Deus ex machina

por Roger Laureano

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Santifica-os na verdade;

Tua palavra é a verdade.

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João, 17:17

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O João de Peter Paul Rubens, c. 1610-12

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A intervenção divina

Já é senso comum que os roteiristas da política brasileira não são dos melhores. Ainda que tenha alguma emoção nessa história, o enredo desafia constantemente a suspensão da descrença, as reviravoltas são despidas de verossimilhança, a limitação de cenários indica um baixo orçamento, os atores são tão ruins e caricatos que parecem não saber como um ser humano funciona e encontram dificuldades até para interpretar a si mesmos. Muito forçado. Os protagonistas, por outro lado, com seus dotes autoritários, têm certo carisma, mas vou tentar explicar por que isso deixa tudo ainda pior.

As linhas interpretativas que aparecem quando se tenta explicar o autoritarismo brasileiro normalmente são estruturais. Citam, com razão, a raiz escravocrata do país, a desigualdade, a corrupção, a violência e o patrimonialismo.[1] Este último conceito, tornado célebre principalmente a partir da obra de Raymundo Faoro, aponta a existência de um estamento burocrático no Brasil que, através do uso privado das graças públicas, age como se fosse proprietário do Estado. Trata-se da formação de uma rija casta nobiliárquica que perdura por séculos, da Colônia à República. O próprio Faoro, no entanto, ressalta que por vezes o povo se enche de ira contra os seus senhores em revoluções caducas, que terminam exatamente onde começaram. É aqui que surge outra chave interpretativa para o Brasil, um pouco deslembrada. Permita-me uma única citação, prometo não ser enfadonho:

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Enquanto o estamento burocrático desenvolve a sua política, superior e autônoma, remediando as crises com as revoluções bonapartista, de cima para baixo, desenvolve-se a mística da revolução salvadora, esta oficial como as outras, repita-se Joaquim Nabuco. Da ordem tumultuada, da anarquia fomentada, as massas, embaídas por esperanças e alimentadas de entusiasmo, incensam o oculto deus ex machina, que remediará todos os males e mitigará todos os sofrimentos. As duas partes, a sociedade e o estamento, desconhecidas e opostas, convivendo no mesmo país, navegam para portos antípodas: uma espera o taumaturgo, que, quando a demagogia o encarna em algum político, arranca de seus partidários mesmo o que não têm; a outra permanece e dura, no trapézio de seu equilíbrio estável.[2]

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O livro de Faoro é totalmente dedicado à casta burocrática, mas pincela uma possível transição para outro conceito weberiano: a dominação carismática. O povo, que quase tudo perdeu na miséria e no desespero, tem apenas a esperança nos olhos para enxergar o horizonte — um sentimento que, como tudo que é eterno, sempre pode ser malicioso com o seu hospedeiro. O sonhador não deseja o país do futuro intangível, mas o país de amanhã de manhã. Bem cedinho, de preferência. Na urgência, não adianta falar de projetos de longo prazo ou de políticas públicas cientificamente embasadas. Há uma única solução possível para o Brasil: a intervenção divina. E de tanto procurar por Deus, sempre encontramos algum profeta.

O conceito de carisma é originalmente teológico, utilizado para descrever dons divinos. Na concepção de Weber, a dominação carismática é uma obediência que um indivíduo tem com o líder em razão de seu caráter pretensamente olímpico, extraordinário ou até mesmo mágico.[3] A sua real essência, tão ordinária quanto profana, é de pouca importância. A crença dos fiéis é suficiente para deificar o corpo do rei e construir os afetos necessário que uma relação de dominação exige. Há uma transformação na psique: a miséria e o medo, munidos com esperança, aos poucos se transformam em entusiasmo, amor e fanatismo. A servidão é eficiente porque ela não apenas é voluntária, é engajada. Aqueles que estavam perdidos e desgraçados agora encontram a verdadeira fonte de salvação em seu demiurgo eleito. A solução de todos os problemas é personificada, como se repentinamente uma luz azul fosse descer do céu, ruindo como um trovão, e alimentar os famintos com chocolate, curar os enfermos com cloroquina, enjaular os corruptos na papuda e corrigir todos os furos de roteiro.

