A tragédia de Júlio César

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A Segunda Cena do Terceiro Ato da Tragédia de Júlio César, de William Shakespeare. Londres, 1599 d.C.
Tradução de José Francisco Botelho para a Companhia das Letras.

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Henry Fuseli, ‘The Death of Brutus’, c. 1785

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Nos Idos de Março o líder do partido dos populares, Gaius Julius César — nomeado tribuno e ditador vitalício da República após pôr fim à Guerra Civil, autointitulado “Prefeito dos Costumes”, e conclamado “Pai da Pátria” e Imperador pelo Senado e pelo Povo de Roma (Senatus Populusque Romanus) —, é assassinado por 60 colegas com 23 facadas numa sessão da Casa no Capitólio, o templo da diviníssima trindade: Júpiter, Juno e Minerva.

Após entregar o cadáver ao imediato de César, o general Marco Antônio, os líderes da conspirata, Bruto e Cássio, vão ao Fórum.

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Entra Bruto e depois vai ao púlpito, e também
entram Cássio e os Plebeus.

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PLEBEUS
Queremos explicação! Exigimos explicação!

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BRUTO
Então, venham comigo e me ouçam, meus irmãos.
Tu, Cássio, vai agora àquela outra rua
E divide os ouvintes em dois grupos.
Quem deseja me ouvir, permaneça comigo;
Quem quiser ouvir Cássio, vá com ele agora.
E públicas razões serão apresentadas
Para a morte de César.

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PRIMEIRO PLEBEU
Vou escutar Bruto.

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SEGUNDO PLEBEU
Vou com Cássio; e depois compararemos
As falas, separadamente ouvidas.

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Sai Cássio, com alguns dos Plebeus.

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TERCEIRO PLEBEU
Silêncio! O nobre Bruto está no púlpito.

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BRUTO
Escutem com paciência até o fim. Romanos, conterrâneos, camaradas, ouçam a minha causa e façam silêncio para que possam ouvir. Acreditem-me por minha honra, e reconheçam minha honra para que possam acreditar. Avaliem-me com sua sabedoria e despertem seu juízo para que possam corretamente julgar. Se houver alguém nesta assembleia, algum zeloso amigo de César, a ele eu assevero que a amizade de Bruto por César não era menor que a sua. Se esse amigo então perguntar por que Bruto se ergueu contra César, esta é a minha resposta: não foi por amar menos a César, mas por amar Roma ainda mais. Preferiam ter César vivo e morrerem como escravos, ou verem César morto e viverem em liberdade? Porque César foi meu amigo, eu o choro; porque ele foi venturoso, eu me alegro; porque ele foi valente, eu o respeito; mas porque ele foi ambicioso, eu o matei. Há lágrimas por sua amizade; alegria por sua fortuna; respeito por sua valentia; e morte por sua ambição. Quem de vocês é tão vil que deseje ser um escravo? Se houver alguém, que fale: a ele eu ofendi. Quem de vocês é tão abrutalhado que não deseje ser um romano? Se houver alguém, que fale: a ele eu ofendi. Quem de vocês é tão abjeto que não ame o seu país? Se houver alguém, que fale: a ele eu ofendi. Faço uma pausa e aguardo a réplica.

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TODOS
Ninguém, Bruto, ninguém.

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BRUTO
Então, a ninguém eu ofendi. Não fiz a César mais do que vocês fariam a Bruto. O caso de César está registrado no Capitólio; não foram diminuídas as glórias que o honram, tampouco exagerados os delitos que lhe acarretaram a morte.

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Entram Marco Antônio e outros, com o corpo de César.

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Aí vem seu corpo, chorado por Antônio, que, embora não tenha participado em sua execução, receberá o benefício de sua morte, uma posição na república, e quem de vocês não receberá a mesma coisa? Com isso, eu me retiro, pois, assim como golpeei meu melhor amigo pelo bem de Roma, guardo a mesma adaga para mim mesmo, quando a pátria decidir que deseja minha morte.

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TODOS
Vive, Bruto, vive!

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PRIMEIRO PLEBEU
Carreguem-no em triunfo até sua casa.

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SEGUNDO PLEBEU
Deem-lhe uma estátua junto aos seus antepassados.

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TERCEIRO PLEBEU
Que ele seja César!

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QUARTO PLEBEU
O melhor de César
Será coroado em Bruto.

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PRIMEIRO PLEBEU
Vamos levá-lo em casa, em grande aclamação.

