As cartas a seguir, embora escritas na segunda metade dos anos 1950, só foram publicadas em 2003. Fragmento de um material mais amplo, as três cartas foram selecionadas segundo sua capacidade de fornecer aos leitores uma amostra significativa da vida e da obra de Leo Spitzer (1887-1960), grande crítico literário vienense.
Em que consiste essa correspondência? Trata-se de uma amistosa troca entre Leo Spitzer e uma mulher italiana que, assim como ele, morava nos Estados Unidos. Ambos eram, portanto, estrangeiros em solo americano. Durante uma viagem, o professor da Universidade Johns Hopkins, beirando então os 70 anos, encontra essa bela e jovem mulher; eles encetam uma conversa que irá se prolongar por meio das cartas. Escrita em italiano, a correspondência dá testemunho de uma forte amizade, mas também de uma evidente paixão platônica da parte de Spitzer.
Em nossa breve antologia, surgem questões fundamentais da obra spitzeriana. Por exemplo, alude-se a pontos marcantes de sua carreira como filólogo românico: o ensaio sobre uma famosa epístola de Voltaire a Madame Necker; o estudo sobre o poeta Jaufré Rudel, e sobre o conceito de amor de lohn (amor longínquo) na poesia provençal; o interesse pela literatura espanhola, com especial enfoque no século de ouro… Ao lado dessas pistas de uma trajetória científica, despontam problemas mais pessoais, que o exame exclusivo da obra do autor dificilmente revelaria. É tocante notar a posição do escritor maduro que, vendo-se próximo da morte, deve lutar contra os temores. É também esse Spitzer que queremos trazer à luz: o imenso, o importante intelectual que, nessas cartas tão íntimas, dá a ver o seu lado humano, terno e frágil.
As respostas da missivista nunca foram publicadas, e seu nome permanece oculto. Tal foi a sua vontade expressa. Por esse motivo, Ian Jackson, que publicou a reunião de cartas junto à editora Belfagor, dá-lhe o título de “Cartas a uma Desconhecida”.

Baltimore, 27 de novembro de 1956
Cara C ——,
Esperava a Sua carta hoje mesmo (ainda que a tivesse esperado para antes). […] E quando não ouço nada da Senhora, terrores me invadem; talvez aquele poema de Hölderlin seja ‘brutal’ demais1? […]
Mas eis chegada a carta. E me dá uma grande alegria — e uma certa angústia. […]
E agora, embora eu queira falar somente sobre a Senhora, é porém necessário que fale de mim, pois o meu caminho interior é um pouco similar ao Seu. Nascido em uma família judia, que conhecia sua religião apenas exteriormente, fui imerso, contudo, em práticas religiosas que me foram impostas. Ia à sinagoga, mas não estava contente com nada que via e ouvia: o rabino falava sobre ser Judeu consciente, sobre aprender o hebraico, sobre a grandeza desse povo ao longo dos séculos — nunca de uma regeneração interior, moral. No entanto, os problemas morais se aglomeravam em torno de um adolescente! E depois, a feiura das cerimônias, a falta de ordem dos serviços! Por outro lado, o ginásio me deu uma ideia da beleza grega, e é esta que me levou à filologia românica. Creio em suma que o judaísmo no Ocidente se fixou em um estado medieval, de práticas concretas sem espírito, do culto da letra em um estado anterior a Jesus. Depois, dando aulas na Alemanha, o cristianismo me atraiu por muitos anos, e eu me julgava abençoado pela fé verdadeira. Uma vez, em Middlebury, eu falava, em espanhol, da religião espanhola e, todas as luzes desligadas exceto a da lâmpada do conferencista, eu acreditava sentir que as minhas palavras não vinham de mim, mas de um ser que as sugeria para mim, no silêncio absoluto em que até o meu público havia desaparecido. Mas uma mulher muito perspicaz, filha de minister e professora na minha universidade, me provou com razão que tudo isso tinha sido uma miragem: era eu que tinha “performed well”, não o Ser Divino que me tinha falado. E a partir desse momento tornei-me mais cético, e depois da minha doença, descobri que Jesus, embora tivesse razão ao condenar o culto judeu da letra, não havia encontrado a solução para uma vida rica e plena. É verdade que Ele se unia à adúltera, e que naquela frase em que diz: ‘quem quer que tenha olhado com desejo uma mulher, cometeu adultério’ (não tenho em mãos o texto italiano) se dirija contra os positivistas judeus que veem apenas atos, e não motivos e pensamentos. Mas esta palavra “desejo” destrói todas as sutilezas delicadas que vão do desejo brutal ao amor por Beatriz. Justamente na minha juventude, mas também mais tarde, eu era um puritano que, no fundo, pensava que tudo o que tinha a ver com Eros era criminoso; Eros e remorso estavam unidos (não sei por quê, minha família estava muito distante de qualquer puritanismo — talvez fosse o meu monoteísmo da ciência que impedia a entrada de uma outra divindade no meu santuário interior). Mas hoje sei que a “mortificação dos instintos”, que eu me havia imposto, era um engano: tinham razão Sócrates e também Heine e Nietzsche com a sua “fröhliche Wissenschaft” [Gaia Ciência] (embora eu não possa segui-la em sua postulação do Übermensch [super-homem]). O amor pelo mundo, que sinto vivíssimo, provoca outros amores, de coisas pequenas e grandes, mas todas belas, e um amor não é oposto a um outro, pelo contrário, um amor chama o outro, não há “infidelidade”.