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Max Weber

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O pior é que esse enredo é repetitivo. Já assistimos essa história várias vezes no Brasil. Poderíamos muito bem chamar todos esses protagonistas por um único nome, talvez Getúlio, Juscelino, Fernando, Luís ou Jair. Todos foram diferentes na direção de suas ações, não nego, mas representaram aos fiéis uma solução divina e imediata a problemas perenes. O reincidente fracasso é um mero detalhe na certeza de que o sucesso virá amanhã porque agora seguimos o verdadeiro profeta. Qual a chance de errarmos pela enésima vez? O povo hebreu, afinal, idolatrou até mesmo um bezerro de ouro antes de reencontrar Deus — e ainda assim não se enganou tanto quanto nós.

Como acontece com todas as mazelas políticas e sociais do Brasil, Portugal pode se gabar de já ter feito tudo isso antes da gente. Alguém poderia argumentar que o sebastianismo é o nosso precedente histórico; um movimento místico lusitano que via no rei Sebastião, desaparecido, um mártir que retornaria para levar Portugal de volta ao seu passado de glória. Contudo, é mais provável que não se trate de uma linhagem ideológica de profetas cujo tronco esteja em Portugal, mas que as condições que potencializaram a construção de ídolos estivessem satisfeitas tanto lá no século XVI quanto cá no XXI.

A situação socioeconômica representa uma das primeiras condições que promovem o surgimento de um líder carismático. A fé e a personificação da esperança são promovidas na situação de desamparo em que as maiores necessidades podem ser satisfeitas com as menores migalhas; o pão é a dádiva primeva do messias, a prova de seu dom. Além da miséria cotidiana, as situações de crise, em qualquer uma de suas variações sociais, políticas e econômicas, criam as condições latentes mais óbvias da busca pela salvação imediata. A crise leva a população a uma situação de efervescência contra a ordem estabelecida. No desespero, não há paciência para esperar por remédios que seriam mais eficientes, mas amargos e morosos. O alvo é difuso, é tudo que está aí, e a palavra de salvação virá de quem prometer sua ruína para sublimar, sobre os destroços, aqueles que se veem excluídos, enganados e enfurecidos. O líder será a representação coletiva de todos esses sentimentos e construirá a sua narrativa buscando provar o seu dom. Com todas as esperanças condensadas, os seguidores agora prestam obediência inteiramente ao corpo que as representa. Dar-lhe votos não é suficiente, ele precisa de carinho: cada manifestação de afeto é uma tentativa de reforçar sua segurança de que dessa vez o profeta voltou; cada ataque a ele é uma ofensa a Deus, e a resposta vai ser igualmente apaixonada, até mesmo virulenta, contra o herege. As engrenagens da dominação começaram a girar de fato, completando a curvatura dos corpos: o indivíduo, outrora de pé, altivo e raivoso, passou a chorar ao dobrar os joelhos, crédulo do contato com o transcendente, e agora crava as mãos no chão, pronto para ruminar e andar de quatro. Esta é a grande habilidade do líder carismático: transformar a revolta difusa em submissão concreta.

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(Hugo Jaeger—The LIFE Picture Collection/Getty Images)

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O homem nu

O carisma não é uma qualidade pessoal intrínseca, mas uma reivindicação bem sucedida de poder. Bryan Wilson criou uma imagem bastante ilustrativa.[4] Se um homem correr nu pelas ruas da cidade, esbravejando aos céus que o dia do juízo final está chegando e que ele é o único que pode nos salvar, você provavelmente pensará que se trata de um lunático. Mas se esse mesmo homem fizer exatamente a mesma coisa e, por alguma razão, as pessoas começarem a segui-lo, igualmente nuas, rezando para estarem entre as eleitas na inevitável escatologia que nos aguarda, trata-se de um líder carismático. A grande diferença entre os dois homens é que um conseguiu convencer uma multidão de que a escadaria para o paraíso exige algum tipo exótico de naturismo. Por essa razão, qualquer observador externo achará tudo muito ridículo, talvez cômico. Ele vai estar lá vendo aquele homem correndo, com as gorduras balançando, as rugas em riste, a face chiliquenta. Este é Deus, proclamarão os fiéis. Bando de gente doida, pensará o observador.

