Humildade e bem comum

por Denis Coitinho

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A pandemia da covid-19 deixou muito claro para nós que não fomos preparados para pensar e agir em prol do bem comum e isso é uma grande lacuna quando enfrentamos grandes crises. O problema moral central revelado por essa crise sanitária global é que ela demandou um tipo de solidariedade e justiça inexistente em sociedades com grandes desigualdades sociais e econômicas, como é o nosso caso, como podemos ver pelos problemas de aumento do desemprego e diminuição de renda de uma parte substancial da população, falta de acesso à tecnologia e à escola por muitos alunos da rede pública, assim como na negativa em seguir regras básicas de distanciamento social, uso de máscaras e vacinação por um conjunto muito expressivo de pessoas. Essa crise ao invés de mostrar um forte senso de comunidade fundado na ideia de obrigação mútua e sacrifício comum, revelou um egoísmo quase sem precedente em nossa história em razão de certos requintes de crueldade com o descaso aos outro.

De forma similar, a crise ambiental global que estamos vivendo, com a poluição do ar e mudanças climáticas, desmatamento em larga escala, perda da biodiversidade, degradação do solo, elevação do nível do mar e superpopulação, por exemplo, evidenciam que temos responsabilidades comuns com a continuidade da vida humana no planeta Terra e que apenas reivindicar direitos individuais não será suficiente para evitar uma catástrofe já bastante anunciada. Onde precisaríamos do uso consciente de recursos naturais e uma preocupação mais consistente com a sustentabilidade ambiental, vemos apenas consumismo e um descaso generalizado com o comportamento sustentável. Em que pese os avanços trazidos pelos compromissos firmados na COP26 em Glasgow, com a meta de limitar o aquecimento global a 1.5º, reduzindo as emissões globais de CO2 em 45% até 2030, a forma de vida baseada na interconexão de produção-consumo em nível mundial ainda não foi minimamente questionada, a saber, o modelo econômico globalizado, o que parece revelar uma grande dificuldade em pensarmos na solução de nossos problemas para além da ótica dos bens e direitos privados.

Sem descuidar das mudanças estruturais necessárias, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, penso que é imperativo refletir sobre a responsabilização pessoal, investindo num conjunto de virtudes relevantes que nos ajudariam a enfrentar esses problemas comuns. Em outros ensaios, já tematizei sobre o valor da prudência, integridade, justiça, autonomia, generosidade, entre outras. Nesse texto em tela, quero defender a relevância da humildade como uma forma de conectarmos nossos interesses privados com os interesses e preferências dos outros agentes.

A palavra humildade vem do grego aidós e do latim humilitas e é tomada geralmente como uma virtude que consiste em reconhecer as próprias limitações e fraquezas e agir a partir dessa consciência. Tem uma forte relação com a qualidade moral dos agentes que não procuram se projetar sobre as outras pessoas, nem tentam parecer superior a elas. Nesse sentido, a humildade estaria circunscrita em como nós nos relacionamos com as nossas próprias boas qualidades. Ela seria uma virtude por poder ser interpretada como uma disposição para ter o sentimento apropriado do nosso próprio valor em relação aos outros e isso seria desejável por garantir a felicidade. Assim, ela seria uma disposição para moderar nossa importância, status, bens e capacidades em relação aos outros. Como bem dito por Slote, em Goods and Virtues (Oxford: Clarendon Press, 1983), a humildade seria uma espécie de corretor da tendência humana geral em ter uma consideração muito elevada de si mesmo, isto é, como uma autoconsideração acurada, como uma forma de reconhecer o valor moral igual das pessoas (1983, p. 61-62).

Embora seja controverso tomar a humildade como uma virtude, uma vez que o próprio Aristóteles tomava aidós mais como um sentimento do que uma disposição, ao dizer que a modéstia não seria uma virtude (Ética Nicomachea 1108a32 e 1128b10-35), e ao considerar que Tomás de Aquino, inclusive, tomava a modéstia e a humildade como tipos de temperança, como importantes em razão de deixar o agente aberto à graça divina (Summa Theologica 2.2 Q.160 e 161) — além da consideração de Hume, que via a humildade como uma virtude monástica e não propriamente moral —, vamos tomá-la como uma disposição do agente para não inflar o seu próprio valor frente aos outros, o que implicará em um tipo de reconhecimento sobre o valor moral e epistêmico igual das pessoas, e isso parece central para alcançarmos o bem comum tão necessário.

