Entre ruínas, contar, cantar

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Entre ruínas, contar, cantar

Paz, de José Oliveira e Marta Ramos

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José Lopes em PAZ (Reprodução)

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por Giovanni Comodo

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Poderiam dizer que Paz é um filme sobre escombros feito de escombros. Escombros que resultaram de uma guerra desastrosa e silenciada, a Guerra Colonial Portuguesa. E escombros enquanto material fílmico reutilizado proveniente dos arquivos da mídia portuguesa desta guerra e das filmagens das obras anteriores dos diretores José Oliveira e Marta Ramos — Guerra (2020) especialmente. Entretanto, em seus 25 minutos Paz revela-se como totalmente novo, como as flores que brotam das ruínas e devolvem-nas à vida, transformadas.

Em Guerra — exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado —, Oliveira e Ramos desafiaram o tabu português que relegou ao silêncio a Guerra Colonial Portuguesa e seus veteranos — na sua maioria, homens simples do interior do país convocados pelo regime ditatorial do Estado Novo em suas últimas tentativas de manutenção de força e poder político no país e no continente africano. O filme acompanhava Manuel, um veterano da guerra, em uma Lisboa dos tempos atuais. Sem encontrar um lugar para si e tomado por um passado cujos fantasmas esbarrava em cada passeio, ele buscava a paz e a encontrava apenas com seu descanso final. Manuel foi vivido por José Lopes, em uma performance de entrega absoluta e em uma parceria estreita com os realizadores — foi de Zé Lopes a iniciativa e o desejo de fazer o filme, que não viu estrear, devido ao seu falecimento no final de 2019.

Guerra não era apenas extraordinário por conta de sua coragem com os temas abordados, mas também pelas suas escolhas formais enquanto misturava passado e presente, monólogos e diálogos partidos, sem nunca abdicar da emoção — palavra tão evitada no cinema atual.

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Os veteranos em uma cena de PAZ (Reprodução)

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Enquanto o filme anterior era centrado na figura de Zé Lopes e na Via Crúcis de Manuel, Paz consegue revisitar e dar novo sentido às inquietações da dupla de realizadores: trata-se de um filme em que cada pessoa que surge na tela é também protagonista. Revemos os veteranos da guerra do filme anterior (todos não-atores e veteranos de fato), com mais tempo para passarmos em sua companhia — e é isto o que interessa a Oliveira e Ramos, que possamos ver e ouvir estas pessoas. E lá estão eles, para dar seu testemunho da abertura de trilhas (o motivo de as “picadas” terem esse nome), do que carregavam nos bolsos consigo, das discussões com os superiores, da leitura de cartas destinadas a seus familiares, das canções que gostavam. Nenhum momento é banal: em todos, tomamos contato com seus rostos, sotaques, histórias. Contra o esquecimento, o apagamento, a morte.

Que Oliveira e Ramos não tenham se contentado com o filme anterior e tenham decidido dedicar um novo trabalho a estas pessoas é mais uma prova de seu compromisso com elas. O cinema pode vencer a morte, de certa forma. Alguns dos homens que vemos ali já nos deixaram: além de Zé Lopes, Nelson Gonçalves (que canta as duas canções ao final do filme e a quem o trabalho é dedicado). Quantos mais ainda podemos ouvir? Paz é também um convite, para não desperdiçarmos mais nenhum instante.

“Ouçam o que tem para dizer o homem que está em silêncio” diz a abertura do filme, pouco antes de sermos tomados por imagens de arquivo da guerra e da imagem de um túmulo e uma sombra. Paz faz o processo de dar voz a estas sombras — inclusive ao material de arquivo, tomado por um novo processo de som pelo filme, agora repovoado por máquinas, choros, chamas e sinos, em um esforço estupendo e minucioso — para que elas possam caminhar conosco. A coletividade está no centro deste novo filme: é trazer estas pessoas e suas histórias para perto e também de reinserir a Guerra Colonial Portuguesa na História, inclusive com os créditos finais, que mostram os mísseis cortando os céus da Palestina. A guerra continua entre nós presente — mas também a paz pode estar.

Marta Ramos certa vez disse que cinema é amor e pudor, destacando o último. Ambos funcionam como vetores intimamente ligados que moldam seus filmes todos: há sempre um enorme respeito pela integridade das pessoas que filmam — todos não-atores, seus amigos. É um cinema realizado com poucos recursos e enorme garra e inventividade, fruto da união destas pessoas e de grande resistência.

A carta lida em voz alta em Guerra retorna aqui, ainda mais forte: “procura a felicidade que ela deve existir”. A nós, cabe procurar sem cessar. Ela está entre nós e floresce no cinema de Oliveira e Ramos, entre os escombros.

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Dulce Pascoal em PAZ (Reprodução)

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Giovanni Comodo

Giovanni Comodo é crítico de cinema e um dos programadores do Cineclube do Atalante, na Cinemateca de Curitiba.