A Ucrânia rebelde

por Giuseppe Cocco

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“A decomposição do capitalismo pode levar o mundo não à revolução, mas ao caos […] ”

Maurice Merleau-Ponty

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 “[…] na história das sociedades humanas, as vontades de mudança defrontam-se com poderosíssimas inércias, materiais e, ainda mais, mentais”

Marc Bloch

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Bolcheviques na Ucrânia em 1919

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A ideologia do declínio

A aventura militar de Putin na Ucrânia e a aliança entre a Rússia e a China são saudadas por muitos intelectuais latino-americanos (e outros) como a tão esperada confirmação do fim do odiado “império americano” ou mesmo como uma espécie de ato de justiça contra a Ucrânia. Quando não é ignorado, o direito de resistência dos ucranianos é desprezado e pisoteado, possivelmente em nome de um pacifismo que só prevê a rendição e a escravidão[1]. Ninguém mais se lembra de ter gritado um dia: “No Justice, No Peace”. A retórica do oprimido dá lugar à apologia do opressor ou talvez explicite a dimensão edipiana desta narrativa, como Gilles Deleuze e Félix Guattari bem haviam adivinhado: “É a colonização que faz existir Édipo, mas um Édipo ressentido pelo que ele é, pura opressão”[2]. Como pano de fundo para esse quadro triste do pensamento crítico, os sociólogos da chamada decolonialidade ou das “epistemologias do Sul” tentam encontrar razões para a invasão neocolonial de um país soberano por uma superpotência que historicamente sempre pisoteou, deportou e torturou seus vizinhos[3].

Os temores e tremores do declínio das civilizações sempre existiram, assim como as guerras não precisaram do determinismo do capital para serem travadas. Do fim da hegemonia ateniense narrada por Tucídides na Guerra do Peloponeso à obra monumental de Edward Gibbon sobre o Declínio e Queda do Império Romano, sempre ressoa a velha pergunta: “como e por que as civilizações entram em colapso? [4]“. Epidemias e guerras atormentaram Goethe em seu Fausto 1 e renovam hoje nossa percepção, na fragilidade da vida, da mortalidade das civilizações. Imediatamente após o trauma da Primeira Guerra Mundial, o poeta francês Paul Valéry escreveu: “Nós, outras civilizações, agora sabemos que somos mortais. Tínhamos ouvido falar de mundos inteiros desaparecidos, de impérios que sucumbiram com seus homens e suas máquinas. Mas agora vemos que o abismo da história é grande o suficiente para todos. Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que uma vida” [5]. Não por acaso, William Marx escreve que Kharkiv, Kherson, Mariupol, Kiev são a Babilônia, Persepolis, de hoje e de amanhã: cidades ainda suntuosas ontem e hoje reduzidas a um amontoado de ruínas[6].

De fato, podemos identificar pelo menos três paradoxos na celebração contemporânea de um declínio que sempre foi parte de nossa condição. O primeiro paradoxo é que os atores desta decadência seriam outros impérios “emergentes”: agora, o russo não está emergindo de forma alguma e o chinês certamente não é “novo”[7]. O segundo paradoxo é que a chave para o enfraquecimento da hegemonia imperial americana seria sua incapacidade de responder à violação da soberania de um país aliado, enquanto esta guerra puramente neocolonial deveria preocupar qualquer país independente, especialmente aqueles que não estão em condições de se defender contra o ataque ou chantagem de uma superpotência (para não mencionar o arsenal nuclear) [8]. O terceiro paradoxo é o mais interessante e é bidimensional: por um lado, o que tem caracterizado o chamado Ocidente até hoje não tem sido sua natureza monolítica, mas sua capacidade de se alimentar de sua instabilidade, suas ambivalências e, portanto, renovar-se continuamente; por outro lado, o Ocidente não é (somente) ocidental e nunca foi.

A crítica ao Eurocentrismo pode ser um produto paradoxal de uma visão eurocêntrica que afirma uma inexistente natureza monolítica do Ocidente. Isto talvez explique por que um pensamento que pretende ser decolonial na realidade defende um outro colonialismo. A armadilha na qual cai a narrativa decolonial é precisamente a de afirmar o que ela pensa que está negando. Isto aparece precisamente na questão da bifurcação entre a China e o Ocidente: por um lado, esta separação é extremamente recente e diz respeito a uma Europa e uma civilização ocidental que Kenneth Clark descreveu como uma série contínua de renascimentos[9]. Por outro lado, como aponta Niall Ferguson, a novidade não é que tudo o que não é o Ocidente (the Rest) está agora se opondo a ele como alternativa, mas que este Rest está baixando rapidamente os aplicativos que caracterizam o Ocidente[10]: não é um declínio do Ocidente que está ocorrendo, mas uma ocidentalização do mundo que é ao mesmo tempo um novo devir-mundo do Ocidente[11]. Agora, isto se apresenta como crise e é aqui que o retorno da guerra total (sem nenhum determinismo) deve ser pensado[12]. Niall Ferguson retoma Samuel Huntington, mas em termos diferentes: o cenário em que estamos entrando não é o clash entre civilizações, mas o crash de uma civilização global[13]. A ameaça aberta de Vladimir Putin de usar seu arsenal nuclear — com a mobilização de suas forças estratégicas logo no início de sua invasão da Ucrânia — confirma este cenário caótico.

