Por que um cético tomaria vacina

por Érico Andrade

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Os avanços da ciência levaram muitas vezes cientistas, sobretudo responsáveis pela revolução científica do século XVII e que eram filósofos como Isaac Newton, a afirmar que as leis da ciência eram leis da natureza. Haveria uma espécie de isomorfismo entre a gramática científica e o mundo. A ciência seria capaz de decifrar a linguagem de Deus; a arquitetura com a qual ele fez o universo. Esses filósofos eram na maioria fortemente religiosos e fizeram da ciência uma espécie de religião secularizada. Migraram a certeza da religião para a ciência porque acreditavam que os seus estudos seriam a última palavra a respeito do universo.

Esse dogmatismo do discurso sobre a produção científica ou do que podemos chamar de epistemologia levou Hume a confrontar a filosofia com o ceticismo. Em nenhum momento Hume desaconselhou a humanidade a confiar na ciência, mas ele lançou dúvidas sobre a base metafísica que sustenta o discurso científico. Para tanto, ele mostrou que a crença na causalidade, sobre a qual está assentada a ciência, não é de origem científica. Ela remonta ao modo mais primário com o qual nos relacionamos com o mundo. Faz parte, como diria mais na frente Wittgenstein, do nosso círculo de crenças centrais e com as quais nos orientamos no mundo. Duvidar desse círculo crenças é um absurdo porque não podemos agir no mundo sem levar em consideração essas crenças. Assim, embora seja possível que possa surgir um elefante embaixo da minha mesa agora, não se segue que devo levar a sério essa possibilidade.

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David Hume por Allan Ramsay, 1766

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Nessa perspectiva, Hume entende que não é preciso negar a crença na causalidade para se questionar a metafísica. Basta dizer apenas que o mundo é independente de nossa vontade. Ou seja, o conhecimento científico opera com uma percepção do mundo sem que essa percepção para ser verdadeira precise ser totalmente e absolutamente congruente com o mundo para que possamos então confiar nela. Assim, podemos acreditar na ciência — na verdade, não temos escolha, porque ela é a melhor forma de lidar com a imprevisibilidade constituinte do mundo — sem precisar acreditar na metafísica que os próprios cientistas usaram para querer dar a sua ciência um toque de eternidade, como se a linguagem científica fosse a linguagem divina e não aquela dos seres naturais como nós que nos orientamos no mundo de acordo com a nossa percepção do mundo e do seu aperfeiçoamento promovido pela ciência.

Hume nos ensinou que a exigência de uma certeza absoluta para a ciência não é científica, mas metafísica. Portanto, dogmática. E essa exigência não altera o funcionamento prático da ciência. Essa é a razão pela qual a física de Newton prosperou e foi adotada independente da metafísica de Newton.

Hume, com seu ceticismo, nos alertou que não se deve exigir do conhecimento humano — da ciência — aquilo que só pode ser dado, no âmbito da fantasia, na religião: a certeza absoluta. Com isso ele nos ensinou também que o conhecimento científico não precisa trabalhar com uma noção de causalidade absoluta. Metafísica, para dizer numa palavra. Pelo contrário: a ciência nos ensina a caminhar por onde temos mais probabilidade de estarmos certos.

Nesse contexto, é necessário reconhecer que hoje a vacina é essa estratégia que temos para lidar com o contágio da Covid-19. E, como foi o caso de todas as vacinas, as vacinas só ganharão cada vez mais segurança quando iniciarmos a vacinação. Nunca se terá uma certeza a priori sobre as vacinas. No entanto, nem precisamos dessa certeza — porque esse tipo de certeza não existe na ciência — nem, muito menos, precisamos dela para continuar acreditando na ciência (na comunidade científica e não num cientista ou outro). A vacina é a forma mais racional de lidar com a pandemia que só está na iminência de acabar para quem nunca acreditou que ela sequer existisse.

Com isso, fica a lição de que o ceticismo não é atitude de promover a dúvida generalizada como tem feito o conservadorismo reacionário. Essa atitude por si só é dogmática porque pressupõe que devemos ter total certeza para poder agir quando esse tipo de certeza, ao contrário da pandemia, sequer existe. Assim, certas dúvidas, que operam na contramão das formais mais racionais de lidar com a imprevisibilidade do mundo, escondem na verdade um desejo por certeza tão fanático que é incapaz de perceber que um tipo de certeza como essa só pode existir no céu: perto de Deus e longe da ciência com a qual nos debruçamos sobre o mundo para nos orientar em nossas ações sempre de forma provisória e inacabada.

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Érico Andrade

Érico Andrade é filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco.