Miserável mundo novo: Conservadores, uni-vos!

por Celina Alcântara Brod

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Todos somos conservadores. Essa frase foi escrita por João Pereira Coutinho em sua pequena, porém valiosa obra As Ideias Conservadoras, explicadas a revolucionários e reacionários. Com pouquíssimo esforço é possível provar que a pequena e simples afirmação está correta. Todo mundo deseja preservar aquilo que considera um bem. Quem não deseja conservar sua saúde? Ou talvez seus pequenos e essenciais prazeres diários? Os patrimônios culturais de sua cidade? A floresta Amazônica? Sua família e amigos? Independentemente do que seja, o desejo de conservar aquilo que reconhecemos como essencial ao nosso bem estar e nossas vidas é um afeto que contempla a todos, sem exceção.

O medo de perder aquilo que valorizamos é um sentimento democrático. Perder a saúde, perder o emprego, perder a audição, perder dinheiro, perder a memória. Seja o que for. A perda é o acontecimento que abriga o mal-estar e a dor, são paixões tristes que nos constrangem, diria Baruch Spinoza. Nós humanos, como todo e qualquer animal, queremos evitar a dor e preservar os nossos prazeres tácitos e explícitos. Mas a similitude não é total. Apesar de termos ambições e fomes idênticas, somos acometidos pelo poder da imaginação de antecipar desprazeres futuros e confabular contra o presente. Portanto, somos mais do que conservadores, somos conservadores irrequietos e apreensivos.

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Spinoza

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Este sentimento conservador, inarticulado e inconsciente, não está calçado em qualquer leitura de Edmund Burke ou teóricos do Conservadorismo político. Não se trata aqui de indivíduos que defendem sistemas de pensamento que se opõem às fórmulas axiomáticas de revoluções ideológicas. Ser conservador, neste sentido mais amplo, tampouco depende de uma elaborada crítica às mudanças políticas que estão apoiadas no mito do novo homem e a cilada do destino histórico. Esta é uma articulação filosófica do conservadorismo, que muito embora possa estar relacionada ao sentimento conservador, não é o sentimento per se.

A atitude de querer preservar as condições que sustentam uma boa vida não está no catálogo do espectro político. A alegria de possuir as coisas que valorizamos junto ao medo de perdê-las é uma atitude natural do ser humano. O filósofo John Kekes chama tal atitude de conservadorismo natural. Segundo ele, “se existissem seres que não gostassem de ter o que valorizavam e não tivessem medo de perdê-lo, não seriam reconhecidamente humanos.” Já o seu Conservadorismo refletido trata da defesa de arranjos políticos apoiados em ceticismo diante de ideologias, pluralismo de valores, conservação das instituições e pessimismo com a ideia de aperfeiçoamento humano. Neste último caso, Kekes está tratando de condições políticas que visam a preservação de uma boa vida. Já ao falar de atitude conservadora natural estamos lidando com algo irreprimível: a incapacidade do homem de ser indiferente aos prazeres habituais que preservam sua boa vida.  Esteja ele vivendo em uma aldeia Xingu ou em meio a selva de pedra da poluída rotina urbana.

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John Kekes

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Neste sentido, todos são conservadores. Sim, até tu Brutus! Até mesmo o progressista mais ferrenho é conservador no momento que diz que suas ideias de progresso merecem ser preservadas. Mas este texto não é sobre detalhes conceituais, nomenclaturas políticas ou acordos semânticos. Este é um texto bem mais delicado e humano que isso. Nem tudo é política. O recado emblemático da raposa de Antoine de Saint-Exupéry pode ser reformulado da seguinte forma: “O essencial não é apenas invisível aos olhos, mas aos conceitos políticos também”. Entrar em contato com determinadas sensibilidades envolve o reconhecimento de nossos denominadores comuns, que não se submetem as peculiaridades políticas. Um olhar apurado reconhecerá, sem maiores problemas, o conservadorismo natural naqueles que enxergam com pessimismo certas perdas e que defendem a conservação do “essencial invisível aos olhos”.

Aldous Huxley, por exemplo, na sua famosa obra Admirável Mundo Novo, estava sendo conservador ao imaginar o que seria de uma sociedade que, em busca de uma estabilidade social máxima, extinguira os laços familiares, os afetos, o espaço do tédio e da melancolia. Ao lermos sobre o embotamento gerado pela tecnologia e pela tirania da satisfação de todos os desejos, Huxley nos convence que até o remorso tem um propósito de ser. O mundo hipotético e totalitário de Brave New World tem pouco ou quase nada de admirável: uma população sem liberdades políticas que sequer precisa ser coagida pois ama sua servidão. As promessas de novo mundo são sempre admiráveis; já suas reais consequências para o comportamento e vida humana, eternamente questionáveis.

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Brave New World, em sua primeira edição

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Em um artigo escrito para a revista New Yorker, em fevereiro de 2019, o neurologista escritor Oliver Sacks relata seu estranhamento frente ao desparecimento do velho. Durante um passeio pelas ruas de Londres, acompanhado de sua sobrinha Liz, Oliver constata com tristeza as profundas mudanças sociais causadas pelo rápido avanço tecnológico. A obsessão generalizada com a realidade virtual e a constante exposição da vida, pensamentos e momentos privados haviam preenchido as ruas com distração e desatenção. Estarrecido com a imagem das pessoas vidradas em seus smartphones colados em suas mãos, ele escreve: “Eles desistiram, em grande medida, das amenidades e conquistas da civilização: a solidão e o ócio, a sanção de ser você mesmo, verdadeiramente absorvido, seja na contemplação de uma obra de arte, de uma teoria científica, de um pôr-do-sol ou do rosto do ser amado”. Oliver Sacks estava sendo conservador.