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Ucrânia—Paz, Rússia—Liberdade’

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A Ucrânia rebelde

Falando na assembleia do Occupy Wall Street, Slavoij Zizek usou uma piada que descreve perfeitamente o funcionamento do dispositivo russo-soviético: dois amigos se encontram para se despedir pois que um deles que foi condenado ao Gulag. Eles combinam que o deportado use em suas cartas a tinta azul para contar o que realmente acontece nos campos de trabalhos forçados e a tinta vermelha para contar as mentiras que o regime e sua censura impõem. Alguns meses depois, o amigo que ficou livre recebe uma carta escrita inteiramente em azul: o deportado descreve o gulag como um verdadeiro paraíso onde não faltam bens de consumo nem bens culturais. A única coisa que falta é tinta vermelha.

Pouco antes da queda do Muro, um amigo francês que visitava Berlim Oriental perguntou a amigos editores por que na edição completa das “obras” de Rosa Luxemburgo não havia volume da Crítica à Revolução Russa e a resposta foi: faltou “papel”[14]. A escassez aparece como resultado e causa de um sistema organizado baseado na abundância de mentiras, na impossibilidade de ter coragem de dizer a verdade (que em russo, ironicamente, se diz Pravda) [15].

Mas o que a crítica de Rosa Luxemburgo dizia? Lenin tentou neutralizá-la usando o famoso provérbio russo: “As águias (Rosa) podem se rebaixar ao nível das galinhas (críticos dos bolcheviques), mas as galinhas não podem voar com as águias”. O mito de Rosa tinha que ser respeitado, mesmo que — criticando o “desprezo dos bolcheviques pela democracia”[16] — ela se rebaixasse ao galinheiro. O fato é que Luxemburgo havia captado perfeitamente o cerne da deriva bolchevique: Lenin e Trotsky estavam impondo um regime aquém da democracia representativa (a ditadura do partido), enquanto para ela se tratava de lutar para ir além da representação: criticar a democracia liberal não significa se passar da democracia.

O que Rosa Luxemburgo havia previsto desde 1918 em uma cela de prisão alemã, pouco antes de ser assassinada (pela polícia do governo social democrático alemão), encontrou a terrível confirmação na experiência singular de um militante dos Industrial Workers of the World (IWW). Nascido em Vilnius (Lituânia), Alexander Berkman imigrou para Nova York em 1888 (com 18 anos) onde participou das lutas do operariado multinacional americano. Em 1892, após o assassinato de onze trabalhadores durante uma greve em Pittsburgh, Berkman realizou um atentado contra o mandante do massacre, o dono da fábrica. Preso, ele foi condenado a 22 anos de prisão. Cumpridos 14 anos de cadeia, Berkman foi libertado em 1906. Com sua parceira, Emma Goldman, fundou a revista militante The Mother Earth. Condenado novamente por sua militância pacifista durante a Primeira Guerra Mundial, foi preso com 249 outros militantes em Ellis Island (no rio Hudson, em Nova Iorque). No final de 1919 foram embarcados no U.S.T. Buford e deportados para a Finlândia aonde chegaram em janeiro de 1920, para logo ir a São Petersburgo, esperançosos de vivenciar a “revolução triunfante”. Berkman encontra dezenas de revolucionários russos de todas as tendências e se reúne com os bolcheviques mais importantes[17], incluindo Zinoviev e Lenin[18]. Junto com delegações de partidos socialistas ocidentais, ele viaja pela Rússia em uma missão para coletar documentos para os arquivos da revolução[19]. Seu diário é, assim, uma fonte incrível de notícias, impressões e avaliações sobre o período (1920-1922) que marca o fim da guerra civil[20]: a ditadura bolchevique já apresentava todas as derivas que depois serão atribuídas apenas a Stalin. Sabemos que é a Berkman que devemos um dos mais importantes relatos sobre o infame massacre dos sovietes (conselhos) e da cidade de Kronstadt pelo Exército Vermelho[21]. Mas é nas páginas dedicadas à viagem para o Sul, ou seja, para a Ucrânia, que encontramos a descrição de todas as características de um regime que se construía como uma continuidade feroz do colonialismo russo e ao mesmo tempo da rebeldia ucraniana. No diário de Berkman encontramos a força do movimento nacional ucraniano da qual fala Timothy Snyder: “No momento da revolução russa, os militantes ucranianos reagem criando a República popular ucraniana, com Kiev como capital, em 1918. Depois da dissolução do império austro-húngaro, uma segunda república ucraniana é criada no Oeste, com capital Lemberg (a atual Lviv). A república ocidental é destruída pela Polonia em 1919 com o apoio da força da Entente, entre as quais a França. A Galicia é incorporada à Polonia. No Leste, os republicanos se encontram no fogo cruzados entre revolucionários russos e Russos brancos. A república popular ucraniana desmorona em 1921 e o conflito se termina pela criação da Urss no ano seguinte, mas os combates armados permitiram de mostrar ao Lenine, a Stalin e aos bolcheviques que a Ucrânia constituía um foco de resistência. (Não houve nenhuma generosidade por parte de Lenin, como pretende Putin): a república ucraniana foi instituída no seio da URSS para limitar o projeto nacional ucraniano”[22].

