A tirania das paixões e o surgimento da democracia: reflexões sobre a ‘Oresteia’

Orestes Perseguido pelas Fúrias, de William Adolphe Bouguereau.

por Marcelo O. Dantas

Todo amante da cultura clássica conhece a história contada por Ésquilo, o pai do teatro, nas tragédias “Agamémnon”, “Coéforas” e “Eumênides”, que compõem a Oresteia, primeira trilogia da literatura universal. 

Ao retornar vitorioso do conflito em Troia, o líder da confederação aqueia e rei da cidade de Micenas, Agamémnon, é assassinado em seu palácio, por sua esposa, Clitemnestra. A violência do ato e o prazer daquela que o executa ficam evidentes nesta fala da rainha: 

“E eu estou aqui, no lugar onde dei o golpe, com a obra realizada. Agi – não o negarei – de modo a ele não poder escapar nem se eximir ao seu destino fatal. Em torno dele, como se de um peixe se tratasse, lanço a rede inextricável, rico trajo de morte, e vibro-lhe dois golpes. Em dois gemidos, ele deixa descair os membros e então, quando o vejo caído, junto um terceiro golpe, que é como uma votiva ação de graças ao deus subterrâneo, Hades, o salvador dos mortos. Estendido no solo, ele entrega então o espírito e, numa golfada viva de sangue, trespassado pelo ferro, atinge-me com um escuro chuvisco de orvalho sangrento, que me é tão grato como ao campo semeado a bênção da chuva, esplendor enviado por Zeus durante o parto das espigas.”¹

Com essas palavras, Clitemnestra confere ao assassínio do rei de Micenas a natureza sagrada de justa retribuição pela morte de sua filha Ifigênia – que fora imolada, a mando do pai, no altar da deusa Ártemis, de modo a assegurar ventos favoráveis à partida da frota grega em sua expedição contra Troia. Movida por maternal sede de justiça, a irmã menos bela de Helena não deixa de acrescentar a sua vingança a desforra pelas ofensas amorosas do marido. Junto a Agamémnon perece a princesa troiana Cassandra, trazida pelo soberano como espólio de guerra. Novamente exulta a rainha:

“Ei-lo por terra, o homem que me ultrajou, que fez as delícias das Criseidas junto de Ílio, e a seu lado jaz também esta escrava observadora de prodígios, a profetisa que foi sua companheira de leito, a fiel concubina que com ele gastou os bancos da nau. (…) Ao trazê-la, ele só veio juntar um condimento aos meus prazeres amorosos.”

As justificativas Clitemnestra, ainda que calcadas em acontecimentos reais (o sacrifício de Ifigênia; as concubinas de Agamémnon), descrevem apenas a superfície de seu desafeto. Ela esconde de todos, e talvez de si-mesma, as paixões obscuras que motivaram seu gesto assassino. 

Sem deter-se um instante para refletir sobre a incoerência entre seu discurso e seus atos, a rainha incorre nas mesmas faltas que atribui ao odiado cônjuge. Tal como o rei de Micenas, também Clitemnestra se entregara ao adultério, mantendo durante a prolongada ausência do marido um dissoluto caso amoroso com o melífluo Egisto, primo do rei. Após o assassinato de Agamémnon, Clitemnestra e seu amante reinarão juntos, despoticamente. 

“Pela Justiça, que vingou a minha filha, pela Ate e pela Erínia, às quais imolei este homem, juro-te que, em mim, a esperança não pisará a casa do medo, enquanto Egisto acender o fogo na minha lareira e me for leal como antes. Nele, eu tenho o meu grande escudo de segurança.”

O furor de Clitemnestra pelo homem que acende o fogo em sua lareira acaba, no entanto, por sobrepujar seus instintos de mãe. Eliminado Agamémnon, planejam os dois amantes matar o infante Orestes, herdeiro do trono. Mas o primogênito de Agamémnon escapa a tão funesta sorte ao ser enviado para o exílio por Electra, sua irmã, que permanece em Micenas, reduzida pela rainha à condição de serva. 

Sete anos Orestes e Electra esperarão pela oportunidade de vingar a morte de seu pai. Em “Coéforas”, a princesa escravizada, enquanto derrama libações sobre o túmulo de Agamémnon, pede ao arauto supremo dos vivos e dos mortos, Hermes subterrâneo, que leve até seu defunto pai esta mensagem:

“Tem piedade de mim e do querido Orestes: como seremos senhores na nossa casa? Neste momento, somos uma espécie de vagabundos, vendidos por aquela que nos deu o ser. E o teu lugar de esposo foi preenchido por Egisto, cúmplice do teu assassínio. A mim tratam-me como escrava, Orestes está banido dos seus bens e eles afundam-se, com insolência, no gozo dos bens conquistados pelos teus trabalhos. Suplico-te que faças Orestes regressar aqui, em boa hora: pai, ouve a minha prece! E a mim dá-me um coração mais casto do que o da minha mãe e umas mãos mais puras. Isto o que peço para nós; para os nossos inimigos, que apareça o teu vingador, meu pai, e que os que mataram morram às mãos da justiça. Estes são os votos com que acompanho esta maldita cerimônia, aos culpados dirigindo esta maldição. Manda até nós a felicidade, com a ajuda dos deuses, da Terra e da justiça triunfadora.”