Pequenas coisas: ontem, sentado no meu escritório, fumando, pensava na sua expressão: “laureei-me em 19— “. E me lembro imediatamente de tê-la visto linda sob a grinalda de louros, como é o costume dos doutores italianos — a metáfora italiana tão poética (compare o prosaico to get his PhD, faire son doctorat, seinen Doktor machen) se materializava — e laureei-me tem a mesma construção de casei-me (aqui também, há uma grinalda). E depois, a fumaça do meu cigarro formou uma elipse no ar, como uma coroa, que desceu à minha cabeça, desaparecendo: também eu, por um momento, estava laureado. Que alegria!
E coisas grandes: nosso encontro é um evento importante (que eu gostaria que fosse sem peso). Quanto eu temia a Sua primeira carta! Seria fria, seria composta em um estilo inferior àquele da nossa conversa? Ao contrário, não foi nem aquilo nem isso, e confirmava o acontecimento, a “escolha” (quanto me agradam as Suas aspas — porque self-irony deve existir em todas autodescrições!). Não tenha nenhum medo de “acordar amanhã e encontrar-se só” — esse risco não será uma ameaça, a menos que a Senhora algum dia não encontre mais sentido em nossa correspondência.
Para prová-lo, mas também para que a Senhora me conheça melhor e para que possamos prolongar nossa conversa infelizmente apenas escrita, Te contarei uma experiência minha: em 1930, em Marburg, a faculdade me deu um banquete de despedida (estava indo para Colônia) no qual se dançava segundo os costumes da época (tinha aprendido tarde a dançar, justamente em razão da “mortificação”, mas gostava muito). Dançava também com uma senhora que não conhecia muito, apenas sabia que era uma pessoa singular (cochilava na presença de gente tediosa convidada pelo seu marido; era musical, cantava bem); não era bela, mas fresca com um toque de naîveté. E enquanto dançávamos, por acaso olhei em seus olhos e vi um olhar seu tranquilíssimo, que não posso descrever senão dizendo: era “de ouro verde que se dissipava” — e assim dançávamos por meia hora, tranquilamente olhando-nos, sem dizer palavra. Seu ser era uma confirmação, um dizer sim ao meu ser, algo de que precisava muito naquele tempo. Nunca nos revimos nem nos escrevemos desde então — até que a vi nesta primavera em Mônaco, divorciada, abatida, pobre. Mas se lembrou daquele momento, como eu me lembrava, depois de 30 anos. Uma impressão profunda é sempre duradoura. […]
Me diga, me repita, cara C ——, se esta carta Te deu um ‘momento de felicidade’. Então saberei que estou no reino de plutos.
E me diga muito mais da Senhora, para que eu possa compreendê-La inteiramente. Tenha confiança.
Beijo-te as mãos com caro afeto. Leo Sp.
(e não me chame mais “professor” — somos iguais). e ‘amigo’ talvez seria também muito desgastado? Não sei.
De todo modo, escreva assim que puder — caso contrário, os terrores me assaltam. É uma falta de imaginação a minha, eu sei.