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BRUTO
Conterrâneos…

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SEGUNDO PLEBEU
Silêncio! Quietos! Bruto fala!

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PRIMEIRO PLEBEU
Silêncio! Quietos!

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BRUTO
Deixem que eu parta a sós, meus caros conterrâneos,
E, se amam Bruto, permaneçam com Antônio.
Sejam cordiais ao grande morto e ouçam, cordatos,
O que Antônio dirá sobre as glórias de César
Com nossa permissão, agora, em seu discurso.
Suplico que ninguém se afaste desta praça
Além de mim, até que Antônio haja falado.

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Sai.

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PRIMEIRO PLEBEU
Silêncio! Agora ouçam todos Marco Antônio.

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TERCEIRO PLEBEU
Deixemos que ele ocupe o assento de orador.
Vamos ouvi-lo. — Nobre Antônio, sobe ao púlpito.

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ANTÔNIO
Graças a Bruto, estou em débito convosco.

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Sobe.

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QUARTO PLEBEU
O que ele está falando sobre Bruto?

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TERCEIRO PLEBEU
Disse: Graças a Bruto,
está em débito conosco.

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QUARTO PLEBEU
É mesmo bom que não nos fale mal de Bruto!

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PRIMEIRO PLEBEU
Era um tirano, aquele César.

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TERCEIRO PLEBEU
Nem me diga.
Sorte nossa que Roma esteja livre dele.

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SEGUNDO PLEBEU
Silêncio! Ouçamos o que Antônio vai dizer.

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ANTÔNIO
Caros romanos…

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TODOS
Quietos! Atenção!

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ANTÔNIO
Irmãos, romanos, conterrâneos, me ouçam!
Eu venho enterrar César, não louvá-lo.
O mal que os homens fazem vive sempre,
Mas o bem é enterrado com seus ossos.
Que assim seja com César. O bom Bruto
Disse que César era ambicioso.
Se for verdade, eis um grave crime
E César foi punido gravemente.
Com permissão de Bruto e os outros todos
— Porque Bruto é um homem muito honrado;
E os outros todos, homens muito honrados —
Venho falar no funeral de César.
Foi meu amigo, justo, bom, leal;
Mas Bruto diz que ele era ambicioso
E Bruto é um homem muito honrado.
Vários cativos César trouxe a Roma,
Cujo resgate encheu os cofres públicos:
Isso em César parece ambicioso?
Vendo os pobres chorar, também chorava;
A ambição deve ter metal mais duro:
Mas Bruto diz que ele era ambicioso,
E Bruto é um homem muito honrado.
Vocês viram, nas Festas Lupercais,
Que ofereci três vezes a coroa;
Três vezes recusou. Isso é ambição?
Mas Bruto diz que ele era ambicioso
E, claro, ele é um homem muito honrado.
Não venho contrariar o que ele disse,
Só vim dizer o que eu conheço e sei.
Todos vocês, um dia, amaram César,
E não foi sem razão; então me digam:
O que os impede de chorar por ele?
Ah, Juízo! Fugiste às bestas-feras
E os homens estão loucos!
Um momento;
Minha alma entrou neste caixão, com César;
Devo calar, até que volte a mim.

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PRIMEIRO PLEBEU
Há bom senso no que ele diz, eu acho.

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SEGUNDO PLEBEU
Se pensarmos no assunto com cuidado,
César sofreu uma injustiça enorme.

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TERCEIRO PLEBEU
E que injustiça ele sofreu, amigos!
Eu temo alguém pior no seu lugar.

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QUARTO PLEBEU
Recusou a coroa, ouviram bem?
Quer dizer que não era ambicioso.

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PRIMEIRO PLEBEU
Se isso é verdade, alguém vai pagar caro.

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SEGUNDO PLEBEU
Pobre Antônio! Seus olhos estão rubros
Como fogo, de tanto que chorou.

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TERCEIRO PLEBEU
Marco Antônio é o mais nobre dos romanos.

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QUARTO PLEBEU
Atenção; ele vai falar de novo.

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ANTÔNIO
A palavra de César, até ontem,
Valia mais que o mundo. E, agora, ei-lo:
Nem um mendigo faz-lhe reverência.
Senhores! Se eu quisesse comover
Seus corações à fúria e à revolta,
Seria injusto a Bruto e injusto a Cássio,
Que são homens honrados — todos sabem.
Não vou injustiçá-los; não. Prefiro
Injustiçar o morto, e a mim mesmo
E a vocês todos. Isso é preferível
A ofender esses homens tão honrados.
Mas vejam, tenho aqui um pergaminho
Com o selo de César; encontrei-o
Em seu quarto, e contém seu testamento.
Se os plebeus escutassem o legado
— Mas, me perdoem, não pretendo lê-lo —
Beijariam as chagas do cadáver,
Molhariam no santo sangue os lenços
E um fio de seu cabelo implorariam,
Guardando-o por relíquia da memória
E ao morrer, nos seus próprios testamentos,
Como rico legado o deixariam
A toda a descendência.

