Albert Camus e a verdadeira peste

por Gilberto Morbach

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I.

Já perdemos as contas do número de textos, comentários, colunas, ensaios escritos sobre La Peste, de Albert Camus. Isso não é desculpa para que se deixe de falar sobre a obra quando ainda há tanto a ser dito.

No mesmo sentido, já perdemos a conta do número de mortos no país desde o início da pandemia da covid-19; perdemos as contas dos dias sem um Ministro da Saúde, perdemos as contas de todas as vezes em que o Presidente da República insiste em exaurir todos os limites da decência. Também não é motivo para que não falemos sobre isso. Ao contrário: como dizia George Steiner, parafraseando Emily Dickinson, temos a obrigação de manter nossos espíritos terrivelmente surpresos. Consentir o absurdo é a mais radical derrota humana.

É por isso que ainda há o que ser dito sobre a peste de que falava Albert Camus. É claro que há todo tipo de paralelo possível entre o texto de 1947 e a pandemia que enfrentamos hoje; afinal, crises como esta são capazes de expor aquilo que temos de melhor e tudo aquilo que temos de pior. Também a pandemia da covid-19 é um chamado à decência, ao heroísmo das pessoas comuns que ouvem a voz da consciência e, contra as circunstâncias, recusam a mentira e a covardia. A pandemia, como a peste, coloca-nos diante do espelho e diante da morte.

Mesmo assim, é possível que muito mais seja perdido quando se perde de vista o contexto. Camus, desnecessário dizer, não falava sobre um coronavírus de síndrome respiratória aguda grave. A alegoria do artista franco-argelino — ao menos esta é a leitura dominante entre os críticos — tinha como ponto de partida a resistência na Paris ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O ponto é que também podemos perder algo quando depositamos tudo no contexto. Camus sabia disso melhor do que ninguém: La Peste, que mostra que as circunstâncias não são tudo, não é sobre a Paris ocupada.

La Peste é sobre muitas coisas e diz muitas coisas (a quem se dispõe a ouvi-las, naturalmente). Ao mesmo tempo, não é sobre qualquer coisa; há limites na interpretação, de modo que apropriações infinitas e arbitrárias, negando um sentido último ao texto, abrem mão de qualquer possibilidade de sentido.

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Albert Camus

II.

Neste Estado da Arte, ontem, Eduardo Wolf escreveu sobre o fascista familiar e nossos 30 mil mortos. Wolf lembra da colaboração daqueles que, bem, é verdade, não vestem camisas pardas ou marcham de armas em punho, mas estão dispostos a relativizar todo tipo de horror, adotando os slogans daqueles que degradam a linguagem e, com isso, os princípios mínimos da civilização. Como bem apontado por Wolf, é um tipo familiar, discreto de colaboração. Como as águas em represas — e como a canção russa, diz o Jivago de Pasternak —, porém, flui continuamente nas profundezas. “A calma de sua superfície é ilusória”.

Em grande medida, é sobre isso que trata La Peste. Não uma crise sanitária, nem uma simples alegoria de adesão fácil a categorias rígidas de bem e mal, colaboração direta e resistência armada, paz e guerra; o romance de Albert Camus é sobre nossa responsabilidade moral individual diante do absurdo — seja ele qual for. Seja o silêncio do mundo diante de nossa busca por sentido, seja uma ocupação nazista, seja um novo tipo de coronavírus; seja um recorde de mil trezentos e quarenta e nove mortes registradas em um único dia quando, no lugar do silêncio imposto pela tragédia absoluta, as palavras que ainda ecoam são “e daí?”, na voz de Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República.

Os personagens d’A Peste são pessoas que enxergamos todos os dias, até em nós mesmos. O prefeito da cidade, que demora a reconhecer que a peste é de verdade. Cottard, o sujeito que aceitou o absurdo em seus termos, de quem tudo que se podia esperar é que não espalhasse a peste conscientemente.

Grand, homem pobre, simplório, sem sofisticação e até sem dentes, funcionário invisível, apresentado como o único tipo de herói possível: aquele que sabe que combater a peste não é uma questão de heroísmo, mas de decência. Por que Grand, aquele sujeito pouco articulado e solitário, de quem ninguém esperava nada, participa do combate à doença? Para ele, incrível seria não fazê-lo. A verdadeira loucura é resignar-se à peste quando se está vendo todo sofrimento que ela pode causar.