[Seattle], 30 de maio de 1957
Caríssima C ——,
[…]2
Aqui as aulas terminarão em breve: provas escritas em 11 de junho. Depois estou totalmente livre, mas ainda não encontrei um tema sobre o qual possa escrever, talvez ainda me falte calma, mas acredito que ela chegará. Por volta do fim das aulas os temas vão ficando cada vez mais belos: se você quiser acompanhar-me mentalmente, expliquei a carta de Voltaire, de que tratei no volume italiano de Laterza (há colegas que pensam que essa seja a melhor coisa que já fiz); este estudo, escrito há 20 anos, ganha agora acentos novos; agora sou eu que me encontro na situação do Voltaire de quem se faz a estátua e do Voltaire entusiasta da amizade (p. 320). Em seguida, tratei de “Tristesse d’Olympio” de V. Hugo e “Les Nuits” de Musset (“Rien ne nous rend si grands qu’une grande douleur… Les plus désespérés sont les chants les plus beaux, et j’en sais d’immortels, qui sont des purs sanglots”3 — um estudante “snob” dizia “This poem does not interest me. He should stay in his room and I in mine”). No curso de francês antigo temos Chrétien de Troyes e explico o caráter dialético medieval e, contudo, cheio de esprit moderno dos diálogos dos amantes: p. ex. em Yvain, Laudine conversa com Yvain:
‘dame’, fait il, ‘la force vient
de mon cœur, qui a vos se tient;
en ce vouloir m’a mon cœur mis.’ —
‘Et qui le cœur, beau doux amis?’ —
‘Dame, mes yeux!’ — ‘Et les yeux qui’? —
‘La grand’ beauté que en vos vi(s)’. —
‘Et la beauté, qu’y a forfait [= operado4]?’
‘Dame, tant que aimer me fait’. —
‘Aimer, et qui?’ — ‘Vos, dame chiere’.
‘Moi?’ — ‘Voire’. [Verdadeiramente] — ‘Voire? En quel maniere?’ —
‘En tel que graindre [maior] estre ne peut,
en tel que de vos ne meut [não se move de você]
mon cœur, n’onque ailleurs ne le truis [encontro]
en tel, qu’ailleurs penser ne puis,
en tel, que tout a vos m’otroi [me rendo]
en tel que plus vos aime quemoi,
en tel, se vos plaist, a delivre [livremente, inteiramente]
que pour vos vueil morir ou vivre.’5
É preciso ler uma passagem como essa em voz alta — é como uma ária de tenor, na qual cresce a emoção à medida que o cantor se eleva, mais e mais e mais. A emoção, naturalmente, dita as palavras, mas a expressão com palavras é uma parte integrante da emoção. É-se feliz por meio da expressão — e ‘aquilo que não é expresso, não existe’, dizia Croce.
No curso de literatura provençal lemos Jaufré Rudel e discutimos, tema meu favorito, o seu conceito do amor de lohn — e sempre encontro na América incredulidade da parte dos estudantes quando explico que, segundo os trovadores, o amor é feito de desejo de vizinhança, mas também de distância. Dois seres, mesmo se presentes um diante do outro, podem pensar, para além da presença, na ideia do outro ser, que está sempre afastada da presença física. Pode-se até pensar que a vizinhança nos distrai do ser ideal. Hoje, os estudantes americanos, geralmente jovens casados, consideram a presença cotidiana como um fato essencial em suas relações, e quase sempre encontro neles um medo, ou uma rejeição, de considerar uma ligação como algo além da ‘contiguidade’. Mas, uma vez, em Washington D.C., quando eu dava essa conferência, dois psiquiatras diziam: ‘Quem sabe os trovadores não tenham sido mais sábios que nós’.