É desse no contexto desses eventos que Berkman visita a Ucrânia e escreve seu diário. Comecemos pelas impressões da chegada a Kharkiv, cidade que hoje (abril de 2022) está na linha de frente da resistência ucraniana à invasão russa: “Nas instituições soviéticas e entre o povo (ucraniano) em geral, se pode perceber um forte clima nacionalista, até mesmo chauvinista. Para os nativos, a Ucrânia é a única Rússia verdadeira, sua língua, cultura e costumes são superiores aos do Norte (Rússia). Eles sentem aversão ao russo e se incomodam com a dominação de Moscou. A hostilidade aos bolcheviques é geral e o ódio à Cheka[23] é universal. A política do Kremlin é colocar seus homens no comando das instituições ucranianas. Muitas vezes, um comboio inteiro de bolcheviques de Moscou é enviado para assumir o comando de um departamento ou repartição. Os funcionários, desconhecendo a cultura e os costumes locais, impõem seus métodos (os de Moscou) e o resultado é seu distanciamento da população, até mesmo dos comunistas (ucranianos)” [24]. Em Kiev, Berkman relata seu encontro com um bolchevique ucraniano: “A Ucrânia não é a Rússia — o Centro comete um grande erro ao nos tratar como se fôssemos”. Mas Moscou não se importa. “Queremos ser federados, mas não submissos. Somos bons comunistas, como os de Moscou, mas nossa influência aqui seria maior se tivéssemos liberdade de ação” [25]. Berkman, que é judeu, comenta: “Gradualmente, para minha surpresa e consternação, percebo um franco antissemitismo nesse ressentimento pela dominação de Moscou”[26]. Um rabino lhe diz: “São os bolcheviques os responsáveis ​​pelos pogroms: para os gentios, bolchevique é sinônimo de judeu”[27]. Depois de lhe contar sobre os horrores dos progrom, o rabino continua: “Os pogroms dos bolcheviques são silenciosos: a destruição sistemática de tudo o que nos é mais caro: nossas tradições, costumes e cultura nos assassinaram como nação”. Também na Ucrânia, Berkman visita um campo de trabalhos forçados: “O ar é nauseante e sufocante, (você pode ver) sombras de seres humanos, (os) prisioneiros (são) apáticos, fracos demais para se mover. (Reina) a fome e não há remédios”. Outro militante se refere aos campos de concentração nesses termos: “O verdadeiro comunista tem a escolha entre o silêncio e a Sibéria, (assim) os campos de concentração estão cheios de trabalhadores comunistas, anarquistas, sionistas, milhares e milhares de condenados sem julgamento”[28]. Berkman resume: o sistema soviético-russo é composto por “um labirinto de novos decretos” cujo funcionamento é incompreensível: “filas de ucranianos imploram nos balcões das várias administrações para solicitar um terno, um par de botas, um ‘bilhete ‘ e recebem como respostas: ‘não sei’, ‘vai para o próximo escritório’, ‘volte amanhã'”. O “pyok” (o cartão de racionamento) já é o símbolo da existência soviética[29]. Outro revolucionário que veio da França para apoiar a revolução, Boris Souvarine, escreveu pouco depois: a URSS é constituída de uma monstruosa burocracia “e da mais completa” ausência de legalidade” [30]. Os campos de trabalhos forçados (os Gulag[31]) já eram o paradigma de um regime de produção baseado em um novo tipo de escravidão.

A Ucrânia que Berkman visita em 1921, 4 anos após a revolução de outubro, já é uma terra rebelde: dos bolcheviques ucranianos ao exército anarquista de Makhno, passando pelo rabino de Kiev, todos querem resistir ao novo regime de Moscou que aparece como uma versão ainda pior do próprio colonialismo russo. Em vez de construir a democracia, a ditadura bolchevique a reduz ainda mais e, como em Kronstadt, a autonomia dos trabalhadores é aniquilada.  A Ucrânia rebelde que Berkman nos descreve é ​​a de 1921: os anos 1930, o stalinismo e os milhões de famintos (Holodomor) ainda não chegaram. Anne Applebaum lembra que os ucranianos também se rebelaram na década de 1930 contra o Estado soviético. A resistência armada também varreu o Partido Comunista e Stalin respondeu com uma política deliberada de confisco de alimentos que custou a vida de 4 milhões de pessoas[32]. Como ficar surpresos diante do fato que, em 1941, os ucranianos e milhões de soldados do Exército Vermelho tenham visto inicialmente o invasor alemão como um libertador?![33]