Caberá a Orestes (protótipo de Hamlet) e a Electra (arquétipo das princesas de contos-de-fadas reduzidas à servidão) urdir o assassinato de Clitemnestra (a Mãe-Madrasta) e Egisto (o precursor de Claudius, tio de Hamlet). Assim, os irmãos darão seguimento ao mecanismo terrível de traições e vinganças que assola a casa real de Micenas. Ali, todos são vítimas e criminosos a um só tempo. O próprio Egisto justifica seus atos como paga às abominações do tio Atreu, pai de Agamémnon e Menelau. 

“Finalmente posso dizer que os deuses, vingadores dos mortais, vigiam do alto os sofrimentos da terra, agora que vi este homem jazer, para minha alegria, nas vestes tecidas pela Erínias, pagando as maquinações da mão paterna. De fato, Atreu, pai deste homem, governava esta terra e, vendo-se desafiado no seu poder, expulsou da cidade e da casa Tiestes, o meu pai (…) e irmão dele. E o infeliz Tiestes, regressando ao lar como suplicante, teve a sorte de não morrer imediatamente, ensanguentado ali mesmo no pátrio solo. Mas, sob a capa de presente de hospitalidade, o pai ímpio deste homem, Atreu, com mais zelo do que afeto, fingindo celebrar alegremente um dia de sacrifício, serviu ao meu pai um banquete com a carne dos seus próprios filhos.”

Recapitulemos, então, a série de violações morais e vinganças entrecruzadas que marca a história da casa real de Micenas. Desde o insolente Tântalo, nascido da união de Zeus e Plutó – que ousou testar a onisciência dos imortais, servindo-lhes as carnes de seu próprio filho, Pélops –, a casa real de Micenas fora submetida a uma terrível maldição.

Ressuscitado pelos deuses, Pélops dá continuidade à senda de crimes de seu pai. Primeiro, furtando o néctar e a ambrosia dos deuses, enquanto servia no Olimpo, como escanção de Posídon. Mais tarde, tramando a derrota do imbatível Enômao, rei de Pisa, em uma corrida de carros, para obter como prêmio a mão de sua filha, a bela Hipodamia. Com a ajuda da princesa, Pélops convence o cocheiro Mírtilo a sabotar o carro real. Na competição, o eixo serrado acaba por romper-se e o carro se espatifa, levando Enômao a morrer despedaçado. Vitorioso, Pélops garante o silêncio do cocheiro matando-o e jogando seu corpo ao mar. Em seguida, casa-se com Hipodamia, com quem gera Atreu e Tieste.

Assassinatos, incestos, traições, canibalismo, desforras e punições terríveis passaram assim a assolar a linhagem de Tântalo, em um ciclo incessante de desgraças e violência. Egisto vinga-se em Agamémnon do crime de Atreu contra Tiestes. Porém, a raiz do mal se nutre na corrupção de todos. Conta o grande classicista Junito Brandão:

“Foi pela disputa do reino de Micenas entre os dois irmãos que nasceu o ódio mais terrível (…) Atreu, que havia encontrado um carneiro de velo de ouro, prometera sacrificá-lo a Ártemis, mas guardou para si o velocino e escondeu-o num cofre, em vez de depositá-lo no templo da deusa. Aérope, mulher de Atreu, mas amante de Tiestes, entregara a este secretamente o precioso talismã. No debate entre os dois irmãos diante dos micênicos, Tiestes propôs que ocuparia o trono aquele que mostrasse à assembleia um tosão de ouro. Atreu aceitou de imediato a proposta, pois desconhecia a traição da esposa e a perfídia do irmão. Tiestes seria fatalmente o vencedor, não fora a intervenção de Zeus que, por meio de Hermes, aconselhou a Atreu fazer uma nova proposta: o rei seria designado por um prodígio. Se o sol seguisse seu curso normal, Tiestes seria o rei; se regressasse para leste, Atreu ocuparia o trono. Aceito o desafio, todos passaram a observar o céu. O sol voltou para o nascente e Atreu, por proteção divina, passou a reinar em Micenas, expulsando Tiestes de seu reino.”

Vê-se, portanto, que, embora Tiestes fosse desprovido de escrúpulos, foi Atreu quem chamou para si a tragédia, ao apossar-se do que era devido à deusa. A paixão pela posse de riquezas fez o pai de Agamémnon tornar-se alvo da inveja de Tiestes. Mesmo ungido por Zeus e destinado a tornar-se rei, Atreu governou, desde o princípio, sob a maldição de Ártemis. Com o tempo, a disputa entre os irmãos evoluiu em uma espiral de horrores e crimes, que acabou por vitimar a descendência de ambos. Conta-nos Junito Brandão:

“[Atreu,] sabedor um pouco mais tarde da traição de Aérope, após mandar lançá-la ao mar, fingiu uma reconciliação com o irmão; convidou-o a participar de um banquete e serviu-lhe como repasto as carnes dos três filhos que Tiestes tivera com uma náiade (…). Após o banquete, mostrou-lhe as cabeças dos filhos e, mais uma vez, o baniu. Tiestes refugiou-se em Sicione, onde, a conselho de um oráculo, uniu-se à própria filha Pelopia [violando-a] e dela teve um filho, Egisto. Pelopia, após o nascimento do filho, seguiu para Micenas e lá se casou com o tio Atreu. Egisto foi, pois, criado na corte de Atreu e, como ignorasse que Tiestes era seu pai, recebeu do padrasto a ordem de matá-lo. Egisto, porém, descobriu a tempo quem era seu verdadeiro pai e, retornando a Micenas, assassinou Atreu e entregou o trono a Tiestes.”²

Mais tarde, Agamémnon, o primogênito de Atreu, criado no exílio, iria assassinar Tântalo II, filho de Tiestes, tomar sua esposa, Clitemnestra, e eliminar o filho recém-nascido do casal, reclamando para si o trono de Micenas. Seu irmão Menelau conquistaria então a mão de Helena, irmã mais nova de Clitemnestra, e passaria a reinar sobre Esparta. Juntos, os Atridas tornar-se-iam os soberanos mais poderosos do Peloponeso. Sua ventura seria, porém, interrompida pelas artes sedutoras do troiano Páris.

