Cartas da Malásia: A Viagem a Balbec

por Ary Quintella

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(Foto: Ary Quintella)

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E assim, em setembro, nadei no Mar do Sul da China. Vi, senti, bebi sem querer um pouco da água do mar mais celebrado na atualidade, um dos cenários da rivalidade entre China e Estados Unidos, objeto de desavenças entre a China e alguns de seus vizinhos no Sudeste asiático.

Ir à costa leste da Malásia era algo que eu planejara fazer com minha mulher e minha filha. O prolongado fechamento das fronteiras, tornando impossível que eu veja as duas, e a próxima chegada, em outubro, das monções na parte oriental do país, com o consequente fechamento de vários hotéis, fez com que eu me inclinasse a viajar. Ao ler declaração do governo de que a fronteira com Singapura, onde trabalha minha mulher, provavelmente não reabrirá antes de janeiro, decidi-me. Não sem antes mencionar a uma amiga portuguesa em Kuala Lumpur, Patrícia, estar reticente em passar dias sem minha família em uma praia, por temor ao tédio. Respondeu-me ela: “Nesses resorts asiáticos, não se sente o tempo passar. O Ary verá. Quando perceber, já está na hora de voltar”. Convencido, tirei uns dias de férias e fui ao estado de Terengganu.

Já no dia da minha chegada ao hotel na costa leste, depois de quatro horas no carro, vi programada uma excursão em bicicleta, com guia. Almocei, admirei o famoso mar — em tom azul-prateado, no mormaço daquele dia — nadei, li na areia e às cinco horas estava pronto na recepção. Além de mim, havia no passeio apenas uma família de quatro pessoas, malásios de origem chinesa.

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(Foto: Ary Quintella)

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Depois de pedalar por uns poucos minutos pela estrada, tomamos um caminho secundário, estreito, costeando o oceano. Entre nós e a água havia uma cortina natural, formada por casuarinas. Tive a sensação de uma liberdade plena. Preocupações pessoais e de trabalho desapareceram.

Depois de uma meia-hora de bicicleta, paramos para ver o plácido rio Dungun se espraiando oceano adentro, quase que sem movimento algum. Uns quinze minutos mais, por campos e bosques, levaram-nos à aldeia, bastante esparramada, de Seberang Pintasan. Paramos em um café popular onde, na varanda, sentamo-nos os seis em volta de uma mesa para comer um roti chenai, o pão achatado e folhado acompanhado de curry de frango ou de peixe e, às vezes, como era o caso em Seberang Pintasan, de dal.

Nosso guia, Hafiez, dissera ser esse o melhor roti chenai da região, mas dois dias depois, no café da manhã no hotel, comi um ainda melhor. No café de Seberang Pintasan, o curry era de peixe, uma novidade para mim. A originalidade maior era estarmos os seis conversando no entardecer, em uma aldeia de pescadores em Terengganu, testemunhando a preparação de nossos pratos de roti chenai ali mesmo, na varanda, em um fogão meio improvisado, e vendo passar vacas pela ruazinha.

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(Foto: Ary Quintella)

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Hafiez comentou que, uma época, morou na ilha de Tenggol, visível, ao longe, da praia do hotel. Um dia, mergulhando, sentiu sobre si uma sombra. Pensando ser um barco, levantou os olhos e percebeu que se tratava na verdade de um tubarão-baleia, de uns sete ou oito metros. Essa é uma das atrações maiores de Tenggol, pois o tubarão-baleia, que se alimenta de plâncton e é na maioria das vezes inofensivo ao ser humano, parece gostar da companhia dos mergulhadores.

