As três faces de Bernard Williams

por Daniel Murata

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Quando faleceu em 2003, Bernard Williams era considerado por muitos como o mais importante filósofo moral de sua geração. Para todos os efeitos, Williams era um filósofo — treinado em Oxford no famoso curso Greats, literatura clássica e filosofia —, e professor universitário ao longo de toda a vida. Era também um filosófo moral. Seu primeiro livro foi Morality: An Introduction to Ethics,[1] de 1973, e seu livro mais famoso provavelmente é Ethics and the Limits of Philosophy,[2] de 1985. No entanto, o rótulo filósofo moral não é uma boa forma de descrever seu pensamento.

Em sua resenha de um livro póstumo de Williams, o filósofo e historiador Jonathan Barnes apresenta aquilo que me parece ser a melhor forma de mapear o trabalho Williamsiano. Barnes divide o livro The Sense of the Past: Essays in the History of Philosophy em ensaios escritos por três diferentes personas: o “Professor Williams de Oxbridge”, “Bernard Williams, aquele mais sutil e estiloso dos filósofos morais” e “São Bernard de Sils Maria”.[3] Após apresentar essas três personas, Barnes passa a discutir o contraste entre história das ideias e história da filosofia em sua resenha. A discussão de Barnes é bastante rica, mas — após essa engenhosa divisão dos textos — me parece um pouco com uma oportunidade perdida. O que eu pretendo nesse ensaio é usar a apresentação de Barnes para sistematizar o trabalho de um autor cujas ideias não são e não pretendem ser sistemáticas.

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Professor Williams de Oxbridge. O primeiro livro de Williams, Morality, e o livreto Plato,[4] são textos que ilustram bem essa face. Morality, em especial, é um texto que merece destaque. Escrito originalmente para um grande volume organizado por Arthur Danto, um volume que nunca chegou a ser publicado enquanto tal, trata-se de um texto no qual Williams não apenas apresenta alguns dos conceitos centrais da reflexão moral, como subjetivismo, relativismo e utilitarismo, mas o faz de maneira sucinta e engajada. Segundo o que ele mesmo diz no prefácio, Danto pedira para que os textos fossem introdutórios, mas também que não fossem um “mero levantamento” e que cada autor perseguisse questões que ao seu ver eram “interessantes ou proveitosas”.[5] Em Morality, isso se torna evidente pela própria escolha de tópicos.

Nos anos 60 e 70, a moda por assim dizer na filosofia moral era discutir assuntos meta-éticos, como a possibilidade de verdade de juízos morais e a natureza da linguagem moral, mas essa moda, segundo Williams, acabou produzindo “um novo modo de ser entediante, que é simplesmente não discutir questões morais”[6]. Em muito da filosofia moral produzida nesse contexto, questões morais, quando apareciam, tinham “o papel de ser incontroversamente ilustrativas”.[7] Logo no primeiro capítulo de Morality Williams já coloca essa tendência de cabeça para baixo. As perguntas que ele nos coloca são as seguintes: o que significa, para nós, ser um amoralista, isto é, alguém que nega a força das razões morais? Supondo que seja possível ser um amoralista, isso seria algo desejável? Como é possível argumentar moralmente com um amoralista?

O importante a ser percebido aqui é que a forma de Williams discutir coloca a filosofia moral “no campo”, no mesmo nível das pessoas concretas, nós mesmos, que precisamos navegar um mundo muito menos organizado do que a Terra asséptica de muitos sistemas filosóficos. O convite feito pelo Professor Williams de Oxbridge é para uma reflexão filosófica on the ground, feita por e para pessoas que não são o agente racional kantiano ou o maximizador de felicidade utilitarista, ou seja, filosofia para pessoas que não são abstrações. É um lembrete de que a reflexão filosófica importa muito, mas apenas na medida em que se conecta às pessoas de carne-e-osso.