Durante a celebração das bodas do herói Peleus e da nereide Tétis (futuros pais do guerreiro Aquiles), o jovem e garboso Páris, filho de Príamo, o soberano de Troia, fora chamado a decidir qual das três deusas – Hera, Atena ou Afrodite – deveria receber o pomo de ouro lançado por Éris, a Discórdia, que trazia como dedicatória a inscrição “à mais bela”. Páris dera vitória à deusa do amor sensual, obtendo em troca disso a capacidade de conquistar as graças da mulher mais bela do mundo. O prazeroso prêmio seria colhido pelo príncipe asiático algum tempo depois, durante visita a Esparta, quando conquistaria o coração de Helena, levando-a consigo para Troia. 

Indignado pelo ato traidor de seu hóspede, Menelau, o marido abandonado, recordaria então aos heróis de toda a Grécia o pacto de honra que haviam travado durante a disputa pela mão de Helena. Por sugestão de Odisseus, o impasse entre os pretendentes fora, naquela oportunidade, resolvido da seguinte forma: todos se comprometeram a respeitar a vontade da mais bela de todas as mulheres; ela escolheria quem quisesse para seu esposo e, no futuro, em caso de ultraje, todos se uniriam para vingar a honra do marido desonrado. Em virtude desse pacto, organizou-se a famosa expedição contra a cidadela de Príamo, cabendo seu comando ao mais poderoso dos soberanos aqueus, Agamémnon.

A armada grega de mil navios reuniu-se no porto de Áulis, onde uma prolongada ausência de ventos a impedia de ganhar o mar. O adivinho Calcas revelou, então, que a calmaria fora lançada pela deusa Ártemis. Em acréscimo a seu antigo ressentimento contra a casa de Atreu, a deusa agora juntava sua irritação com a arrogância de Agamémnon, que matara uma corça sagrada, ousando vangloriar-se de que ninguém o faria melhor.

Perguntado que oferenda exigia a deusa para ter aplacada sua ira, o adivinho Calcas disse ao rei para sacrificar-lhe o produto mais belo do ano. Este, por fatalidade, vinha a ser a recém-nascida princesa Ifigênia. Após alguma hesitação, o marido de Clitemnestra aquiesceu no infanticídio, sacrificando a própria filha. Assim foi que os navios gregos puderam enfim zarpar em direção a Troia.

Em contraste com Abraão, que se dispôs a sacrificar Isaac em gesto de cega obediência ao Senhor, o orgulhoso Agamémnon pouca fidelidade tinha à deusa caçadora. Enquanto o patriarca hebreu demonstraria, com seu ato, total desapego à felicidade material (representada pelo nascimento do tão aguardado filho e herdeiro), o soberano de Micenas imolaria a jovem Ifigênia no altar de sua própria ambição. Mais do que uma cobrança em relação às faltas de Agamémnon, a calmaria provocada por Ártemis em Áulis atuava como presságio sobre as consequências funestas da expedição guerreira. 

Deusa de fortes ligações com a Trácia e a Ásia Menor, e divindade que sequer esteve envolvida na disputa pelo pomo da Discórdia, Ártemis não tinha por que favorecer essa calamitosa investida contra a cidadela protegida por seu irmão, Apolo. Seria o ultraje de Páris motivo suficiente para as potências do Egeu digladiarem-se em confronto fratricida, capaz de levar ambas civilizações à ruína e causar a extinção de toda uma geração de heróis?

A resposta da deusa, ao colocar Agamémnon diante da escolha entre a guerra e a vida de sua filha, foi inequívoca: nada de bom adviria do confronto, apenas a perda do que podia haver de mais sagrado e querido. O soberano de Micenas, contudo, optou por lançar sobre suas paixões obscuras o manto enganoso do dever cívico e – tomado pela sede de glória, riquezas e poder – fez com que corresse o sangue inocente de sua filha Ifigênia.

O triste fim de Agamémnon parece assim traçado por um nefasto amálgama de culpas herdadas e culpas adquiridas, ao qual vem somar-se a fúria cega das culpas alheias. A monstruosidade de Atreu, seu pai, sem dúvida manchou o nome dos Atridas e o cetro real Micenas. Foi, contudo, sua própria e tão violenta ambição que, por duas vezes, incutiu no peito de Clitemnestra a semente do ódio: ao matar Tântalo II, primeiro esposo da rainha, e o filho recém-nascido do casal; e, em seguida, ao sacrificar sua filha com ela, a pequena Ifigênia.

 Não bastasse isso, dez anos mais tarde, no saque à cidadela de Troia, Agamémnon agirá com tamanha brutalidade – profanando santuários e desrespeitando o direito de proteção dos suplicantes agarrados aos altares divinos –, que mesmo os mais favoráveis deuses acabarão por virar-lhe as costas. 

