Introdução a ‘Guerra Cultural Bolsonarista – A Retórica do Ódio’

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João Cezar de Castro Rocha é ensaísta e Professor Titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Pela Editora Caminhos, o Professor João Cezar lançará a obra Guerra Cultural Bolsonarista – A Retórica do Ódio.
Em uma parceria do Estado da Arte com o Prof. João Cezar, publicamos aqui a inédita Introdução à obra. Nossos profundos agradecimentos ao autor e à Caminhos, personificada por Mario Zeidler Filho e Cláudio Ribeiro.

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Guerra cultural bolsonarista – A retórica do ódio

Introdução

por João Cezar de Castro Rocha

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Even now, now, very now.
(William Shakespeare, Othello)

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Nunca escrevi um ensaio como este.

E provavelmente não o faria agora se não vivêssemos um ”tempo de partido/ tempo de homens partidos”, nos versos definitivos do poema “Nosso tempo”, coligido em A Rosa do povo, livro saído em 1945. A experiência-limite da II Guerra Mundial e a crescente polarização ideológica, que deu origem à Guerra Fria, calaram fundo na sensibilidade do poeta. Ainda mais desconcertante era a incapacidade de inteligir os eventos: “Visito os fatos, não te encontro / Onde te ocultas, precária síntese” – e a pergunta angustiada de Carlos Drummond de Andrade não me sai da cabeça.

Pois é bem isso: busco a precária síntese, que Drummond pode não ter descoberto, mas que soube converter em poesia. No meu caso, me contento em atender à urgência do instante, respondendo ao apelo do Iago shakespeariano, “Even now, now, very now”.

Não exagero: a sociedade brasileira encontra-se em transe: o espaço público foi limitado a uma sucessão de muros tão altos como as convicções são ligeiras; as massas digitais, assombradas por uma máquina incansável de notícias falsas, trocam de bode expiatório como quem toma um copo de água; o presidente da república demonstra não compreender a dimensão da cadeira que o constrange; e, mesmo diante de uma crise mundial de saúde, comporta-se como animador de um auditório de caras marcadas, cujas declarações são cada vez menos relevantes. Mais ou menos como um líder, em tese católico, que convocasse um jejum em pleno Domingo de Ramos…

A precária síntese drummondiana demanda uma pergunta: como foi possível chegar a esse poço sem fundo aparente? E sem luz ao seu final?

Neste ensaio, a fim de iluminar certo ângulo da questão, sugiro uma mudança radical de atitude: a passagem da caricatura à caracterização.

Vamos lá?

Eis: a guerra cultural bolsonarista, que se beneficia de uma técnica discursiva, a retórica do ódio, ensinada nas últimas décadas por Olavo de Carvalho, conduzirá inexoravelmente o país ao caos social, à paralisia da administração pública e ao déficit cognitivo definidor do analfabetismo ideológico, conceito novo com o qual descrevo a negação da realidade e o desprezo pela ciência que estruturam o bolsonarismo.

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Foto reproduzida no jornal O Globo (Reprodução/Twitter)

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Essa guerra cultural se alimenta de um paradoxo que anuncia a ruína do governo. Proponho uma formulação inicial do dilema: sem a guerra cultural, o bolsonarismo não consegue manter as massas digitais mobilizadas em constante excitação; contudo, a guerra cultural, pela negação de dados objetivos e pela necessidade intrínseca de inventar inimigos em série, não permite que se articule propriamente um programa de governo.

Desvelar o paradoxo do bolsonarismo é meu propósito porque, pelo menos assim aposto, ao fazê-lo, começaremos um bate-papo com a sociedade. E, quem sabe, dessa conversa nascerá a possiblidade de substituir a retórica do ódio pela ética do diálogo. Ou seja, em lugar do desejo perverso de aniquilação do outro, visto como inimigo a ser eliminado, defenderemos o reconhecimento do outro como um outro eu – e precisamente a diferença amplia meu horizonte existencial e por isso enriquece minha visão do mundo.

Dois ou três cuidados antes de entrar na pista.

Não ignoro que a expressão “guerra cultural bolsonarista” possa causar comichão nos prudentes colecionadores de ideias e nos engravatados entomologistas de conceitos.