A intensidade da dominação varia em cada caso. Talvez alguns seguidores, até a maioria, acabem por se limitar à defesa verbal fanática dos atos do líder, não importando quão contraditórios, quão indefensáveis. Trata-se, no fim, de um facciosismo de tochas. Em algum momento de sua ascensão, o líder será combatido por indivíduos que certamente são alienados pelo capital ou doutrinados por temíveis, perigosos, assustadores e tenebrosos professores comunistas do primário. Para reagir, possui sua própria milícia – hoje até mesmo virtual. Algumas pessoas, no entanto, possuem limites, resta saber onde encontrá-los. A corrupção seria um palpite se já não tivesse se tornado um clichê do Brasil, sinônimo de sexta-feira. O acusado pode sempre copiar o discurso do último indivíduo que foi acordado às 6 da manhã por uma operação da Polícia Federal, alegando que é uma perseguição do juiz, do promotor, do Legislativo, do Judiciário, do Supremo, dos globalistas, do capital, da KGB, da CIA, dos comunistas, das forças ocultas, talvez tudo junto ou o que couber melhor na narrativa oficial da seita. A multidão nua facilmente comprará a ideia: trata-se de uma conspiração dos maus contra os bons. Não faltarão comparações do líder com Jesus Cristo, ambos crucificados pela injustiça mundana. Um antigo e desertor aliado vai aparecer na história como se fosse Judas, um inimigo como Pilatos, os fiéis de alto escalão são os apóstolos. Esta é a qualidade do enredo, a jornada do herói brasileiro: tem promessa de salvação, acusação de corrupção, denúncia de conspiração e um plágio mal desenvolvido da Bíblia. É o resumo do nosso roteiro. Os dominados têm certeza de que previram o último ato: a ressurreição seguida pelo juízo final de todos os infiéis conspiradores. Deus não deixaria ser diferente com o seu enviado.

É fácil de subverter as acusações de corrupção com conspirações. Essas narrativas já transitam de alguma forma no imaginário popular, precisam apenas de pequenas adaptações para que algum espectro obscuro como o imperialismo dos Estados Unidos da América, o comunismo cubano, o globalismo ou STF, já vistos como vilões em parte significativa da população, reapareçam agora ainda mais perigosos, mais demoníacos, para interromper a nossa última chance de salvação. Só por isso não somos ricos, grandes e poderosos: o mundo nos atrapalha. Se todo o resto sumisse, duvido que alguém ficaria na nossa frente.

Mas se a corrupção não é o limite, onde o encontramos? Alguns seguidores podem ir até o fim, literalmente, como no suicídio coletivo da seita de Jim Jones, um caso bastante extremo de obediência ao líder até a morte, ainda que a quantidade de seguidores fosse limitada. Hitler, um exemplo igualmente extremo, teve seu fim, mas no Brasil não temos muitas chances de perder uma guerra. O caminho mais provável parece ser exatamente o menos ameaçador: a rotina. É mais fácil se vender como salvador da pátria denunciando tudo que está aí do que governando de fato, tomando decisões econômicas, negociando cargos, projetos de lei, lidando com os outros poderes, tudo isso enquanto o séquito reza para que as esperanças se cumpram, que sua mesa seja mais farta, o carro melhor, a casa quitada, e que o país que ele queria para amanhã de manhã de alguma forma seja melhor do que é hoje. A realidade é o maior inimigo do líder carismático porque o milagre se torna uma eterna promessa. No dia a dia, quando o entusiasmo passa e o sujeito percebe que continua um pobre miserável, ele resolve puxar a cueca e voltar para casa.