Conquanto o desonrado comandante dos Aqueus tenha chamado sobre si a ira divina, seus executores nada lhe ficariam a dever em cobiça, lascívia e impiedade. A justiça assassina de Egisto e Clitemnestra apenas renovou a maldição pendente sobre a casa real de Micenas. Será contra essa herança de infâmias que os irmãos Orestes e Ifigênia se irão confrontar. Em “Agamémnon”, ouvimos o Coro dizer:

“Ultraje responde a ultraje: difícil é julgar. Quem rouba é roubado; quem mata recebe a sua paga. Enquanto Zeus estiver no seu trono, manter-se-á a lei de que o pecador tem de sofrer: assim está superiormente determinado. Quem poderá expulsar da casa a semente da maldição? A raça está soldada à desgraça.”

O mecanismo maldito que aprisiona a linhagem de Tântalo é justamente a tirania das paixões, entre as quais sobressaem a ânsia de poder, a sede de riquezas e as transgressões amorosas. Nesse mundo amoral, a vontade é escrava do desejo, a sabedoria sucumbe diante da ambição e o intelecto se põe a serviço das mais primárias pulsões. 

Atreu, Aérope e Tiestes; Egisto, Clitemnestra e Agamémnon são personagens essencialmente marcados pelo orgulho e pela desmesura, conceitos que os gregos reuniam no termo ‘hubris’, o elemento primordial de todas as tragédias. Cegados por suas paixões desabridas, os membros da casa real de Micenas desafiam os limites impostos pelos deuses. Despidos de quaisquer amarras, entregam-se à idolatria do poder temporal, das riquezas passageiras, das glórias mundanas e da satisfação imediata dos sentidos. 

Nenhum deles conhece limites; nenhum respeita os ditames da lei natural ou os costumes tradicionais de suas sociedades. Nenhum jamais age com altruísmo e menos ainda se deixa mover pela compaixão. Nenhum se arrepende e busca a redenção; nenhum procura alinhar sua vontade ao ordenamento celestial. 

As divindades que regem seus atos são a deusa Ate, personificação da desrazão e da cegueira moral, e as Erínias, deusas ctônicas, nascidas no momento em que o sangue de Uranos, despedaçado com uma foice por seu filho Cronos, jorrou sobre Gaia. Às Erínias, chamadas pelos romanos de Fúrias, tocava punir, com implacável rigor, as faltas mais graves, em especial os crimes familiares. Eram as divindades obscuras do remorso e da vingança, que cobravam em sangue o sangue derramado.

Na sórdida história da casa real de Micenas, o gênio da cultura grega retratou a sina dos homens entregues às forças primitivas da natureza. São mitos sobre a sede de poder, sobre a crueza de Eros e sobre o fascínio trágico dos homens pelo que é passageiro, contingente, superficial. Temos aí descrita uma época pré-moral e ante-ética, em que não havia limites claros ao exercício da vontade individual e em que nenhuma regra superior parecia se impor sobre os pobres mortais, salvo o imperativo de lavar o sangue derramado com ainda mais sangue. 

A sociedade micênica, exposta à liberdade hedonista de seus líderes, revelava-se, desse modo, uma sombria e inescapável prisão. Tal como na Albânia do ‘kanun’, retratada por Ismail Kadaré no romance Abril Despedaçado, Orestes e Electra terão seu destino traçado pela mão implacável da vingança.

* * *

Deus Apolo

Após sete anos de exílio, Orestes consulta o oráculo de Delfos, onde recebe do deus Apolo a instrução de que chegou o momento de vingar a morte de seu pai. O jovem retorna então a Micenas, onde se reencontra com a irmã Electra e explica seu plano:

“O que tenho a dizer é simples. Que Electra se recolha ao palácio e que todos vós oculteis os meus desígnios, para que, tendo matado pela insídia um homem de honra, eles sejam também vítimas da insídia, morrendo no mesmo laço, como o profetizou Lóxias, o Senhor Apolo, adivinho que nunca mentiu. Semelhante a um estrangeiro, com toda a sua bagagem, apresentar-me-ei à porta do pátio (…) Mas bastará que eu transponha a soleira da porta do pátio e o encontre [Egisto] sentado no trono de meu pai, ou então que ele venha falar-me frente a frente, pondo-se debaixo de meus olhos, garanto-vos, antes que ele diga “De que terra é este estrangeiro?”, cairá por terra morto, trespassado pelo bronze ágil, e a Erínia, que nunca se sacia de morte, fará de sangue puro a sua terceira bebida.”

Conquanto pareça simples a Orestes tirar a vida do infame Egisto, verdadeiro dilema se coloca entre a obrigação de punir a mão que apunhalou seu pai e o dever de respeitar o ventre materno. O jovem encontra-se dilacerado entre dois imperativos irreconciliáveis: matar Clitemnestra, e trazer sobre si a infâmia do matricídio; ou deixá-la viver, e sofrer a desonra de não haver vingado o pai. Orestes escolhe o conselho patriarcal do deus Apolo:

“Não, não me vai trair o poderoso oráculo de Lóxias, que me ordena que corra esse risco, eleva sem cessar a sua voz e me anuncia desastres capazes de me fazer gelar o sangue, se eu não perseguir os responsáveis pela morte de meu pai, tratando-os como eles o trataram, matando quem matou, vingando, com a fúria dum touro, a perda dos nossos bens. Caso contrário, pagarei com a própria vida, no meio de múltiplas e cruciantes dores.”

Orestes escuta do oráculo a instrução que já carregava, desde o início, em seu próprio peito. No fundo de si, deseja matar sua mãe Clitemnestra – pois a odeia com a fúria de um amante traído. Mais do que a assassina de Agamémnon, o jovem príncipe deseja vingar-se da mulher que desprezou seu amor ainda infante, trocando-o por uma vida de prazeres junto a Egisto. 

