Um príncipe encontra um homem sábio e feliz (ou: Quando falha a autoajuda)

Na Abissínia (atual Etiópia), os filhos do Rei crescem confinados num vale com altas montanhas de lado a lado cuja única saída é um portão bem policiado. No palácio, os príncipes e princesas são ensinados a ver o mundo exterior como um lugar pleno de desespero, e só conhecem uma vida de lazer e instrução. Apesar disso, Rasselas, o quarto filho, com 26 anos, se mostra cada vez mais taciturno. Quando um dos tutores tenta emparedá-lo, perguntando-lhe pelo que afinal anseia, Rasselas responde que o problema é justamente que ele não anseia por nada; os dias são iguais, não há o que desejar, e ele crê que ver as misérias do mundo lhe daria algo pelo que aspirar. Após 20 meses vivendo em sua imaginação, ele decide se aventurar, mas passa mais de um ano procurando uma rota de fuga sem sucesso até finalmente encontrar Imlac, um poeta que viajou por todo o mundo em busca da criação perfeita e hoje vive estagnado no “Vale da Felicidade.” Os dois então encontram uma caverna e no fundo dela uma fenda através da qual, junto com a Princesa Nekayah, irmã do herói, e sua dama de companhia, Pekuah, conseguem escapar. Após passarem por Suez, chegam ao Cairo, onde o príncipe, disposto a decidir o que fazer de sua vida, se instala numa casa luxuosa.

Enquanto caminhava um dia na rua ele viu um edifício espaçoso ao qual todos eram pelas portas abertas convidados a entrar. Ele seguiu a corrente de pessoas, e encontrou um salão ou escola de declamação, no qual professores liam conferências ao seu auditório. Ele fixou seus olhos num douto erguido acima dos outros, que discursou com grande energia sobre o governo das paixões. Seu olhar era venerável, sua ação graciosa, sua pronúncia clara, e sua dicção elegante. Ele mostrou com grande força de sentimento e variedade de ilustração que a natureza humana é degradada e aviltada quando as faculdades mais baixas predominam sobre as mais altas; quando a fantasia, a mãe da paixão, usurpa o domínio da mente, nada mais se segue a não ser o efeito natural do governo ilegítimo, perturbação, e confusão; que ela trai a fortaleza do intelecto em favor dos rebeldes, e excita suas filhas à sedição contra seu legítimo soberano. Ele comparou a razão ao sol, cuja luz é constante, uniforme, duradoura; e a fantasia a um meteoro, de lustre cintilante mas transitório, irregular em seu movimento e ludibrioso em sua direção. . . .

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