Rambert, o jornalista parisiense que acaba trancado no lockdown em Oran, demora a aceitar que aquele problema era também seu problema. Preocupado em fugir da cidade, em reencontrar a esposa em Paris, em resolver os próprios problemas e reconciliar-se com os próprios pensamentos, Rambert demora a perceber que também ele agora pertencia à desgraça, única pátria comum que nos foi permitida. Por fim, acaba aderindo aos grupos sanitários voluntários de combate à peste, liderados pelo Dr. Bernard Rieux.

Rieux, o médico taciturno, é aquele que contra os riscos, contra a descrença própria, enxerga o cenário tal como ele é e decide fazer aquilo que lhe cabe. Cansado do mundo à sua volta, o Dr. Rieux tinha como única certeza possível a rejeição à injustiça, à morte dos homens, ao inaceitável. (Ainda que não adiante nada. É no para nada que está a própria possibilidade de recusa ao absurdo em termos honestos.)

Muito se disse que Rieux seria um alter ego de Camus. Tenho dúvidas, e é aqui que entra Jean Tarrou — um dos mais complexos e fascinantes personagens de La Peste. Pouco se sabe sobre o passado do viajante que, afinal, é quem tem a ideia de organizar os grupos voluntários de combate à peste. O que se sabe é que ele não acredita em Deus, não acredita nas autoridades locais, mas acredita em imperativos morais e, como Rieux, sabe que algo deve ser feito.

Uma das grandes mensagens de La Peste — como bem aponta Tony Judt, em magistral ensaio à New York Review of Books — é expressada por Tarrou: “Eu pensava estar lutando contra a peste. Descobri que havia, indiretamente, apoiado a morte de milhares de homens, que tinha até mesmo causado suas mortes, ao aprovar as ações e princípios que inevitavelmente levaram a elas.”

Essa é a mensagem de La Peste. Não uma lição sobre a covid-19, sobre o fascismo, sobre o dilema entre colaboração ou resistência, sobre a morte; mas um pouco sobre tudo isso também.

Capa do Combat, jornal clandestino da Resistência que tinha Camus como editor-chefe

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III.

Porque a verdadeira peste não é a morte, mas dizer que ela é o destino de todo mundo; a peste é aceitar como normal que a autoridade máxima de um país em meio a uma pandemia responda com um “e daí?” quando perguntado sobre os cidadãos mortos por uma doença que ele tem fracassado em combater.

La Peste não é sobre uma bactéria trazida por ratos nem sobre heróis que resistem à ocupação e covardes que colaboram com os nazistas: é sobre nossa responsabilidade moral diante do absurdo.

É por isso que escrevo aqui uma das coisas que menos têm originalidade nos últimos dias: mais um ensaio sobre La Peste, mais um texto sobre aquele que ocupa a Presidência da República e seu descaso com a morte de milhares de brasileiros Mas é exatamente disso que se trata: o silêncio, afinal, significa a aprovação das ações e princípios que inevitavelmente levaram a elas.

Nada do que está acontecendo é normal. Não há nada de “natural” no que estamos vivendo. Acostumamo-nos com tantos absurdos diários que, bem, é só mais um. São os 32.548 mortos, é o “e daí?”, é “o destino de todo mundo”, são os 32.548 mortos, são as piadas com tortura — atenção para o plural —, é o caos como estratégia política, é a milícia digital sustentada com dinheiro público, são os 32.548 mortos, é a ameaça de descumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal, são os 32.548 mortos, é o deboche como política de Estado.

É por isso que ainda há o que dizer sobre Camus e a peste. Porque Camus, bem dizia Czesław Miłosz, “não debochava”.

Somos todos responsáveis. São trinta e dois mil e quinhentos e quarenta e oito mortos. Isso deve ser repetido, isso deve ser lembrado todos os dias, isso deve ser trazido sempre para lembrar que somos responsáveis. Para lembrar que não é o destino de todo mundo, e que a verdadeira peste é aceitar que se pergunte e daí?

Não é normal. Nada disso é normal. A verdadeira peste é nossa complacência, nossa covardia em chamar as coisas pelos nomes que elas têm, em aceitar o que não pode ser aceito e justificar o injustificável. A verdadeira peste é nossa aquiescência.

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Cemitério Parque Taruma, em Manaus (Michael Dantas/AFP)

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Gilberto Morbach

Gilberto Morbach é editor do Estado da Arte. Mestre em Direito, summa cum laude, pela (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), é doutorando pela mesma instituição como bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).