Os Conselhos da Noite: entrevista com José Oliveira

por Miguel Forlin

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No primeiro plano de Os Conselhos da Noite, Roberto (Tiago Aldeia) surge no meio de uma imensa paisagem, integrado ao ambiente que lhe rodeia, mas o que vemos é apenas a sua silhueta sombreada. Depois, quando ele já terminou o expediente e caminha na diagonal em direção ao local onde reside, temos a oportunidade de vê-lo mais claramente. Essa aproximação confirma-se na cena seguinte, na qual, de perfil, com as pernas inquietas e aquecido pelo fogo da lareira, ele encara o envelope de uma carta do Instituto Médico de Oncologia, cujo conteúdo parece afligi-lo emocional e fisicamente. Finalizando essa sequência,  que vai do crepúsculo à claridade do outro dia, passando pela madrugada ― este habitat temporal dos insones e solitários ―, um momento em que Roberto está de frente, iluminado pela luz da manhã, fitando o horizonte que o aguarda e que o levará a um lugar que ele conhece muito bem: a cidade de Braga.

A inevitabilidade da noite, sempre antecipada pela anunciação crepuscular, assinala o fim de uma etapa:  Roberto partirá do lugar onde está. A luz que cedeu e a escuridão que parcialmente o nublou é como um universo que se despediu. A manhã do próximo dia, que o revela por inteiro, é também a manhã do dia em que ele voltará para Braga, com aquelas pernas inquietas de quem, parado, deseja mover-se. Mas a qual passado retorna-se, quando o tempo para frente tudo leva, e do que dele retira-se, quando o passado não é mais o mesmo, parecem ser algumas das perguntas que alimentam o tumulto interno, tão bem demarcado pelo surgimento das notas que compõem a primeira aparição da trilha sonora não diegética e pelo golpe desferido no banco dianteiro, após uma das mãos retirar-se da caderneta, antes firmemente segurada.

Berços e cidades natais existem em qualquer lugar e em qualquer tempo, são as particularidades que mudam. Particularidades de Roberto e Braga. Assim como a cidade portuguesa, Roberto é um ponto de encontro entre o passado e o futuro. O seu desejo é regressar para escrever o livro que o libertará, o livro que trará a redenção de memórias turbulentas e de fracassos pretéritos. Esses dois demônios, o da lembrança e o da escrita, exigem o enfrentamento para exorcizarem-se. Já Braga é o presente entre as igrejas e os santos de pedra de sua história católica, que reluzem ao dia nublado, e a vida agitada dos jovens, que se ilumina à noite através de lâmpadas artificiais.

Coisas da vida, coisas do cinema, coisas de Os Conselhos da Noite. E é sobre elas que o seu realizador, o cineasta português José Oliveira, fala nesta entrevista que tive a honra e o prazer de fazer.

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Os Conselhos da Noite (Reprodução)

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Como surgiu a ideia de Os Conselhos da Noite? E de que maneira ela se desenvolveu?

Num rigoroso inverno de 2014 a energia que eu e o meu amigo João Palhares (co-argumentista) sentimos na nossa cidade – em nível poético, político, sociológico e sobretudo humano – estava próxima, por exemplo, do início de Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), de Martin Scorsese: rock’n’roll, novas amizades em qualquer esquina, uma nova visão do mundo, novos horizontes, transgressão. Nenhuma ideia feita. Depois foi uma questão de mergulharmos a sério em todas as questões: o filme pode não ser parecido com os de Roberto Rossellini ou Vittorio De Seta, mas a pesquisa etnológica levada a cabo por esses mestres foi uma constante lição. Eu e o João Palhares não escrevemos praticamente uma linha de diálogo, tudo saiu da boca de bracarenses ou amigos e depois passado a papel.

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Assistindo a Os Conselhos da Noite, lembrei, mais de uma vez, de Deus Sabe Quanto Amei (Some Came Running, 1958), de Vincente Minnelli. Existe, em Os Conselhos da Noite, a influência direta de algum filme ou cineasta?