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QUARTO PLEBEU
Nós queremos ouvi-lo. Lê, Antônio!

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TODOS
O testamento! Sim, o testamento!
Nós queremos ouvir o testamento!

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ANTÔNIO
Meus queridos amigos, paciência;
Não posso ler. Não é apropriado
Que saibam como César os amava.
Vocês não são madeira, não são pedras,
São homens simplesmente e sendo humanos,
Ao escutar a doação de César,
Ficarão incendiados de loucura.
É melhor que jamais fiquem sabendo
Que os herdeiros de César são vocês,
Pois o que ocorrerá, se descobrirem?

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QUARTO PLEBEU
Nós queremos ouvir, Antônio! Lê!
A doação, a doação de César!

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ANTÔNIO
Não podem se acalmar? Não podem ser pacientes?
Falei demais ao lhes contar o que contei.
Eu temo fazer mal aos homens tão honrados
Cujos punhais golpearam César; temo muito.

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QUARTO PLEBEU
Homens honrados, nada! Traidores!

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TODOS
A doação! O testamento!

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SEGUNDO PLEBEU
São vilões e assassinos, todos eles! O
testamento, lê o testamento!

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ANTÔNIO
Vão me obrigar a ler o testamento?
Se é assim, se aproximem do cadáver,
Formem um círculo ao redor de César.
E hei de mostrar o autor do testamento.
Posso descer? Com sua permissão?

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TODOS
Vem.

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SEGUNDO PLEBEU
Desce.

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TERCEIRO PLEBEU
Tens nossa permissão.

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Antônio desce do púlpito.

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QUARTO PLEBEU
Um círculo! Fiquem ao redor.

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PRIMEIRO PLEBEU
Fiquem longe do esquife, fiquem longe do corpo!

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SEGUNDO PLEBEU
Deem espaço a Antônio, ao muito nobre Antônio!

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ANTÔNIO
Não, não me apertem tanto, para trás.

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TODOS
Recuem! Espaço! Abram espaço!

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ANTÔNIO
Amigos, se têm lágrimas guardadas,
Fiquem agora prontos pra vertê-las.
Todos conhecem este manto. Eu lembro
De quando Júlio César o envergou:
Na tenda, ao fim da tarde, no verão,
No mesmo dia em que venceu os Nérvios.
Vejam: aqui o punhal de Cássio entrou;
Que estrago fez o malicioso Casca;
Aqui golpeou o bem-amado Bruto
E, ao retirar o aço amaldiçoado,
Eis que o sangue de César veio atrás,
Como a desabalar pelos portões,
Para saber se é Bruto quem bateu
Com golpe tão cruel, desnaturado;
Pois Bruto, como todos vocês sabem,
Era o anjo de César. Julgai, deuses,
Quão fortemente César o estimava!
Foi este o golpe mais cruel de todos;
Pois quando César viu Bruto atacá-lo,
A ingratidão, mais forte do que as armas
Brandidas por traidores, derrotou-o;
E o seu potente coração rompeu-se;
E, escondendo o seu rosto neste manto,
Aos pés do monumento de Pompeu,
Onde o sangue escorria o tempo todo,
Tombou o grande César. Ó romanos,
Que imensurável queda foi aquela!
Pois eu próprio caí, vocês caíram,
Caímos todos nós nesse momento,
Sob o florear da traição sangrenta.
Vocês agora choram e eu percebo
Que a pena acutilou a sua alma.
Bondosa chuva tomba dos seus olhos.
Espíritos gentis, por que pranteiam
Vendo somente a veste apunhalada?
Contemplem: eis aqui o próprio César,
Mutilado por mãos de traidores.

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Antônio retira o manto.

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PRIMEIRO PLEBEU
Ó cena lastimosa!

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SEGUNDO PLEBEU
Ó nobre César!

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TERCEIRO PLEBEU
Ó dia desastroso!

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QUARTO PLEBEU
Ó vilões! Traidores!

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PRIMEIRO PLEBEU
Ó que visão funesta!

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SEGUNDO PLEBEU
Nós queremos vingança!

