O retrato do artista enquanto insano

por Rafael Rocca

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Um belo dia, um compositor, após longo tempo tentando escrever uma peça musical que contivesse em si a totalidade da experiência, explode em um acesso de raiva e parte para um monastério, onde pretende se curar das influências mundanas mediante rezas diárias e consumo da cerveja dos monges. A princípio, tudo parece ficar em paz para o compositor: as horas de sono são equilibradas com as de vigília e o ambiente pacífico e propício à séria reflexão infunde um sentimento de paz em nosso músico. No entanto, ele é um artista: precisamente por causa dessa paz aparentemente inabalável que sente, surge-lhe a ideia de compor uma grande música, a verdadeira música, a única que, por sua inefabilidade, conseguirá elevar tanto o monastério quanto o cristianismo aos píncaros que eles merecem. A ideia lhe toma a mente; nosso compositor volta a se preocupar incessantemente com a tonalidade perfeita, a harmonia mais sutil e mais apropriada, o andamento mais adequado, que possam traduzir em sons o que o músico está sentindo dentro de seu peito. Em pouco tempo, torna-se angustiado, apreensivo, e a peça não sai; é como se compor não fosse um ato regido pelo reino dos céus, mas sim pelos ínferos, por uma força demoníaca e traiçoeira que tem como objetivo fundamental perturbar a paz mental do compositor. Ele se torna raivoso, violento; fala coisas desconexas, age de maneira impulsiva e acaba por se aproximar novamente da insanidade. Em um novo acesso, abandona enlouquecido o monastério para um rumo que a ele ainda é indefinido.

Falamos acima do compositor ficcional Johann Kreisler, criado por E. T. A. Hoffmann como um tipo que exprime o processo criativo. Esse relato está no delicioso Reflexões do Gato Murr (1815), transladado ao português pela caríssima Maria Aparecida Barbosa. Não é somente nesse romance que Kreisler aparece: há mais alguns fragmentos e pequenas narrativas em que Kreisler figura mais como uma força criadora do que como um personagem, a exemplo dos ciclos da Kleisleriana. Para o romantismo do século XIX, Kreisler foi uma figura tão impactante que gerou de fato ciclos inteiros de peças e canções inspirados na figura do compositor-insano, como o ciclo homônimo de Robert Schumann, de 1838, dedicado a Chopin.

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Kapellmeister Kreisler pela pena de Hoffmann

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A insanidade era um dos temas caros ao escritor alemão. Como nos conta Walter Benjamin em “A Berlim demoníaca”, ele próprio tinha pavor de se tornar louco, e de fato, frequentemente, parecia estar falando com algum ser imaginário presente numa sala de jantar ou numa reunião de amigos, para o desespero destes. Não somente Kreisler foi seu único insano: em seus contos abundam os artistas insanos, amantes insanos, animais insanos, médicos insanos… e a lista se alonga. No conto O cavaleiro Glück (1809), por exemplo, vemos outro compositor regendo uma orquestra totalmente imaginária sentado em uma mesa de um café de Berlim no tempo da invasão napoleônica: regia ele sua última obra-prima, uma peça para orquestra completa, que era estranhamente audível ao narrador do conto sentado à mesa do café. Este conta a história de Glück, ele próprio inspirado em um compositor real de carne e osso. Instigado pela figura peculiar do compositor à mesa do café, o narrador decide segui-lo até seu apartamento na chic Friedrichstraße. Ali ele o encontra ao piano, tocando furiosamente uma peça tempestuosa e trovoante, seguindo uma partitura que, curiosamente, estava em branco. Mais curioso: o compositor some de repente da casa, como se nunca estivesse estado ali, como se fosse somente imaginação do narrador. Será? Hoffmann não nos responde.

