Yuja Wang, Victor Borge e outros humoristas

Por Leandro Oliveira

Com a pergunta “o que Yuja Wang não é capaz de fazer?” o New York Times avalia a performance da pianista chinesa em seu mais recente… show. Sim, pois, deliberadamente, a apresentação foi pensada em outro protocolo que não o da música clássica. A ideia era fazer humor.

Ao lado de Hyung-ki Joo e Aleksey Igudesman – cuja dupla Igudesman & Joo aparentemente conta com algum histórico de shows de comédia -, Wang foi convidada a participar da série “Perspectives”,  no Carnegie Hall no último 11 de fevereiro. Entre canto, dança e trechos de “West Side Story”, Yuja “fez yoga de pernas cruzadas ou de cabeça para baixo em um banco de piano! E ao longo do show, nunca perdeu uma onça de virtuosidade”. O resultado, segundo o crítico Joshua Barone, foi um evento “cheio de piadas sobre sexy appeal e a cultura chinesa que variavam de desagradável (“Deus, ela é tão gostosa”) a ofensiva (“tem cheiro de frango agridoce”, disse Igudesman sobre a caixa que tinha Wang dentro)”. Um pouco do tipo de humor pretendido talvez possa ver visto neste pequeno teaser do show.

A notícia de Yuja fazendo um show de humor com música clássica me fez lembrar outros. De fato, trata-se de uma arte em que o pianista dinamarquês Victor Borge (1909 – 2000) foi um pioneiro e mestre.

Poucos anos após seu primeiro concerto importante em 1926, Borge iniciou um show que misturava curiosamente música e brincadeiras de palco, numa apropriação muito particular das técnicas de stand-up comedy. Segundo consta, em 1933 começou a excursionar pela Europa colocando em seu repertório piadas anti-nazistas – o que teria feito com que na ocasião da ocupação alemã na Dinamarca, ele tivesse que fugir para os Estados Unidos.

Foi a partir de programas de rádio que Borge encantou imediatamente as platéias americanas. Algumas de suas tiradas como a “pontuação fonética” (uma forma de ler os textos com todos seus sinais) e a “linguagem inflacionária” (que valendo-se da lembrança dos anos difíceis da Grande Depressão, subvertia alguns dos usos ordinários das palavras inglesas) são verdadeiros achados do humor moderno.

Anos mais tarde, por conta de seu sucesso na televisão, Borge tornou-se um astro que compartilhava palcos com Dean Martin, e lotava as salas de concerto de todo mundo. Seu público comprava ingressos não para ouvir mais uma versão das sonatas de Beethoven ou dos concertos de Mozart, mas para ver a descoberta de uma hipotética nova ópera de Mozart, saber o que NÃO faz um regente de orquestra ou ouvir uma inusitada história do piano.

Borge era absolutamente adorado por adultos e crianças. Na década de 70 participou de episódios do Muppet Show realizando alguns dos momentos mais engraçados da história da televisão. Até o final de sua vida foi um astro cuja presença era motivo de alegria e música para todos. Algumas carreiras célebres como a de Dudley Moore devem seu início diretamente aos caminhos que Borge abriu.

Qualquer que tenha sido a proposta de Wang – divertir-se, fazer divertir ou experimentar – é estimulante perceber algumas barreiras do decoro entre artistas e público clássico desfazendo-se. Pelo que entendi, o espetáculo foi um pouco infantil, talvez beirando o grotesco, mas mesmo que medíocre, está pleno de boas intenções. Evidentemente, ela descobrirá cedo ou tarde que o humor não é uma atividade de improviso ou voluntarismo. De qualquer forma, como nos ensina Borges, “a gargalhada é a menor distância entre duas pessoas”.

Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é autor do livro “Falando de Música: Oito lições sobre música clássica” (editora Todavia, 2020). Tem experiência internacional em transmissões de música clássica, e é responsável pela direção das transmissões da “Maratona Beethoven”. Realizou doutorado com pesquisa na área pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.