A demora da recuperação depende do que você parou de comprar

por João Ricardo Costa Filho

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Por que a economia demora mais tempo para se recuperar em algumas recessões do que em outras? Essa resposta é super importante, não apenas para compreendermos os episódios de flutuações (macro)econômicas que nós vivenciamos, mas também (e, acredito, especialmente) para a condução da política econômica.

No artigo de Martin Beraja e Christian K. Wolf, intitulado “Demand Composition and the Strength of Recoveries”, os autores propõem que a força da recuperação está intimamente ligada com a natureza da queda no consumo, isto é, de que forma a demanda foi reprimida. Veio a recessão e as famílias apertam os cintos, cortam gastos e preparam-se para o pior. Mas onde elas cortam?

Trabalhemos com duas opções: por um lado, as famílias podem diminuir os gastos com carros e imóveis. Esses são dois exemplos do que que os economistas chamam de bens duráveis. Alternativamente, a queda nos gastos podem vir na forma de menos idas ao cinemas, menos cortes de cabelo e/ou consumo de gasolina. Nesses casos, estamos falando de serviços (os dois primeiros) e bens não-duráveis (este último). Embora diferentes, trabalharemos com esses dois grupos como em uma mesma categoria.

Faz diferença onde elas escolhem cortar? Muita!

Quando a chuva passar, o que acontece com aquela demanda que foi reprimida durante a recessão econômica? Aqui podemos utilizar a palavra que está presente no ferramental de qualquer economista: depende. A recuperação será mais forte quando a queda na demanda foi mais apoiada no corte de gastos com bens duráveis. Por quê? Porque esse gasto foi apenas postergado. Quando a situação econômica melhorar, a decisão de comprar um carro ou comprar móveis para a casa volta com força e, em média, produz uma recuperação mais vigorosa.

Já no caso da queda na demanda alicerçada em cortes de gastos com serviços e não-duráveis, não há, no agregado, uma tendência a compensar aquele gasto anterior. As famílias não saem por aí gastando gasolina em um nível maior do que antes da recessão, só porque agora os seus membros voltaram a encontrar emprego, nem aumentam a frequência de cortes de cabelo para compensar o período das vacas magras. Vão mais vezes à praia, sim, mas não viajam para compensar o período que ficaram em casa, apenas retomam ao hábito anterior.

De acordo com os autores, ao considerarmos que a alguns grupos sofrem mais com as recessões do que outros (veja aqui uma discussão sobre esse tipo de análise), a depender de como a renda desses grupos se comporta em comparação ao resto da economia, o efeito pode ser amplificado, mas o formato da recuperação é o mesmo. Os economistas gostam de associar letras aos formatos da recessão (e há quem, inclusive, utilize letras gregas de maneira jocosa para ilustrar a análise). No primeiro caso, onde os cortes foram concentrados no bens duráveis, há uma recuperação em “Z” (queda seguida de uma recuperação que leva a economia, por algum tempo, para um nível acima da sua tendência anterior, o que no jargão é conhecido como overshooting). Já no segundo caso, seria apenas um “V” (cai e retorna para o mesmo nível).

Obviamente, a composição dos cortes no consumo é apenas um dos fatores que ajudam a explicar a diferença entre as recessões. Quando temos crises financeiras, por exemplo, as economias demoram mais tempo para superar e as suas consequências podem, inclusive, ser duradouras, um fenômeno que chamamos de histerese. Além disso, há a resposta das empresas, que geralmente aumentam os markups em recessões (veja a discussão neste texto sobre política monetária) e o poder de mercado delas pode intensificar os episódios. De qualquer forma, o papel das escolhas das famílias parece ser importante para identificarmos as diferenças, não apenas no que teria ocorrido, mas também no que se segue após uma recessão. O segredo do comportamento futuro pode estar escondido nos cortes do passado.

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(Foto: Cris Faga/Estadão Conteúdo)

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João Ricardo Costa Filho

João Ricardo Costa Filho é Doutor em Economia pela Universidade do Porto, é Postdoctoral Fellow na UECE/Universidade de Lisboa e professor da FGV/SP. (Twitter: @costafilhojoao)