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Professor Williams de Oxbridge

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Bernard Williams, aquele mais sutil e estiloso dos filósofos morais. A reflexão filosófica importa, mas tem limites. Esse pode ser o tema da segunda persona identificada por Barnes. Não à toa, o livro mais famoso de Williams chama-se Ethics and the Limits of Philosophy. É neste livro que Williams desenvolve muitos de seus argumentos mais famosos entre filósofos profissionais.[8] O livro toma como ponto de partida a distinção que o autor traça entre “ética” e “moralidade”. Ética é o termo mais amplo e parece envolver as várias considerações capazes de figurar na resposta à pergunta socrática “como alguém deve (should) viver?”.[9] Moralidade, ou “sistema moral”, é o termo mais restrito. Trata-se de “uma abordagem específica à questão de Sócrates que se vale de ferramentas conceituais bastante distintas”.[10]

Viver segundo a moralidade (ou sistema moral) é viver de acordo com obrigações morais, estas entendidas como obrigações capazes de se sobrepor a quaisquer outras considerações que alguém possa ter. Para Williams, tanto a filosofia moral de inspiração kantiana quanto o utilitarismo são expressões da ideia de moralidade nesse sentido mais específico, porque preconizam a existência de certos tipos de obrigação que são insuperáveis.[11] O problema da moralidade entendida nesses termos enquanto resposta à pergunta socrática é que ela exclui muito daquilo que pode dar sentido à vida de uma pessoa.

Em poucos lugares na obra de Williams este ponto se torna tão evidente quanto em sua discussão do caso do salva-vidas em Persons, character and morality, um de seus artigos mais importantes, coletado em Moral Luck.[12] Eis o exemplo (algo adaptado): um navio está naufragando e o salva-vidas que atende a emergência enfrenta a seguinte situação. Ele pode salvar sua esposa, que está presa em meio aos destroços em determinada parte do navio, ou ele pode salvar várias crianças que estão em uma parte oposta do navio. É impossível salvar a todos. Ao cabo, ele opta por salvar sua esposa. Quando os pais das crianças, rangendo os dentes, perguntam por que ele tomou tal escolha, tudo que ele consegue responder é “porque ela é minha esposa”.

O ponto que Williams quer chamar a atenção com essa narrativa é que haveria algo de estranho ou mesmo desumano se a resposta do salva-vidas fosse “porque ela é minha esposa e um indivíduo tem a obrigação moral de salvar sua esposa em situações deste tipo”. Não é assim que nós nos engajamos com as razões que temos para agir no mundo e também não é assim que nós gostaríamos que as pessoas se engajassem. Como o próprio Williams aponta, presumivelmente o que a esposa gostaria de ouvir é a primeira resposta e não a segunda (de minha parte, se eu estivesse na situação dela e minha parceira ou parceiro dissesse que me salvou porque tem uma obrigação moral de fazer isso, eu provavelmente pediria o divórcio e mandaria a conta do terapeuta).

Todos nós temos aquilo que Williams chama de projetos básicos (ground projects) que estruturam nossas vidas, dando-lhe algum sentido. Um casamento feliz, um sonho profissional, a constituição de uma família, a expressão de dons artísticos ou literários. São esses projetos que fazem com que alguém tenha interesse em viver, e não os ideais rarefeitos das obrigações e deveres morais. Acredito que valha a pena trazer uma longa citação do autor a este respeito:

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[…] o ponto é que em algum lugar (e se não neste caso, aonde?) a pessoa esbarra na necessidade que certas coisas como apegos profundos a outras pessoas têm de expressar a si mesmos no mundo de formas que não podem ao mesmo tempo respeitar a visão imparcial [do sistema moral], e que eles [apegos] também correm o risco de ofendê-la.

Eles [apegos, projetos e afins] correm esse risco se eles existem; no entanto a não ser que tais coisas existam, não haverá suficiente substância ou convicção na vida de um homem para compeli-lo a ter respeito [allegiance] à vida mesma. A vida precisa ter substância para que as coisas tenham sentido, incluindo a aderência ao sistema imparcial [da moralidade]; mas se a vida tem substância, então ela não pode garantir importância suprema ao sistema imparcial, e o domínio do sistema sobre a vida será, no limite, inseguro”.[13]

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Todos esses possíveis projetos e apegos podem figurar como considerações na resposta à pergunta socrática, mas eles são resistentes à redução promovida pelo sistema moral. Parece-me que podemos resumir o argumento de Williams da seguinte forma. O sistema moral, enquanto resposta à pergunta socrática, não é realista porque distorce a forma por meio da qual nós nos engajamos com a pergunta. A resposta do sistema moral também não é desejável, porque em sua distorção ela exclui tudo aquilo que pode dar sentido à própria vida.

