Impacto sistémico e oportunidade estratégica de uma nova crise

por Sónia Ribeiro

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A pandemia que se encontra em manifestação por todo o mundo levou muitos países à proclamação do estado de emergência, a sociedade em confinamento, e a economia, na verdade, grande parte das economias mundiais, em lockdown.

Enquanto em alguns países a situação continua em desenvolvimento e estas medidas em aplicação, noutros começa a tentar-se voltar a alguma normalidade, e depois da suspensão quase total do funcionamento das economias, começamos, também na Europa, a ‘desconfinar’ gradualmente a sociedade, com a autorização às empresas de reinício das suas atividades, também gradual e sob muitas limitações e condições sanitárias.

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(Foto: Matteo Corner/EPA-EFE/Shutterstock)

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As preocupações com os danos que este lockdown provocou, sobretudo em economias frágeis, ainda a tentar recuperar da crise que de 2008-09, adensam-se, e tentamos compreender de alguma forma as condições de recuperação pós-crise e quais os impactos em sistemas multilaterais complexos e cumulados de contradições e fragilidades como o é o da UE e em particular da zona euro.

Naturalmente, é ainda muito cedo. Cedo para perceber qual a extensão da crise que enfrentaremos agora; cedo para conseguir descortinar um padrão expectável para a sua evolução; cedo para compreender as múltiplas dimensões de que se revestirá. Mas parece haver já algum consenso entre os economistas: à semelhança da crise de 2008. a crise da COVID-19 constitui um choque económico severo que ameaça profundamente o nosso bem-estar económico. Como a crise de 2008-09, a COVID 19 afeta quase todos os países do mundo economicamente, e é um fenómeno sistémico, mas obviamente não é uma crise financeira como a crise de 2008.

Incerteza é de novo a palavra chave, tanto quanto ao impacto final da crise na economia global, como quanto ao momento de uma recuperação, como reconhece o FMI, mas já se antevê que podemos estar a assistir à pior contração económica em um século, uma recessão global causada pela emergência sanitária causada pelo surto da COVID-19, e que pode transformar-se numa crise sistémica em larga escala.

O avanço de Abril do Relatório do FMI sobre Estabilidade financeira global – Global Financial Stability Overview: Markets in the Time of COVID-19, cujo relatório completo se espera em Maio, começa a mostrar alguma claridade sobre o cenário a curto prazo: “em apenas três meses, as perspetivas para 2020 mudaram de um crescimento esperado de mais de 3% globalmente para uma forte contração negativa de 3% – muito pior do que a perda de produto observada durante a crise financeira global de 2008-09”, e “representa uma ameaça muito séria à estabilidade do sistema financeiro global.”

Segundo a OIT, 81% da força de trabalho teve os seus locais de trabalho total ou parcialmente fechados. Alguns dados dão-nos ainda uma imagem mais forte da dimensão do problema: segundo a informação da OCDE de início de abril, em março, nos Estados Unidos, o desemprego disparou, com o número de novos requerentes de benefícios de desemprego a subir para 6,6 milhões na semana que terminou em 28 de março – mais de vinte vezes mais do que na semana que terminou em 14 de março. Dados disponíveis em outros países apontam para uma deterioração semelhante: na Áustria, o número de pessoas que se registaram no serviço público de emprego aumentou mais de dois terços, e na Noruega os níveis de desemprego registados quintuplicaram. No Reino Unido, o desemprego é o maior desde há 30 anos – acredita-se que atinja 15% da força de trabalho.

Numa vídeoconferência promovida pela Universidade de Oxford no final da primeira quinzena de Abril, Dimitrios Tsomocos reafirmava o carácter desta nova crise, sublinhando que “esta crise não tem precedentes. Nunca vimos uma igual – temos um choque combinado de oferta que criou um choque de procura que, eventualmente, migrará para uma crise bancária e financeira. Além disso, isso pode ter importantes consequências geopolíticas. De facto, temos todos os ingredientes de uma tempestade perfeita” – referiu.

