Onde estamos quando estamos com medo?

por Celina Alcântara Brod

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O amor move montanhas, mas é o medo que assola o nosso mundo. Uma palavra tão pequena de efeitos gigantescos e múltiplas variações, uma paixão desagradável, escreveu Hume. Há o medo físico como reação nervosa e imediata, mas também há o medo como dor psicológica. Estar diante da incerteza, conceber um mal possível e reconhecer nosso óbvio despreparo ante ao inesperado gera esta última espécie de medo.  Mas, esse sentimento, essa dor psicológica é, na verdade, um denso não-lugar. Afinal, este medo é o pensamento fugindo do instante já, uma fuga onde o desespero e a angústia encontram-se habitando os piores cenários da nossa imaginação. “O medo é a coisa de que mais tenho medo no mundo”, escreveu Michel de Montaigne em um de seus ensaios. “Vi muita gente tornada insensata pelo medo”, afirmou o francês. Mas onde estamos, quando estamos com medo?  Para onde esse triste passeio da imaginação nos conduz?

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Michel de Montaigne

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Ante uma situação desconhecida, como esta pandemia que se impõe a todos nós, é um exercício de prudência aquietar o movimento da nossa mente, que oscila entre a tristeza do medo e a alegria da esperança. Para tanto, não podemos entregar-nos ao desespero. A fim de alcançar esta justa medida, o pertinente ethos aristotélico, cabe a tarefa de substituirmos o medo por cautela e a esperança desmedida por esperanças sensatas. Esperanças sem limites podem nos arruinar mais que nossas aflições.

Paolo Rossi, historiador e filósofo italiano, em uma pequena obra intitulada Esperanças, chama atenção para os perigos das expectativas excessivas. Para Rossi, a História mostra que o fascínio pelas grandes esperanças dera origem “a projetos não sensatos e que se tornaram praticáveis através do uso sistemático da violência”. Rossi trata dos grandes mitos religiosos e ideológicos sobre o novo homem, o utopismo e os riscos provenientes do deslocamento da teologia à uma filosofia da história. Mitos que nutrem a ideia de redenção da humanidade, muitas vezes conduzidos pela arrogância de intelectuais profetistas, aos quais Rossi chama de filósofos xamãs.

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Paolo Rossi

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No lugar de um futuro triunfalista para os problemas humanos, o italiano sugere “esperanças sensatas”. Isso significa que deveríamos renunciar as ilusões mais fáceis, aceitando que não “existem telescópios para o futuro”. Para continuarmos no caminho, sem nos entregarmos ao desespero, devemos contentarmo-nos com progressos aqui e acolá, sermos receptivos a projetos modestos e não entusiasmantes. Não seria justamente esta serenidade vigilante, essa “esperança sensata”, que precisamos para contornar o caos atual sem cair em um caos maior? Para isso, é preciso compreender, não ignorar os efeitos do medo.

John Bowlby, psicólogo britânico que desenvolveu a teoria do apego, observa que muitos pensam no medo como uma emoção que nos leva a fugir de algo. Contrariando o senso comum, Bowlby apresenta um outro aspecto: o medo nos incita, acima de tudo, a correr para algo. O temor instiga nossos instintos de sobrevivência e nossas ganas mais primitivas de preservação. Diante do medo, da antecipação do pior, as pessoas tornam-se extremamente vulneráveis e buscam algo que as proteja da ameaça. Isso explica a razão pela qual muitos acabam, sem dificuldade, obedecendo de antemão. Ao sentirem medo, os indivíduos tornam-se sedentos por alguém que acalente suas incertezas e dores psicológicas, ou seja, correm para algo que lhe devolva um futuro seguro.

De um ponto de vista político, isso significa que não devemos deixar que o medo nos leve a renunciar a nossa vigilância às liberdades, duramente conquistadas nas democracias modernas. O filósofo John Gray, contestando a fé de muitos na ideia de progresso moral, não cansa de lembrar que tudo aquilo que conquistamos em uma geração pode ser perdida na próxima. Diferente da ciência, as motivações humanas não respeitam o regime da razão. Nossa tecnologia é uma faca de dois gumes, “a culpa não está nas ferramentas, mas em nós mesmos”, escreve Gray. Logo, devemos permanecer vigilantes a possíveis abusos de poder.

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John Gray

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É imprescindível que todos, temporariamente, sacrifiquem prazeres, sua autodeterminação e o livre ir e vir diante da impiedade da Covid-19. Porém, devemos estar atentos aos falsos confortos e as soluções triunfalistas que surgem quando o medo se estabelece como normalidade. A linha é tênue. É nesses instantes, que vozes carismáticas angariam seguidores, que cultos abusivos manipulam seus crentes e que líderes narcisos fortalecem o uso arbitrário da autoridade. Será que países que antes já flertavam com o autoritarismo e hoje sentem o gosto do controle absoluto da vida social e econômica de seus cidadãos irão recuar seus poderes quando tudo isso passar? Só o tempo dirá.