Talvez a melhor explicação da questão da democracia apareça em uma passagem certamente pouco lida no diário de guerra de Vassili Grossman. Membro da Academia de Escritores Soviéticos, Grossman é chamado a trabalhar na linha de frente para o Estrela Vermelha, o jornal do Exército Vermelho. Suas correspondências fazem a apologia dos feitos do soldado soviético: o “homem de aço”. É essa atmosfera apologética que torna ainda mais impressionante um comentário que encontramos nas páginas finais. Grossman assiste a uma reunião entre o comandante militar (soviético) da Berlim ocupada e o prefeito (alemão). O prefeito tenta negociar a remuneração dos trabalhadores mobilizados pelo ocupante. Grossman, que vem da pátria do socialismo, escreve com espanto: “Na verdade, aqui eles parecem ter uma noção muito precisa de seus direitos (trabalhistas)!”[34]. Ou seja, nenhum trabalhador ousaria defender seus direitos na URSS. Aqui estão duas dimensões cibernéticas, por assim dizer, do stalinismo como retroalimentação da escassez e da escravidão. Se trata apenas do stalinismo? Vimos que o stalinismo continuou durante a desestalinização e hoje reaparece em diferentes dimensões após o curto período da perestroika e da glasnost. Nos arredores de Kiev, em Mariupol, os russos aplicam a política de terror contra a população, repetindo o que fizeram com o massacre de milhares de oficiais poloneses na floresta de Katyn, na primavera de 1940, quando a URSS ocupou parte do território Polonês com base no acordo entre Hitler e Stalin (o pacto Ribbentrop-Molotov) ou com a deportação de dezenas de povos (como, por exemplo, os tártaros da Crimeia) [35].

Putin é o herdeiro desse sistema, mas com uma mudança que podemos compreender lembrando como Primo Levi havia diferenciado o hitlerismo do stalinismo: enquanto o último fazia o que negava, o primeiro fazia exatamente o que prometeu fazer[36]. Podemos, portanto, dizer que Putin é o herdeiro deste sistema, mas sem compromissos com a ideologia socialista que não seja a desinformação nacional-socialista[37]. Nesse sentido, a Rússia de Putin parece refutar a crítica que Aleksandr Solzhenitsyn dirigiu ao Ocidente. Segundo Solzhenitsyn, os intelectuais ocidentais cometiam o erro de pensar que o problema não era o comunismo, mas a Rússia, enquanto para ele era impossível aplicar a palavra “russo” ao governo da URSS: “os líderes soviéticos são estranhos ao seu povo”[38]. Hoje, paradoxalmente, apenas a resistência ucraniana poderia manter uma brecha aberta ao que Solzhenitsyn disse, mas em um horizonte pós-russo.

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Solzhenitsyn

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O retorno do fora

Um dos fenômenos mais comentados é nossa tendência antropológica de pensar que o suporte para a veiculação de um símbolo constitui sua essência, seu significado. É o que acontece com a moeda: pensamos espontaneamente que o seu valor deriva do seu suporte (o metal precioso) e quando o suporte é o papel, pensa-se que em todo o caso existe uma reserva (uma bela barra de ouro) que garante a seu valor. Uma tendência da mesma natureza é a de não poder pensar a transformação social a não ser a partir de um modelo alternativo, ou seja, de algum tipo de transcendência: um fora que funcionaria justamente como reserva de valor, um lingote, um modelo, seja com traços de uma utopia totalmente abstrata, seja no caso de um país com certas características. Durante muito tempo, esse exterior consistiu em tudo que estava além do muro. Poderíamos ter pensado que a fé na União Soviética, apesar dos milhões de mortes causadas pelo stalinismo e a mumificação do país durante a desestalinização impossível, fosse a atração exercida pela Revolução de Outubro e seus mausoléus. O amplo apoio à Rússia de Putin na esquerda do terceiro mundo (e não apenas) confirma ao contrário a força de atração do fora como tal.

Tomemos por exemplo o que uma das antropólogas atualmente mais “na moda” diz em seu livro sobre cogumelos e o fim do mundo: “A crítica radical mais proeminente — fechar os olhos para a diversidade econômica — parece ainda mais ridícula nos dias de hoje. A maioria dos críticos do capitalismo insiste na unidade e homogeneidade do sistema capitalista; muitos, como Michael Hardt e Antonio Negri, argumentam que não há mais espaço fora do império capitalista. Tudo é controlado por uma única lógica capitalista”. Tsing continua: “Os críticos que definem a homogeneidade do domínio do capitalismo sobre o mundo querem derrubá-lo através de uma solidariedade singular. Mas que cegueira esta esperança exige! Pelo contrário, por que não admitir a diversidade econômica?” [39] . Não nos interessa aqui discutir a leitura superficial e equivocada de Tsing de Império, visto que Hardt e Negri nunca negaram a diversidade de um capitalismo contemporâneo que se define justamente por sua capacidade de funcionar por meio da modulação (ou hibridização) da heterogeneidade, não mais precisando homogeneizar o mundo em torno de grandes funções industriais e trabalho assalariado. Além disso, é inútil sugerir à antropóloga que revise sua crítica a Hardt e Negri, já que eles mesmos acabaram reintroduzindo um fora na forma de condenação do “capitalismo neoliberal e financeiro”. O que nos interessa é ver como uma crítica antropológica ancorada na catástrofe (o fim do mundo) precisa não apenas de um, mas de muitos fora (chamado “diversidade”). A alternativa não é a produção de algo novo, mas o deslizamento moral em direção a algo que seria dotado — ninguém sabe por que — de um status superior: um lingote, um padrão-ouro.

