Crença e autoridade: como nasce um seguidor?

por Celina Alcântara Brod

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“As mentes dos homens são como espelhos uma das outras.”

David Hume

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David Hume por Allan Ramsay, 1766

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A pergunta lançada no título deste ensaio talvez provoque uma reação diferente do que provocaria tempos atrás. Afinal de contas, todos somos, em alguma medida, seguidores. Se antes o ato de seguir alguém estava restrito a uma questão geográfica, isso não é mais verdade desde que as redes eliminaram tais fronteiras. Ao adentrar a vida algorítmica, seguimos opiniões, ideias, estilos de vida, críticas e seguimos, infelizmente, mentiras.

Até os faladores de merda — desculpem o termo grosseiro, sigo a tradução da pequena obra Sobre Falar Merda de Harry Frankfurt — têm milhões de seguidores. Embora estas figuras sempre tenham existido, encontraram nas redes terra fértil para que suas besteiras germinassem. Segundo o filósofo, “falar merda é um inimigo muito pior da verdade do que mentir”. O mentiroso esconde a verdade, ou seja, está comprometido com a realidade dos fatos. Já o falador de merda não está nem aí, é um desleixado, preocupado apenas com a opinião que terão dele, fala com “indiferença em relação ao modo como as coisas realmente são”. Os mentirosos, ao menos, precisam ser analíticos para que os outros acreditem em algo que eles reconhecem como falso. O problema é que os faladores de merda – cuja opinião é fiel apenas a sua natureza escrachada — hoje são grandes influenciadores.

Mas, influenciar e ser influenciado está capilarizado nos relacionamentos, desde os mais próximos até os mais distantes. A influência e o ato de seguir ordens habita todas as relações cuja dinâmica conta com uma autoridade: alguém que ocupa uma posição de responsabilidade ou que consideramos estar em posse de um saber especializado. Portanto, a capacidade de influenciar está intimamente ligada ao status de autoridade que alguém possui em uma relação. Um professor influencia o seu aluno; um político influência seus eleitores; um treinador influência o seu time; o médico influência seu paciente; pais influenciam seus filhos, resumindo, influenciamos uns aos outros.

Contaminamo-nos com opiniões, ideias e emoções. Agora, como saber se uma influência inspira o melhor ou o pior das pessoas? Por mais perigosa que a habilidade social de influenciar os outros possa ser, não podemos descartar seus benefícios. Se hoje a igualdade de direitos é uma realidade, isso se deve ao fato de pessoas terem sido influenciadas por figuras como Martin Luther King, por exemplo. Suas palavras fortes, exigindo que a nação se erguesse “das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade”, conquistaram seguidores e mudaram positivamente o status quo. Este único exemplo basta para corrermos os riscos de sermos influenciados.

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The March on Washington for Jobs and Freedom, 1963 (Wikimedia Commons)

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Assim como a retórica ativista e pacifista pode influenciar mudanças positivas, uma retórica baixa e hostil é capaz de estimular a intolerância e gerar seguidores dispostos a dar carta branca para o autoritarismo. Logo, dedicar-se a compreensão da diferença entre autoridade e autoritarismo é crucial se quisermos identificar a má influência e o nascimento de seguidores fanáticos. Pois, se autoritarismo vinga é porque há pessoas dispostas a seguir ordens; dispostas a agir como extremos seguidores.

Agora, o que separa um seguidor autônomo de um seguidor autômato? Feito uma sombra, os seguidores autômatos seguem, com total identificação, a pessoa, grupo ou sistema de crença que terceirizam como autoridade. Mas, como esse seguidor nasce? Essa não é uma pergunta fácil, ela acompanha a pergunta de Amós Oz: como curar um fanático? Enquanto uma busca entender a origem do fenômeno, a outra quer desvendar o seu fim; é difícil dizer qual das duas é a mais desafiadora.

Será que seguidores nascem da busca por uma autoridade que lhe forneça vínculos, uma identidade segura em um mundo cada vez mais fragmentado? É verdade que a tradição e a cultura não mais oferecem causas eternas ou uma estrutura sólida de autoridade. A “liquefação das estruturas e instituições sociais” – uma característica marcante daquilo que Zygmunt Baumam chamou de mundo líquido — enfraqueceu as velhas âncoras sociais, possivelmente abrindo espaço para a submersão em grupos. “O anseio por identidade vem do desejo de segurança”, escreve Bauman. É possível que a instabilidade impulsione a busca pelo sentimento caloroso do “nós”, por uma comunidade, mesmo que ela seja eletronicamente mediada.

Segundo o sociólogo Frank Furedi, em sua obra Authority: a sociological History, com a erosão de um sentindo positivo e compartilhado para o conceito de autoridade, hoje vivemos uma crise da autoridade. Mesmo as teorias contratualistas — tentativas de encontrar a fundação da normatividade após a queda do absolutismo e a noção de um Deus governante — não foram capazes de dar conta de um sentido para a autoridade, pois, no fim, eram apenas racionalizações post hoc para a obediência. Algo que o filósofo David Hume antecipou, um dos poucos iluministas a ir contra a tendência da sua época: forjar teorias abstratas de contrato e consentimento. Hume preferiu explicar, usando a História e raciocínios experimentais, como nós havíamos elaborado nossas obrigações morais e políticas.

