Tolentino 80: Memórias

por Érico Nogueira

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Se vivo fosse, meu amigo Bruno Tolentino chegaria aos oitent’anos, agora em novembro. O tempo passa e a gente fica nostálgico — se bem que, no meu caso, acho que nasci nostálgico. Dedico esse breve depoimento à memória do meu amigo. Que, não por acaso, é um dos mais importantes, ambiciosos e torrenciais poetas da língua portuguesa, de ontem, de hoje e (principalmente) de amanhã. Viva Bruno Tolentino.

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Foi em 1996 — ainda em Bragança Paulista no final do ensino médio — que tomei conhecimento da existência de Tolentino. Meu pai assinava aquela revista que um monte de pais assinava. Praticamente não havia internet — quase ninguém (ou ninguém mesmo) usava internet. Os debates e diz-que-diz-que se davam em papel impresso. Jornais e revistas. E foi justo meu pai, se bem me lembro, quem me chamou a atenção para aquela entrevista nas páginas amarelas:[1] “Você não quer ser escritor, filho? Poeta? Então leia isto aqui”. Li: e ali eu descobri um mundo.

Descobri, tá, mas não povoei — digamos assim. Porque aquele era o tempo de João Cabral de Melo Neto, ou da canonização ainda em vida de João Cabral de Melo Neto, e assim eu devera pastar por muita caatinga, dormindo entre cactos e comendo gafanhotos, antes de povoar aquele mundo novo que se havia aberto pra mim. O que foi uma espécie de rito poético iniciático, ah foi, e explica várias das características de quem começou a escrever nos anos noventa. Mas, enfim, volto ao ponto, vejam só: morando, pois, em São Paulo desde 1997, e frequentando os meios acadêmicos, literários e (sobretudo) boêmios da USP e da PUC, eu e muitos como eu fomos submetidos a tal dose de “cabralismo” que… batata: parei de escrever. E isso antes mesmo de começar. Porque o Cabral, pensava eu, já tinha escrito e dito tudo o que dava pra escrever e dizer com o devido rigor, como se falava então. Ai, como jovem é apressado, meu Deus.

Então. O Tolentino. Quando o agnóstico Cabral morreu rezando em 1999, fiquei literariamente órfão. Parece brincadeira, mas o meu grande amigo Ricardo Domeneck até me ligou para desejar os pêsames — por aí vocês já veem como era a coisa, como eu me sentia ligado ao grande pernambucano. Tinha voltado a escrever poesia após um ano de silêncio, não por acaso instigado por Vuelta, de Octavio Paz. Tudo coisa macérrima, pouquíssimas palavras — a moda da época, é. E aí… topei com As Horas de Katharina.

Aquilo foi um baque. Vejam vocês que sorte a minha: justo o primeiro poema do livro, “O Adeus”, é talvez o mais cabralino que o Bruno jamais compôs. De maneira que pude ser cativado, que o livro não fez lá tanta violência ao meu cabralismo xiita, que — ah, ler “O Duo Doloroso” na roça ao lusco-fusco, com o vento, os grilos e as estrelas:

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Porque o olho é a lâmpada do corpo

e a janela da alma, a alma vê

só o que ele ilumina neste horto

nem dela nem do corpo.

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Sorte a minha, eu dizia: porque o livro é o mais límpido e “neoclássico” dos da lavra de Bruno, eu acho, e isso foi fundamental pra que eu não o refugasse e… pudesse passar de modelo: de um que eu nunca conheci pessoalmente para outro que não conhecia ainda; de um que me fez parar de escrever para outro que me fez recomeçar; de um mais próximo da matéria para outro mais próximo do espírito (ou algo assim).

Logo depois li A Balada do Cárcere.[2] E, inteirando-me da polêmica Tolentino-Campos,[3] Os Sapos de Ontem na sequência. Naquele ocaso do século XX era até perigoso andar com este último debaixo do braço nos corredores da Faculdade de Filosofia da USP, acreditem. Não: “perigoso” não é bem a palavra. Não era de bom-tom, isto sim. Mas, fazendo-o, eu me sentia subversivo, outsider. Que bobagem, meu Deus.