O autoritarismo torna-se mais suscetível quando o medo é rotina. Atitudes salvacionistas encarnam uma personalidade que alivia a angústia do nosso não saber. Quando nos sentimos a deriva, nada mais alegre que um pedaço de terra firme para ancorar nossa imaginação amedrontada. A medicina entra com a cura para nossas dores físicas, mas as crenças e a submissão voluntária entram como analgésico para nossas dores psicológicas. Ninguém está livre desta armadilha. Para que não saiamos de uma pandemia para uma tirania, precisamos enfrentar esse problema humano sem renunciar aos aprendizados já conquistados: agir com cautela diante desta emergência sanitária e simultaneamente proteger o frágil tecido democrático. Um equilíbrio difícil se estivermos com medo.

Pela primeira vez temos a oportunidade de deixar de lado nossas idiossincrasias conceituais, culturais e ideológicas. Finalmente estamos diante de um inimigo “alienígena”, um inimigo que vai contra todo o gênero humano, colocando em perspectiva nossas mesquinhas diferenças territoriais e dogmáticas. Contra um vírus, todos somos membros de uma comunidade mais ampla. Se antes nos identificávamos como progressista, liberal, conservador, socialista, minoria, elite, classe média, ocidentais, orientais, cristãos ou ateus, agora podemos nos identificarmos apenas como espécie humana. Se antes estávamos divididos em tribos em busca de reconhecimento por nossas diferenças, e por isso, distraídos em batalhas identitárias, hoje temos a oportunidade singular de travar uma batalha entre a tribo humana e a tribo microbiótica.  

Porém, supreendentemente, não bastasse os efeitos democráticos do medo, há quem o polarize, competindo medos. O que dá mais medo? A possibilidade do contágio devastador de um vírus ou o medo da miséria? Medo de ficar à míngua ou o medo de ver o desespero? Medo de sucumbir financeiramente ou medo de adoecer e não ser atendido? Medo de não conseguir alimento? O debate dicotômico entre salvar vidas ou salvar economia, só existe na mente de quem tende a interpretar a realidade de forma simplista, afinal saúde e economia são esferas interdependentes de qualquer ordem social. Agora, se o medo só agrava o que já é grave, cabe perguntar : é possível viver sem medo? O que seria viver sem medo?

Diante do cenário atual, viver o instante deixou de ser mera máxima e tornou-se imperativo de sobrevivência. Em tempos turbulentos, é aconselhável, olhar para as lições estoicas e epicuristas. A ataraxia epicurista e a apatheia estoica, guardadas as devidas distinções, são conceitos que remetem a tranquilidade e quietude da alma quando aceitamos aquilo que o mundo nos apresenta. Uma simplicidade serena possível quando nos concentramos apenas nas coisas que podemos controlar. Sentimos medo porque desejamos que o entorno da vida siga um determinado padrão, mas e se abandonarmos qualquer padrão? Tais ensinamentos podem fornecer um remédio para essa nossa ansiedade de querer fazer com que a realidade cumpra um “deveria ser”. Se deixarmos de nos identificar com nossas imagens passadas ou futuras de uma vida ideal e resistirmos a incerteza, quem sabe aprenderemos não apenas a afugentar o medo, mas vivermos com uma atenção mais presente?

Isso vale como aprendizado para nossas vidas.  Desejar segurança e controle é inadvertidamente abrigar o medo. Quanto mais busco proteger-me do inesperado, mais medo tenho. É confortável crermos que estamos em segurança, mesmo não havendo qualquer prova para isso. Na verdade, estamos sempre em risco. Nada possui a segurança necessária da aritmética, é apenas nosso hábito de ver os fatos se repetirem que nos gera determinada confiança no curso das coisas. Esse foi o divisor de águas causado pelo insight de Hume. Portanto, onde estamos quando não estamos com medo? Estamos presentes ou distraídos?  Se estamos presentes, acolhemos a observação e com ela a serenidade de aceitar o que não controlamos. Se estamos distraídos, então não estamos mais presentes.

É exatamente neste sentido que Epicuro afirma que o medo que temos da morte é insignificante. “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais”, são as palavras do filósofo grego. Esta é uma das duras lições que Ivan Ilitch, personagem da novela de Tolstói, custa a aprender. “Não existirei mais e então o que virá? Não haverá nada. Onde estarei quando não existir mais? Será isso morrer? Não. Eu não vou aceitar isso!”, esbraveja Ilitch. Não podemos vencer o doloroso processo de morrer, podemos vencer apenas o medo da morte, aceitando-a. Para alguns, este aprendizado chega tarde demais e, imersos nos desagradáveis truques da imaginação, passam a vida com medo.

Mas, será que podemos olhar para o oscilar de nossos pensamentos sem querer buscar algum dogma, grupo, líder ou cura? O medo é um aspecto inextirpável da humanidade, se rastrearmos seu contágio na História descobriremos que o temor é um grande criador. O medo criou nossos Deuses, nossas ordens imaginadas, criou inclusive, segundo Hobbes, o próprio Estado. Será que os humanos são capazes de satisfazer-se com esperanças sensatas e um olhar atento ao presente, ou somos uma espécie que teima e precisa crer em ilusões? Essa pergunta levantada por Rossi é uma busca individual, cuja resposta voa em um céu aberto.

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‘Disparate de miedo’, Goya, c. 1816–19

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).