A reflexão filosófica, então, tem limites porque projetos, apegos e afins resistem à teorização e sistematização. Williams não nega que a reflexão filosófica possa ajudar, por exemplo ao enfatizar o que está em jogo ou ao clarificar pontos obscuros, mas ela não pode — em si — responder a pergunta socrática. Como ele mesmo coloca em Ethics and the Limits of Philosophy: “A única empreitada séria é viver, e precisamos continuar a viver depois da reflexão; ademais (apesar da distinção entre teoria e prática nos encorajar a esquecer isso), nós precisamos viver também durante a reflexão”.[14]

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Bernard Williams, aquele mais sutil e estiloso dos filósofos morais

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São Bernard de Sils Maria. A figura que Barnes chamou de São Bernard é certamente a mais elusiva das três. A referência aqui é Friedrich Nietzsche, que passou várias temporadas ao longo da vida na região montanhosa de Sils Maria, na Suíça. Barnes provavelmente tinha em mente os textos The Women of Trachis: Fictions, Pessimism, Ethics e Unbearable Suffering quando decidiu cunhar a expressão. Ela captura bem o espírito de Williams nestes textos. The Women of Trachis tem como epígrafe as linhas de conclusão da peça homônima de Sófocles: “[…] vocês viram morte e muitos sofrimentos, recentes e estranhos, e não há nada aqui que não seja Zeus”.[15] Em Unbearable Suffering, Williams comenta algo laconicamente que “A ideia de que sentido, ou propósito, ou entendimento, ou até mesmo, talvez, uma verdadeira filosofia poderia fazer com que todo sofrimento fosse suportável é uma mentira, seja ela contada por sargentos recrutando ou por sábios anciões”.[16]

Contra a tendência de boa parte da filosofia de tentar trazer boas notícias, prêmios de consolação e afins, Williams constantemente chama nossa atenção para nossa inerente fragilidade no mundo. Foi-se o tempo das grandes narrativas redentoras.[17] Não há nada no mundo, insiste Williams, que faça dele um lugar receptivo para o tipo de seres que somos. Nós humanos agimos no mundo e às vezes nossa ação no mundo desencadeia tragédias que não intencionávamos. Às vezes as coisas saem de controle quem que sequer saibamos o porquê.[18] Às vezes agimos com a melhor das intenções, mas mesmo assim machucamos aqueles ao nosso redor e sabedoria popular “o que conta é a intenção” não é de valia alguma, principalmente quando a própria sabedoria popular pode retrucar que “de boa intenção, o inferno está cheio”. Não apenas isso, o fato é que existe muito sofrimento no mundo e que simplesmente não há sentido capaz de justificá-lo.

Daí nossa inerente fragilidade. As vidas que levamos podem ser boas ou péssimas a depender da sorte que temos. Podemos acabar massacrados em uma sequência trágica sem que consigamos compreender o sentido disso, como acontece com os personagens em As Mulheres de Trachis ou em Édipo Rei, mas podemos também tirar a sorte grande e ter vidas plenas e sem grandes sofrimentos. Para quem acha que as referências às tragédias gregas tornam o argumento exótico ou descolado da realidade contemporânea, basta ler relatos de pessoas que por uma razão ou outra são presas e condenadas injustamente e o impacto que o sistema prisional causa em suas vidas. A ideia de Barnes, de um santo de Sils Maria, captura exatamente essa dimensão do pensamento de Williams, de que o mundo não é receptivo ao tipo de seres que somos, que nossa condição é frágil e que nós sequer temos controle sobre aquilo que causamos no mundo. É uma visão das coisas que realmente desperta a vontade de ser um eremita nas montanhas suíças.

