Memórias de um doente dos nervos

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Escrito em 1903 por Daniel Paul Schreiber — um eminente jurista, recém-promovido à Corte de Apelação de Dresden na Alemanha —, as Memórias de um Doente dos Nervos apresentam, com toda a minúcia requerida pelo mais rigoroso pensamento clínico, o desencadeamento de um processo paranoico. Alguns anos depois, o livro serviu de base para um ensaio seminal de Sigmund Freud, “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia”, lançado em 1911. Em nova edição — lançamento da Editora todavia —, além da clássica tradução da psicanalista Marilene Carone (1942-87), o leitor encontra dois textos — ensaios luminosos de Elias Canetti e Roberto Calasso — que ampliam a compreensão do caso Schreber e atestam sua inquietante atualidade.

Memórias é um livro decisivo para a história da psicanálise. Situado em um ponto de acirramento máximo de luta contra o pai, contra Deus e contra a “ordem universal”, Schreber toca na essência da teologia política moderna e sua junção problemática entre amor e autoridade, sexualidade e poder.

Em parceria com a todavia, trazemos a ‘Carta aberta ao sr. conselheiro prof. dr. Flechsig’ — a carta aberta de Daniel Paul Schreiber que precede as Memórias de um Doente dos Nervos.

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(Reprodução: todavia)

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Carta aberta ao sr. conselheiro prof. dr. Flechsig

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Permito-me enviar-lhe anexo um exemplar de Memórias de um doente dos nervos, de minha autoria, com o pedido de que o submeta a um exame benévolo.

Verificará que no meu trabalho, principalmente nos primeiros capítulos, seu nome é frequentemente citado, às vezes em contextos que poderiam ferir sua suscetibilidade. Lamento sobremaneira, mas infelizmente nada posso modificar se não quiser eliminar de antemão a possibilidade de uma compreensão do meu trabalho. Em todo caso, não tenho a menor intenção de atingir sua honra, bem como, em geral, não sinto contra ninguém qualquer rancor pessoal; com meu trabalho tenho apenas o objetivo de promover o conhecimento da verdade em um campo de maior importância, o religioso.

Tenho a inamovível certeza de que disponho, nesse domínio, de experiências que — uma vez obtido o reconhecimento geral de sua exatidão — poderiam atuar de maneira mais frutífera possível sobre o resto da humanidade. Da mesma forma, não tenho dúvida de que seu nome desempenha um papel essencial na gênese das circunstâncias a que me refiro, à medida que certos nervos extraídos de seu sistema nervoso se transformaram em “almas provadas”, no sentido descrito no capítulo 1 das Memórias; nessa qualidade adquiriram um poder sobrenatural, em consequência do qual vêm exercendo há anos uma influência nociva sobre mim e até hoje ainda exercem. O senhor tenderá, como outras pessoas, a começar por vislumbrar nessa suposição apenas um produto de minha fantasia, que deve ser julgado como patológico; para mim há uma quantidade impressionante de provas da sua validade, sobre as quais o senhor se informará melhor a partir de minhas Memórias na sua totalidade. Ainda agora sinto, todo dia e toda hora, a influência nociva, baseada em milagres, daquela “alma provada”; ainda agora as vozes que falam comigo diariamente, em circunstâncias que sempre se repetem, pronunciam o seu nome, proclamando-o centenas de vezes como autor daqueles danos, embora as relações pessoais que existiram entre nós durante certo tempo já tenham passado há muito para um segundo plano, e por isso dificilmente eu teria qualquer motivo para lembrar-me novamente da sua pessoa, muito menos com qualquer espécie de sentimento rancoroso.