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(E como são sensíveis!)

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Ainda assim: insisto: guerra cultural bolsonarista. No segundo capítulo, detalharei minha compreensão do fenômeno, revelando os truques da retórica do ódio, da onipresença de bodes expiatórios e da proliferação imprudente de teorias conspiratórias. Mas, calma: não afirmo que o bolsonarismo inventou a guerra cultural! A disputa de visões de mundo contrárias remonta aos séculos XVI e XVII, já que é parte estrutural da noção moderna de tempo. Uma vez que se introduziu uma diferença qualitativa entre passado, presente e futuro, a novidade se tornou o sal da terra e, em consequência, o choque de valores passou a ocupar o centro da cena da cultura.

Contudo, defendo, isso sim, que experimentamos uma circunstância muito específica, intimamente relacionada a um movimento revisionista no tocante à memória da ditadura militar. No terceiro capítulo, levarei adiante essa caracterização resgatando os princípios da Doutrina de Segurança Nacional, enfatizando seu corolário de ferro: a eliminação do “inimigo interno” e a limpeza do corpo social. O revanchismo, marca d’água da mentalidade bolsonarista, explode no projeto secreto do Exército brasileiro na década de 1980, o ORVIL, duplo mimético do icônico Brasil: nunca mais, livro-denúncia das arbitrariedades e violências da ditadura, saído em 1985. Mostrarei que a narrativa delirante que ORVIL propõe da história republicana moldou o homem da caserna que chegou ao posto máximo da nação e segue presidindo seu olhar sobre as palavras e as coisas. No plano da cultura audiovisual, a produtora Brasil Paralelo, cuja denominação evoca um involuntário autorretrato, assumiu a tarefa de popularizar aquela narrativa numa série de documentários eivados de grosseiros erros factuais, como demonstrarei na análise de 1964: O Brasil entre armas e livros.

Como o país está mesmo fora dos eixos, trato somente agora do primeiro capítulo. Oferecerei um conjunto de hipóteses acerca da ascensão da direita, naturalmente levando em consideração que também se trata de ocorrência transnacional. Arrisco um conceito, massas digitais, para caracterizar o cenário contemporâneo, igualmente definido pelo ativismo. Ora, se não dispomos de um consenso sobre o sentido das Manifestações de Junho de 2013, identifico pelo menos uma consequência que literalmente mudou o cenário político: o ativismo que nega o sistema político como um todo, embora situe a política como autêntica obsessão no dia a dia dos tristes trópicos. Duas formas de ativismo, judicial e digital, foram fundamentais para o êxito do bolsonarismo.

Nessa ordem de interesse, no quarto e último capítulo analiso o que vejo como a razão principal do insucesso do governo Bolsonaro, vale dizer, a distopia de uma pólis pós-política, cujas mediações institucionais seriam violentamente suprimidas, em favor de uma democracia direta, lastreada na volatilidade das redes sociais. Essa mal disfarçada pretensão autoritária leva o presidente a uma tensão estéril com os dois outros poderes da República e com as instituições da sociedade civil, destacando-se sua relação conturbada, porém monótona, com a imprensa.

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(Democracia direta: o caos sem contraste, o inferno tornado evento cotidiano no paraíso do populismo e da demagogia de políticos-pastores que não se envergonham de mostrar seus dentes de ouro – sem nunca terem lido Nelson Rodrigues.)

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O ensaio não termina nessa nota melancólica — porém.

Na conclusão, esboço uma alternativa para a forma da democracia por meio do resgate de uma diferenciação que permitiu à ágora ateniense conceder à palavra disposição deliberativa: a distância entre fato e rumor. Tal resgate favorece a ética do diálogo, pois o tecido social brasileiro não suportará novos esgarçamentos.

Chegou a hora de recordar a riqueza dos mosaicos.

Mais não digo: espero por você no final do livro.

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(Sim?)

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Othello e Iago, ilustração ‘Tales from Shakespeare’, de Charles e Mary Lamb (1807)

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João Cezar de Castro Rocha

João Cezar de Castro Rocha é ensaísta e Professor Titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).