Junho fora do lugar (Parte 03)

por Bruno Cava

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Resenha de Vertigens de junho: os levantes de 2013 e a insistência de uma nova percepção, de Alexandre Fabiano Mendes. Rio de Janeiro, editora Autografia: 2018.

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Parte 01
Parte 02

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(Reprodução)

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Onde a luta é forte, o partido é fraco

“Vertigens de junho” transpira de uma obstinação analítica em se orientar em meio ao nevoeiro com todos os sentidos disponíveis, numa espécie de empirismo radical. Deixar para trás a morada segura das ferramentas sociológicas, tão bem sopesadas e eficazes para reconduzir o movimento ao estático das categorias, tem como custo imediato o aumento da tensão do pensamento. É certo, contudo, que o terreno social do lulismo não era um céu azul, a seguir rasgado pelo raio junhista, como provocativamente sugere André Singer (em “O lulismo em crise”); tampouco uma noite tão cinzenta que nada pode ser diferenciado, como nos diagnósticos da era da indeterminação (Oliveira) e seu diagnóstico que resume os arranjos a massarocas de coalizões, ideologias e coligações.

Como resgatar a força de classe pela via materialista das lutas, e através das lutas pesquisar e elucidar o fundo social de inventividade de que as jornadas de junho de 2013 são signos soltos? Alexandre está consciente do risco que ronda a tentativa de inverter a colocação do problema. Pois um único passo em falso sobre o platô intensivo pode rapidamente conduzir ao desrecalque despolitizador das interpretações sobre um suposto lado brilhante ou criativo das novas classes médias/trabalhadoras que se formavam. A inclusão durante o governo Lula não deixa de ser uma inclusão no trabalho, na viração, e envolve um catatau de regulações e ajustes biopolíticos que extraem valor do tempo colocado para funcionar na forma-empresa, no empreendedorismo de si, na subjetividade carregada de endividamento subjetivo. Eis aí, possivelmente, o maior desafio à tentativa de instalar um ponto de vista no interior das bacias de trabalho vivo: como não escorregar da análise das potências em processo de autonomização para a apologia da liberdade de mercado do sujeito empreendedor? Nisso, o livro fornece pistas e uma trajetória autoral inscrita em lutas históricas no Brasil.

Para abordar a problemática, o livro faz um deslocamento temporal e seleciona um paramêtro comparativo na obra de copesquisa de Eder Sader (“Quando novos protagonistas entraram em cena”). Não se trata de um desvio de foco, pois o retorno a Eder é criativo e deve ser compreendido como um modo de dramatizar os problemas suscitados pelo acontecimento que nos atravessa hoje. O capítulo sobre Eder Sader é talvez o ponto mais alto da reflexão de um livro denso de proposições. Para começar, a retomada interessada do apaixonado olhar ederiano sobre a emergência de classe mostra como o subproletariado era uma categoria insuficiente, com pontas rombas, já na época de sua primeira elaboração, no começo dos anos 1980.

Como revisado por Alexandre, Eder participou intensamente de seu tempo histórico, na qualidade de intelectual militante. Dissentiu do rumo nacionalista e industrializante do Partidão, quando do programa de modernização casado com a aliança interclassista com a burguesia industrial nacional. E, a seguir, em pausada autocrítica, Eder dissentiu novamente dos rumos suicidários da luta armada. Apontou a obsolescência programada implícita nas opções vanguardistas e voluntaristas da luta armada durante os anos de chumbo, quando o contexto social e econômico brasileiro passava por uma grande transformação com o Milagre Econômico. Não havia análise de classe à altura do desafio, valendo um pastoso enquadramento em passe partouts conceituais, tais como imperialismo ou leninismo. Em seu cômputo global, o percurso teórico e prático de Eder é exemplar de uma atitude tenazmente questionadora inclusive de seus próprios caminhos e descaminhos, um autêntico “êxodo permanente do próprio olhar”, para empregar as palavras de Alexandre. Chama a atenção nos desdobramentos de Eder a preocupação em continuamente adaptar o ferramental conceitual herdado da tradição marxista. Sem abandoná-lo, não hesita em recriá-lo sob a primazia absoluta conferida às lutas de seu tempo, como se apresentavam no momento e lugar em que ocorriam.

O resultado dessa sociologia microssociológica foi inverter a tendência predominante de buscar a aglutinação da miríade de experiências em esquemas gerais e constructos englobantes. Ao invés, Eder prefere dar vida aos fragmentos em sua própria existência fragmentária, como elementos autônomos que aspiram à constelação, nunca à integração. O tecido inorgânico de Caio Prado Jr. vai ganhando assim uma consistência invertebrada que, aos poucos, vira de ponta cabeça a maioria das categorias de interpretação da formação nacional, usualmente vinculadas aos processos histórico-sociais de industrialização, urbanização e consequente proletarização. Os pedaços de vivências são então deglutidos em sua singularidade e, nessa condição ímpar em que foram achados em campo, se entretecem com outros, numa gambiarra de percepções irredutível a um plano prévio ou retroativo. Não há solução redentora para os dilemas das lutas na organicidade de sujeitos integrados, mas frinchas e brechas por onde elas conseguem um terreno precário de persistência. O desmanche ederiano é realmente inclemente dos esquemas de recondução das lutas à análise de classe. Ao contrário, ele permite reconduzir a análise de classe às lutas, como aliás propunha Marx.

