Fazendo cidades com casas geminadas

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Fazendo cidades com casas geminadas 

A nova maneira de ver a história do urbanismo de Charles Duff

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Ludlow, Shropshire, UK (Reprodução)

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por Flávio Kiefer e Kathrin Rosenfield

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Poucas pessoas no Brasil se perguntam de onde veio o estilo das casas geminadas ou seriadas que vemos aqui ou ali em nossas cidades, muitas vezes se estendendo ao longo de quadras inteiras — alguns conjuntos mais privilegiados com pequenos jardins ao fundo. Associamos, vagamente, esse tipo de construção como algo que veio dos Estados Unidos ou da Inglaterra, sem saber de sua longa história, de suas razões de ser e de sua proveniência inicial. Um livro recente, porém, abre nossos olhos para a extraordinária intuição de alguns arquitetos e urbanistas do século de ouro holandês (séc. XVII). Eles mudaram a concepção caótica das construções medievais e começaram a planejar suas cidades em novas bases, com funcionalidade e beleza. The North Atlantic Cities, do urbanista Charles B. Duff, revela essa fantástica história de inovação das cidades, tornando-se uma verdadeira dádiva para todos os interessados em pensar, aprender e refletir sobre a urbe.

Duff, além de professor e historiador de arquitetura, é presidente da ONG Jubilee Baltimore, nos Estados Unidos, especializada na recuperação de bairros históricos e no planejamento urbano que integra o patrimônio histórico nas construções de uma metrópole moderna. Ao longo de sua carreira, junto a sua equipe, elaborou mais de 300 projetos, muitos deles ligados ao seu especial apreço pelas casas geminadas ou “em fita” — ele mesmo habita uma. Sua insaciável curiosidade o levou a escrever esse livro, que é um verdadeiro marco para a tomada de consciência da identidade arquitetônica de muitas cidades e bairros que mal sabem onde estão as raízes de seus modos de construir e morar. O resultado dessa pesquisa pioneira sobre as Cidades do Atlântico Norte (em uma tradução literal do título) foi publicado pela editora inglesa Bluecoat em 2019, mas infelizmente ainda não traduzido para o português. É um belo volume de 280 páginas, ricamente ilustrado com fotografias das 20 cidades que o autor percorreu e fotografou para consolidar suas teses.

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(Reprodução)

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Washington (Reprodução)

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O volume pode ser dividido, a nosso ver, em três tópicos principais. O primeiro se debruça sobre o contexto que engendrou a primeira república europeia: a Holanda e seus valores culturais, sociais e econômicos, relacionando-os com as condições que levaram a eclosão de uma revolução urbana peculiar e a uma transformação sem precedente da convivência urbana durante o chamado século de ouro holandês. As construções amontoadas e confusas das aglomerações medievais se transformaram, de repente, em cidades perfeitamente organizadas, alinhando ao longo dos canais de drenagem retificados, franjas razoavelmente uniformes e harmoniosas de casas geminadas. Nascia ali um modelo que passou a ser imitado em diversos outros lugares — do norte da Alemanha à Inglaterra, Irlanda e até nos Estados Unidos —, uma série de países e cidades nas margens do Atlântico Norte nas quais o autor identifica o apreço compartilhado por esse estilo de construção. O desenvolvimento urbano deste cinturão tomou um rumo bastante diverso do padrão de prédios e das concepções urbanísticas em torno de pátios internos que prevalece na Europa Continental. Distinção até então ainda não percebida com a precisão e clareza de análise como a que Duff nos traz.

Um aspecto que as diferenciam é que a densidade de 43 casas por hectare oferece vantagens favoráveis à comunidade, com boas relações de vizinhança. Enfileiradas ao longo dos canais, cada casa conta com o espaço amplo das calçadas e da água na frente (alguns canais com alamedas arborizadas) e com metade do terreno livre (jardins) atrás. O sistema de drenagem trouxe condições de higiene inimagináveis para a época, além de facilitar a vazão natural das partes inundadas. Este ordenamento também regula a altura e extensão das casas geminadas em todo o distrito, de forma a não tirar as vantagens (sol, ar, vista) uma da outra.

O segundo tópico faz um rico apanhado histórico da vida social que se desenvolveu nessas condições urbanísticas, ilustrando o panorama com observações a respeito dos governantes, arquitetos e arquiteturas de cidades como Baltimore, Boston, Dublin, Londres, Manchester, Nova York e outras 14 cidades que adotaram o sistema desenvolvido a partir de Amsterdam. A densidade mediana que resulta desse sistema costuma manter-se constante mesmo com o crescimento das cidades, pois ela se dá de forma horizontal e não vertical como nas condições urbanísticas das outras cidades americanas ou europeias.