Aí o século já tinha acabado mas o mundo não — e eu, lendo de tudo um pouco, começava a afinar minha voz pessoal, a me encontrar como poeta. Foi quando consegui o número da tia do Bruno em Niterói, criei coragem e liguei. Ele atendeu. Disse que ali não tinha nenhum Tolentino. Ah, eu não ia desistir tão facilmente, ah, não ia.

Houve mais um fracasso. Fiquei sabendo que ele morava na Praça da República, aqui em São Paulo, e lá fui eu. Dei com os burros n’água: ele estava em Campinas, em casa de uma amiga. Ou, pelo menos, foi isso o que me disse o zelador. O que eu não sabia na época, e agora sei, é que essa amiga era a extraordinária Hilda Hilst. Enfim. Será que eu conseguiria conhecê-lo? Eu precisava conhecê-lo: eu precisava. Porque só ele, pensava eu, poderia compreender minha poesia e me ajudar a desenvolvê-la. Não sei de onde eu tinha tirado essa ideia esdrúxula — mas o facto é que eu pensava assim. O tempo mostrou que eu não pensava errado.

Então apareceu O Mundo como Ideia. Com lançamento previsto pra março de 2003, mas à venda desde o final de 2002. Comprei o livro em dezembro. Passei o final de ano a devorá-lo — tentando degluti-lo. Eta livro difícil, meu. Não importa: ali estava um poeta consumado, que além de poemas mui engenhosos, filosóficos, que o colocavam na linha sucessória de Pessoa e Drummond, escrevia também um alentado ensaio poético-biográfico em que expunha sua vida e dissecava sua poética. Aquilo foi música para meus ouvidos… Uma negócio clássico. Filosófico. Desafiador. E (o principal) no meu tempo — sob o meu nariz. Eu não perderia o lançamento por nada desse mundo.

O primeiro poema do que veio a ser O Livro de Scardanelli, meu livro de estreia, foi escrito sob o impacto de O Mundo como Ideia, em geral, e, em particular, do poema “Uma Certa Caçada”. É uma resposta a esse poema. Imatura, decerto (tanto que ficou de fora do livro), mas resposta, ainda assim. Nela eu dizia “um quinteto de Mozart não refaz o mundo / inacessível mesmo a um quadro de Velázquez” e outras platitudes afins — com isso querendo dizer que me parecia óbvio, afinal, que a arte não substituísse a vida: e que Bruno talvez exagerasse e fizesse tempestade em copo d’água com aquele negócio de Ideia com maiúscula contra o mundo, o real, o ser etcétera. Enfim. Fosse como fosse, imprimi o poema imaturo e lá fui serelepe ao tão aguardado lançamento.

Ele conversou comigo no momento do autógrafo. Lembro frases como “Onde você comprou o seu exemplar?”, “Ah, então já estava à venda!”, “O que faz, onde estuda?”, “É poeta?” — ele farejou. Deixei-lhe o poema e o meu número de telefone. Ele me anotou o seu. Voltei pra casa nas nuvens, radiante.

Um mês depois eu liguei. Ele disse que se lembrava (ou fingiu se lembrar), e me convidou a visitá-lo na casa paroquial da PUC, onde estava morando. Então começou nossa amizade: visitava-o quase toda semana. Até sua morte em 2007.

Do que conversávamos? Resposta óbvia: poesia, poesia, poesia. Aí eu cursava o mestrado em letras clássicas. Lia muita poesia latina, grega e alemã principalmente. E muito Tolentino: porque ele me passou os originais de A Imitação do Amanhecer com a incumbência de lhe escrever o prefácio. Por que o fez? Porque ouvira de mim basicamente o mesmo que o falecido Miguel Reale pouco depois lhe diria sobre a sua obra. E daí achou que eu fosse um bom crítico. Mas… eu sou um crítico sofrível; extremamente parcial; injusto — não sirvo pra coisa. E… o prefácio ficou péssimo. É isso mesmo o que vocês estão lendo: Bruno Tolentino me encomendou o prefácio de A Imitação do Amanhecer e eu quis ser mais realista do que o rei, meio que criticar a coisa, em vez de fazer o trabalho com empenho e gratidão. Repetindo, agora, com Drummond: “eta vida besta, meu Deus”.

Isso não afetou nossa amizade. E sem prefácio nenhum A Imitação do Amanhecer foi lançada em meados de 2006, com um bate-papo entre Bruno e Reinaldo Azevedo. Ele estava triste, aquela noite. Macambúzio. Melancólico. Provavelmente porque a morte o rondasse de perto… — mas não me adianto.