Em outra instância, Hoffmann nos conta de um homem pacato, comum, que parte da Alemanha para a “quente Itália” a fim de aprofundar os conhecimentos de seu ofício. Ali, depara-se com festas e comemorações e, principalmente, com a ardente Giulietta, uma femme fatale como tantas na literatura romântica do século XIX e no cinema do século XX. O pacato e sério Erasmus, e é de se notar a escolha do nome, perde a compostura e se arremessa aos pés da bella donna lhe jurando amor eterno e se esquecendo momentaneamente de sua pacata esposa do lar, que havia ficado na Alemanha. Depois, claro, descobriremos que a sedução de Giulietta não é gratuita e que há mais coisas entre o céu e a terra na estranha relação entre ela e Erasmus; também descobrimos que sua esposa é uma mulher poderosa, para afastar o pacata e o do lar. Novamente, e agora explicitamente, o diabo é o intermediador de uma relação mundana e o principal filtro que leva os personagens à loucura.

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Autorretrato de Hoffmann em batalha contra a burocracia

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A loucura está frequentemente associada à criação e, às vezes, à genialidade. É conhecida a lenda (?) de que Nietzsche escreveu o que escreveu em decorrência da insanidade advinda da sífilis. Genialidade ou loucura; ou os dois? Si non è vero, è ben trovato. A genialidade, por sua vez, é outro dos temas caríssimos ao século XIX, por vezes levando os estudiosos à loucura, e por essa razão pouparemos o estudioso leitor dessa discussão. Fato é que a insanidade está presente nos artistas ficcionais dos mais variados calibres e teores. Em Machado de Assis, em seu conhecido O alienista (1882), temos um representante da arte médica, da então nascente psicologia, que possui uma visão peculiar da sociedade que o cerca. Simão Bacamarte, o nome desse médico, cria uma teoria que, retrospectivamente, vemos ser problemática (como tantas teorias hoje aceitas nos meios acadêmicos e que serão dadas assim). Começando por um traço, o médico amplia os candidatos a seu sanatório a tal ponto que a cidade inteira parece ter de ser internada, tendo em vista a insanidade geral. Por fim, acaba o médico se internando, percebendo que ele era o verdadeiro louco. Mas será? Proponho uma síndrome com o nome do protagonista para aquelas ocasiões em que o leitor pensa que é o único ser são na sala, que todos ao redor estão insanos ao dizerem o que dizem (porém, seguindo outra atribuição lendária: sometimes a cigar is just a cigar, ainda que não seja cachimbo).

Não somente de médicos e músicos é feita a loucura na literatura, e tampouco é esse um tema caro somente aos românticos. Lemos em A obra-prima ignorada (1831), curiosamente publicada na revista francesa L’Artiste, a história do alemão Frenhofer e dos personagens (reais) Poussin e Porbus. O pintor alemão está em busca de sua obra-prima, o quadro que superará todos os outros em beleza ao retratar a cortesã Catherine Lescault (ecoando o nome daquela que já foi considerada a primeira cortesã da literatura francesa moderna: Manon Lescaut, do livro de Abbé Prevost, de 1731), a conhecida la belle noiseuse (título também do filme de Jacques Rivette de 1991). Deparando-se com a falta de uma modelo à altura, Frenhofer parece desesperado até que o jovem Poussin oferece a sua namorada Gillette para que ele a pinte. A estonteante beleza da namorada de Poussin inspira Frenhofer a terminar sua pintura, que já estava em gestação há mais de uma década. No entanto, ao revelar aos seus próximos a imagem da noiseuse, tudo o que há na tela são parcos rabiscos de um pé, e ainda assim demovidos da técnica pela qual o pintor alemão era conhecido. A frustração leva-o ao desespero, ao delírio; o alemão acaba por destruir sua obra-prima, que permanecerá para sempre ignorada, e falece na mesma noite.