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São Bernard de Sils Maria

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Qual a conclusão que podemos chegar, após conhecermos as três faces de Williams? Do Professor Williams de Oxbridge aprendemos a fazer filosofia on the ground, uma filosofia que leva em conta as questões relevantes para o tipo de seres que somos. De Bernard Williams, aquele mais sutil e estiloso dos filósofos morais, aprendemos que existe mais na vida ética do que o preconizado pelo sistema moral, que as pessoas possuem projetos básicos que dão algum sentido para suas vidas. De São Bernard de Sils Maria, aprendemos que nossa condição no mundo é frágil, que a realização de nossos projetos de vida e que a possibilidade de viver uma boa vida dependem de fatores fora de nosso controle. Pode parecer que — ao fim do dia — o santo acabe assassinando o filósofo e o professor. Pode bem ser que seja isso mesmo. Ao fim do dia, talvez Bernard — o ser humano — prefira o conselho de Leonard Cohen em Steer your Way:

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Steer your path through the pain

That is far more real than you

That smashed the cosmic model

That blinded every view

And please don’t make me go there

Tho’ there be a god or not

Year by year

Month by month

Day by day

Thought by thought.

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(Leonard Cohen no hospital, por Ian Cook)

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Notas:

[1] Bernard Williams, Morality – An Introduction to Ethics (Cambridge University Press 1993).

[2] Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (Routledge 2011). Vale a pena conferir a edição de 2011 (Routledge), que possui um interessante prefácio de Jonathan Lear e comentários para cada capítulo do livro, feitos por A.W. Moore.

[3] Jonathan Barnes, The Sense of the Past: Essays in the History of Philosophy (book review). The Journal of Philosophy, vol 07, 0410, 2007, p. 540. Todas as traduções neste ensaio são livres e de minha autoria.

[4] Bernard Williams, Plato (Routledge 1998). Existe tradução para o português.

[5] Bernard Williams, Morality – An Introduction to Ethics (Cambridge University Press 1993) p. xi.

[6] Bernard Williams, Morality – An Introduction to Ethics (Cambridge University Press 1993) p. xvii.

[7] Bernard Williams, Morality – An Introduction to Ethics (Cambridge University Press 1993) p. xviii.

[8] Para ser mais preciso, trata-se de um desenvolvimento de maturidade. Muitos dos argumentos de Ethics and the Limits of Philosophy aparecem antes. O relativismo da distância, por exemplo, aparece em um artigo anterior, coletado em Moral Luck (Cambridge University Press 1981).

[9] A pergunta de Sócrates é o tema do primeiro capítulo de Ethics and the Limits of Philosophy (Routledge 2011).

[10] A.W. Moore, ‘Commentary on the Text’ in Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (Routledge 2011) p. 227.

[11] Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (Routledge 2011), capítulo 10.

[12] Bernard Williams, ‘Persons, Character and Morality’ in Bernard Williams, Moral Luck (Cambridge University Press 1981).

[13] Bernard Williams, ‘Persons, Character and Morality’ in Bernard Williams, Moral Luck (Cambridge University Press 1981) p. 18.

[14] Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (Routledge 2011) p. 130.

[15] Bernard Williams, ‘The Women of Trachis: Fictions, Pessimism, Ethics’ in Bernard Williams, The Sense of the Past (Princeton University Press 2006), p. 49 (citando Trachiniae 1266–78).

[16] Bernard Williams, ‘Unbearable Suffering’ in Bernard Williams, The Sense of the Past (ed. por Myles Burnyeat, Princeton University Press 2006) p. 334

[17] Bernard Williams, ‘The Women of Trachis: Fictions, Pessimism, Ethics’ in Bernard Williams, The Sense of the Past (ed. por Myles Burnyeat, Princeton University Press 2006) p. 49-50.

[18] Williams discute essas questões em grande detalhe no terceiro capítulo de Shame and Necessity (University of California Press 1993).

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Daniel Peixoto Murata

Daniel Peixoto Murata é Doutor em Filosofia do Direito pela University of Surrey (Reino Unido), Mestre pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) e Bacharel pela mesma instituição. Foi bolsista pela Faculty of Arts and Social Sciences (FASS) da University of Surrey e pela FAPESP.