Pouco depois da publicação de Império, publiquei com Antonio Negri um livro sobre a América Latina destinado a responder justamente aos críticos que tentavam manter a perspectiva do fora (ou seja o anti-imperialismo, esse mesmo que hoje aparece como torcedor de um outro imperialismo, aquele da ditadura Russa ou Chinesa)[40]. Tentamos, assim, uma ruptura radical e neo-operaista com as diferentes variantes do terceiro-mundismo: anti-imperialismo, desenvolvimentismo e, mais geralmente, “populismo” (ou o “popular”). Em particular, tentamos focar a atenção na dupla linha de constituição da liberdade: a da luta contra a escravidão e a da migração (internacional e interna) [41]. A eliminação total do fora foi, obviamente, um escândalo insuportável. Como no caso da antropóloga, o pensamento radical precisa imperativamente de um fora. A busca do fora explica o amor por Putin ou pela China, ou seja, pelo imperialismo russo (ou chinês). Mas o pensamento radical não explica e não funda as lutas. As lutas não vêm de fora, simplesmente porque são elas que constituem o mundo. A guerra é a destruição das lutas. O principal problema dos bolcheviques é que seu pacifismo era falso: eles também guerrearam contra as lutas e, desde o início, continuaram a repressão russa à Ucrânia rebelde.

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Postal soviético celebrando os 300 anos da ‘unificação da Ucrânia com a Rússia’

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Geopolítica e realismo da razão de estado

O fora traz consigo a geopolítica e sua cínica razão de estado. Por quê? Porque o fora, ao contrário das ilusões de Tsing, nega a diferença (interna) e afirma as diversidades (externas) entre conjuntos que seriam homogêneos: superpotências, estados, civilizações, povos, economias. O fora é o retrato do clash entre civilizações. Assim, a Rússia será a Rússia, os Estados Unidos, os Estados Unidos e a Ucrânia, a Ucrânia. A Rússia terá assim as suas “razões” geopolíticas para descobrir que o desejo da grande maioria dos ucranianos de aderir à União Europeia e ter a proteção da OTAN representa uma ameaça ao seu “espaço vital” (Lebensraum). Por sua vez, os Estados Unidos que defendem o direito dos ucranianos de decidir sobre seu futuro (como armaram os curdos de Kobane) serão exatamente os mesmos Estados Unidos que realizaram inúmeras intervenções militares no Iraque, Afeganistão etc. A hipocrisia morde o seu próprio rabo enquanto o imperialismo russo massacra um país inteiro, espalhando terror por toda a Europa em meio aos aplausos do terceiro-mundismo e do pensamento decolonial. A ativista síria Leila Al Shami, já em 2018, o define como “o anti-imperialismo dos idiotas” que reduzem o imperialismo apenas às ações dos Estados Unidos[42].

A esquerda reproduz assim o modo de pensar dos teóricos do poder ou, melhor ainda, das superpotências. Não há necessidade de usar propaganda putinista ou de mobilizar as teorias do imperialismo em suas diferentes versões, bastará mobilizar os teóricos — americanos — do realismo ofensivo nas relações internacionais. Assim a entrevista de John Mearsheimer funciona como a maior legitimação da guerra de Putin assim como sua conferência de 2015 (na qual ele previu os atuais problemas da Ucrânia) será a demonstração de que o mundo é governado por relações de força entre potências e superpotências onde não há espaço para qualquer preocupação ética ou democrática. A crítica afirma ser materialista, mas é simplesmente cínica e, na maioria das vezes, apenas ignorante. Inútil dizer que a “previsão” de 2015 não “prova” absolutamente nada, pois são precisamente essas “justificativas” que produziram – junto com a propaganda russa — a guerra de Putin[43]. Militantes e intelectuais “progressistas” enchem a boca com as análises e conceitos de Mearsheimer (ou de Henri Kissinger) sobre a lógica das superpotências e suas necessidades inevitáveis. Quando questionado sobre questões éticas, Mearsheimer afirma que os Estados Unidos são tão cínicos quanto os russos. É claro que o militante que se diz progressista não se preocupará com nuances, ou seja, com o fato de o teórico do neorrealismo ofensivo defender que esses métodos e políticas sejam mesmo utilizados, ou seja, que o imperialismo russo é “compreendido” apenas porque quer que o americano se reafirme assim diante dos novos desafios (que para ele se “resumem” na emergência da China, concorrente agora capaz de comparar os Estados Unidos de igual para igual). Enquanto alegam preocupação com a “complexidade” da situação, simplificam tudo, a começar pela eliminação de suas análises, assim como fazem os realistas e neorrealistas, dos processos democráticos, neste caso a vontade dos ucranianos e as multidões de trabalho metropolitano[44].