As consequências do ato de Orestes serão terríveis. Ao cumprir os desígnios das Erínias de seu pai, o jovem chamará sobre si as (ainda mais furiosas) deusas vingadoras de sua mãe. O diálogo entre o príncipe e Clitemnestra na hora do confronto final resume tudo o que Freud e Nelson Rodrigues teriam a dizer, vinte e cinco séculos mais tarde:

“Clitemnestra
Espera, meu filho! Respeita, meu menino, o seio onde muitas vezes, a dormir, sugaste com os teus lábios o leite nutritivo. 

Orestes
Pílades, que hei-de eu fazer? Será que posso matar uma mãe?

Pílades
De outro modo, que seria dos oráculos de Lóxias, proferidos em Pito, e da lealdade dos juramentos? Olha que é melhor ter contra ti todos os homens do que os deuses.

Clitemnestra
Fui eu que te criei: quero envelhecer contigo

Orestes
Querias viver comigo, depois de ter matado o meu pai?

Clitemnestra
O Destino, meu filho, é em parte culpado de tudo isso.

Orestes
Pois é também o Destino que decretou a tua morte.

Clitemnestra
Não tens medo da maldição materna, meu filho?

Orestes
Não! Apesar de minha mãe, foste tu que me lançaste para a desgraça.

Clitemnestra
Não foi bem assim: enviei-te para a casa de um hóspede.

Orestes
Fui vergonhosamente vendido, eu, filho de um pai livre.

Clitemnestra
Onde está então a paga que eu recebi?

Orestes
Tenho vergonha de te dizer claramente qual foi essa paga de infâmia. 

Clitemnestra
Não tenhas vergonha; fala também, por exemplo, das loucuras de teu pai. 

Orestes
Não acuses aquele que andava na guerra, enquanto tu estavas em casa.

Clitemnestra
Custa muito a uma mulher estar separada do marido, meu filho.

Orestes
Mas é o trabalho do marido por fora que sustenta a mulher ociosa em casa.

Clitemnestra
Parece que sempre queres matar a tua mãe, meu filho!

Orestes
Não serei eu, mas tu, que te vais matar a ti própria.

Clitemnestra
Vê bem: pensa nas cadelas furiosas de tua mãe. 

Orestes
E como fugir à de meu pai, se eu descurar a sua vingança?

Clitemnestra
Parece que é a um túmulo que, viva, dirijo em vão as minhas súplicas.

Orestes
O destino de meu pai determina a tua morte.

Clitemnestra
Ai de mim, que gerei e criei esta serpente. Bom profeta, sem dúvida, o terror que me inspiraram os meus sonhos.

Orestes
Mataste quem não devias: sofre agora o que não devias sofrer.”

Após o matricídio, Orestes tenta justificar seu ato, mandando buscar a rede que foi lançada sobre Agamémnon por Clitemnestra e Egisto para envolvê-lo e imobilizá-lo na hora do crime. O gesto é inútil. Mesmo invocando o deus solar como testemunha de sua inocência, o jovem não consegue escapar à noite que sobre ele se abate. Maculado pelo sangue de sua própria mãe, Orestes penetra o círculo infernal de desrazão e sofrimento que envolve sua estirpe.

“Agora eu me aplaudo, agora eu me lamento diante de vós, dirigindo a palavra a este tecido, assassino de meu pai. E sofro pelo crime, pelo castigo, pela minha raça inteira, guardando desta vitória uma mancha abominável. (…) Não sei como isto vai terminar: sinto-me a conduzir um carro cujos cavalos saem da pista. Os meus sentidos ingovernáveis transportam-me vencido. Pronto para cantar, o terror está diante do meu coração, que se dispõe a dançar, enfurecido. Mas, enquanto eu domino a minha razão, quero gritar bem alto aos meus amigos: sim, matei a minha mãe, mas com justiça, porque ela manchou a minha casa, ao assassinar o meu pai, tornando-se execrável aos deuses. E afirmo bem alto que quem me inspirou esta audácia foi o profeta de Píton, Lóxias.”

O domínio de Orestes sobre sua sanidade dura pouco. Atormentado, vê surgirem da terra as deusas vingadoras de sua mãe, “mulheres semelhantes a Górgonas, de escuras túnicas, enlaçadas de inúmeras serpentes”. Somente a ele as Erínias se mostram – horrendas, terríveis, sanguinárias. Relatos do século dourado contam que, durante os festivais em que foram encenadas as tragédias da Oresteia, a aparição no palco das deusas vingadoras causava tamanho impacto sobre o público que muitos passavam mal, tendo havido o caso de uma mulher grávida que faleceu durante a première de “Coéforas”, na Grande Dionísia de 458 a.C.:

“Não são fantasias resultantes de meus tormentos. Vejo bem que são as cadelas irritadas de minha mãe. (…) Senhor Apolo, ei-las que se multiplicam e dos seus olhos goteja um sangue repelente. (…) Vós não as vedes, mas eu vejo-as. Elas perseguem-me e não me deixam ficar aqui.”