A primeira loucura cinéfila era realmente fazer um remake desse filme de Minnelli que é muito importante na nossa formação. Era encontrar um Sinatra, e logo o seu movimento de repulsa e proximidade para com o seu modo de vida e para com o seu meio, uma dialética visceral que tentasse resgatar e reter o tempo perdido, para ele surgir ao mesmo tempo do que o presente e o pressentimento do futuro. Mas também o percurso e o ser estraçalhado pelo choque da infância e das desilusões que o Jack Nicholson representa primorosa e feridamente no Cada um Vive como Quer (Five Easy Pieces, 1970) de Bob Rafelson (o Tiago ficou obcecado com essa interpetação para lá do método, em carne viva e queimada), em constante ruptura com os sentimentos primordiais. Mas logo se tratou de tentar afastar a doença da cinefilia para dar primazia a outro tipo de doença, sua par, a tal da biografia descarnada.

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Os Conselhos da Noite pode ser descrito como uma versão da parábola do filho pródigo, em que Braga é a casa e o pai aos quais o protagonista retorna?

Sem dúvida, muitos de nós aqui, eu em particular, ouvi repetida à exaustão essa parábola, nos tempos em que ia todos os domingos à missa. Depois vi-a de diversas formas no cinema, nos desenhos animados, na literatura, mas sobretudo quando eu era adolescente e via alguém regressar de muito longe e ter problemas com isso. Nem era o que se dizia, mas mais os olhos fugidios e secos dos que o recebiam, familiares ou cúmplices de infância, os esgares nos queixos, as rugas na face, o virar do rosto e o revirar. Foram esses não-ditos que criaram por exemplo essa dramaturgia para a cena do jantar com os pais, bíblica no sentido que Elia Kazan lhe deu na adaptação de Steinbeck. Bíblica porque nos acontecerá ou já nos aconteceu mesmo sem sabermos – pelo menos uma vez na vida. E esses regressos – em funerais ou em casamentos ―, sempre regressos silenciosos, são tão fortes como os regressos dos retornados da nossa Guerra Colonial ou certos assassinos ou emigrantes que voltam ao mundo rural depois de tanta errância. Vi um pouco de tudo isso, desses pesos ambulantes para lá de qualquer medida aceitável, e, portanto, era impossível não ser um dos centros calados da narrativa.

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Por que Braga? Há elementos autobiográficos em Os Conselhos da Noite?

Braga é a minha cidade Natal, onde vivi trinta anos no dia a dia, no qual tive as primeiras paixões e conheci o inferno. O João Palhares também tem raízes bracarenses muito fortes, e, portanto, foi fácil traçar as linhas gerais do filme. Que são o ir e vir de toda uma geração em direção a grandes metrópoles em busca dos sonhos, muitas vezes com a ambição louca de mudar o mundo, e a consequente humilhação. Aparte disso, os movimentos e constelações eternas de cada ser e de cada grupo de seres no período de vida que lhes foi concedido e na sua coexistência: uma ideia de morte e ressurreição quando menos se espera. Um regresso a casa como na parábola bíblica do Filho Pródigo. Laivos da história de Caim e Abel, com os pesos das errâncias e das rejeições eternas. A precariedade deste país em termos de trabalho fixo. A humilhação artística. Um remake impossível de Deus Sabe Quanto Amei do Minnelli. We Can’t Go Home Again, como nos disse o trágico, e logo uma das únicas criaturas livres da história do cinema, Nicholas Ray.

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Como foi escrever o roteiro com João Palhares? Ele também participou ativamente das filmagens e da pós-produção?

Além do que disse antes, escrevemos muitas das personagens a pensar em pessoas reais que víamos todas as noites, e depois muitas delas acabaram mesmo por se “representar” a si próprias, como o caso do bailarino que dança em frente à Sé de Braga, ou muitos dos clientes dos bares, como o Subura. O João não quis participar nas filmagens ativamente, mas sei que está a construir um artigo muito longo que fala não só sobre a feitura do filme como abrange um grande arco da história desta cidade. Mas a escrita em si foi rápida, fulminante, possuída pelo desejo de justiça e de verdade que desejávamos para a cidade que constantemente nos desafiava. Mas mesmo antes de filmar eu incluí duas ou três cenas mais íntimas: a sequência do andebol foi a minha vida e a de muitos miúdos que passaram por lá (pelo ABC de Braga) ou pelo Sporting Clube de Braga, ali ao lado, e que sofrem de saudades desses tempos, como se fosse o Paraíso Perdido deles.