Para Hume, a obediência à autoridade era mais um produto internalizado pelo hábito do que uma conclusão da razão. Disso advém sua suspeita com as mudanças políticas rápidas e violentas. Segundo suas conclusões naturalistas, mudanças violentas, baseadas em pura abstração, não possuiriam o vínculo motivacional para que a obrigação moral diante do Governo ocorresse facilmente. Esse vácuo motivacional afetaria a estabilidade das sociedades e o entendimento comum dos homens ante a pergunta: por que devo obedecer?

Um sentido para autoridade tem sido disputado ao longo da História, suas variações passaram pela religião, tradição, vontade popular, consentimento, ciência etc. As reflexões de Furedi também elucidam certas tendências atuais, como o fato de a ciência ser cada vez mais usada como fonte de normatividade. Sua hipótese esclareceria o porquê de especialistas serem cada vez mais acionados como autoridades para dizer como deveríamos agir, não apenas para dizer-nos em quais fatos devemos acreditar. Para Furedi, isso seria um sintoma da desorientação atual em relação ao sentido de autoridade. Porém, a ciência é incapaz de produzir valores finais e caímos em um erro ainda maior tratando cientistas como fonte de autoridade moral, além de minarmos a própria confiança no método científico. Já imaginaram como seria seguidores autômatos indo até as últimas consequências em nome de previsões científicas? Agora, será que a crise da autoridade é responsável pelo nascimento de seguidores?

A pergunta sobre a natureza de um seguidor é mais difícil do que as perguntas a respeito da natureza de tiranos ou líderes autoritários, pois o líder é um que se sobressai entre muitos. São pessoas que conseguem, mediante situações ambientais instáveis, capitalizar poder com as emoções e fantasias mais escuras de potenciais seguidores. O historiador Frank Dikotter em sua obra, How to be a dictator, The cult of Personality in the Twentieth Century, conta as peculiaridades dos ditadores que instigaram a adulação de suas personalidades. Todos eles incorporaram a seguinte máxima: governar pela violência e o medo pode ser eficiente, mas comandar através do culto à personalidade é mais eficaz e duradouro a longo prazo.

Os ditadores personalizavam o poder fazendo das suas palavras a nova lei. Hitler usava gestos enervantes, dando voz impetuosa para a esperança e o ódio dos alemães frustrados. Mussolini atuava como se fosse um homem do povo, falando através de frases simples e confiando mais em sua intuição do que em ideologias consistentes. Stalin era mais discreto, paciente e calculista, cuidando de cada detalhe que vinculava sua imagem a glória da revolução. Mao foi o teórico e o executor do seu próprio regime, tinha um sorriso benevolente e caminhar lento. Apesar das diferenças, todos eles recrutaram milhões de seguidores.

As características que alavancam o culto à personalidade tendem a se repetir: carisma, personalismo, vinculação do rosto do líder com mudanças messiânicas, uso de intelectuais para justificar o sistema de crença, controle da informação e direcionamento da ira social a grupos específicos. Porém, as variáveis aumentam quando olhamos para os seguidores, são histórias de vida e personalidades distintas, que se assemelham somente no culto à uma crença compartilhada. Portanto, é possível dizer que seguidores nascem junto com o nascimento de determinadas crenças, porque é a crença em realidades que extrapolam o cotidiano, que dividem indivíduos e prometem transcender as incertezas que cativam seguidores.

É um erro achar que apenas as sociedades de massa sofreram do mal do seguidor autômato. A gestação de seguidores é anterior a isso. Aqui concordo com Amos Óz, quando ele afirma que o fanatismo é anterior a ideologias, Estado ou qualquer governo, “é uma parte onipresente da natureza humana; um gene mau”. As sociedades modernas somente produziram em grande escala uma patologia social; uma patologia que começa com a crença em um causa ameaçadora e o seu efeito devastador no mundo, provocando o contágio de certas emoções.

E crer em absurdos é mais fácil do que se imagina: o filósofo David Hume nos ajuda a entender tal fenômeno. Segundo ele, nossa imaginação pode conceber qualquer coisa que não implique em uma contradição. Os fatos que escutamos sobre o mundo podem ser altamente improváveis, mas nunca são contraditórios. Ademais, apenas parte das nossas crenças está firmada sobre aquilo que observamos na experiência, a outra está firmada sobre o testemunho alheio. A credulidade, isto é, a confiança fácil no testemunho é natural e universal em nossa espécie.

Para Hume, o assentimento que dou a alguma ideia em detrimento de outra está ligado a maneira como a concebo. Uma crença é uma ideia vívida e forte, relacionada à alguma impressão; impressões são todas as coisas que sinto, vejo, desejo, anseio e ouço. As impressões penetram na mente com maior força do que as ideias, a diferença entre elas e as ideias é basicamente a diferença entre sentir e pensar. Porém, mesmo que estas percepções sejam distintas, uma tem efeito sobre a outra, ou seja, sentir me leva a pensar e pensar me leva a sentir. A verdade é que, embora a experiência seja o critério dos nossos juízos, nem sempre nos guiamos por ela.