 Nesse clima sombrio, termina a segunda parte da trilogia. A conclusão virá com “Eumênides”. Prestes a enlouquecer, Orestes busca refúgio e purificação junto ao templo de Apolo. Mas o deus matador de lobos pouco pode contra o poder ancestral das senhoras do pássaro da noite. Elas fecham o cerco sobre Orestes, postado junto ao ‘omphalos’ délfico, a pedra sagrada do umbigo do mundo, em atitude suplicante. Lóxias consegue retardar o passo das deusas, mediante um encantamento que as faz adormecer. Despacha então seu protegido, sob os cuidados do deus Hermes, para a cidade de Atenas, na esperança de que sua patrona, Palas Atena, a deusa de olhos garços, possa ajudá-lo.

Escapando por algum tempo à escuridão do Hades, o fantasma de Clitemnestra vem a Delfos e desperta as Fúrias, instando-as a prosseguir em sua caça a Orestes. Guiadas pelo odor de sangue que emana do filho criminoso, as vingadoras o perseguem até a Acrópole de Atenas, encontrando-o dentro do templo da grande deusa guerreira, abraçado à estátua sagrada. Não por acaso, esse confronto final nos mostra o filho de Agamémnon na mesma posição suplicante e indefesa em que a família real de Troia encontrou seu fim. 

Durante o saque à cidadela asiática, os guerreiros aqueus, em sua fúria cega e selvagem, profanaram todos os templos que encontraram à sua frente, ignorando o sagrado direito de refúgio junto às relíquias divinas. Príamo, o soberano troiano, foi morto por Neoptolemo junto ao altar de Zeus; e sua filha, a princesa Cassandra, foi brutalmente violentada por Ajax Lócrio, aos pés da estátua de Atena Parthenos, a deusa virgem. Tamanha ira apossou-se dos deuses olímpios diante desses atos sacrílegos, que poucos seriam os guerreiros aqueus a escaparem de uma funesta sorte em seu retorno ao lar. 

Eis que, agora, Orestes, o próprio filho de Agamémnon, comandante dos exércitos aqueus, se encontra prestes a sucumbir, em mais uma rodada de insanidade, crimes e expiação. No interior do templo, as Erínias cercam o matricida, envolvendo-o em danças mágicas e encantamentos, que mais tarde se irão refletir nos sortilégios das bruxas de “Macbeth”, a obra-prima de Shakespeare:

“Abandonado de todos, vais ao encontro da ruína, depois de perderes todo o sentido da alegria, pasto sem sangue das deusas, sombra. Tu não respondes e cospes as minhas palavras, tu, vítima engordada para o meu sacrifício! E será vivo, sem imolação no altar, que me servirás de festim. Agora vais ouvir o hino que te há de acorrentar. (…) Vamos, dancemos em roda, pois queremos erguer um canto de horror, dizendo como o nosso bando atribui aos mortais a sua sorte.”

Nesse momento, Atena Prómacos, a senhora da guerra, aquela que combate na linha de frente, intervém. Sua chegada é serena, ainda que prenhe de majestade. Diante da filha de Zeus, as Fúrias interrompem seu rito macabro. Atena busca saber o que se passa, e ouve as partes, sem pressa em agir. Ao valer-se de palavras, o faz com parcimônia, dando-lhes firmeza e precisão. 

O contraste com os arroubos retóricos das demais personagens, não poderia ser maior. Seu verbo traduz uma sabedoria tranquila, despida de emoção. Antes de qualquer gesto, a deusa pondera, reflete. E faz valer sua autoridade, decidindo criar ali, na colina de Ares, o Areópago. É o primeiro tribunal criminal da Antiga Grécia, e também o primeiro foro aberto de debates, onde, séculos mais tarde, São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, irá apresentar aos atenienses o Deus desconhecido (Atos 17, 16-34). Diz a deusa de olhos garços:

“Atendendo à gravidade da questão, vou eleger juízes, obrigados por juramento, para julgarem os casos de sangue, criando assim um tribunal que funcionará para sempre. Quanto a vós, reuni testemunhos e provas que, cobertos pelo juramento, auxiliem a justiça. Eu voltarei, trazendo comigo os melhores dos meus cidadãos, para que eles decidam retamente esta questão, sem em nada transgredirem a equidade e o seu juramento.”

A senhora da guerra – Atena Prómacos – torna-se então a grande promotora do primado da lei, Atena Areia. O crime de Orestes já não será lavado com novo sangue, mas julgado por homens dotados de razão prática e valores morais. 

Nesse momento singular, institui-se verdadeiramente a pólis grega, berço da democracia, que a deusa qualifica como “uma forma de governo intermédia entre a anarquia e o despotismo”. Ainda que as paixões continuem a reinar tirânicas sobre o coração dos homens (e mulheres), suas disputas – assim nos propõe a deusa – serão doravante acertadas mediante o primado da lei. Encerra-se, assim, o império público dos impulsos primitivos individuais. Fala Atena:

“Escutai agora o que vou estabelecer, cidadãos da Ática, que julgais a primeira causa de sangue derramado. O povo de Egeu contará para sempre com esta assembleia de juízes. (…) Neste local, o respeito pelos outros e o consequente temor manterão, dia e noite, os cidadãos afastados do crime, para isso bastando que eles não alterem as leis. Quem mistura água límpida com outra impura e lodosa, não terá mais que beber. (…) Uma forma de governo intermédia entre a anarquia e o despotismo, eis o que eu recomendo aos cidadãos que pratiquem e venerem, ainda que não expulsem completamente o temor de sua cidade. (…) Se olhardes com temor e sentimento de justiça a esta venerável instituição, encontrareis nela um baluarte salvador da vossa terra e da vossa cidade, tal como nunca ninguém teve (…). Incorruptível, venerando e inflexível, guarda que vela pelo sono da cidade, eis o tribunal que eu instituo. Se me alonguei nos meus conselhos, foi para futuro benefício dos meus cidadãos.”