Em um contexto epistêmico, por exemplo, a humildade tem a ver em como nós nos relacionamos com a verdade ou racionalidade de nossas próprias crenças ao invés de ter uma preocupação com as boas qualidades de uma forma geral. Uma discussão sobre humildade epistêmica parece envolver o como nós nos relacionamos com as nossas próprias crenças, concepções e julgamentos. Por exemplo, um acadêmico que demostra humildade intelectual não teria problema em reconhecer certos erros que seriam apontados para uma dada teoria que ele defende, bem como não teria problema em modificar a sua própria posição. De forma similar, esse acadêmico com humildade intelectual revelaria uma disposição para não inflar a preocupação com o seu próprio status acadêmico, isto é, o seu valor acadêmico atribuído pela comunidade da qual faz parte, tendo por foco central em sua atuação a busca pela verdade. Dito de outro modo, a humildade intelectual desse acadêmico o impediria de ser tanto arrogante como vaidoso, quer dizer, o impediria de agir como o detentor exclusivo da verdade, bem como o impediria de inflar a sua própria importância (valor) no interior da comunidade acadêmica, respectivamente.

Por outro lado, em um contexto moral, a humildade será uma disposição do agente para evitar tanto a vaidade como a arrogância, assim como para evitar o egoísmo, a hiper-autonomia, a grandiosidade, a pretensiosidade e até mesmo o esnobismo, entre outros vícios, de forma a ser entendida como uma qualidade moral do agente de não se projetar sobre as outras pessoas e nem tentar ser superior a elas. Isso parece envolver claramente um reconhecimento de nossa igualdade, em que pese as nossas muitas diferenças, seja em atitudes, intenções e mesmo nos resultados de nossas ações. Assim, podemos compreender a virtude da humildade como uma disposição para não inflacionar a nossa própria excelência, de forma a exigir um tratamento especial, sendo melhor entendida como uma disposição para reconhecer nossas imperfeições morais, uma vez que estamos igualmente expostos à fraqueza e aos vícios. Dessa forma, ela nos possibilitaria reconhecer nossas limitações e nossa insignificância relativa, mas sendo consistente com um orgulho saudável, considerando que seu cultivo nos torna seres humanos melhores por nos permitir uma abertura aos outros, aos seus valores, ideias e até mesmo realizações, sem um sentimento de superioridade.

Como defendido corretamente por Jennifer Cole Wright em Humility (Oxford: Oxford University Press, 2019), a humildade é uma virtude fundacional, uma vez que ela é necessária para o completo desenvolvimento e exercício de outras virtudes, como é o caso da coragem, generosidade, honestidade, paciência e delicadeza, entre outras, promovendo emoções positivas de empatia, compaixão e amor, facilitando os laços sociais e nos conectando mais apropriadamente com a vastidão e a complexidade do mundo que nos cerca. Ela é uma virtude essencialmente relacional, agregando estimativas de diversas relações, em tempos diferentes e em diferentes perspectivas, contribuindo para o reconhecimento tanto de nossas limitações como do valor dos outros, nos orientando claramente em direção aos outros agentes e nos lembrando a todo momento que não somos o centro do universo (2019, p. 146-174). E, por isso, ela parece tão central como padrão normativo em nossa busca do bem comum.

Agora, como adquirir essa virtude? Em que pese a importância das práticas espirituais já utilizadas pelo catolicismo, budismo e judaísmo visando o cultivo da humildade, bem como com a relevância das experiências que procuram nos deslocar de nossa centralidade natural, tal como se confrontar com os problemas dos outros (doenças, mortes, pobreza)  ou mesmo se confrontar com a vastidão do mundo, penso que uma estratégia interessante seja problematizar a meritocracia, a considerando como um sistema de hierarquização e premiação baseado nas qualidades pessoais, desmitificando a ideia de que o mérito seria uma condição suficiente para o sucesso. No momento em que reconhecermos que há uma série de fatores aleatórios ao nosso esforço e disciplina que influenciam fortemente no resultado de nossas ações, creio que isso nos auxiliaria a melhor compreender as limitações humanas, nos ajudando a cultivar a virtude da humildade, bem como contribuindo para formular políticas públicas adequadas para lidar melhor com a sorte.