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Oliver Sacks

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Tal sensação de perda remete Oliver ao pequeno conto distópico de E.M. Forster, The Machine Stops. O conto de Forster, escrito em 1909, é estrondoso pela sua antecipação da internet e a atual onipresente comunicação via aparelhos audiovisuais. No mundo criado por Forster as pessoas vivem isoladas em células subterrâneas, absortas em uma distração tecnológica, em que o fluxo incessante de ideias, notícias, opiniões e opções as mantem envolvidas. Entre uma ideia e outra, palestras de 10 minutos e novidades liquidas: o tédio. A experiência direta é rejeitada por gerar ansiedade e inquietação, “as pessoas nunca se tocavam. O costume havia se tornado obsoleto.”, toda e qualquer dúvida era sanada pela Máquina.

Este é o pano de fundo da história do jovem Kuno, que insiste em não querer mais ver a mãe através da Máquina — o que seria nosso atual Zoom, Skype ou Google Meet; desejava ver sua mãe pessoalmente e convencê-la de que a Máquina havia corrompido as noções de tempo, espaço, intimidade e contemplação. A humanidade, mansamente e complacentemente, “estava afundando na decadência, e o progresso passou a significar o progresso da Máquina”.  Para Kuno, “o belo homem nu estava morrendo, nas vestes que tinha tecido”. Forster estava sendo conservador.

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E.M. Forster

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Toda distopia traz em si um substrato do conservadorismo natural. A narrativa distópica transforma a extinção de pequenos e valiosos costumes em desdobramentos de consequências hiperbólicas, porém parcialmente plausíveis. O que aconteceria em um mundo onde bombeiros queimam livros, pois os livros começaram a ser questionados por cada grupo que se sentia prejudicado? Foi o que pensou Bradbury, em Fahrenheit 451. O que aconteceria em um mundo onde todas as relações afetivas exclusivas fossem extintas? Pensou Huxley, em Admirável Mundo Novo. O que seria da individualidade e da verdade em um mundo onde o estado pudesse vigiar tudo e todos constantemente? Pensou Orwell, em 1984. O que aconteceria em uma sociedade que perdesse a experiência direta da tridimensionalidade e privilegiasse apenas a bidimensionalidade e distração da Máquina? Pensou Forster, em The Machine Stops.

Assim, acompanhando estas vozes de natureza conservadora, este texto é um tímido manifesto conservador. Um manifesto que rejeita a antecipação de um mundo, um mundo que alguns tentam normalizar diante dos desafios da pandemia causada pela Covid-19. Não há que se normalizar circunstâncias que nos entristecem e constrangem nosso bem-estar. Por isso, a expressão “o novo normal”, que tem sido usada sem pudor, é um equívoco de mau gosto. Mesmo que todos estejam entretidos com suas gerigonças, é preciso manter o empenho na restituição do velho normal. O novo, há que se insistir nisso, é anormal.

Nunca será natural abraçar avós por cortinas de plástico. Não é desejável manter as crianças longe de outras crianças, ou desconfiadas de colocarem a mão na gangorra. Não é adequado que as trocas sociais aconteçam, única e exclusivamente, mediadas por telas e pela desconfiança escondida atrás de máscaras. Não é condição de boa vida excluir aniversários e casamentos presenciais de nossos ritos. Não é esteticamente intenso visitar museus virtualmente. Não parece ser condição de boa vida, torcedores de papelão emulando uma torcida em arenas de futebol. Não pode ser normal ir a bares e ser restringido por alguns metros quadrados para evitar o contato humano inesperado. Não podemos achar normal cumprimentar velhos amigos com os cotovelos. Jamais será prazeroso carregar as premissas do gato de Schrödinger por aí: viver um estado mental onde estamos e não estamos carregando o vírus ao mesmo tempo.

Diante da temporária e necessária suspensão do normal, é preferível encarar nossa situação como uma adaptação contemporânea da Arca de Noé. Precisamos atravessar e sobreviver ao dilúvio, resguardando os hábitos simples, que de alguma formam sustentaram nossa humanidade até aqui. Abrigar em nossa arca de Noé mental pares de rotinas considerados valiosos, aqueles que atavicamente pressentimos que não merecem a forçada extinção. Valorizar nossos hábitos autóctones, que muitas vezes tomamos como dados e de pouco valor, mas que provavelmente sustentaram todas as nossas outras partes importantes. Quando o dilúvio passar, abriremos a arca para retomarmos o velho normal. Certamente haverá mudanças que irão sobrepor-se a algumas velhas ações e rotinas, mas aqui estamos falando sobre o essencial, que pode até escapar aos olhos, mas não aos testes do tempo. Que esse miserável novo mundo passe logo, e que o nosso admirável velho mundo encontre seu caminho de volta.

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The Subsiding of the Waters of the Deluge, Thomas Cole, 1829

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).