Em seu livro mais belo, Antonio Negri reconstrói a história da outra modernidade e traça um fio vermelho alternativo, o da metafísica maldita que vai de Maquiavel a Marx, passando por Spinoza. Há outra modernidade e esta é a primeira, constituinte[45]. Países, povos, culturas, ciência não são sistemas unificados e homogêneos. Os Estados Unidos de Biden não são os mesmos de Trump e esses dois não são a América da Revolta de Minneapolis (no verão de 2020), que por sua vez não é a invasão fascista do Congresso (em 6 de janeiro de 2021). Como sempre e sobretudo como na década de 1930, os países democráticos são atravessados ​​por poderosos movimentos autoritários e diretamente ameaçados pelos países onde governam novos (como na Rússia) e velhos (como na Bielorrússia) tiranos. O trabalho da democracia é cruzar essas linhas (que nunca são tão nítidas) e inventar outras novas: evitar o absoluto e ao mesmo tempo renovar continuamente sua potência e para isso fugir do flerte com o absoluto que Negri defende, negando assim aquele fio de multiplicidade e êxodo que ele mesmo reconstrói.

Maurice Merleau-Ponty lembra que a ideia-chave do marxismo não é sacrificar valores aos fatos, a moralidade ao realismo, (mas) substituir a moralidade efetiva à moral verbal que antecede a revolução[46]. O primeiro mês da nova guerra mostrou que a revolução está do lado da resistência ucraniana. Os ucranianos não aceitam o papel que a partitura progressista lhes atribui e não são uma variável passiva: por um lado, derrubaram os planos russos de ocupar a capital em poucos dias para instalar um governo fantoche; por outro lado, também surpreenderam os países membros da OTAN, fazendo com que muitos governos europeus saíssem da espera. A luta dos ucranianos contra a escravidão russa é secular, mas suas condições foram profundamente renovadas pela revolução na praça Maidan: suas forças armadas tornaram-se capazes de expressar o desejo de resistência, assim como os ucranianos agora têm um presidente que resiste à o lado deles[47].

Ao mesmo tempo, a da Ucrânia é apenas uma batalha de uma guerra que começou durante a repressão das primaveras árabes e que hoje passa para outro nível, o da guerra total. A origem desta guerra é talvez a grande crise financeira de 2007-8. Mas não há nenhum determinismo nessa virada. Ainda podemos usar Merleau-Ponty quando disse: “a decomposição do capitalismo pode levar o mundo não à revolução, mas ao caos (e isso na medida) em que os homens não entendem a situação e não querem intervir” [48]. Intervir hoje significa ficar com a resistência ucraniana, precisamente nos termos que Etienne Balibar a define: a resistência ucraniana é uma guerra justa e a “guerra justa é uma guerra onde não basta reconhecer a legitimidade daqueles que se defendem contra um agressão (critério de direito internacional), mas em que é necessário também comprometer-se ao lado deles; e é uma guerra em que mesmo aqueles (inclusive eu) para quem qualquer guerra […] é inaceitável ou desastrosa, não têm a opção de permanecer passivos”[49]. Somente estando com o direito de resistir podemos continuar a pensar e esperar entender algo, com humildade e ética.

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Refugiados ucranianos na Polônia em protesto contra a guerra, 2022

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Notas:

[1] Sobre o cancelamento dos ucranianos, veja o belo artigo de Pierliuigi Sullo, “Il massacro della guerra e le ragioni della resistenza”, Volere la Luna, 29 de março de 2022. Disponibile in https://volerelaluna.it/opinioni/2022/03/29/il-massacro-della-guerra-e-le-ragioni-della-resistenza/. Veja também Simon Pirani, “Is this monstrous war of aggression really between two equal sides, Carta em resposta ao “Manifesto against war” publicado por End Notes https://endnotes.org.uk/other_texts/en/sergio-bologna-rudiger-hachtmann-erik-merks-karl-heinz-roth-bernd-schrader-manifesto-against-the-war

[2] Gilles Deleuze e Félix Guattari, L’anti-Œdipe. Capitalisme et schizophrénie, Minuit, Paris, 1972, p. 210.

[3] Cf. José Luis Fiori, “Mudanças a vista na geopolítica global”, Outras Palavras, 19 de fevereiro de 2022, https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/fiori-mudanca-a-vistana-geopolitica-global/, Boaventura de Sousa Santos, “A Europa e a Guerra da Ucrânia. É de perguntar se quem tem vindo a criar perturbação nessa região do mundo é a Rússia ou os USA”, Sul21,24 gennaio 2022.  https://sul21.com.br/opiniao/2022/01/a-europa-e-a-guerra-da-ucrania-por-boaventura-de-sousa-santos/. Sobre o apoio a Putin na América Latina, ver Nicolas Bourcier e alii., “Les accents pro-Poutine de la gauche latino”, Le Monde, 26 de março de 2022.

[4] Kenneth Clark, Civilisation. A Personal View (1969), Paper back, 2005, Penguin, p. 21. Niall Ferguson, Civilization, Penguin, 2011, London, pp. 302-3.

[5] Citado por Anne Fagot-Largeault, Ontologie du devenir. L’évolution, l’univers et le temps. Odile Jacob, 2021, Paris, p.104.

[6] William Marx, “Kiev appartient de plein droit aux rêves de l’Europe, mais on ne voudrait pas que Kiev n’existât que dans nos rêves : nous voulons aussi une Kiev réelle, une Kiev dans la réalité”, Le Monde, 17 de março de 2022.