Muitas vezes os relatos podem emular a força de impressões quando são coloridos pela eloquência, organizados através dos mesmos princípios de associação (semelhança, contiguidade e causalidade) que usamos em nossos raciocínios gerais. Segundo Hume, “ninguém precisa ter receio de não encontrar seguidores para suas hipóteses, por mais extravagantes que elas sejam se for hábil o bastante para pintá-las em cores atraentes.” Assim, podemos relacionar as palavras de um discurso com ideias existentes em nossas mentes, reavivando-as e produzindo o sentimento de crença.

Portanto, usando as ideias de Hume, podemos supor que: se tanto a causa (grupo ameaçador, situação ameaçadora) e o efeito (a perda material, biológica ou social, instabilidade) são repetidamente apontados e identificados, os raciocínios resultantes poderão se impor sobre a realidade. As eloquentes e inflamadas palavras de um líder avivam “pelo espanto e animam a ideia a tal ponto que acaba por torná-la semelhança às inferências que extraímos da experiência”, escreve Hume. A paixão violenta que tais pensamentos instigam — sem falar no contágio e espelhamento das emoções – faz com que a mente os conceba com alto grau de vividez, tornando tal realidade mais presente. Logo, certas crenças — mesmo que jamais consigam ficar em pé de igualdade com a realidade dos fatos — podem instigar mudanças na leitura do mundo, afetando cognição e emoção.

Afetar o suficiente para fazer alguém acreditar que duas pessoas carregam um conhecimento extraterrestre capaz de nos salvar da destruição e elevar alguns seletos humanos a um próximo nível físico de existência? Sim. Era exatamente nessa crença que centenas de pessoas acreditavam quando se transformaram em seguidores de Ti e Do, cujos nomes verdadeiros eram Marshall Applewhite e Bonnie Nettles, um casal carismático que liderou o grupo Heaven’s Gate. Foi em nome de uma nova vida, que os seguidores obedeceram às ordens de seus líderes. Um comprometimento que culminou na retirada de suas próprias vidas, com uma mistura letal de vodka e Fenobarbital.

Em março de 1997, em um rancho em San Diego, na California, 39 corpos foram encontrados em beliches; todos vestiam macacões pretos, tênis Nike e tinham uma pequena mala ao lado da cama. Eles não fizeram mal a outras pessoas ou grupo, mas fizeram mal a si mesmos, acreditando que seriam então levados ao “Próximo Nível” por uma nave espacial. Os membros de Heaven’s Gate foram convencidos de que o próprio apego ao corpo era um obstáculo para a transformação.

Para a socióloga e pesquisadora Janja Lalich, que estudou de perto a estrutura social cúltica de Heaven’s Gate e outros grupos, a relação carismática entre líderes e seguidores é central à dinâmica do culto, é a autoridade pela qual o líder comanda. O que mantém o seguidor ligado a tal dinâmica é o sentimento de ser especial, sentimento que fornece uma sensação de pertencimento e propósito, legitimando o líder para agir sem ser contestado. Um líder inibidor fundamenta sua autoridade na crença de que possuí algum saber secreto, superior e transformador. Seguidores acreditam na sinceridade da sua motivação e passam a deliberar de forma estreita e limitada; assunto que tratei no ensaio A razão instrumental e as paixões violentas de um líder.

Seguidores nascem em processos de conversão, passam a acreditar e confiar em alguma autoridade que ofereça uma crença que solucione uma determinada ameaça.  Quando um seguidor atinge o nível máximo de transformação pode tornar-se um agente mobilizador, disposto a qualquer coisa para impor ou manter a sobrevivência da sua crença. Muitos acreditavam que os conflitos humanos eram problemas que poderiam ser resolvidos através de transformações sociais. A ingenuidade da ideia de que o mal pode ser completamente extirpado através da transformação social é, paradoxalmente, aquilo que possibilita o nascimento de seguidores ávidos por mudança, tão ávidos a ponto de rejeitar a humanidade dos outros ou a sua própria. Continuaremos errando ao olharmos para o fenômeno do culto como um registro exclusivo de uma época, ao invés de olharmos como uma manifestação dinâmica latente de influência interpessoal, que atrofia gradualmente a autonomia

Há seguidores de todos os tipos, em diferentes níveis de conversão, assim como há diversas estruturas sociais que produzem relações de culto. Porém, é na política que tais relações causam os maiores danos, pois é na política que as mudanças sociais acontecem e onde encontramos a expressão máxima de autoridade. O Estado detém a última instância de justiça, apoderar-se do Estado e impor um sistema de crença é o mais alto grau de conquista e influência que uma relação de culto pode atingir. A conversão ocorre gradualmente, principalmente através da retórica de líderes, que ao invés de inspirar polidez e sociabilidade, inspiram animosidade e o estreitamento da moral. Mas autoridade que ameaça e personaliza o poder em si não é autoridade — é só autoritarismo, uma forma real e radical de manipulação, o lugar onde nascem todos os seguidores autômatos.

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Hume, 1754

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).