Quando retorna ao Brasil depois de um período no exílio, em 1979, Eder aplica a metodologia redesenhada nos anos de derrotas. Com ela, o intelectual consegue captar, em estado nascente, as vibrantes linhas de formação de novos movimentos, do novo sindicalismo nas fábricas do ABC e das comunidades eclesiais de base. Mas o autor não pára por aí, adentrando em um mosaico menos delineado de grupúsculos, tendências inorgânicas e frentes ad hoc de reivindicação, que pululavam por toda parte no limiar de passagem da ditadura à redemocratização. A autoconstrução da moradia popular, os comitês de saúde de bairro, as reuniões feministas e sobre condição mental, os vários focos de interação qualificada pelos problemas do cotidiano, tudo isso é inventariado com a argúcia de um pesquisador social rigoroso. A cauda longa de manifestações, atritos e invenções, sem uma organização totalizante para pôr-lhes o chapéu militante, adquire para Eder um valor fundamental de constituição de classe na prática, a quente, no dia a dia.

O contexto da virada aos anos 1980 no Brasil era de autocrítica e questionamento das formas políticas legadas pelos grandes embates históricos do século XX, sobretudo quanto aos populismos, vanguardismos e ao socialismo real. No entanto, Eder Sader vai mais além, ensaiando a linha de maior teor de imanência em relação ao que acontecia no dito “subproletariado”. Ao baixar o centro de gravidade da análise de classe para a tessitura e a densidade de uma sociedade em movimento, ele prepara a percepção para uma nova operação teórica, até então desconhecida na esquerda brasileira. Desgarrado das pretensões missionárias da conscientização e do trabalho de base, a práxis constituinte resolvia em seus próprios termos o velho dilema entre vanguarda sem sujeito e sujeito sem vanguarda, que décadas mais tarde reapareceria no reciclado conceito de subproletariado, retomado por Singer para explicar o conservadorismo do lulismo. Sujeito e vanguarda se revezam nos lugares e tempos das lutas concretas, quando entendidas no sentido amplo dos antagonismos espalhados pelo cotidiano.

O par hegelo-dialetizante dos momentos entre o “em-si” e o “para-si”, amiúde ossificados como se fossem réguas normativas, invariavelmente termina por vincular a classe à existência de um sujeito conscientizador dos interesses estruturais, situado nalguma esfera do político apartada onde se enunciaria a posição mais avançada da luta. Esse par dialético é vizinho do par entre reforma e revolução, outro modo mistificador de encobrir as condições reais. Alexandre ressalta como Eder assumiu o caminho inverso da totalização, norteando-se pelo caldeamento em cores vivas do Brasil menor, durante a “década perdida”. Em vez de uma realidade avara em que o socialismo vinha sofrendo derrotas sucessivas dentro e fora do Ocidente, até a ressaca dos anos 1990, Eder desvendava um terreno proliferante de subjetivações, efervescente de traços de autonomia de classe. O problema não era a falta de alternativas oriunda da miséria do real, mas o excesso de representações homologadas que terminava barrando toda e qualquer percepção fora do já percebido.

Em resumo, desde o princípio, o subproletariado não era o negativo de uma classe trabalhadora tradicional perdida, mas a malha fina de positividades que se constituía em meio às precarizações e injunções de uma realidade social em que tudo estava mudando e se soltando. A vacilante pauta de reivindicações ou mesmo a inexistência de organizações visíveis e nomeáveis não significava, de maneira alguma, a rarefação do processo material de constituição de classe. O caráter amorfo e, somente à primeira vista, desorganizado, em verdade denotava uma outra via para a autovalorização e auto-organização metropolitanas.

Num dos trechos revisitados da obra, em que Eder discute as experiências coletivas dos trabalhadores na Grande São Paulo — tais como do Clube das Mães ou do Movimento Custo de Vida — ele testemunha que algo acontecia inclusive quando não havia resultados positivos visíveis, ou mesmo quaisquer ações concretas derivadas dos encontros. Eder apud Alexandre: “Movimentações que antes podiam ocorrer de modo quase silencioso, como se fossem a reiteração de um cotidiano onde nada acontece, passam a ser valorizadas enquanto sinais de resistência, vinculadas a outras num conjunto que lhes dá a dignidade de um acontecimento histórico. Até mesmo acontecimentos que antes poderiam ser vividos como expressão de uma impotência sempre igual começam a ser vistos como lutas que se inserem num movimento social.” (p. 154). Exemplo mais sintonizado ao que Alexandre Mendes chama de nova percepção não há. A fórmula de Eder Sader é em todos os aspectos lapidar: algo acontecia mesmo onde nada acontecia. Esse achado crítico de Eder deveria ser guardado como um cristal do tempo, que Alexandre soube reativar para os propósitos de 2013.