[7] Sobre o encanto da tradição chinesa e sua “sabedoria” (e não da revolução maoísta), basta ler o artigo de Gabriele Battaglia, “La guerra in Ucraina vista dalla Cina”, Internazionale, 21 de março de 2022. O amor pelo tigre russo (e pelo chinês) nem precisa ser explicado.

[8] Por exemplo, o governo da Bolívia (do Movimiento al Socialismo, MAS) recusou-se a condenar a invasão russa, dando legitimidade a uma invasão que – se não for acompanhada da destruição total da independência ucraniana – tende a impedir o acesso ao mar. Agora, uma das grandes demandas da Bolívia é recuperar o acesso perdido ao mar após a guerra que o Chile lhe declarou (em 1879, durante a Guerra do Pacífico).

[9] Kenneth Clark, Civilisation, John Murray, 1969.

[10] “Competição, ciência, direito de propriedade, medicina, consumo, ética do trabalho”, Niall Ferguson, Civilization. The Six Killers Apps of Western Power, (2011), Penguin 2012, p. 11.

[11] Interessante ver como Stephen Kotkin, revisando Blood and Ruins. The Last Imperial War: 1931-1945, estabelece uma estreita ligação entre a reconquista britânica de Hong Kong (no final da Segunda Guerra) e o formidável desenvolvimento da China pós-maoísta. “The Cold War Never Ended. Ukraine, the China Challenge, and the Revival of the West”, Foreign Affairs, 2022.

[12] Cit., p. 306.

[13] Niall Ferguson, Civilization. Cit., pp. 314-5.

[14] “Observaciones críticas a la Crítica de la Revolución Rusa de Rosa Luxemburg” (1922), in Rosa Luxemburg, Crítica de la revolución rusa, tradução em espanhol (Argentina) de José Aricó, Quadrata, Buenos Aires, 2005.

[15]Ainda em 1953, Michel Foucault tentava acreditar em mais uma tese stalinista da conspiração no caso da perseguição aos “médicos judeus” (em 1952). Em entrevista a Duccio Trombadori, ele explica como ele e seus camaradas “se esforçaram para acreditar” no que os líderes do Partido lhe diziam. O filósofo francês deixará o PCF apenas em 1953, após a morte de Stalin e a negação da trama pelos sucessores engajados na desestalinização impossível. Duccio Trombadori, Entretien avec Michel Foucault, Paris final de 1978, in Michel Foucault, Dits et Écrits, II, 1976, 1988, Quarto-Gallimard, Paris, 2001, Pp. 869, 870

[16] Rosa Luxemburg, Crítica de la revolución rusa, cit., p. 80.

[17] Os editores da publicação do livro fornecem uma breve biografia das dezenas de personagens em uma nota e é uma experiência verificar como a grande maioria acabará assassinada nos vários expurgos stalinistas..

[18] Lenin pedirá que ele traduza seu livro sobre extremismo para o inglês. Proposta que Berkman rejeita.

[19] Sobre os arquivos e a URSS, cf. Alessandro Stanziani, Les entrelacements du monde. Histoire Globale, Pensée globale, CNRS, Paris, 2018.

[20] Aleksander Berkman, El mito Bolchevique. Diario 1920-1922, La Malatesta, Madrid, 2013.

[21] Cf. o dossiê sobre os 100 anos do massacre publicado pela Revista Rosa, dezembro de 2021, https://revistarosa.com/4/kronstadt

[22] “Timothy Snyder: Hier comme aujourd’hui, c’est en Ukraine que se joue la sécurité de l’Europe”, Propos recueillis par Marc-Olivier Bherer, Le Monde, 9 de junho de 2022.

[23] Polícia política bolchevique.

[24] A. Berkman, cit., p.149.

[25] Ibid., p.194.

[26] Ibid., p.195.

[27] Ibid., p.199.

[28] Berkman, cit., p. 75

[29] Ibid. p. 175.

[30] Boris Souvarine, La russie nue, (1929) Paris, Ivrea 1997, p.54.

[31] Vale lembrar que Gulag é o acrônimo de G(lavnoe) U(pravlenie) LAG(erej) “direção geral dos campos (de trabalho)”. Sobre o Gulag, além do famoso Arquipélago Gulag, vale a pena ler Varlam Chalamov, Récits de la Kolyma, Maspero, Paris, 1980. Todos esses livros circularam na URSS na forma Samizdat (clandestina).

[32] “Anne Applebaum: “Nous devons faire preuve d’une plus grande imagination contre les Russes’”, entrevista de Marc Olivier Bherer, Le Monde, 23 de março de 2022.

[33] Nos primeiros seis meses da invasão desencadeada pelos alemães em 1941, o Exército Vermelho perdeu 5 milhões de homens, incluindo 45.000 oficiais: claramente, o exército não lutou e regimentos inteiros se renderam ao inimigo. Cf. Jean Lopez e Lasha Otkhmezuri, Joukov. L’homme qui a vaincu Hitler, Perrin, Paris, 2013.p. 41. A colaboração inicial de parte dos ucranianos com os alemães não durou muito e tornou-se resistência contra as duas ocupações. Timothy Snyder explica: “A guerra era a única esperança dos ucranianos para ajudá-los a se libertar da dominação soviética”. SNYDER, Timóteo. The Red Prince (2002) tradução brasileira, O príncipe vermelho: as vidas secretas de Wilhelm von Habsburgo: de líder nacionalista ucraniano a espião na União Soviética (2008). 1ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2012. Se a colaboração com os alemães na Segunda Guerra Mundial funcionasse como justificativa para uma invasão russa, pensemos no que “deveria” acontecer com a França ou a Itália, ou ao Brasil.