No curso sobre lírica espanhola do século de ouro há essa dificuldade que os estudantes não sabem o latim, e assim não conseguem captar o que um poema espanhol fez com os modelos latinos. Outro dia mandei datilografar o texto latino e o correspondente espanhol — e de 10 alunos, nenhum havia tentado decifrar o latino. O melhor dos estudantes é o italiano Della Terza, que não só sabe o latim, mas também sabe encontrar as sutilezas de um poema. A senhora Schettino (mulher de um oficial da marinha italiano aposentado, que se tornou engenheiro aqui), mãe de um menino de 7 anos, estudou medicina na Itália, mas agora quer um PhD em línguas românicas. É estranho que ela seja a menos precisa em suas reações à literatura: é como se pensasse que, em contraste com as ciências naturais, nos estudos humanísticos tudo possa ser possível. Disciplino-a quando posso — e ao menos consegui tirar dela aquele ar de dor de cabeça constante, agora sorri — provavelmente ela não sabe que devo essa minha força transformadora a uma compatriota sua muito distante no espaço…
No primeiro mês, quando estava tão mal e misantropo, não frequentávamos o teatro, mas agora vamos a uma peça toda semana. Há três teatros no campus; os atores, todos alunos da escola dramática da Universidade, são excelentes, cheios de ímpeto juvenil; de verdade, não vi apresentações teatrais tão boas na América: a da Santa Joana de Shaw, uma comédia de Molnár, a “Anna Christie” de O’Neill. Neste último drama a protagonista é uma prostituta bastante imprevisível, mas percebi uma coisa: quando dizia ‘sure!’ (prometendo algo ou respondendo a uma pergunta afirmativamente), havia tanta beleza e tanta certeza expressa nessa palavra que se sabia que desta vez era sincera, sinceríssima. Essa ‘sureness’ quando se diz ‘sure!’ me parece ser um traço próprio americano; tantas vezes ouvi a Anna dizer essa palavra com uma espécie de afeição (aliás, traduz como ‘sure’ o francês antigo da Chanson de Roland: l’emperere est seürs), porque corresponde ao seu ideal de absoluta confiança e sinceridade entre seres humanos. Acho que ela tem razão: há tantas coisas das quais podemos estar absolutamente ‘certos’. […]
Sim, consinto de bom grado em escrever mesmo que você não tenha respondido “burocraticamente”, em outras palavras: escrever ‘quand le cœur m’en dit’ [quando o coração mandar], mas com uma condição: a de que, quando escrever, você responda a todas as minhas perguntas. Sou um amigo exigente, eu sei. […]
Afetuosamente, Leo.
Quinta-feira6
The Wilsonian, Seattle 5, Wash.
Caríssima C ——, recebendo sua carta cheia de esperança, me senti um pouco tranquilizado. […]
As aulas terminaram e fixei as ‘notas’ (marks). Dei um E apenas para uma senhorita muito volúvel que, dentre os 15 poemas que estudamos em classe, atribuía o de Valéry a Musset (e vice-versa). Havia mais A que B, e mais B que C (o meu ódio instintivo contra o average). Quantos você reprovou? (e aquele gênio que metia Roma na Toscana, o que você fez com ele?) E como seus alunos receberam a triste notícia da sua partida (ou ainda não se sabia disso quando do fim das aulas?).
Flores de retórica saídas dos exam papers: há sempre uma categoria de estudantes que, influenciados pelo cinema, terminam seus ensaios com palavras majestosas: “The End” — dessa vez, um sophisticate escreveu “Fim” em francês (o ensaio mesmo era em inglês). Um outro, não conseguindo identificar um poema francês, escreveu no seu texto inglês: “je ne sais pas bien le français” [eu não sei bem francês]. A estudante italiana, num ensaio de resto bom, escrito em inglês, falou da “privvisoriety of youth”7.
Suas cartas, ao contrário, são sempre para mim ‘testes de língua’. É um prazer tanto filológico quanto humano pesar as suas palavras claras, com a mot juste [palavra justa] em seu lugar — é como ver os Alpes Apuanos bem delineados (os nossos Alpes Apuanos apareceram aqui hoje, depois da ausência de uma semana). E justamente, a minha natureza filológica nunca antes teve a oportunidade de exercitar-se com documentos humanos endereçados a mim, e escritos numa língua românica. A palavra italiana dá uma nobreza própria ao conteúdo humano. Isto não quer dizer que você tenha efetivamente respondido a todas as minhas questões (p. ex. nada me disse sobre meu conselho a J —— de publicar a sua tese inteira, ou como você sente o elemento judaico em mim e em outros conhecidos seus). Que incorrigível pedante o seu correspondente, que jamais estará satisfeito, pois você prefere o mistério.
