Falando de Música: Por dentro da Maratona Beethoven

por Leandro Oliveira

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São “apenas” seis câmeras espalhadas pela Sala Minas Gerais. A partir delas, o público — agora transformado em telespectador — explora todos os setores do teatro, com visões internas do palco e orquestra ou sucedendo-se em locais diferentes da plateia e balcões. Ao contrário do que pensamos intuitivamente, como algo a registrar o concerto, as câmeras veiculam um mundo fantástico e irreal: na televisão ou nas telas de computadores e celulares, o que as novas plateias da Filarmônica de Minas Gerais veem são um concerto “sonhado”, a intuição compartilhada de um diretor e toda sua equipe de transmissão que substitui a realidade presencial de um ponto fixo da cadeira na sala de concerto.

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(Foto: Rafael Motta)

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A Maratona Beethoven vem sendo realizada pela Filarmônica de Minas Gerais desde o dia 06 de agosto de 2020. Apresenta, semanalmente, direto da Sala Minas Gerais, várias obras do catálogo do compositor de quem se comemora, em 2020, 250 anos. As performances seguem disponíveis ao público no canal da orquestra pelo YouTube. No dia 17 de dezembro, ao final do projeto, deverão ter sido apresentadas mais de sessenta obras de Beethoven, entre as quais a integral do melodrama “Fidélio”, os cinco Concertos para piano e orquestra, e oito de suas nove sinfonias.

As transmissões contam com uma conhecida gramática, que conta já com pelo menos oitenta anos de história, e sobre a qual falamos aqui no Estado da Arte há um ano, muito antes do projeto mineiro da Maratona sequer ser planejado. Que esta gramática, em sua combinação de precisão e expressividade musical, seja produzida de modo pioneiro no Brasil a partir de Belo Horizonte, é resultado de alguns fatores. Alguns culpariam o ano sui generis, cuja calamidade sanitária, definitivamente, não deixou de contribuir para acelerar um projeto que já estava em curso. Outros haveriam de justificar hipotéticos “caminhões de dinheiro”, como se a produção de arte de qualidade — e as transmissões são, também, a seu modo, projetos artísticos — não fosse fruto mais de engenho, conhecimento técnico, gosto e cuidado, do que de mero aporte financeiro (por um lado, quanto a equipamentos de audiovisual, dinheiro nunca é suficiente; por outro lado, várias outras orquestras brasileiras contratam equipamentos muito mais caros, sem o resultado desejado). Eventualmente, dever-se-ia reconhecer a força generosa do destino, que permitiu a coincidência curiosa de pessoas preparadas e condições materiais adequadas, no local e momento justos…

Mas nada disso seria possível sem uma visão institucional inteligente. É ela que soube calibrar as tensas expectativas do mercado clássico e do mundo digital, e ajustar as necessidades do público, num já histórico “ano Beethoven”, a uma programação sofisticada que desse aos músicos, no palco, equipe técnica nos bastidores, a sensação de segurança devida para um retorno adequado.

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Evidentemente, o mercado clássico lida com uma não tão singular quimera: a da necessidade de atração de um público novo (que aqui quer dizer tanto “neófito” como também “de pouca idade”) e da fidelização do público habitual, composto, em sua grande maioria, por pessoas maduras. Teme-se, por óbvio, a encenação de um embate insolúvel, a conciliação improvável do gosto entre diferentes gerações.

Mais que programadores e educadores, para a resposta a esse problema, a solução em todo mundo tem sido dada por profissionais de comunicação. São eles que melhor manejam os dados fundamentais que dizem que, se para a televisão comercial a música clássica é um produto inviável, para as instituições clássicas, as transmissões da música sinfônica — por áudio ou vídeo — seguem como estratégia fundamental para a construção de um futuro relevante. Elas, por óbvio, não competem com o evento presencial, ao contrário, criam novos liames com o público de assinantes, ao mesmo tempo em que estimulam novos públicos à presença do evento ao vivo.