Eder teoriza sobre um poder constituinte realmente existente, que está ao mesmo tempo aquém e além do poder constituinte formal. Está aquém porque pegado diretamente no disforme social, portanto ligado à sua potência de classe. Além, porque a institucionalização também pode conduzir à pacificação dos impulsos mais vívidos de uma mobilização. Isto levou Eder a desconfiar da realização da Assembleia Constituinte e suas capturas idealizadoras. Naquele momento, a maior esperança para empurrar o marco da transição do país à democracia consistia nas aspirações, insatisfações e lutas que se adensavam difusamente. O maior risco, como ele escreveu em 1987, era a subtração da autonomia popular por coalizões desde cima, frustrando a oportunidade histórica de intervenção social diretamente nas instituições.

À época, Eder foi criticado ele próprio de incidir em romantizações do popular e mistificações sobre a verdadeira natureza de seus anseios. O intelectual teria se refugiado nas nuvens da filosofia, em vez de travar a luta real por meio dos instrumentos realmente existentes: os sindicatos, partidos e mandatos conquistados. Segundo seus críticos severos, antes de vagar pelo Grand Dehors de uma sociedade tão complexa e fragmentária, Eder deveria levar em conta as condições quase impossíveis de reabertura de espaços de luta e dissenso num país tão cerradamente conservador que acabava de sair da ditadura e dela saía mal, com muitas contas a acertar. Mas Eder não acreditava no exercício vigiado da crítica interna nem lhe apetecia o ânimo salomônico segundo o qual, na esquerda bem-comportada, as diferenças seriam em algum nível conciliáveis, respeitáveis e federáveis, até a formação de uma frente única. Não são.

Ceifado prematuramente (1988) pela mesma doença que levou intelectuais como Foucault, Betinho ou Gil Scott-Heron, o legado analítico de Eder Sader é reativado em meados do século XXI para acoplar-se ao acontecimento de Junho. Deixo como tarefa ao leitor julgar por si próprio a comparação em seis pontos (158-162) que Alexandre esquematiza, mudando o que deve ser mudado, entre a microssociologia ederiana na década de 1980 e a produção de subjetividade relacionada a Junho de 2013. Em ambos os casos, o propósito é reabrir o dito subproletariado à história, segundo outro sistema de mediações que não o fordismo-keynesianismo da imagem tradicional da Classe Trabalhadora.

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Conclusão: algo aconteceu

De diversos ângulos e perspectivas, os vários ataques do livro rodeiam e se acercam do disforme. Tensionado em sucessivas contrações e dilações de temporalidade, o autor é levado a ponderar sobre uma gama de deslocamentos e perplexidades que nos definem os problemas atuais desde Junho. Em síntese, a inquietação central o levou a driblar dois erros simétricos.

De um lado, os determinismos sociológicos nos quais a estrutura produtiva define as classes que, num segundo momento, definem as lutas sobre a estrutura. Assim como outro tipo mais sutil de determinismo, que diagnostica o lusco-fusco pós-moderno de uma era de indeterminação ou da morte da Política, que é apenas outro modo de suspender a viabilidade efetiva da luta de classe na era neoliberal. Do outro lado, o voluntarismo das análises de subjetivação por cima, na forma dos velhos ou novos populismos, em que a atuação virtuosa de líderes bonapartistas é que vai escandir as oportunidades para a transformação. O horizonte antineoliberal existe, mas é regressivo. Entre a maldição da falta de correlação de forças e a ilusão da vontade política redentora, se situam diferentes chapadas intensivas do pensamento, plataformas precárias e moventes de apoio para a percepção e a ação renovadas. O autor se apoia sobre alguns platôs intermediários nos quais a própria obra contribui em tornar visíveis.

Junho de 2013 foi uma baforada de Real, no qual redemoinham e tonteiam as análises interessadas em decifrá-lo. Suprimido em sua existência empírica enquanto entidade causal, espalhou micropercepções que nutriram e seguem nutrindo várias dinâmicas de subjetivação e catalisando a abertura de novas. Uma dupla viravolta: da desprogramação de um corpo demasiado rígido e da desestigmatização de percepções demasiado engessadas e binárias. São esquemas sensório-motores desconhecidos, quem sabe impossíveis de se consolidarem num programa ou organização, e que talvez demandariam um outro jogo de relações entre o ver e o fazer, entre as interpretações e as ações.

No conjunto articulado e sempre sugestivo de miniaturas do pensamento que arrisca, esse é um livro de desassossego.

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(Foto: Marcelo Camargo/ABr)

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Bruno Cava

Bruno Cava é ensaísta e professor de cursos livres de Filosofia. Autor de vários livros, entre eles “A multidão foi ao deserto” (AnnaBlume, 2013) e “Enigma do disforme” (Mauad, 2018).