O terceiro tópico parte das transformações que a malha urbana conheceu na maioria das cidades a partir do pós Segunda Guerra e que resultaram nas condições de vida das cidades contemporâneas. Em torno dessas observações recentes, Duff tece suas considerações acerca das perspectivas possíveis para o futuro das cidades. A principal lição que as análises e pesquisas reunidas nesse livro proporcionam sugere que a solução urbanística das casas geminadas dos arquitetos do século 17, na Holanda, oferece o melhor caminho para a cidade pós-industrial. Essa solução abre o rumo, segundo Duff, para a cidade do bem-estar amigável, onde a caminhada, a bicicleta, a convivência, a proximidade e a troca entre os moradores passará a ser a tônica do cotidiano. Essa visão, para leitores brasileiros, pode soar utópica ou romântica, dada as dificuldades cotidianas mais elementares que ainda temos que enfrentar, como saneamento, transportes ou abastecimento, só para citar alguns (sem falar das angústias brasileiras com segurança). Mas é bom saber que temos diretrizes e exemplos para transformar nossas cidades em lugares mais humanos.

Há mais um aspecto que merece ser destacado à guisa de reflexão. O modelo inventado pelos arquitetos, engenheiros e urbanistas holandeses, e que é o seguido por iniciativas como a ONG de Duff, procura, sempre que possível, contemplar um “conjunto de vizinhança” (neighborhoods). É claro: muitas vezes não há a possibilidade de planejar todo um distrito segundo um mesmo ordenamento urbanístico. Mesmo assim, é capital o cuidado de minimizar o impacto negativo sobre a unidade paisagística, e regular as densidades para permitir a ampliação da cidade de forma orgânica; maior, mas não diferente. Por fim, é importante ressaltar a permanência das regras: elas não se alteram ao sabor das conveniências momentâneas de qualquer ordem, estão lá inalteradas para além de várias gerações, garantindo qualidades urbano-ambientais que nós também buscamos.

A riqueza de conteúdos, os ensinamentos históricos recheados de dados, as prospecções fundamentadas do futuro das cidades, entre outras, tornam este livro indispensável aos estudiosos da arquitetura e da cidade. Por outro lado, a escrita competente e agradável permite que a obra alcance o público em geral. O que é muito bom, pois o entendimento do passado e do futuro das nossas cidades não deve ser de entendimento exclusivo de especialistas. É importante que essa história e os conceitos elaborados por Duff estejam ao alcance dos cidadãos que de fato circulam nas calçadas, praças e cafés — cidadãos que recuperaram e renovaram as casas antigas e que Duff admira pelo esforço e carinho urbanísticos —, para que possam decidir sobre a melhor forma de organizar a vida em comum no espaço urbano.

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Louisburg Square, Beacon Hill, Boston (Reprodução)

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Livro:  Cidades do Atlântico Norte

Autor: Charles Duff

Editora Blucoat,  Liverpool, 2019

ISBN 978190845730

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(Reprodução)

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Kathrin Holzermayr Rosenfield é Professora Titular de Filosofia e Literatura na UFRGS, autora de vários livros sobre literatura, filosofia e arte. Aborda com perspectivas filosóficas, antropológicas e psicanalíticas autores de diversas literaturas. Seu ensaio Desenveredando Rosa — a obra de J. G. Rosa ganhou o Prêmio Mário de Andrade. Atualmente, Kathrin traduz obras ficcionais e ensaísticas do romancista austríaco Robert Musil. Trabalha em projetos vinculando a pesquisa acadêmica e dramaturgia com o público amplo.
Flávio Kiefer é Arquiteto; mestre em arquitetura de museus (PROPAR/UFRGS), professor da PUCRS, onde também foi diretor do Instituto de Cultura. Organizou o livro Fundação Iberê Camargo (Cosac Naify, 2008). Projetou as Escolas Infantis Municipais Construtivistas, Casa de Cultura Mário Quintana, Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo e Casa Lutzenberger, em Porto Alegre; Casa de Cultura de Esteio; Casa dos Rosa – Museu de Canoas; e o Centro Histórico Vila Santa Thereza, em Bagé. É sócio fundador da empresa Kiefer Arquitetos.