E, de fato, as novas tecnologias de comunicação permitiram que, até a presente data, ao longo do semestre, quatorze eventos na simpática rua Tenente Brito Melo fossem assistidos de qualquer parte de Belo Horizonte — e também, mostraram os dados da plataforma usada pela Filarmônica de Minas Gerais, em Istambul, Londres e Moscou (entre muitas outras cidades). Ainda: as relações de tempo, um ativo cada vez mais caro no universo urbano contemporâneo, tornam o espetáculo mais amigável a seus eventuais interessados, já que as tecnologias dão ao público a possibilidade de conectar-se ao vivo, mas também ajustar o concerto a sua agenda privada. Para entender tal realidade, cabe dizer que a rotina dos eventos transmitidos pela Filarmônica de Minas Gerais contaram com cerca de 2500 visualizações ao vivo (próximo do dobro da capacidade da Sala Minas Gerais), e que este número, por vezes, chega a triplicar em apenas uma semana. Ao todo, com as visualizações de hoje, apenas pelo canal oficial da orquestra, os 14 eventos realizados pela Maratona somam quase 50 casas lotadas.

Assim, é por se ver sediada como parte integrante da diretoria de comunicação do Instituto Cultural Filarmônica (a mantenedora da Orquestra e da Sala Minas Gerais) que as transmissões da Maratona Beethoven, como os outro oito projetos digitais produzidos em 2020 pela orquestra, puderam ser pensados de modo a coordenar incremento numérico e qualificação da audiência. A ideia para esta Maratona, tal como cultivada no seio do departamento, era a de que uma transmissão para as telas de um concerto deveria ser um evento em si, contar com um protocolo específico, um formato adequado — ou seja, ser tratada como um espetáculo à parte. Isso é que tornou imprescindível soluções como os vídeos explicativos entre as peças, ou a participação ativa do diretor artístico da instituição, maestro Fabio Mechetti, na sala de bate-papo dos eventos ao vivo. Esses e outros tipos de mediação garantiram um novo engajamento entre o concerto e seu público, engajamento diferenciado e espontâneo, que segue qualificando de modo todo especial o resultado da experiência audiovisual dos concertos da Maratona Beethoven.

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(Foto: Rafael Motta)

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Do mesmo modo, é importante notar o comprometimento de todo o corpo artístico da orquestra Filarmônica de Minas Gerais na realização destes eventos digitais. A princípio, o modo de pensar a programação — com duos ou trios em agosto, incrementando paulatinamente a formação para quartetos e sextetos em setembro, antes de contar com uma orquestra de mais de 40 pessoas em outubro —, teria partido da premissa de mensurar o impacto e evolução da pandemia, e a necessidade de diminuir o fluxo de pessoas.

Mas tal programação foi também balizada pelas necessidades técnicas das próprias transmissões. Partindo de formações de menor complexidade, estas semanas iniciais garantiram a capacitação de muitas entre as exigências requeridas para o funcionamento a contento do projeto: foi naquele momento que se pode estudar os melhores movimento das câmeras, seu posicionamento no palco, sua adaptação às condições de luz; neste período pode-se também otimizar os softwares e todo o sistema para as peculiaridades da música de concerto.

Durante este período, a equipe de montadores e os músicos puderam fazer sua imersão nas necessidades únicas requerida por uma boa transmissão de áudio e vídeo. Entre ensaios e gravações, a equipe foi capacitada reagir frente a problemas como posição e altura de cadeiras e estantes, a permanente reavaliação do mapa da orquestra para o melhor aproveitamento da posição dos microfones e câmeras. Tais esforços integrados contavam sempre com a avaliação permanente do diretor artístico, Fabio Mechetti, que, desde sua casa na Flórida, pôde acompanhar e participar através de links de acesso dedicado, a cada passo dos trabalhos, sugerindo adequações quanto à interpretação realizada pelos artistas no palco, ou colaborando com as estratégias de captação do áudio.

