roque Tossato é professor de Filosofia da Ciência na Unifesp.