Os rostos

por Juliana Amato

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A legenda explicava que era Paulo Roberto, de Carapicuíba, São Paulo. O “santo” — assim entre aspas — sem rosto. Na infância, Paulo Roberto fora acometido por um câncer de pele muito agressivo, que fazia o seu corpo exalar um cheiro podre. A cabeça precisava ficar coberta por um véu para que as moscas não pousassem, prevenção que às vezes falhava, e elas pousavam e botavam ovos que viravam larvas e se reproduziam na carne. O sofrimento era imenso, mas o homem conservava uma serenidade inexplicável. Foi encontrado pelos padres da Aliança da Misericórdia e tornou-se parte da comunidade.

Ainda segundo a legenda — não é possível encontrar muitas informações além  destas — Paulo Roberto era um místico: contou aos padres que na infância Jesus lhe perguntara se ele estaria disposto a sofrer. Sua resposta foi “sim”, ele estava disposto a abraçar a cruz. Aos poucos foi ficando desfigurado, cego, e faleceu aos dezenove anos de idade.

Frequentou alguns encontros da Aliança e dava o seu testemunho com alegria, fazendo que muitas pessoas abandonassem os vícios e abraçassem uma nova vida de fé. Paulo Roberto sofria muito, mas persistia, e o não rosto, o cheiro repulsivo, a alegria contagiante transformaram a vida daqueles que ousaram aproximar-se e ouvir e observar de perto.

Antes de morrer, o jovem pediu à mãe que no caixão seu rosto fosse coberto com um pano no qual deveria estar escrito: “Rosto de Deus deformado pela dor, transfigurado pelo amor”; e quando, no velório, o caixão foi aberto, o cheiro podre foi substituído por um suave perfume de rosas.

Paulo Roberto deixou um testamento repleto de anotações comoventes sobre a fé, a vida e o sofrimento. O que parecia uma maldição tornou-se uma bênção e uma missão, uma dádiva de Deus — assim ele o chamava — “pela remissão dos pecados daqueles que ainda não O conhecem, ou dos que conhecem mas preferiram seguir a vida oferecida pelo mundo e seus prazeres”. Como se ele fosse um instrumento infalível: é impossível ficar indiferente à imagem de Paulo Roberto; e seria, portanto, igualmente impossível não comover-se, não dar ouvidos ao que a sua alma tinha a manifestar.

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Na primavera de 1960, a escritora americana Flannery O’Connor recebeu uma carta com uma mensagem curiosa. A remetente era a Irmã Evangelista, madre superiora de um hospital que atendia pacientes com câncer, e contava a história de uma menina chamada Mary Ann que chegara ao hospital aos três anos de idade, em 1949. A menina havia nascido com um tumor de um lado do rosto, perdera um olho e ficara com a face permanentemente deformada. Vivera até os doze anos no hospital em companhia das freiras e sempre mostrara-se uma criança extraordinária.

No fim da carta, um pedido: havia muito a dizer sobre a vida daquela garotinha e sobre os nove anos que ela viveu no hospital, já que o contato com a sua presença nunca passava desapercebido e todos eram, de alguma forma, influenciados por sua doçura — pacientes, visitantes, médicos, freiras. Irmã Evangelista pedia a Flannery — a ela, que era uma escritora assumidamente católica e relativamente famosa — que escrevesse “…uma história que tivesse um impacto sobre a vida das pessoas assim como o impacto que a própria Mary Ann exercia sobre cada vida que cruzava o seu caminho”. Especificava, também, que a vida da menina deveria ser escrita em forma de romance, e não como testemunho factual, e que os personagens poderiam não ser muito detalhados e particularizados, mas orbitar no entorno da figura principal de Mary Ann.

Flannery O’Connor conta essa história em “Introduction to A memoir of Mary Ann”, texto que está em sua reunião não ficcional Mistery and Manners. Nele, a autora conta que de início negara a proposta mentalmente — “Um romance, pensei. Que horror” —, mas que, quando foi juntar os papéis para responder à madre, não conseguia parar de olhar a foto que irmã Evangelista anexara à carta:

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Peguei [a fotografia] para dar mais uma olhada antes de devolvê-la às Irmãs. Nela havia uma garotinha em seu vestido e véu de Primeira Comunhão. Estava sentada em um banco, segurando algo que não consegui identificar. Seu rosto pequeno era liso e reluzente, de um lado. O outro lado era protuberante, o olho, enfaixado, o nariz e a boca levemente deslocados. A criança olhava para o seu observador com alegria e serenidade. Continuei encarando a foto ainda por muito tempo depois de achar que já a tinha visto.

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Flannery respondeu à Irmã Evangelista que uma história como a de Mary Ann deveria ser contada como testemunho, exatamente como aconteceu, sem qualquer intervenção ficcional. Para se isentar da tarefa, já que não gostava nem um pouco da ideia de uma história piedosa sobre uma criança piedosa, concluiu dizendo que as pessoas mais indicadas a fazê-lo seriam as próprias irmãs, que conviveram com a menina e viram de perto a beleza que ela irradiava naquele pequeno e restrito universo. Disse também que estava disposta a ajudar na edição do texto assim que este ficasse pronto; em seguida, voltou a atenção aos próprios escritos imaginando que levaria muito tempo para que aquelas atarefadas religiosas, que cuidavam de tantos enfermos, conseguissem registrar tudo o que planejavam. Para encerrar essa parte da história: as irmãs enviaram uma primeira versão, Flannery editou o texto tentando “salvá-lo” na medida do possível e remeteu-o a um editor conhecido, apostando com as irmãs um casal de pavões que o manuscrito nunca sairia da gaveta. Os pavões viraram a principal atração do hospital.