Um texto recente que nos auxilia a refletir sobre esse tema, penso, é a A Tirania do Mérito, de Michel Sandel, publicado no Brasil pela Civilização Brasileira, em 2020. A tese central do livro é tomar a meritocracia tóxica como um dos nossos grandes problemas sociais, pois ela gera traços comportamentais indesejáveis, gerando, nos vencedores, arrogância, falta de solidariedade e vaidade e, nos perdedores, humilhação e ressentimento. O motivo para tal é que em uma economia tecnocrática e globalizada, em que o próprio mercado consumidor é concebido como o bem público, há uma diminuição da mobilidade social e isso em razão, sobretudo, da disparidade mundial em termos de inovações tecnológicas. O problema é que em uma sociedade desigual e meritocrática, aqueles que alcançam o topo querem acreditar que seu sucesso tem uma justificativa moral, uma vez que a conquista do sucesso viria através do esforço e talento. Mas, isto é apenas aparente, pois aquele que é bem-sucedido depende fortemente dos aspectos aleatórios que o auxiliam, como o esforço familiar, as condições cognitivas herdadas e mesmo as expectativas sociais que determinam os critérios de seleção nas Universidades e empresas. Além disso, os que fracassam se sentem culpados por não terem obtido sucesso. Por exemplo, para quem não consegue entrar em certa Universidade de prestígio ou não consegue um certo emprego de destaque, é difícil escapar do pensamento desmoralizante de que não tem talento nem esforço suficiente para vencer. Para Sandel: “(…) quanto mais pensamos em nós como pessoas que vencem pelo próprio esforço e são autossuficientes, mais difícil será aprender a ter gratidão e humildade. E sem esses sentimentos, é difícil se importar com o bem comum” (2020, p. 23). Após o diagnóstico, alternativas são sugeridas, tais como o sorteio das vagas nas Universidades e adoção de mecanismos para garantir a dignidade do trabalho, como a desoneração da folha de pagamento.

Deixem-me abordar duas situações recorrentes já mapeadas pela psicologia e pela sociologia que nos ajudam a desmitificar a ideia geral de meritocracia, a saber, o Efeito Halo e o Efeito Mateus. O efeito halo (áurea), cunhado pelo psicólogo Edward Thorndike (A Constant Error in Psychological Ratings, 1920), mostra que criada uma primeira impressão global sobre uma pessoa, temos a tendência para captar as características que vão confirmar essa impressão. Trata-se de uma tendência de expandir nossa avaliação de uma característica particular de uma pessoa, por exemplo, ser alta ou atraente, para outras características, como ser inteligente ou confiável. Por exemplo, avalia-se o desempenho de certo funcionário de forma positiva em razão do avaliador simpatizar com a pessoa avaliada ou avalia-se alguém com um emprego com alto salário como alguém perseverante, disciplinado, focado etc. Já o efeito Mateus, assim como classificado pelo sociólogo Robert Merton (The Matthew Effect in Science, 1968), demonstra que o sucesso no início da carreira de alguém dá ao agente certas vantagens estruturais que o auxiliam no seu sucesso posterior, e isso independente de suas aptidões intrínsecas. Na ciência, por exemplo, jovens cientistas que são empregados em universidades com muito prestígio, conseguem com mais facilidade bolsas de pesquisa e publicações de artigos que seus colegas que estudaram em universidades piores classificadas. Essa desigualdade se daria pela vinculação da pessoa com uma Universidade de ponta, não estando necessariamente ligada ao empenho diferenciado do agente. Creio que não seja difícil imaginar as consequências injustas dessas circunstâncias em uma sociedade racista, sexista e classista como a nossa.

O ponto central revelado por esses dois vieses cognitivos é a melhor compreensão de que o sucesso e o fracasso dos agentes não são inteiramente dependentes de seu esforço e talento. Ser branco ou negro, rico ou pobre, homem ou mulher, gay ou heterossexual, ter estudado em uma escola privada ou pública, ter tido apoio familiar ou não, entre outras oposições usuais, influenciam consideravelmente para uma vida bem-sucedida. E, por isso, uma concepção mais adequada de bem comum deve levar em conta esses aspectos exteriores à nossa disposição e ação, o que pode nos conduzir a uma perspectiva cívica dos bens coletivos, nos possibilitando um maior estreitamento em nossos laços sociais. E uma concepção cívica do bem comum, assim como a concebida acertadamente por Sandel na obra já referida, não seria apenas a maximiazação do bem-estar dos consumidores, mas deveria ser “uma questão de refletir de forma crítica sobre nossas preferências […], de tal maneira que possamos viver uma vida digna e próspera”, exigindo uma deliberação comum acerca de como fazer uma sociedade justa e boa funcionar, “uma que cultive a virtude cívica e nos possibilite raciocinar juntos sobre os propósitos dignos de nossa comunidade política” (2020, p. 303).

Nossa conclusão, então, é que devemos refletir sobre o que conta para o bem comum e o que devemos uns aos outros enquanto cidadãos, isto é, enquanto membros da mesma comunidade econômica, moral e política. Talvez isso nos revele que não podemos separar radicalmente nossos interesses pessoais dos interesses grupais, por isso a urgência da virtude da humildade em nosso mundo atualmente. Quem sabe essa nova compreensão de nossa responsabilidade pessoal e cidadã possibilite termos ainda um futuro.

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(Johann Michael Rottmayr, Allegorie der Demut)

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Denis Coitinho

Denis Coitinho é professor do PPG em Filosofia da Unisinos e Pesquisador do CNPq. Doutor em Filosofia pela PUCRS, com pós-doutorado na London School of Economics e na Universidade de Harvard. É autor de Justiça e Coerência e Contrato & Virtudes, ambos por Edições Loyola.