Uma intervenção na caixa do real

por Deborah de Paula Souza

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O fotógrafo Penna Prearo apresenta Fronteiras Movediças. A exposição foi aberta no último dia 24 e segue até 29 de novembro, na Casa da Imagem/Museu da Cidade de S. Paulo.[*] Com curadoria de Fausto Chermont, a mostra retrospectiva apresenta 187 imagens, algumas inéditas, em diferentes ensaios. Nove salas do espaço serão ocupadas pela exposição.

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© Penna Prearo, Apollo 1637

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Ele vê paralelos entre aviões e tubarões. Estabelece um aquário no céu e mergulha. Enumera dádivas e oferendas, registra seus Achados em Altamira. Tão alta a mira que a história não cabe mais em si, a narrativa soa impossível e o visível torna-se outra coisa. Coisa de invenção. A obra de Penna Prearo é uma intervenção na caixa do real.

O tempo lhe enviou telegramas e Penna ajustou sua lente ao peso do mundo. No momento, ele mede o branco das têmporas e o tremor da sua vida. O tremor ele chama de “Mr. Parkinson”. Transforma seu diagnóstico num filme inglês e coloca ali as locomotivas (as louco-emotivas) que, ao longo de seu trajeto, já evocavam o pai ferroviário, a mãe com nome de anjo, algum velho músico carregando o estojo do violino, um cão perdido, o cavalinho de madeira solto no mar. Como todos podem perceber, ele tem um deus solar por companhia e arrancou-lhe a cabeça.  Apollo boia nos seus olhos, misto de divindade e espaçonave. Para as mãos, criou um tripé menor que um buquê de flores e acoplou a geringonça ao celular. Cria extensões para o seu corpo, stents que desobstruem as artérias entre foto, som, memória e devir.

Há tempos anunciou que sua vida e sua fotografia (em dado momento, as duas linhas se fundiram) mudariam de rota. Em que momento o olho deixou de vazar a luz de retrato e captou o frangalho do tempo? Ele diz que a virada aconteceu com a série Transmutantes. Entendeu a dimensão do estúdio geral dos dias e materializou a visão da mulher na pedra. Havia nela alguma coisa de abelha, astronauta e bailarina. O que essa visão lhe custou só ele sabe, mas rompeu-se ali a ilusão de alguma verdade imóvel. Assim que Penna tirou a verdade para dançar, cores imprevistas explodiram como fogos de artifício/art fiction. Desde então, passou a colecionar velumes de paraquedas vermelhos e mosquiteiros de tule branco — guarda os panos num saquinho de supermercado, depois viaja com eles, joga tudo para o ar e clica. Seu método consiste em captar o trajeto das coisas no vento.

Homenagens ele rende apenas aos seus dois mestres de magia: o cinema e a música. Gosta de emoldurar as imagens com nomes de Argonautas, Nefelibatas, Devaneios Rocinantes em Sinadúbia, Tribunal das Pequenas Alterações... Justiça seja feita: ele esculhamba a dimensão do juízo. Talvez deseje iniciar os passantes na visão do alumbramento. De tanto ver, seus olhos não param de marejar. Seu lirismo ora vem à tona ora floresce sob o escudo do humor — o escudo serve também para recobrir a vergonha que ele sente da bagunça do seu quarto e da pergunta secreta dos homens: “Quem poderá nos amar?”.

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© Penna Prearo, Tribunal das pequenas alterações

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Sem ter lido os livros de Freud, Penna faz com fotografia aquilo que nós fazemos com sonhos. Em seu trabalho de figurabilidade, realiza operações de deslocamentos e condensação. Desse modo, consegue girar a trama dos sentidos, como atesta o seu “cinema de breque”, em cartaz no Instagram. Algumas cenas estão guardadas numa caixa com tampa transparente — ele oferece luvas brancas para quem quiser abri-la.

Penna Prearo é um poeta beat cuja estrada é a luz, o espaço sideral e as crostas dos mundos — são essas as imagens que ele criou na série Cartografia de Andarilho, antes de lançar as rodas de bicicleta sobre o mar (Falange Ciclope). Informa que as fronteiras são movediças e fotografa como quem sabe que vai morrer. Depois de ultrapassar os 70 anos — com filhos, netos e bisneta —, conhece a trilha sonora da encruzilhada e mantém seta e visor apontados para frente.  Define-se como um sniper, dispara de onde estiver. Num gesto radical, decidiu incendiar a antiga máquina fotográfica; cegou o passado e fez jorrar a luz infra-vermelha. No ritual de destruição, a câmera passou pelo fogo, a água, a terra e o ar. Sementes virtuais imantam hoje o seu desejo de que a fotografia atravesse as forças da natureza e revele, enfim, que tudo é música.

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© Penna Prearo, Música no ar – Gilles Serrigny

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[*] PENNA PREARO – Fronteiras Movediças 

24/10 a 29/11 de 2020

Casa da Imagem – Museu da Cidade de S. Paulo

Rua Roberto Simonsen – 136B – Sé / São Paulo

De terça a domingo, das 11h às 15h

Serviço educativo disponível – Entrada Gratuita

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Déborah de Paula Souza

Déborah de Paula Souza é jornalista, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.