O spleen de Paris, de Charles Baudelaire

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Na parceria do Estado da Arte com a Editora 34, trazemos hoje uma apresentação dos pequenos poemas em prosa de Baudelaire, reunidos em O spleen de Paris. O leitor fica com a leitura de Edgardo Cozarinsky acerca da obra e com “Perda de auréola”, um dos fragmentos baudelairianos que pertencem ao volume.

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(Reprodução: Editora 34)

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O poeta de As flores do Mal dedicou os dez anos finais da vida a buscar uma “prosa poética, musical, mesmo sem ritmo nem rima”, adaptada “aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência”.

Baudelaire chamou O spleen de Paris a seus “pequenos poemas em prosa”, publicados postumamente. Muito embora ele mesmo apontasse para a genealogia do gênero (Aloysius Bertrand, Gaspard de la Nuit), são exclusivamente de Baudelaire, por um lado, o olhar altivo, alheio a uma sociedade desprezada, e, por outro, o afã de explorar a sordidez ubíqua e os esplendores duvidosos dessa mesma sociedade, dessa “capital do século XIX” (Walter Benjamin) que vai tomando forma diante de seus olhos.

É em sua condição de “pintor da vida moderna” que Baudelaire elege uma forma fragmentária para seu livro (uma trama de anedotas, reflexões, até mesmo de fugazes epifanias) e define seu olhar. Cabe a ele inaugurar a figura do flâneur, atraído pelos “monstros inocentes”, pela “bizarria” que “se encontra numa cidade grande, quando se sabe passear e olhar”.

Esse fétido formigueiro é promessa de mistérios. Poe (“a pluma mais poderosa desta época”), que Baudelaire traduziu, lança seu “homem das multidões” atrás de uma fisionomia mal e mal entrevista, que o fascina em meio aos transeuntes; no meio de um bulevar, o poeta de O spleen de Paris sente o roçar de um desconhecido, que reconhece de imediato, muito embora nunca o tenha visto…

Um desprezo aristocrático por toda ilusão de progresso (pelo “dicionário republicano”, pelos “empreendedores da felicidade geral”) alimenta seu fascínio pela miséria que não há como erradicar. Nos caminhos obscuros dos jardins públicos, ele descobre o refúgio dos “estropiados da vida” que evitam o olhar insolente do ocioso feliz. Ali, diz ele, o poeta e o filósofo podem se entregar a suas “ávidas conjecturas”.

O spleen de Paris é também uma galeria de criaturas em que palpita uma matéria romanesca, quase sempre em estado de esboço, volta e meia já como personagens delineados: a mãe do menino que pede, como recordação, o prego e um pedaço da corda que serviram à morte de seu filho; numa feira de atrações, um homem que exibe numa jaula de ferro a própria mulher, disfarçada de orangotango, arranca-lhe dos dentes um animal vivo e a castiga com “uma boa pancada”; chegada a noite e finda a brincadeira, uns meninos que se separam para, sem sabê-lo, “amadurecer seu destino, escandalizar os seus e gravitar rumo à glória ou à desonra”.

“Eu te amo, capital infame.” De um promontório imaginário, Baudelaire examina a variedade que a cidade oferece a seu apetite: prostitutas, ladrões, hospitais, lupanares, o movimento incessante de quem ainda não perdeu a força de querer, o desejo de viajar, a vontade de enriquecer. Sente que esse “encanto infernal” tem o dom de rejuvenescê-lo. O poeta só conhece um inimigo perigoso: o tédio. Seus esforços para evadi-lo ou derrotá-lo bastariam para fazê-lo merecer, “da parte de um historiador severo, o epíteto de monstro”.

A obra de Baudelaire é, como bem disse Roberto Calasso, uma “encruzilhada incontornável para o que surgiu desde então sob o nome de literatura”.

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Edgardo Cozarinsky

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Baudelaire, por Gustave Courbet

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XLVI. Perda de auréola

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— Mas como? Você por aqui, meu caro? Você, num lugar de má fama! Você, sorvedor de quintessência, você, um degustador de ambrosia! Vamos e venhamos, é de surpreender!

— Meu caro, você sabe do meu terror aos cavalos e às carruagens. Ainda há pouco, quando vinha atravessando o bulevar com a maior pressa, saltitando sobre a lama, através daquele caos movente em que a morte chega a galope, de todos os lados, a um só tempo, minha auréola, por conta de um movimento brusco, deslizou da minha cabeça e caiu no lodo do macadame. Não tive coragem de pegá-la de volta. Achei menos desagradável perder minhas insígnias do que ter os ossos rebentados. E, depois, eu me dizia, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, cometer atos vis e me entregar à devassidão, como os simples mortais. E cá estou, perfeitamente semelhante a você, como vê!

— Você poderia ao menos pôr anúncios ou prestar queixa ao delegado.

— Ó, céus, não! Estou bem por aqui. Só você me reconheceu. De resto, a dignidade me entedia. E gosto de pensar que um mau poeta qualquer há de recolhê-la e envergá-la sem pudor. Fazer o bem ao próximo, que prazer! Ainda mais a um bem-aventurado que me fará rir! Pense em X ou em Z! Que tal? Como será divertido!

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Baudelaire em 1855

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O spleen de Paris

Pequenos poemas em prosa

Charles Baudelaire

Tradução de Samuel Titan Jr.

Projeto gráfico de Raul Loureiro

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Coleção Fábula | 128 p. | 15 x 22,5 cm | 206 g | ISBN 978-65-5525-040-4 | R$ 46,00

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