O resultado foi a apresentação de um repertório raro e de grande interesse, um Beethoven virtualmente desconhecido do grande público. Obras como Duo para flautas em Sol maior, WoO 26 (dia 06 de agosto), o Trio para dois oboés e corne inglês em Dó maior, op. 87 (dia 13 de agosto), as Variações sobre “Ich bin der Schneider Kakadu”, op. 121a (dia 27 de agosto), ao lado das já conhecidas e celebradas Sinfonias e Concertos para piano, fizeram de fato com que o aniversário dos 250 anos de nascimento de Beethoven fosse, para o público das transmissões da Filarmônica de Minas Gerais, o ano da redescoberta do repertório do gênio de Bonn.

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Todo melômano brasileiro sabe, esse foi um processo pioneiro na América Latina. Nunca antes uma instituição de música clássica da região havia decidido investir de modo tão profissional neste “novo” modelo de distribuição de seu conteúdo. Novo entre aspas pois, de fato, a realidade da acessibilidade remota se impunha muito antes de qualquer crise sanitária. As tentativas de conciliação das atividades da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, com aquelas da Fundação Osesp, por exemplo, jamais conseguiram entrar numa rotina de colaboração previsível — em parte, pelas dificuldades específicas do tipo de operação requisitado para transmissões de concertos. Mas mesmo antes, ainda anos idos de 1997, em uma visita técnica a estação Julio Prestes, o maestro Walter Lourenção já havia perguntado aos construtores da então futura Sala São Paulo: “e onde estarão as câmeras?”. O silêncio foi a resposta.

Em Belo Horizonte, o assunto também ocupou parte da agenda muito antes da criação da Sala Minas Gerais, em 2015. Embora os espaços para câmeras tenham sido previstos, os arquitetos não podiam, naturalmente, dominar todas as variáveis da evolução dos equipamentos de filmagem. Se a Sala Minas Gerais conta com algumas “janelas” a partir das quais operadores de câmeras podem ser posicionados, o mais importante é que tem instalações que tornam a alocação destes e outros equipamentos ágil e amigável em praticamente todos os espaços do palco e da plateia. Não se vê por ali os cabos soltos ou as típicas “gambiarras” que o improviso acaba por exigir. Mesmo assim, por cinco anos, a transmissão pela televisão pública local, a Rede Minas (cujo espaço operacional está na mesma praça da Sala Minas Gerais, o complexo Itamar Franco), também foi uma experiência inconstante — pois lá, como em São Paulo, a falta dos meios para uma rotina de colaboração tornou inviável um projeto consistente e com continuidade.

Operadores de câmeras que saibam distinguir o oboé e a flauta, equipamentos que não perturbem os artistas no palco com movimentos abruptos, dimensões grotescas ou ruídos, esse é apenas o beabá de um evento do gênero — algo que modernamente se dá por garantido. O que chamo por “meios”, de fato, é o pensamento técnico especializado por trás da operação. Nenhuma transmissão de bom nível é possível sem uma boa estratégia de posição das câmeras, o que, por sua vez, só pode ser feito com a análise do mapa da orquestra e da partitura — que permite aos diretores da transmissão entender a posição e o tempo de ação de cada instrumentista. Além disso, é importante o estudo da planta da sala de concertos, que garante a usabilidade adequada das instalações da casa. Isso requer, evidentemente, um tipo de equipe que não se improvisa, com responsáveis especialistas que guardem o conhecimento técnico de um regente de orquestra somados aos de um produtor de televisão.

Depois disso, é necessário entender a performance dos artistas no palco, com suas variações de tempo e agógica, e até mesmo seu gestual. É quando se adequa o trabalho laborioso do palco à capacidade de reação dos operadores e seus equipamentos, que devem ter prontidão absoluta em relação aos requisitos da partitura. Uma vez entendido este jogo entre músicos e câmeras é que finalmente faz-se o roteiro que organiza a música que acontecerá nas telas. E ensaia-se, muito, para que toda a precisão e expressividade da música e dos músicos possa ganhar uma dimensão plástica condizente com a qualidade do que se realiza na sala de concertos.