Na mesma introdução, a autora desenvolve uma reflexão sobre a face do Mal e lembra que estamos familiarizados com ela, que frequentemente nos sorri de volta do espelho. No entanto,

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poucos encaram [o bem] tempo suficiente para aceitar o fato de que a sua face também é grotesca, que em nós o bem é algo em construção. Os modos do mal normalmente adquirem uma expressão digna. Os modos do bem têm de se satisfazer com clichês ou ser atenuados, suavizando a sua aparência real. Quando olhamos a face do bem podemos ver um rosto como o de Mary Ann, repleto de promessas.

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No dia 14 de novembro foi divulgada a notícia de que o designer Átila Soares da Costa chegara a uma imagem que reproduzia o rosto de Maria, mãe de Jesus. Ele integrou a imagem do rosto de Jesus impressa no Sudário de Turim — amplamente aceita pela tradição e pela ciência — às mais modernas tecnologias de inteligência artificial, e o resultado de sua reconstituição foi impressionante e ganhou fama em todo o mundo.

Átila conta que o seu interesse pelo paleocristianismo, ou cristianismo primitivo, vem desde a infância e que os estudos para chegar à imagem do rosto de Maria duraram cerca de quatro meses. Se Maria era a mãe carnal de Jesus, é muito provável que se parecesse com o seu Filho, e uma breve explicação sobre a porcentagem de DNA materno e a doutrina da Imaculada Conceição esclarece por que, na reconstrução, foi usada a imagem do rosto de Jesus divulgada em 2010 a partir da impressão no Sudário que pertenceu ao Filho de Deus. Ele explica :

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Pegando esse rosto como base, fiz várias experimentações com softwares de inteligência artificial e alta tecnologia de redes neurais convolucionais para mudança de gênero. A seguir, outros programas para ajustes faciais e, finalmente, alguns retoques artísticos manuais de minha parte — a fim de melhor definir uma fisionomia étnica e antropologicamente feminina da Palestina de dois mil anos atrás — obviamente, sem tanto comprometer o que a inteligência artificial já me havia entregue em sua estrutura. Então, com a mesma tecnologia pude chegar à adolescência da Virgem, quando, supostamente, teria dado à luz.

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Não pretendo entrar na discussão sobre o processo de reconstituição do rosto de Maria ou sobre sua legitimidade e adequação de acordo com os dogmas ou a tradição. Lembrei da notícia porque eu mesma não conseguia tirar os olhos daquele rosto — belo, sereno e perfeito, oposto aos outros rostos deste texto. Voltei algumas vezes à aba em que guardei a matéria para olhar e sorrir de volta para Maria, e na famigerada sessão de comentários, assim como nas redes sociais, li que muitas pessoas acharam o mesmo.

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Naquele domingo não consegui ir à Missa. Chovia muito forte no trajeto que costumo fazer em 14 minutos, de bicicleta, ou em 50, caminhando. De carro leva menos de dez, mas naquele horário, naquele endereço e naquelas condições nenhum motorista do aplicativo aceitava a minha corrida. Fui tentando até perceber que, se insistisse, chegaria vergonhosamente atrasada.

“Tudo bem, posso assistir à transmissão virtual” — e comecei a assisti-la, mas antes da primeira leitura a conexão da Paróquia caiu. Fui caçar algo no YouTube entre alguns canais que sigo. No início da homilia, o padre diz: “O rosto de Deus é o rosto de sua misericórdia”. Meu rosto se ilumina.

Na segunda-feira, sem razão aparente (haverá acaso?), recebo de um amigo um trecho do livro do profeta Daniel (9, 17-18): “Faz brilhar teu rosto sobre teu santuário devastado”.

Volto ao texto de Flannery O’Connor, quando ela diz que a deformidade de Mary Ann serve para lembrar como funciona a misericórdia divina: “Essa ação por meio da qual a caridade cresce invisível à nossa volta […] é uma comunhão criada sobre a imperfeição humana, criada a partir do que fazemos de nosso estado grotesco”.

Volto também à história de Paulo Roberto, que passou a vida a lembrar da necessidade de enxergarmos a Deus nos rostos dos que sofrem — e que, se não o conseguirmos, tampouco enxergaremos a Deus em sua glória.

Volto à minha vida normal e espero não conseguir mais enxergar os rostos como antes.

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“Few have stared at that long enough to accept the fact that its face too is grotesque, that in us the good is something under construction.”

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Juliana Amato

Juliana Amato é escritora, tradutora e editora de textos. Autora de Brevida (Edith, 2011), Correspondência (Publicações Iara, 2014), e de tudo o que está em http://juliana-amato.com.