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Dimitrios Tsomocos (Reprodução)

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Em termos geopolíticos, esta crise apresenta de facto fatores potencialmente disruptivos. O impacto – que se espera profundo – nos países em desenvolvimento poderá levar, de acordo com a ONU, a um retrocesso de 30 anos nos níveis de pobreza. Mas os equilíbrios geopolíticos entre as grandes potências sofreram também um abalo que alguns afirmam ser estruturante do novo mundo que virá aí.

Comprando a crise provocada pela COVID-19 às provocadas pela queda do Muro de Berlim ou o colapso do Lehman Brothers, a Foreign Policy lançou a 12 analistas de todo o mundo que ponderassem sobre a ordem global após a pandemia e partilhassem os seus cenários. Neste exercício, se algo de comum une os especialistas, é que a crise, que perturbou mercados e expôs a competência (ou a falta dela) dos governos, levará a mudanças permanentes no poder político e económico de maneiras que se tornarão visíveis apenas mais tarde. Alguns traços dessa novíssima ordem mundial podem, no entanto, ser desde já ponderados.

O aumento exponencial do desemprego, focado sobretudo nos jovens e nos menos qualificados, levará provavelmente a um reforço do Estado e reforçará o nacionalismo, favorecendo a opção por políticas protecionistas e aumentando as dificuldades dos modelos centrados em organizações multilaterais, em crise desde há alguns anos. Esta crise veio confirmar que em situações de grave crise, é para o poder do Governo que as sociedades se voltam e do sucesso ou insucesso dos Governos em superarem a pandemia e darem resposta aos seus efeitos na economia dependerá a evolução do papel do Estado no futuro.

A experiência até agora mostra que de facto foram as democracias quem melhor lidou com a pandemia, reforçando a credibilidade do modelo face às respostas menos conseguidas pelos países dirigidos por líderes populistas ou autoritários. Mas dependendo da capacidade de reagir e superar a crise económica, o modelo democrático poderá ser colocado sob stress reforçado. Por outro lado, os governos, de todos os tipos, adotaram medidas de emergência para gerir a crise que permitiram um maior controle da sociedade, e dos meios de comunicação, ainda que em níveis e extensão diferenciados, e ponderam agora meios de vigilância eletrónica que até há três meses eram considerados instrumentos de repressão social próprios de regimes autoritários… o modelo democrático sobreviverá na medida em que estes governos sejam mais ou menos relutantes a renunciar a esses novos poderes quando a crise terminar.

A globalização, como conhecida, sofrerá alterações estruturais, na continuidade acelerada de algumas tendências que se vinham desenvolvendo e que as decisões dos principais players mundiais nestes últimos três meses podem ter acelerado. Com efeito, para alguns especialistas, esta crise deverá acelerar a mudança que já tinha começado da globalização centrada nos EUA para uma globalização mais centrada na China. O crescente poder económico e militar da China já tinha levado a uma divisão partidária nos EUA para afastar a China da alta tecnologia e propriedade intelectual de origem americana, e à tentativa de forçar os aliados a seguir o exemplo.

Kori Schake, vice-diretor geral do International Institute for Strategic Studies (Reino Unido), afirma mesmo que os EUA deixarão definitivamente de ser vistos como líderes internacionais na sequência da gestão que têm feito da crise e das opções que têm sido tomadas pelo seu presidente que, para o especialista, falhou no teste da liderança global.

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Kori Schake (Reprodução)

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Por outro lado, o aumento da pressão pública e política para cumprir os objetivos de redução de emissões de carbono e a perda de emprego sentida especialmente em economias maduras;  assim como a pressão económica, com o aumento dos custos da mão de obra chinesa; a guerra comercial levada a cabo pelo presidente dos EUA, Donald Trump; e os avanços em robótica, automação e impressão 3D, já tinham posto em causa a dependência de muitas empresas de cadeias de abastecimento de longa distância.

Mas a COVID-19 está também a minar os princípios básicos da produção global ao quebrar muitas ligações estratégicas dos negócios demonstrando claramente as fragilidades do modelo: o fecho de fábricas em áreas afetadas deixou outros fabricantes e comerciantes sem stocks e produtos ainda antes das decisões de lockdown chegarem aos países ocidentais, levando as empresas a repensar seriamente e a encolher as cadeias de fornecimento multinacionais que têm dominado a produção nas últimas décadas.