Saindo brevemente da ficção para o mundo “real”, são conhecidas as histórias dos artistas loucos ou enlouquecidos, como Van Gogh. A imagem do artista parece mesmo aquela pintada por Gustav Courbet em 1843 misturada com a gritante de Munch de 1893. A loucura chamou a atenção especial de um grupo de artistas que atuavam na deliciosa belle époque francesa, na mágica década de 1920. Para os surrealistas, a insanidade era um meio, um método que serviria de caracterização para os tempos modernos, pintados e retratados com os mais diversos matizes pelos artistas da época. Para se ter uma ideia, Picasso, ao ler A obra-prima ignorada, repentinamente se mudou de apartamento em Paris a fim de estar no mesmo lugar da história ficcional de Frenhofer. Ali, pintou sua Guernica. Salvador Dali reimaginou o sonho, o pesadelo e a loucura em seus quadros, cujas imagens derretem sob o calor lancinante das ideias oníricas, modificando e distorcendo a realidade como se observada de um outro ponto de vista, talvez daquele dos “loucos de todo gênero”. Obviamente, essa é uma das possíveis interpretações, ao que o autor do presente texto se autoriza precisamente por causa do livre fluxo dos próprios surrealistas. Entre esses, também a Nadja de Nadja tem, em sua liberdade sem amarras e em sua inconstância, um ou outro momento ou traço da loucura dos anos de ouro parisienses: em uma época em que a técnica começa a imperar sobre os indivíduos, Breton dá livres asas à sua heroína. Uma questão de feminismo, na leitura atual, se faz: seria Nadja louca porque é totalmente livre? Que os existencialistas não nos ouçam!

A liberdade de criar se estendeu também às vidas pessoais dos autores. Ultrapassada no século XIX a identificação do indivíduo com o natural e o sobrenatural, que levou tantos góticos à loucura, pensemos no caso particular de Fernando Pessoa. O poeta português é frequentemente associado a algum tipo de insanidade (segundo o próprio, à neurastenia), muitas vezes à esquizofrenia. Não faltam razões para tal suposição; porém, porque suposição, não é nada além disso. Pessoa criou um universo de poetas e de personagens realíssimos; há cartas trocadas entre os seus heterônimos principais, artigos de jornal assinados por um e direcionados a outro de seus nomes, poemas dedicados a um e a outro. Ler Pessoa, por esse motivo, torna-se uma tarefa hercúlea, ainda que recompensadora em altíssimo grau, e insana. Seus heterônimos principais (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis) possuem mapas astrais, datas de nascimento, estilos próprios de escrita, temas preferidos, modos singulares de encarar a vida. Seria Pessoa um louco cuja loucura não cabia dentro dele mesmo e, por isso, teve de espalhá-la por diversas personae? Não me convence essa leitura. Ainda assim, há razão em supor que o medo da loucura, de estar encerrado nos próprios pensamentos e somente neles, tenha participação na criação das personagens heterônimas pessoanas. Para o poeta, pensar é que é a tragédia: a subjetividade é a tragédia, e a tragédia é não se saber compreender, tudo isso levado ao paroxismo da interseção, em cujo meio o indivíduo se perde “porque era labirinto”, nas palavras de seu amigo (talvez insano) Mário de Sá-Carneiro. Esse desdobramento, no entanto, é um projeto racional, assim como a poesia pessoana de maneira geral; ora, um projeto racional desse porte cabe a uma mente insana? Seria isso importante para a consecução de uma obra?

Uma parte do século XIX responderia que sim, que é uma grande parcela da loucura que acompanha os artistas. Essa loucura não seria, no entanto, algo muito além do que conseguir enxergar (talvez até fisicamente) adiante no tempo, antecipar movimentos que serão normalizados somente após o passar dos anos. Por estarem adiantados e, portanto, fora do senso comum que tanto ajuda quanto atrapalha, os bons artistas possuem essa capacidade que é enxergar uma linha a ser seguida em meio à sanidade do mundo, desvendar o novelo dos pensamentos fluidos e do caos diabólico que parece reger as sociedades a seus tempos, como ainda a regem, insanamente, hoje.

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O esqueleto com cigarro de Vincent van Gogh, 1886

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Rafael Rocca

Rafael Rocca dos Santos é formado em Direito e Letras (alemão/português), ambos pela USP. É Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP/FFLCH-Bauhaus-Universität Weimar (Alemanha) com dissertação sobre a figura do duplo na literatura ocidental. Realiza um doutorado em Estudos Literários e Culturais na USP/FFLCH sobre literatura de testemunho do Holocausto. É tradutor do inglês, alemão, latim e espanhol, com traduções publicadas e no prelo. Edita a seção Transmargens da Revista Mallarmargens. É Vice-Diretor da Casa Brasileira Fernando Pessoa. e-mail: rocca.eda@gmail.com.