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Há atores não profissionais em Os Conselhos da Noite? Se há, eles são moradores de Braga?

A minha mãe e a minha irmã entram na segunda vez que ele vai ao pavilhão desportivo, são elas que falam antes de entrar o antigo treinador de Roberto em cena. Era para as homenagear, como álbum de família, mas também porque elas adoram aquele desporto e vão muitas vezes ver jogos e treinos. Portanto, aquilo é a realidade à maneira dos neorrealistas italianos, por exemplo. Nem são figurantes nem não-atores concebidos assim, elas já estariam lá naquele dia, é o não mexer no que está lá. A minha irmã é invisual e é a pessoa que mais sabe e entende um jogo. E que no cinema, pois já viu sete vezes este filme, escuta cada passo, cada pássaro, cada rola, ou o ladrar do nosso antigo cão, como nenhuma outra pessoa do cinema que veja cinco filmes por dia e sabe tudo de cinema, como alguém no filme diz a determinada hora. Portanto, sabe muito mais de cinema do que eu. Todos as pessoas em volta que nunca viram um filme do John Ford, aqui sim, e sempre, a máxima influência vertical, não precisam, nem faz sentido tal coisa – elas são o mundo de Ford.

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Como foi filmar na cidade de Braga? E por que escolheu mostrar aqueles lugares?

Aparte o Tiago Aldeia ou o Manuel Teixeira, todos os outros personagens vêm do teatro, da televisão, mas muitos deles são não-atores, “personagens” míticas do quotidiano bracarense. Preferi a verdade de cada ser único à técnica perfeita de um ator profissional. Não consigo acreditar nos filmes portugueses realizados e interpretados por lisboetas em cidades longínquas, mesmo alguns sendo bastante bons. A partir desta busca pela autenticidade, evitamos o bilhete-postal que normalmente se associa a filmes realizados em cidades mais ou menos exóticas, portanto preferimos a obscuridade e espaços como na sequência noturna da roulote, e mesmo quando as coisas vão para os locais conhecidos – novamente a Sé de Braga ou o Mosteiro de Tibães –. investimos no movimento fílmico, deslocações temporais e jogos de nexo entre a subjetividade e a objetividade, assim como acometemos de obscuridade e alguns casos de treva a própria luz e a sua fluidez.

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Os Conselhos da Noite (Reprodução)

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A herança católica de Braga está muito presente em Os Conselhos da Noite. Ela ainda é bastante forte na cidade?

A primeira vez que violentamente tive a certeza de que essa sensação ainda era muito forte fora de Braga foi em Lisboa, num bar noturno da moda, em 2012: um curador de arte brasileiro referiu-se à minha cidade como “uma cidade quadradona”. Braga como a cidade do Arcebispos, com o seu cizentismo e conservadorismo sobretudo pós-25 de Abril, marcou-nos indelevelmente. Como na obra de Louis-Ferdinand Céline, tudo o que era interessante nesse tempo se passava no escuro. De há uns anos para cá, com a explosão da Universidade do Minho e da nascença de muitos jovens sem amarras, tudo é possível. Mas nesse inverno de 2012 em que esse curador teceu ideias-feitas idiotas, retrógradas e típicas dos artistas e curadores que não levantam o rabo do sofá e ficam em casa e nos cafés a perpetuarem clichês, Braga já estava à frente da capital, com uma arte e uma visão do mundo muito mais livre e transgressora, acima de tudo porque longe desse cosmopolitismos e modas que nessas grandes metrópoles se auto satisfazem a si mesmas.

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Geralmente, Roberto (Tiago Aldeia) retorna aos lugares da sua infância e adolescência durante o dia e frequenta os espaços habitados por jovens durante a noite. Dois momentos e duas realidades distintas. Atualmente, Braga é uma cidade mais próxima do passado ou do futuro?