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TODOS
Vingança! Vamos lá! Procurem! Queimem!
Fogo!
Morte! Matança! Que nenhum traidor escape vivo!

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ANTÔNIO
Um momento, conterrâneos.

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PRIMEIRO PLEBEU
Atenção! Ouçam o nobre Antônio!

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SEGUNDO PLEBEU
Nós o ouviremos, nós o seguiremos, nós
morreremos por ele!

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ANTÔNIO
Meus bons amigos, meus gentis amigos,
Não deixem que eu desperte em suas almas
Tão súbita maré de insurreição.
Os autores deste ato são honrados.
Infelizmente, desconheço as causas
E os agravos privados que os moveram.
Porém, eles são sábios, são honrados,
E hão de explicar, decerto, seus motivos.
Não vim roubar seus corações, amigos;
Bruto é um grande orador, mas eu não sou;
Como sabem, sou só um homem simples,
Sempre franco e leal ao meu amigo,
E disso eles sabiam muito bem
Ao permitirem que eu falasse aqui.
Pois eu não tenho engenho nem estilo
Nem gravidade nem vocabulário
Nem a postura ou o poder da fala
Que faz ferver o coração dos homens.
Eu só falo o que penso, sem rodeios.
Eu digo o que vocês todos já sabem,
Mostro as feridas do bondoso César,
Pobres bocas, ó pobres bocas mudas,
E eu as deixo falar em meu lugar.
Porém, se eu fosse Bruto, e Bruto, Antônio,
Esse outro Antônio havia de incendiar
Seus corações, e em cada chaga aberta
Botaria uma língua cuja voz
Poderia mover até as pedras
De Roma a se insurgir e rebelar.

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TODOS
Revolta!

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PRIMEIRO PLEBEU
Queimem a mansão de Bruto!

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TERCEIRO PLEBEU
Vamos lá! Atrás dos conjurados!

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ANTÔNIO
Escutem, conterrâneos, mais um pouco.

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TODOS
Silêncio! O nobre Antônio vai falar!

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ANTÔNIO
Ora, amigos, vocês nem mesmo sabem
Aquilo que estão prestes a fazer.
Por que César merece tanto amor?
Vocês não sabem! Vou contar então.
Já iam esquecendo o testamento.

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TODOS
É mesmo! A doação! Vamos ficar e ouvir!

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ANTÔNIO
Eis o selo de César e o legado.
A todo cidadão ele confere,
A cada um, setenta e cinco dracmas.

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SEGUNDO PLEBEU
Nobre César! Sua morte vingaremos!

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TERCEIRO PLEBEU
Ó régio César!

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ANTÔNIO
Escutem com paciência.

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TODOS
Silêncio! Quietos!

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ANTÔNIO
Também lhes doa todos seus passeios,
As pérgulas privadas e os pomares
Recém-plantados, para cá do Tíber.
Deixou tudo a vocês e à sua prole
Por todo o sempre: públicos prazeres,
Lugares de passeio a todo o povo.
Eis um César. E quando haverá outro?

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PRIMEIRO PLEBEU
Jamais! Jamais! Avante, avante, vamos!
Vamos cremá-lo no lugar sagrado
E com as tochas vamos incendiar
As casas dos malditos traidores!
Peguem o corpo.

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SEGUNDO PLEBEU
Tragam o fogo!

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TERCEIRO PLEBEU
Arranquem os bancos!

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QUARTO PLEBEU
Arranquem as janelas, os caixilhos, tudo!

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Saem os Plebeus com o corpo.

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ANTÔNIO
E que o fogo se espalhe. Ardil, estás lançado,
Toma o caminho que desejes.

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Entra o Servo.

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Sim, rapaz?

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SERVO
Senhor, Otávio acaba de chegar a Roma.

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ANTÔNIO
Onde ele está?

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SERVO
Ele e Lépido estão na morada de César.

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ANTÔNIO
E ao seu encontro vou agora, sem tardar.
Chegou na hora certa. A Fortuna está alegre:
Neste estado de humor, dará o que pedirmos.

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SERVO
Ouvi o meu senhor dizer que Bruto e Cássio
Pelos portões fugiram num galope louco.

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ANTÔNIO
Decerto lhes chegou notícia sobre o povo
E o efeito que causei. Leva-me agora a Otávio.

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Saem.

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Charles A. Buchel, ‘Herbert Beerbohm Tree como Marco Antônio’, 1914

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Originalmente publicado n’O Grande Teatro do Mundo.

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