Posso te falar da coisa muito mais séria, daquele ‘medo da morte’, beneficiando-me de minhas próprias experiências, naturalmente mais graves do que aquelas que pode ter uma mulher na flor da beleza e da juventude, como você? Esse medo me veio, como você sabe, por volta dos sessenta e cinco anos, portanto relativamente tarde, mas com uma terrível veemência. Até este ponto tinha considerado as doenças (pneumonia, etc.) como um sinal de que ‘a Providência se ocupa especialmente de mim’, e não imaginava a morte como uma possibilidade. E depois dos 65, e particularmente com 68, conheci tais invasões de terror que pedia que minha mulher ficasse comigo e me falasse, para dissipar esses medos. E para que tudo isso? Li uma obra de Jung, que tratava da frequência de similares estados de ânimo em pessoas que tinham feito seu percurso de vida com sucesso, artistas, cientistas, empresários, e, de repente, por volta dos 40, 50, veem-se diante do vazio. O erro deles é acreditar que a vida deveria prosseguir nesta idade como antes, com o mesmo brilho da primeira juventude — enquanto que, se percebessem que seu ritmo de vida é necessariamente diferente, poderiam ainda ser felizes. Depois, li um capítulo da obra alemã de Hugo Friedrich (meu amigo) sobre “Montaigne”, dedicado ao conceito da morte nesse filósofo, o qual afirma que as consolações dos filósofos antigos e da religião cristã nada valem diante do medo da morte individual; que é preciso exercitar-se no pensamento da morte individual, desejada por uma Natureza benéfica para cada um de nós. Recordo-me que li esse capítulo uma noite em Cape May, Nova Jersey, e depois saí, passeei no boardwalk perto do mar — e uma certa calma me invadiu, a qual se repete quando penso em Montaigne.
Analisando o meu medo da morte, encontro essas razões: durante muito tempo, mantive o entusiasmo com a produção científica e com o ensino, de tal forma que dúvidas ou problemas não me podiam assaltar — justamente por essa razão, dar-se conta de súbito que devo retirar-me, que minha vida ativa está mais ou menos acabada, que ninguém ‘precisa’ de mim, foi um despertar duro, como um choque com o destino. Então, três colegas do meu departamento em Hopkins morreram (dois mais jovens que eu), e eu permanecia o único velho sobrevivente na minha faculdade. Primeiro, tinha que me libertar da superstição medieval (nervosa) do “contágio da morte”: porque o sr. X morreu, não quer dizer que eu deva morrer: a Providência, ou quem quer que tenha o meu dossiê (ou record), não se deixará influenciar pela presença ou não-presença do sr. X no meu departamento para decidir o meu caso. Em segundo lugar, a Natureza mostrou-se muito boa comigo: vieram os convites para Princeton, Seattle, Alemanha, o prêmio Feltrinelli, e outros prêmios melhores que aquele; a Natureza me demonstrou que ainda ‘precisa um pouco’ de mim — todas essas demonstrações, confesso, vieram de fora, mas vieram no momento oportuno para me provar que a Natureza se comportava individualmente comigo, então também a minha morte seria uma morte individual.
Mas o fator mais importante, creio, era aquele que vinha de dentro: a nova esperança, a esperança de ainda poder desenvolver-me na minha avançada idade, de aprender, sentir, conhecer coisas novas, nunca antes sentidas, ou sentidas diversamente. Naturalmente, às vezes, um afrouxamento dos velhos temores, um desânimo, pode interromper a felicidade da esperança. Porém creio que, ao menos por enquanto, venci os medos, e que a esperança prevalece: creio ter uma terra prometida diante de mim.