Permanece uma cidade de contradições, apesar de existir essa nova visão do mundo – espiritual ou material. Não se trata de uma Nova raça, mas de uma raça marcada por todas as anteriores, indelevelmente e assim outra coisa, outra mutação.  No final de The Orchard Keeper, de Cormac McCarthy (obra que é citada em eco e literalmente algures no filme), afirma-se que nenhuma prole, nenhum avatar restou da civilização anterior que morou no local da narração. É impossível e utópico dizer isso dessa cidade que dos Suevos até aos Romanos, dos Arcebispos até ao Mandato de quase quarenta anos do autarca Mesquita Machado, sofreu mãos e heranças pesadíssimas. Mas a contradição é para mim o elemento mais fascinante do cinema e da vida, tão fundamental como a perseverança, e assim tentamos incorporar todo esse emaranhado. Se o filme e o movimento da câmara for bem percebido, a narrativa também é uma aula de história, e está lá tudo isto, dos Suevos até ao hip-hop atual, só que sem didatismo, antes pelo instrumento primordial da câmara e do seu aliado, a luz, em consonância com a montagem: Os Conselhos da Noite é um constante choque de contradições, como os sinos na noite e o insulto básico ao miúdo do Facebook.

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Em Os Conselhos da Noite, na cena em que Roberto conversa ao telefone com a pessoa que irá lhe alugar um quarto, a câmera mostra parte da cidade de Braga e finaliza o seu movimento mostrando o rosto de Roberto. Roberto e Braga se confundem, como se ambos protagonizassem a história?

Ambos estão em rota de colisão, e como já disse queria que fosse o movimento fílmico a dar isso, e não tanto a retórica das palavras. Mas essa cena, e a do segundo telefonema têm outro objetivo: está lá a Braga que se quer cosmopolita, com as suas letras festivas como as de qualquer outro centro que queira ser conhecido e queira receber turistas, gentrificada e aberta ao turismo, para “turista ver” e tirar fotografias no meio dessas letras – se reparares as letras estão ao contrário e isso é significativo; e depois, na segunda cena no mesmo espaço, que continua a rotação de praticamente 360º iniciada pelo primeiro telefonema, começamos por ver um cadeado, que no caso está a proibir e a estrangular uma antiga sala de cinema e de teatro clássica, belíssima, faustosa e praticamente ou mesmo Vitoriana, frequentada por Camilo Castelo Branco e os seus pares, imortalizada nesse romanesco fulgurante, e que agora está assim trucidada, como se representasse o estado a que está voltada a cultura em termos políticos.

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Por que o título Os Conselhos da Noite?

Um dos nossos escritores maiores e mais desconhecidos, guardado para os happy fews, afirma que «de noite passam-se coisas que não se passam de dia». Nuno Bragança escreveu o genial A Noite e o Riso porque sabia desse desfasamento e dessa permissão noturna e existencial. Claro que no caso deste filme se pode fazer todas as analogias ao passado fascista e ao poder da Igreja, à tentativa de fuga à opressão e à tradição prisioneira, mas a noite e o riso estão no seu auge na cena da roulote como celebração da vida.

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Ao longo do filme, Roberto revisita lugares e pessoas importantes da sua história. No entanto, as pessoas envelheceram, os lugares não são mais os mesmos e ele parece não encontrar paz. É possível retornar ao passado?

Tenho a certeza de que se fazem obras de arte para se responder a essa questão, para se tentar aproximar de uma resposta. Ingmar Bergman fez Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957), pois tinha a convicção de que se regressasse a um lugar muitos anos depois e nada mudasse isso seria o horror total. Marcel Proust forjou milhares de páginas nessa utopia. É uma utopia, sem dúvida. Mas sem tal demanda haveria somente o Nada, e entre esse Nada e a dor, a dor.

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Os Conselhos da Noite (Reprodução)

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Roberto não usa celular e computador e tenta voltar a um passado que não lhe traz conforto. Ao mesmo tempo, o seu futuro está condenado em razão de uma doença. Roberto é um personagem trágico, perdido entre dois tempos?

Não usa celular nem redes sociais e insulta quem o faz, mas na minha opinião ele só faz isso para clamar humanidade, para os outros olharem para o seu próximo, para os necessitados, deserdados, sem-abrigos, suicidas, apátridas, perdidos da vida… somente diz: olhem para o lado, e amem, tentem amar, por favor, e deixem os ecrãs e o mundo digital que vos vai matar, que vai matar a raça, a humanidade.