O reconhecimento de que as cadeias de abastecimento e as redes de distribuição globais são profundamente vulneráveis a disrupções é, aliás, apontado como o choque fundamental para o sistema financeiro e económico mundial que emerge da crise que alguns apelidam já, por analogia com a crise de 1929, The Great Lockdown.

A globalização criou o sistema justintime, permitindo às empresas baixar custos com mão-de-obra e evitar os custos de armazenagem. A COVID-19 provou que todo o sistema just-in-time está assente em pressupostos frágeis e facilmente disruptíveis.

Apesar de tudo o que ficou explicito, parece haver ainda espaço para considerar que este ainda não é o fim do mundo interconectado, de que a própria pandemia é prova. Assistiremos certamente a mudanças relevantes.

O novo normal não será uma continuação após um maior ou menor interregno, mas esta crise reforça a tendência fundamental das últimas décadas: as tecnologias do século XXI são globais, não apenas do ponto de vista da distribuição, como das suas consequências. Nenhuma das ameaças que justificavam em fevereiro de 2020 a defesa de modelos de cooperação global desapareceu com a pandemia em março, nem vai desaparecer. Aquilo a que nos habituámos a chamar de “as novas ameaças”, os “atores erráticos do sistema internacional”, as redes criminosas internacionais de tráficos de pessoas, de bens e de informação, continuam para além da pandemia, e continuarão a exigir respostas comuns e soluções partilhadas.

Como na gestão, controle e combate à pandemia, também no que respeita à crise económica por ela provocada e para todas as outras crises e ameaças globais que teremos de enfrentar no futuro, há um apelo a uma resposta coordenada internacionalmente; é do interesse de todos os países pensar e agir globalmente.

Se de alguma coisa podemos ter certeza neste mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo, é de que esta não será a última crise global. Assistiremos nos próximos anos, décadas, a outras pandemias, à aceleração das mudanças climáticas e desaparecimento de biodiversidade; a crises locais e regionais, ambientais, económicas, políticas e de segurança. Em todas elas, as sociedades serão o ponto essencial, e será fundamental antecipar de alguma forma, e compreender, até que ponto e de que maneira essas crises mudarão as sociedades, a sua forma de organização política e o modelo de relacionamento internacional global.

O mesmo se aplica hoje ante a crise sistémica que se adensa. Não seria a primeira vez que uma crise provocaria reformas estruturais na ordem económica nacional e internacional como aconteceu após a crise de 1929-45. Torna-se essencial, hoje de novo, olhar para além do curto prazo, e refletir no longo prazo desenhando hoje o(s) modelo(s) do sistema político, económico e social – e tecnológico em que a humanidade viverá nas próximas décadas.

Como a história do século XX ilustra – e na Europa de forma evidente –, uma crise nunca tem uma via única de resolução. O futuro reconstrói-se após cada crise, quando novas oportunidades se abrem para a reinvenção com a criatividade e o livre arbítrio que só a humanidade tem para decidir como o quer moldar.

O essencial, como colocou Jürgen Zattler, diretor executivo do Banco Mundial em representação da Alemanha, é nunca desperdiçar uma crise naquilo que ela traz de oportunidade de construção de um novo – e, espera-se, melhorado – capítulo na história da humanidade.

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(Unicef)

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(Este ensaio é mais um fruto da parceria institucional entre o Estado da Arte e o Instituto de Estudos Políticos, da Universidade Católica Portugesa.)

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Sónia Ribeiro

Sónia Ribeiro é Doutorada e Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus da Universidade Católica Portuguesa e Licenciada em Relações Internacionais (1997) pela Universidade Lusíada do Porto É Professora Convidada do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Coordenadora da Linha de Investigação em Assuntos Marítimos, desde 2011. Desde 2014 coordena também o Programa Avançado em Estudos do Mar deste Instituto.