Agora, o que tudo isso pode ter a ver com você, tanto tanto tanto mais jovem? Isto: que na vida de uma mulher, esse momento do ‘segundo ritmo necessário’, da segunda carreira, vem mais rápido que na vida de um cientista; eu podia me iludir ou me entorpecer com o pensamento vão da minha ‘juventude eterna’ até os 65. Mas, para uma mulher que alcançou, feito numa corrida ofegante e vitoriosa, todas as metas possíveis em um intervalo de tempo muito mais curto (diploma, casamento, filhos, posição social, alunos), o medo, não digo da morte, mas do desconhecido, como você diz, ou talvez somente um medo de não poder prosseguir no mesmo ritmo de antes, de dever ‘desacelerar’, produz certos fenômenos de desconforto, certas angústias. E alguns remédios me parecem indicados: pensar e repensar, com Montaigne, que a Natureza é boa, e boa para você individualmente (em outras palavras: God loves you), que já o demonstrou tantas vezes antes e o demonstrará também no futuro, que todos precisam de você, a família, os amigos, etc. Mas me parece que a coisa mais importante (o meu ponto no. 3 acima) é que você mesma nutra em si a Esperança de Novos Desenvolvimentos, que você saiba intimamente que a Natureza te quer bem ao te desenvolver, ao te dar a esperança de transcender a si mesma. Fórmulas deste gênero, eu sei, parecem muito abstratas — mas como exprimir de outro modo a convicção de que a Esperança vence a Morte? E, naturalmente, não precisa esperar que o medo de avião desapareça de uma vez8 — as coisas interiores não se desenvolvem tão rápido, e as camadas da alma obedecem a ritmos diferentes, mas se pode esperar que, ao dizer sim a uma vida que ‘espera no novo’, medos particulares possam se atenuar. Você vê pelo meu longo sermão quanto eu gostaria de contribuir ao seu bem-estar com conselhos ou sugestões! E ‘aprender a dirigir’ é já da sua parte uma iniciativa ‘plena de esperança’. Tudo aquilo que renova é um avizinhamento de uma ‘terra prometida’. […]
Leo.
Guilherme de Almeida Gesso, responsável pela apresentação e tradução das cartas acima, é doutorando em Letras/Francês pela USP, com pesquisa sobre as relações entre literatura e cinema nos romances de André Malraux. Integra o grupo de pesquisa Literatura, Estilística e Hermenêutica, dedicado ao estudo e à tradução da obra de Karl Vossler, Erich Auerbach, Leo Spitzer, Jean Starobinski e outros importantes representantes da tradição estilística europeia.
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Notas:
- Em carta de 11 de novembro de 1956, Spitzer havia citado um poema de Hölderlin: “Sokrates und Alcibiades”. ↩︎
- Salvo neste caso, todas as supressões são do editor da publicação, Ian Jackson. Decidimos suprimir o início desta carta por sua compreensão depender muito da leitura das anteriores. ↩︎
- Tradução livre: “Nada nos torna tão grandes quanto uma grande dor… Os mais desesperados são os cantos mais belos, e conheço alguns cantos imortais, que são puros soluços”. ↩︎
- Entre colchetes, Spitzer faz precisões, em italiano, sobre o sentido de algumas palavras do francês medieval. ↩︎
- Tradução livre, sem considerar os octossílabos rimados do original: ‘Senhora’, diz ele, ‘a força vem do meu coração que depende de ti; é meu coração que me levou a esse desejo’. ‘E quem levou o coração, meu belo e doce amigo?’. ‘Senhora, meus olhos’. ‘E quem os olhos?’. ‘A grande beleza que vi em ti’. ‘E a beleza, que crime cometeu?’. ‘Senhora, o de me fazer amar-te’. ‘Amar, e quem?’. ‘Tu, minha cara senhora’. ‘Eu?’. ‘Verdadeiramente’. ‘Verdadeiramente? De que maneira?’. ‘De maneira tal que não pode existir amor maior; tal que meu coração não te deixa e que jamais o encontro em nenhum outro lugar, senão em ti; tal que não consigo pensar em outra coisa; tal que me rendo inteiramente a ti; tal que te amo mais que a mim; tal que, se desejares, quero inteiramente viver ou morrer por ti’. ↩︎
- O ano é 1957. Provavelmente, trata-se do mês de junho, pois, na carta anterior, Spitzer escrevera que as aulas terminariam no dia 11 de junho. ↩︎
- A estudante enganou-se; buscando falar da ‘provisoriedade da juventude’, inventou uma palavra em inglês que seria correspondente à italiana “provvisorietà”. ↩︎
- Tema debatido em outras cartas. Para a correspondente de Spitzer, o tempo passado no avião chega a significar “horas de tortura” (ore di tortura). Além disso, as viagens aéreas muitas vezes suscitaram no crítico literário um “medo animal” (paura da animale). ↩︎