O discurso de Atena no Areópago constitui, juntamente com a “Oração Fúnebre de Péricles”, registrada por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso, o texto fundador de todo verdadeiro pensamento democrático. No respeito à soberania desse tribunal – cuja origem é divina – os homens se tornam mais que meros instrumentos da Moira, deusa do destino. Renunciando a uma hipotética liberdade total, tornam-se livres. 

Onde antes imperava a desrazão, passa a existir a ordem. Onde antes reinava a violência, torna-se possível a paz. Em lugar do confronto fratricida das vontades individuais, abre-se espaço para a concórdia e a defesa democrática da vontade coletiva. O pacto instituído pela deusa de olhos garços permite, enfim, a plena superação do estado-de-natureza. Cessa a luta hobbesiana de todos contra todos. A busca da felicidade deixa de estar condicionada pela força do desejo. A honradez não será mais refém da sede de vingança. E a promoção da justiça deixa de ser o motor de novos crimes.  

Sob a presidência da deusa, reúne-se o tribunal. Em favor de Orestes (e do patriarcado), fala o deus Apolo, que relembra os crimes de Clitemnestra contra o matrimônio e a monarquia, ressaltando a importância não apenas familiar, mas também coletiva de ser vingada a morte de Agamémnon. Na acusação ao príncipe, está a Erínia vingadora, líder do Coro Abissal (e das forças matriarcais), que fala da abominação do matricídio e do seu direito milenar de punir o sangue derramado em uma mesma família. 

Embora a natureza do debate possua uma clara vertente ordenadora e social, em um plano mais profundo, o texto reflete o conflito propriamente existencial do réu. Sim, Orestes agiu instado por Apolo, porém, no comando do deus, nada mais encontrou do que uma justificativa para sua própria mágoa e seu ímpeto matricida. Do mesmo modo, o tormento que lhe vieram infligir as Erínias, embora nascido das pragas de Clitemnestra, deu expressão imediata a seu próprio remorso – e à terrível constatação de que o sangue materno derramado em nada aplacara sua dor de filho traído e rejeitado. 

Ambas as divindades são externas ao filho de Agamémnon. No entanto, elas têm uma vida ainda mais forte dentro de seu peito. Personagem trágico por definição, Orestes é um ser dilacerado pelas contradições e armadilhas da paixão e do desejo. Justamente por isso, crime e castigo lhe irão marcar a alma e a trajetória. 

* * *

Após a secreta deliberação dos juízes humanos, a deusa deposita seu voto, o derradeiro, na urna em que será decidida a sorte do jovem príncipe.  O voto de Atena (ou ‘Minerva’, como era conhecida a deusa entre os romanos) iguala a contagem na votação. Assim, conforme a regra previamente estabelecida, Orestes é absolvido. 

A interessante solução do caso nos mostra que, a depender da sociedade humana, os votos ainda seriam desfavoráveis ao filho de Agamémnon. Mesmo em um ambiente patriarcal como o da Antiga Grécia, o dever de honrar a mãe parecia, aos homens sensatos, superior à obrigação de vingar o pai. A instituição da maternidade continuava a ser mais fundamental para a sobrevivência da coletividade do que o casamento ou a monarquia. No entender dos juízes humanos, Orestes deveria ser condenado. 

“O duelo entre Aquiles e Agamémnon”, de Giovanni Battista Gaulli

Quem o redime é a misericórdia de Atena. Ao igualar a votação, a deusa põe fim à maldição que pesa sobre a família de Tântalo, Pelops, Atreu, Tiestes, Egisto, Agamémnon, Menelau e Orestes. Ao contrário de seus pais, tios e avós, que somente na morte encontraram o limite de sua desmesura, o irmão de Electra – tal como Édipo, seu grande rival no universo no drama e do mito – chegará a um verdadeiro ‘pathei mathos’, o aprendizado pelo sofrimento. 

Aos pés da deusa de olhos garços, Orestes encontra enfim o arrependimento, a contrição e o perdão. Desse modo, reconcilia-se consigo mesmo, com a sociedade ao seu redor e com o ordenamento divino, num clímax de beleza poética e sabedoria imemorial, que antecipa um dos temas mais emblemáticos do Cristianismo. Inconformada com o resultado, a Erínia vingadora se encoleriza:

“Ah! Jovens deuses, que espezinhais leis antigas e me arrancais aquele que já tinha em minhas mãos! Mas eu, assim humilhada e infeliz, farei pesar sobre esta terra a minha cólera. Ah! Eu hei de vingar-me, destilando do coração as gotas de veneno, sim, de veneno, que hão de tornar tudo estéril: delas sairá uma lepra, fatal às folhas e às crianças – ó Justiça, Justiça! –, que, abatendo-se sobre o solo, nele imprimirá manchas de um mal funesto aos mortais. (…) Grande afronta, ai, sofreram as tristes filhas da Noite, duramente humilhadas!”

Mesmo diante de semelhante brutalidade verbal, a deusa de olhos garços mantém a elegância de sua altiva majestade:

“Não fostes humilhadas. Não há razão, deusas, para, movidas por uma cólera excessiva, tornar-se estéril a terra dos mortais.”