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Há influências literárias em Os Conselhos da Noite?              

Como já falamos, o filme do Minnelli foi fulcral, mas depois de ter lido o romance de James Jones no qual o filme longinquamente se baseia, muitas das reflexões sobre a pureza e o sagrado no corpo e na alma de um homem comum presentes nesse livro foram para mim basilares. Sinto uma passagem: «a essência, o sumo do que queria dizer, era que o homem constituía por si mesmo um universo sagrado e ao mesmo tempo um balde de porcaria, que infectava o ar do jardim e do qual era preciso desembaraçar-se o mais rapidamente possível. Estas duas coisas não só se misturavam indestrinçavelmente, sim formavam uma entidade só e única, não existindo, portanto, mais do que uma evolução». Ainda nas palavras escritas por Roberto para o seu possível romance, são apropriações: em primeiro lugar do fogo existencial de Camilo, e depois de William Faulkner ou Proust, na questão de o passado não estar morto, nem ser passado, mas sim presente.

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Roberto está presente em quase todos os momentos de Os Conselhos da Noite. É ele que nos guia pelos ambientes e ruas de Braga. Como foi a construção desse personagem?

Roberto está muitas vezes a criticar e a insultar uma geração que ele já não percebe ou não quer perceber muito bem, como forma de provocação de resgate de valores que ele concebe básicos. Mas acho que ele aponta primeiramente o dedo a si mesmo, ao seu falhanço, à sua ambição, ao seu desejo gigantesco e porventura megalômano. E é assim que eu acho que todos deveríamos primeiramente atuar, olhando-nos ao espelho, virando a dedo para nós mesmos.

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Tiago Aldeia está memorável no papel. O personagem foi concebido com ele em mente? E Tiago trouxe ao personagem características que não estavam presentes no roteiro?

O Tiago Aldeia tem a tensão corporal do Marlon Brando e a fragilidade emocional do Montgomery Clift. Um ator do método que se consegue diluir nas incomensuráveis massas comuns. Trabalhou de forma maníaca o sotaque bracarense, procurou conhecer os usos e os costumes, os lugares mais secretos, estudou pessoas da terra, telefonou-me a altas horas da noite obcecado com tudo isso, com a não traição de uma constelação. Foi um de nós. Trouxe tudo de novo à nossa imaginação e ao que estava no papel, nomeadamente ao entendimento que se pode ter da construção do livro (ou seja, do que ele vê, escuta, testemunha) ditar a construção do filme, de ser Roberto que está a construir o filme, tanto narrativamente como em termos de mise en scène.

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Os Conselhos da Noite (Reprodução)

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Vocês tiveram dificuldades para financiar e distribuir Os Conselhos da Noite? Como foi todo esse processo?

Tive um produtor persistente. O excelente acolhimento de todos os bracarenses e dos seus espaços reais. Mas sobretudo o fato de conhecermos a cidade como a palma das nossas mãos. E tive o Tiago Aldeia e a Marta Ramos como aliados totais na questão de tratar o cinema e as pessoas da maneira mais honesta e sensível possível. Depois foi também aproveitar as lições dos mestres americanos da série-b: Jacques Tourneur, Edgar G. Ulmer, Joseph H. Lewis, Don Siegel etc., e forçar o plano-sequência em detrimento de uma planificação acadêmica.

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Quais foram os aprendizados trazidos por Os Conselhos da Noite? O que você levará de experiência para os filmes seguintes?

O que aprendi, mais uma vez, é que o processo de fazer o filme é tão importante como o filme em si, como o filme augurado no papel, e que se lá ficar marcado, melhor. Continuar a trabalhar com o Tiago Aldeia, com o João Palhares e outros amigos. Estamos a escrever uma espécie de Western passado no Alentejo onde se mistura cinefilia mítica hollywoodiana com a realidade dos imigrantes baratos. Tenho ainda outro filme pronto a estrear no Doc Lisboa 2020, chamado Guerra e co-realizado com a Marta Ramos. É o último papel e o testamento do inesquecível José Lopes. Trabalhar com os próximos e ir até ao fim do mundo.

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A imagem que ilustra o post é José Oliveira fotografado por João Sanchez.

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Miguel Forlin

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área.