Há anos venho refletindo sobre a maneira como poderia conciliar esses fatos com a consideração pela sua pessoa, de cuja honorabilidade e valor moral não tenho o menor direito de duvidar. A propósito, muito recentemente, pouco antes da publicação de meu trabalho, surgiu-me uma ideia nova, que talvez possa levar ao caminho certo para a solução do enigma. Como observo no final do capítulo 4 e no início do 5 das Memórias, não tenho a menor dúvida de que o primeiro impulso para o que foi sempre considerado pelos meus médicos como meras “alucinações”, mas que significa para mim uma relação com forças sobrenaturais, consistiu em uma influência emanada do seu sistema nervoso sobre o meu sistema nervoso. Onde encontrar a explicação desse fato? Parece-me natural pensar na seguinte possibilidade: a princípio, quero crer que apenas com finalidades terapêuticas, o senhor man- teve com meus nervos, mesmo à distância, uma relação hipnótica, sugestiva, ou como quiser denominá-la. Através dessa relação o senhor pode ter percebido que falavam comigo de outra parte, através de vozes que indicavam uma origem sobrenatural. Como consequência dessa surpreendente percepção, o senhor, por interesse científico, pode ter prosseguido durante um tempo a relação comigo até que a coisa se lhe tornou, por assim dizer, estranha, o que lhe teria dado oportunidade de romper a relação. Mas então pode ter acontecido algo mais: sem que o senhor tivesse consciência disso, e de um modo apenas explicável como sobrenatural, uma parte de seus próprios nervos saiu do seu corpo e subiu ao céu como “alma provada”, adquirindo um certo poder sobrenatural. Essa “alma provada”, ainda carregada de falhas humanas, como todas as almas impuras (conforme o caráter das almas, que conheço com segurança), teria se deixado levar apenas pelo impulso desconsiderado de autoafirmação e sede de poder — sem qualquer freio que correspondesse à força moral do homem: exatamente do mesmo modo como sucedeu durante muito tempo a uma outra “alma provada”, a de Von W., conforme relato nas minhas Memórias. Assim, talvez fosse possível atribuir apenas àquela “alma provada” tudo aquilo que eu, erroneamente, acreditei dever imputar-lhe — refiro-me às influências nocivas sobre meu corpo. Nesse caso não seria necessário deixar recair sobre a sua pessoa a menor suspeita; no máximo restaria talvez a leve recriminação de que o senhor, como muitos médicos, não pôde resistir à tentação de usar ao mesmo tempo como objeto de experimentos científicos um paciente cujo tratamento lhe foi confiado e que casualmente oferecia, ao lado dos fins terapêuticos propriamente ditos, uma oportunidade do maior interesse científico. Até se poderia levantar a seguinte questão: se talvez todo falatório de que alguém cometeu um assassinato de alma não possa ser remetido ao fato de que às almas (raios) parece totalmente inadmissível que o sistema nervoso de uma pessoa possa ser influenciado pelo de outra, a ponto de aprisionar sua força de vontade, como ocorre na hipnose; e, para caracterizar de maneira mais forte essa inadmissibilidade, as almas, seguindo sua própria tendência a se expressar por hipérbole e, na falta de outra expressão disponível, se utilizaram da expressão corrente “assassinato de alma”.

Não preciso salientar a incalculável importância que teria alguma forma de confirmação de minhas suposições anteriormente indicadas, sobretudo se estas encontrassem apoio em recordações que o senhor tivesse conservado na memória. Dessa forma, a sequência global da minha exposição ganharia credibilidade diante do mundo todo e seria imediatamente considerada um problema científico sério a ser aprofundado por todos os meios possíveis.

Em vista disso, prezado conselheiro, rogo-lhe, quase diria, imploro-lhe, que declare sem reservas:

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(1) Se durante minha permanência em sua clínica ocorreu, de sua parte, alguma relação hipnótica ou similar comigo, de tal forma que o senhor tenha podido exercer — e particularmente à distância — uma influência sobre o meu sistema nervoso;

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(2) Se o senhor, nessa ocasião, foi de algum modo testemunha de uma comunicação com vozes provenientes de outro lugar, que indicassem uma origem sobrenatural;

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(3) Se o senhor também, por ocasião de minha estada em sua clínica, não recebeu (especialmente em sonhos) visões ou impressões análogas a visões que, entre outras coisas, tratassem da onipotência divina, livre-arbítrio humano, da emasculação, da perda da beatitude, de meus parentes e amigos, bem como os seus, em especial de Daniel Fürchtegott Flechsig, citado no capítulo 6, e de muitas outras coisas mencionadas em minhas Memórias.

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A isso quero acrescentar que, a partir de numerosas comunicações das vozes que naquela época falavam comigo, tenho pontos de apoio altamente decisivos para supor que o senhor também deve ter tido visões desse tipo.

Ao apelar para seu interesse científico, permitindo-me confiar em que o senhor terá a plena coragem da verdade, mesmo que isso signifique admitir alguma pequenez, o que não poderia implicar sério prejuízo à sua reputação e dignidade aos olhos de qualquer pessoa sensata.

Se o senhor quiser me enviar uma comunicação escrita, esteja certo de que não a publicarei sem o seu consentimento e da forma que lhe pareça apropriada.

Dado o interesse geral do conteúdo desta carta, considerei adequado mandar imprimi-la como “carta aberta”, precedendo as minhas Memórias.

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Dresden, março de 1903

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Com a mais elevada estima

Dr. Schreber

Presidente da Corte de Apelação, em afastamento

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Daniel Paul Schreber

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