Taoísmo

Entrevista com Chiu Yi Chih, Mônica Simas e Bony Schachter. Por Marcelo Consentino.

Rádio Estado da Arte.

Elemento comum à toda espiritualidade chinesa, o Tao significa “caminho”, mas para o taoísmo é também a Verdade e a Vida. A mais elusiva das tradições espirituais mundiais, o taoísmo compreende muitas subtradições, seitas religiosas e escolas filosóficas unidas por uma cosmologia similar e um objetivo comum de união com o Tao, que toma a forma de uma busca ou por imortalidade física ou por transcendência mística ou ambas. Sobre o seu mítico fundador, Lao Tzu, abundam anedotas hagiográficas, mas além disso não se sabe nada, nem sequer se existiu ou se escreveu o Tao Te Ching, o livro chinês mais lido, publicado e comentado — de fato, o segundo livro mais traduzido do mundo, depois da Bíblia. Apesar da popularidade, essa compilação de aforismos paradoxais é tão lacônica quanto críptica. Em contraste, tanto quanto o Tao Te Ching é conciso, o livro de Chuang Tzu — coalhado de lendas, parábolas e sátiras que desafiam as certezas sobre a religião, a linguagem, a lógica e a própria realidade — é prolixo.

Estes mestres pregam o caráter cíclico do tempo; a eterna reversão do ser ao não-ser e vice-versa; e a solidariedade entre a natureza e o homem. Uma vida cultivada na compaixão, frugalidade e humildade terá tanta naturalidade que suas ações serão quase não-ações, ou ações não intrusivas, não voluntariosas, sem esforço. Mas apesar do aparente quietismo, o daoísmo se capilarizou em inúmeras sociedades secretas, seitas milenaristas e facções messiânicas. Apesar desse panteísmo volátil, seus fiéis convivem com uma multidão exorbitante de deuses, espíritos e demônios. E apesar dessa moralidade austera, seus ritos se proliferam em uma pletora de feitiços; exorcismos; elixires; talismãs; conjurações; adivinhações; transes; oráculos; fórmulas alquímicas; e técnicas meditativas, clínicas, marciais, ginásticas, dietéticas e sexuais, que reverberam hoje em práticas seculares como exercícios de meditação, o Tai Chi ou o Feng Shui. Tanto quanto o taoísmo enfatiza a natureza e o que é natural e espontâneo no ser humano, a sua tradição irmã, o confucionismo, se ocupa da sociedade humana e das responsabilidades sociais. A história de seus atritos e simbioses é a mais perfeita expressão dessa mistura singular de superstição e ceticismo, de piedade e racionalismo, que é o ideário chinês.

Afinal, o que será o taoísmo: uma corrente profunda da cultura chinesa ou uma joia rara? Fruto do povo ou de uma elite minoritária? Será uma força contracultural, revolucionária, ou de consolidação do status quo político, ou será ainda inerentemente apolítica?

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(Ilustração: Piotr Siedlecki)

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Convidados

Chiu Yi Chih: professor de filosofia chinesa clássica do Centro Cultural Taipei e tradutor do Dao De Jing.

Mônica Simas: livre-docente de Letras da Universidade de São Paulo onde coordena o Laboratório de Interlocução com a Ásia.

Bony Schachter: doutorando em História da China na Universidade de Fudan, em Xangai.

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