Nas transmissões da Maratona Beethoven, por exemplo, uma decisão foi tomada ainda antes do primeiro evento: dever-se-ia usar, por pelo menos oito semanas, a posição contrária à visão tradicional, com câmeras posicionadas no espaço do coro, e músicos de costas para a plateia. O intuito era, além de ganhar como moldura natural uma dramática Sala Minas Gerais vazia, a de conseguir toda intimidade desejada para um evento de música de câmara — o que apenas a distância curta ou média de câmeras pode alcançar. A análise das transmissões realizadas no período demonstra os efeitos destes estudos prévios: nenhuma das transmissões conta com o mesmo mapa de posição do equipamento.

Esse é o espírito de permanente criação e investigação que orienta os trabalhos na Sala Minas Gerais. Por isso é que uma das grandes injustiças que pode ser feita quanto ao projeto de concertos online da Filarmônica de Minas Gerais diz do eventual aporte de recursos financeiro (dito enorme) para a realização das transmissões semanais. A compra dos equipamentos, realizada por meio de uma emenda parlamentar de autoria do senador Antonio Anastasia em 2018, foi concluída com uma destinação, para as transmissões, de cerca de R$ 300.000,00 — o equivalente a algo entre cinco a doze transmissões tais como as realizadas no valor corrente do mercado. Sob a coordenação do diretor de comunicação, a operação propriamente dita conta hoje com uma equipe enxuta de seis pessoas — um diretor de transmissão, um coordenador de TI, um coordenador de áudio, dois assistentes de vídeo e um assistente de comunicação. A esses se somam a equipe interna da própria instituição, que cria os layouts de créditos ou revisa os materiais gráficos, e os técnicos de palco, que trabalham em contato estrito e rotineiro com a equipe no estúdio. Todos aprenderam uma nova faceta de sua profissão. Minha experiência de doze anos no setor diz que nada disso se compara aos “meios” e custos de uma produção como as que vinham sendo realizadas pelas orquestras do país, com uso de caminhões e sinais de satélites dedicados, com equipamentos extravagantes e operação cujos profissionais se contam às dezenas.

Também é difícil imaginar tais resultados com os meios de operação empregados por qualquer produtora que chegue pela manhã, como um extraterrestre, num mundo que não é seu, para uma transmissão de alta complexidade que acontecerá logo mais, à noite — os esforços, mesmo que eventualmente notáveis, são objetivamente inconsistentes. E é assim pois a única solução possível para este modo de produzir transmissões é a de reunir à operação, no meio do caminho, jovens regentes, que pouco ou nada entendem de audiovisual, e podem apenas somar improvisos a um diretor de vídeo que raramente tem interesse em assistir, quanto menos estudar, espetáculos ou filmagens de música clássica…

Durante a Maratona Beethoven, o que a Filarmônica de Minas Gerais objetivamente fez de diferente foi identificar e apostar numa equipe dedicada de especialistas. A diferença do resultado se dá pela cooperação estrita dos responsáveis pela transmissão com os músicos no palco, além dos valores artísticos, claros e modernos, buscados pela Instituição. Certamente, tudo pode melhorar, mas o caminho correto parece inequívoco. Trata-se de uma verdadeira nova operação, um novo produto sinfônico, entendido seriamente como tal, visto com todo o rigor da otimização dos recursos e do investimento responsável que uma gestão inteligente deve empreender quando lida com o difícil setor cultural brasileiro, no hipercomplexo e hiperconectado mundo clássico contemporâneo.

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(Foto: Rafael Motta)

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Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é autor do livro “Falando de Música: Oito lições sobre música clássica” (editora Todavia, 2020). Tem experiência internacional em transmissões de música clássica, e é responsável pela direção das transmissões da “Maratona Beethoven”. Realizou doutorado com pesquisa na área pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.