E, dirigindo-se ao Corifeu, que é a Erínia da vingança, ela propõe:

“Atende ao que te digo: que a tua boca furiosa não lance sobre a terra imprecações, capazes de tornar estéril tudo o que produz fruto! Adormece a amarga cólera de negras ondas; deixa-te honrar e vem viver comigo. Neste vasto país serão doravante tuas as primícias da terra, ofertas de nascimento e de himeneu, e para sempre louvarás o meu conselho. (…) Eis o que podes esperar de mim: bênçãos a dar, bênçãos a receber, e a tua entrada nesta terra adorada pelos deuses, onde irás partilhar da cidadania.”

Persuadidas pelas palavras doces e justas de Atena, as coléricas deusas tornam-se enfim as Eumênides, divindades benfazejas. Conforme esclarece o tradutor e helenista Manuel de Oliveira Pulquério, em seu estudo introdutório à obra, o clímax da trilogia está precisamente nessa migração das Erínias, que saem da escuridão do Tártaro para sua nova casa no solo da Ática, convertendo-se elas, de perseguidoras cegas e sedentas de sangue, em defensoras da verdadeira Justiça, única fonte de bem-estar espiritual e material. Fala a deusa ancestral, transmutada pelo verbo da filha de Zeus:

“Os meus votos são que jamais a Discórdia, insaciável de males, ruja nesta cidade e que a poeira do chão, ao ser embebida do sangue negro dos cidadãos, não reclame com avidez, na sua cólera, as represálias sangrentas que causam a ruína das cidades!”

A jornada do espírito anunciada pela Atena de Ésquilo nos oferece o mais nobre caminho de que se tem notícia para a prosperidade da ‘pólis’ e a construção daquilo que se convencionou chamar de civilização. Tal caminho permanece, no entanto, em larga medida, uma solução social, externa ao sempre conturbado coração dos homens. Se, na esfera pública, Atena triunfa sobre Hobbes, Marx e Maquiavel, na esfera privada, a deusa continua a bater-se contra Freud e Nietzsche. O Evangelho, por certo, nos oferece uma via segura para sobrepujar esse impasse, mas pouquíssimos (muito poucos mesmo) são os cristãos que se aventuram a colocá-la em prática em suas vidas pública e privada. 

Nisso reside a fragilidade do sonho democrático de Ésquilo: permanecendo os homens dominados interiormente por suas violentas paixões, o acordo proposto pela deusa Atena nunca deixa de estar sob a constante ameaça de um retorno à barbárie. Em ciclos temerários e imprevisíveis, nos quais se alternam fases de florescimento exuberante e grandes crises fratricidas, assim avançam as sociedades humanas – aos trancos e barrancos. Países, impérios e civilizações surgem e desaparecem. A democracia e a liberdade são sempre plantas frágeis, que precisam ser protegidas de animais vorazes e ervas daninhas.

A deusa de olhos garços cantada por Ésquilo dificilmente se animaria com o cenário que hoje vivemos no Brasil. Em nossos tristes trópicos, a busca pelo benefício próprio, o desejo de vingança e o elogio à brutalidade tomaram conta do debate público. À esquerda e à direita, vemos se avolumarem as forças do extremismo e da desrazão, as mensagens de conflito e retaliação. De modo igualmente preocupante, muitos não têm pejo em questionar o imperativo da imparcialidade da justiça – transformando o devido processo legal em expediente que se adapta às conveniências políticas do momento.

Diante de tão ingentes desafios, urge trilhar o caminho delineado pela deusa Atena, em união, serena e firme, pelo fortalecimento da legalidade, dos direitos individuais, da repartição de poderes e das instituições democráticas no Brasil. Esperemos que nosso país possa resistir à investida das paixões primitivas e que aprenda, enfim, a escutar a voz da Sabedoria – aquela que falou pelos versos de Ésquilo, dois mil e quinhentos anos atrás. 

Quando o ‘mythos’ se deixa fecundar pela força do ‘Lógos’, abrem-se as portas da misericórdia e da justiça, colocando um fim aos mecanismos de perpetuação da tragédia. Quando as Erínias se transmutam em Eumênides, ensina-nos Aristóteles, encerra-se o despotismo e tem início a Política, a verdadeira, aquela que se escreve com letra maiúscula. O primado da justiça e a garantia dos direitos individuais são – juntamente com o sufrágio universal e as eleições livres e idôneas – as chaves para o fim da tirania e o florescer da democracia. 

Eis a grande lição da Oresteia. Somente no império da lei podemos verdadeiramente assegurar a harmonia no interior da ‘pólis’. Somente ao transmutarmos as Erínias em Eumênides, vemos prosperar, de modo sustentado, a República. É um trabalho constante, que exige perene esforço e atenção. 

Talvez o coração dos homens siga sempre indomável. Talvez nunca venhamos a nos livrar por completo do império das paixões. Na esfera pública, contudo, devemos ser capazes de nos unir para conter as forças abissais que nos ameaçam a todos. A democracia nunca será capaz de resolver todos os problemas das sociedades humanas, mas continua a ser o sistema político mais adequado a que cada um de nós tenha condições buscar a felicidade e de, enfim, com alguma sorte, tornar-se senhor de si-mesmo.

Marcelo O. Dantas é escritor e diplomata. Seu romance ‘Podecrer!’ foi adaptado para o cinema pelo diretor Arthur Fontes.

Notas:
¹ Todas as citações à trilogia serão feitas a partir de Ésquilo – Oresteia (tradução e estudos introdutórios de Manuel de Oliveira Pulquério), Edições 70, Lisboa, Portugal, 1998. 

² Brandão, Junito – Dicionário Mítico-Etimológico, volume 1, Vozes, Petrópolis, 1993, pg. 145.