[34] Antony Beevor e Luba Vinigradova, Un escritor en guerra. Vasili Grossman en el Ejercito Rojo, 1941-1945, Critica,  Barcellona, 2006, p.410.

[35] Oleg, Khlevniuk, Stalin: New Biography of a Dictator, Yale, 2015.

[36] Mykola Riabtchouk escreve “A Rússia de hoje è largamente prefigurada pela coalizão vermelho-parda do início dos anos 1990, e Putin apenas è sua encarnação, a quintessência do espírito (imperial) nacional”. “La création de Frankenstein, Desk Russie, 25 de março de 2022. Disponível in https://desk-russie.eu/2022/03/25/la-creation-de-frankenstein.html.

[37] Aqui a leitura de Timothy Snyder é importante: Ivan Ilyin, Putin’s Philosopher of Russian Fascism, The New York Review of Books, 16 de março de 2018.

[38] L’erreur de l’occident, traduzido do russo em francês, de Nikita Struve, Geneviève e José Johannet, Grasset, Paris, 1980, pp. 33-4.

[39] Anna Lowenhaupt Tsing, The Mushroom of the End of the World. The possibility of life in capitalist ruins, Princeton, Princeton, 2015. p. 65.

[40] GlobAL: Biopoder e lutas em uma América latina globalizada, Record, Rio de Janeiro, 2005.

[41] Usando como referência o grande livro de Yann Moulier Boutang, Le salariat bridé, PUF, 1999.

[42]“Anti-Imperialismo of Idiots”, Blog de Leila Al Shami. 14 aprile 2018, disponível in https://leilashami.wordpress.com/2018/04/16/el-antiimperialismo-de-los-idiotas/. Vide também Leila AL Shami, “La resistance d’Idlib”, Lundi Matin, 14 de novembro de 2019, disponível in https://lundi.am/La-resistance-d-Idlib.

[43] Isaac Chotiner, “Why John Mearsheimer Blames the U. S. for the crisis in Ukraine”, The New Yorker, 1 marzo 2022. Disponibile in https://www.newyorker.com/news/q-and-a/why-john-mearsheimer-blames-the-us-for-the-crisis-in-ukraine. Per una critica, vedi Adam Tooze, Johen Merasheimer and the Dark Origins of realism”, The New Statesman, 8 de março de 2022, disponível in https://www.newstatesman.com/ideas/2022/03/john-mearsheimer-and-the-dark-origins-of-realism

[44] Um exemplo de análise realista no calor da primeira fase da invasão russa, que inclui referências aos riscos de guerra nuclear se encontra em Emma Ashford e Joshua Shifrinson, “How the War in Ukraine Could Get Much More Worse. Russia and the West Risk Falling into a Deadly Spiral”, Foreign Affairs, 8 de março de 2022. Curiosamente, um blog da esquerda americana mobiliza o mesmo realismo: é preciso deixar os ucranianos à mercê dos russos para evitar o pior. Vide Aaron Jaffe, Zachary Levenson e Vanessa Wills, “A Hunger Within the US Left for ‘Action’on Ukraine is Driving US Astray”, Truthout, 14 de abril de 2022, disponível in https://truthout.org/articles/a-hunger-within-the-us-left-for-action-on-ukraine-is-driving-us-astray/?eType=EmailBlastContent&eId=240ba158-3526-4fe7-8657-57b540a4eade

[45] Potere Costituente. Le alternative della modernità. Sugar&Co, Milano, 1992.

[46] Sens et non-sens, Gallimard, Paris, 1966, p. 196.

[47] Para uma análise libertaria da revolução da “dignidade” da praça Maidan e da guerra que a Rússia começou logo depois, ver: War and Anarchists: Anti-Authoritarian Perspectives in Ukraine, disponível in https://de.crimethinc.com/2022/02/15/anarchistes-et-guerre-perspectives-anti-autoritaires-en-ukraine

[48] Cit., p. 100.

[49] Étienne Balibar, “A resistência ucraniana é uma guerra justa”, Tradução do francês por André Martins, Uninomade Brasil, 21 de março de 2022, disponível in https://uninomade.net/tenda/etiene-balibar-a-resistencia-ucraniana/.

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Giuseppe Cocco

Giuseppe Cocco tem graduação em Sciences Politiques – Université de Paris 8 (1984), graduação em Scienze Politiche – Università degli Studi di Padova (1981), mestrado em Science Technologie et Société – Conservatoire National des Arts et Métiers (1988), mestrado em História Social – Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1986) e doutorado em História Social – Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1993). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Pós-Graduação da Escola de Comunicação e do Programa em Ciência de Informação (ECO-Ibict), Pesquisador 1C do CNPq, Cientista do Nosso Estado (Faperj), é editor das revistas Lugar comum e Multitudes (Paris).