Por esse tempo eu terminava O Livro de Scardanelli. Deixei uma cópia com ele e fiquei um tempinho sem aparecer. Coisa de um mês ou mais. Quando liguei pra marcarmos um encontro, ouvi o mais esdrúxulo, esquisito e, nada obstante, inesquecível elogio que jamais ouvirei na vida:

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— Érico, meu filho, como vai?

— Vou bem, Bruno, e você? E a saúde?

— A saúde… Pois é. Sabe, estávamos eu e a sua ex-professora, a Marilena, sentados lado a lado no avião e… aí fui ao tolete.

— Tava passando mal?

— Não-não: tava lendo o seu livro; deixei-o aberto na poltrona e fui ao toalete. Quando voltei, a Marilena o tinha pegado pra ler. Folheava. De repente me disse: “Bruno, Bruno, você tá de livro novo, hem? É ótimo”.

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Esse era Bruno Tolentino. Anos depois, escrevi a Marilena Chaui pedindo que me confirmasse a história. “Eu nunca estive com o Bruno, Érico; sei que ele gostou muito de A Nervura do Real,[4] segundo me confiou um amigo comum, mas com ele eu nunca estive nem muito menos viajei”. Esse era Bruno Tolentino.

Pouco após isso ele se mudou da casa paroquial da PUC para os fundos de um casarão da Igreja em frente ao hospital Emílio Ribas. O casarão era (e é) muito bonito. Bruno ficava na edícula. E, a cada nova visita, percebia-o cada vez mais fraco, alheio, triste. “Estou com medo, filho” — confiou-me certa vez. “É assim mesmo, Bruno”, balbuciei uma resposta tola, e segurei a sua mão.

A agonia no hospital durou coisa de três semanas — talvez quatro. Jessé de Almeida Primo o acompanhou no final. Bruno chegou a me dizer “Quero morrer a teu lado, fica aqui comigo, filho, fica” — mas eu não fiquei. Sei que perguntou por mim antes de perder a consciência porque as enfermeiras me contaram, as que cuidaram dele. Usei como desculpa a sua tuberculose, a negativa do médico, os compromissos pessoais — mas o Jessé não usou. Fui covarde: fui vil. Sinto-me culpado até hoje.

A última conversa que tive com ele foi emocionante. Ele estava deitado na cama, não sentado (nunca mais se sentaria), e quando eu disse “Você: sua poesia, Bruno, – você sabe”, ele balançou a cabeça querendo dizer que não, que não sabia. Aí eu chorando “É um monumento, tá ali com Pessoa, com Drummond, e eu vou fazer tudo pra que jamais a esqueçam”. E ele “Não se preocupe — não se preocupe com isso; você tem a sua própria poesia pra cuidar”.

Bruno sempre esteve seguro do próprio valor como poeta. Nunca o presenciei a titubear, a vacilar, a questionar a altíssima conta em que tinha o que compunha. Também o tenho em altíssima conta. É quase o único poeta brasileiro que não me enfada nunca. E cuja amizade foi imprescindível para que me tornasse quem hoje sou.

Saudades, meu amigo. Hoje e sempre.

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Bruno Tolentino

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Notas:

[1] Cf. Bruno Tolentino, “Quero Meu País de Volta”. Revista Veja (Páginas Amarelas) nº 1436, 20 de março de 1996.

[2] Cf. Érico Nogueira, “Bruno Tolentino e a Poética Classicizante: o Caso de A Balada do Cárcere”. Revista do CESP 34, no 51, 2014, pp. 91-106.

[3] Cf. John Milton, “Augusto de Campos e Bruno Tolentino: a Guerra das Traduções”. Cadernos de Tradução, vol. 1, no 1, 1996, pp. 13-26.

[4] Cf. Marilena Chaui, A Nervura do Real. 2 volumes. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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Érico Nogueira

Érico Nogueira é tradutor, ensaísta e professor de língua e literatura latinas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Capa da prestigiosa revista The Warwick Review em 2014, foi finalista do Prêmio Jabuti pelos livros Poesia Bovina (2014) e Dois (2010), além de ter recebido o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura por O Livro de Scardanelli (2008).