Fiquei me perguntando se eu gostaria de um dia confraternizar com um tubarão, mesmo vegetariano, e concluí que não. Mais tarde, no hotel, eu leria Lady in Waiting, autobiografia de Anne Glenconner, cujo subtítulo, comercialmente hábil, é: My Extraordinary Life in the Shadow of the Crown. O marido da autora, Colin Tennant, Lord Glenconner, celebrado em vida como excêntrico, mas revelado no livro de sua mulher como desequilibrado e perverso, um dia comprou a ilha caribenha de Mustique, desenvolvendo-a como lugar de diversão para milionários e, notoriamente, para a princesa Margaret. O casal é, por essa razão, personagem da terceira temporada de The Crown. Poucas horas depois de ter ouvido Hafiez falar com nostalgia de seu encontro com o tubarão-baleia em Tenggol, li sobre a visita da rainha Elizabeth II e do príncipe Philip a Mustique, em 1977: “the Duke of Edinburgh really enjoyed snorkelling among the sharks”.

No café popular em Seberang Pintasan, a família malásia de origem chinesa explicou-me que a classe média do país prefere passar férias no exterior, e que o já longo fechamento das fronteiras a obriga agora a fazer turismo interno. Dos cem quartos do hotel, disse Hafiez, setenta estavam tomados. No entanto, mesmo nos momentos mais ensolarados, nunca, além de mim, houve mais do que no máximo cinco ou seis pessoas na praia inteira. Já no primeiro dia, logo antes da excursão em bicicleta, eu mandara à minha filha uma foto da praia deserta, com a legenda: “O mundo acabou. Sobrei eu”.

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(Foto: Ary Quintella)

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Não havia tédio em ficar olhando aquele mar mítico, hoje simbólico das tensões da nossa era. Passava os dias vendo mudar a sua cor em função da luz — prata, azul ou verde, cada uma em diferentes tons. Em um final de tarde, além de mim houve por alguns minutos apenas um grupo de quatro ou cinco moças de origem chinesa, todas vestidas de branco, rindo e tirando fotos na areia. Pensei no narrador de Proust, no fim da adolescência, vendo pela primeira vez, na praia de Balbec, o grupo de cinco ou seis moças, entre as quais está Albertine. Talvez o poder maior de um grande artista seja a capacidade de fazer dos lugares mais improváveis evocações de sua obra.

As três noites em Terengganu acabaram virando quatro, porque eu estava tão feliz que prolonguei minha estada. Mesmo depois, pensei em adicionar ainda uma quinta, mas um comentário sutil de minha filha fez eu me sentir culpado em relação a Kiki, a gata persa dourada, que esperava em Kuala Lumpur o meu retorno.

No dia da partida, visitei, em uma ponta da praia, as três cabanas onde se desenvolve projeto de preservação de ninhos de tartarugas, de duas espécies diferentes. Em uma delas, dedicada à tartaruga-verde, os voluntários descobriram, escavando um dos ninhos dentro da areia, que muitos dos 140 ovos, do tamanho de uma bola de ping-pong, depositados por uma única mãe — “ela terá levado apenas uns quinze, vinte minutos para depositar esses 140 ovos”, disse-me o coordenador local do projeto — já haviam produzido filhotes. Eram encantadores. Foram recolocados dentro da areia, pois sua partida para o mar se daria apenas um ou dois dias depois. Subscrevi-me para financiar, por dois meses, um dos ninhos, a que atribuí o nome de minha filha.

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(Foto: Ary Quintella)

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Ver as tartaruguinhas recém-nascidas balançar as patas no ar, acotovelar-se no ninho, descobrir o mundo, inocentes, parecia a forma melhor, mais bonita, de me despedir de Terengganu. Sabia já então que eu guardaria em mim a imagem do passeio de bicicleta, ao longo do oceano e das casuarinas, longe de qualquer ponto de referência até então conhecido.

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(Foto: Ary Quintella)

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Antes de almoçar, arrumar a mala e partir, não resisti a mergulhar, uma vez mais, no Mar do Sul da China.

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Ary Quintella publica seus ensaios e crônicas na página aryquintella.com.

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Ary Quintella

Ary Quintella, diplomata de carreira, é atualmente Embaixador na Malásia. Publica seus ensaios e crônicas na página aryquintella.com.