O profeta está ciente dos próprios limites e deve sempre subverter essa ameaça na tentativa de tornar a vida comum eternamente incomum, fazer da efervescência que o ergueu a nova normalidade. Com a almejada ambição já satisfeita no cargo máximo do país, ele terá de transformar a rotina administrativa numa infindável campanha eleitoral. A retórica não se atenuará e o inimigo, já abatido, será ressignificado em uma nova ameaça. Qualquer fracasso político será justificado pela nova versão da conspiração e assim a milícia facciosa continuará sendo mobilizada para a guerra política, mesmo após a vitória. São sucessivas tentativas de reencantamento profético para manter o engajamento das bases fanáticas diante da rotina governamental. Mas o sucesso nessa nova fase é mais duvidoso, as alianças construídas com o status quo, até ontem inimigo moral do paraíso, podem soar contraditórias aos fiéis mais céticos. Eles podem desconfiar que estão sendo traídos, ouvem cochichos e burburinhos, rumores preocupantes, veem sorrisos maliciosos; talvez todos já saibam, mas a cornitude é uma consciência procrastinada. Há um claro problema na narrativa: o líder se alçou contra tudo que está aí, mas a aliança com o que está aí é uma necessidade óbvia do ato de governar nos sistemas representativos. Mesmo as recorrentes tentativas de reengajamento podem se mostrar insuficientes. A realidade, por fim, tende a se impor a todos e por isso mesmo ela deve ser combatida.

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Metanoia

Em A Nova Roupa do Rei, famoso conto de Hans Christian Andersen, um falso alfaiate de terras distantes aparece em um reino oferecendo ao seu governante uma roupa singular que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam ver. O rei, diante de tal preciosidade, não pôde conter seu orgulho aristocrático e dedicou baús de riquezas ao alfaiate, que logo se pôs a trabalhar, fingindo tecer fios invisíveis. Impaciente com a demora, o rei enviou seus ministros que, por orgulho e sem nada enxergar, elogiaram o magnífico trabalho do costureiro vigarista. Depois o próprio rei foi à alfaiataria rasgar elogios às vestes fictícias. Admitir que não via roupa alguma seria anunciar a própria estultice e incapacidade de governar, indignidade difícil para o orgulho de um nobre. Com o trabalho finalizado, o rei se pôs a desfilar para as massas com um novíssimo adorno para o seu corpo, contando até mesmo com camaristas para segurar sua cauda invisível. Durante o desfile, o povo, é claro, via a verdade, mas não tinha coragem de anunciá-la. Até que uma criança gritou: o rei está nu. O povo começou a cochichar entre si e logo ecoou o grito do menino. A farsa estava revelada a todos.[5]

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(Ilustração de Hans Tegner, 1853)

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A diferença entre o profeta e o rei estúpido está nos olhos de quem vê. Em uma situação de dominação carismática, a parte submissa da população não consegue enxergar a nudez do líder. Não se trata de bajulação, vaidade ou medo, como com o rei e seus ministros. A relação afetiva é tão forte que os seguidores passam a ler a realidade a partir da narrativa oficial da seita. Uma divindade é incapaz de mentir, a sua palavra é a verdade, e se a palavra afirma que ele não está nu, então não está. Essa é a verdade santificada. Os seguidores passam por um processo de metanoia em que o líder detém o monopólio da interpretação ideológica dos adeptos. É quase como a conspiração do chip da besta. Mas para não transformarmos isso numa ficção científica gospel, vamos dizer que a versão carismática da metanoia é uma espécie de droga psíquica que distorce a percepção da realidade dos fiéis a partir da palavra do líder. Se no conto de Andersen todos podem enxergar os fatos quando o menino grita que o rei está nu, aqui o pobre e inocente rapaz ouvirá mil impropérios por espalhar falsidades contra o messias. O pai dele deve ser comunista.

Se a metanoia for realizada com sucesso, os obstáculos que a realidade tentava impor ao líder são atenuados porque os seguidores não podem mais enxergá-los. As contradições das alianças, das negociatas e das promessas não cumpridas são distorcidas pelas novas lentes da narrativa oficial. Não há mais contradição, apenas a palavra da verdade. A cornitude ascende ao ápice da mansidão. Toda explicação estapafúrdica é suficiente para contornar as desconfianças. Se o líder fala alguma coisa condenável, foi mal interpretado; se tenta cumprir aquilo que prometeu e no fim deu tudo errado, é porque os maus conspiraram contra ele [insira aqui a conspiração predileta da seita específica]; se ele prometeu fazer algo durante a campanha, mas uma vez no governo faz o oposto, finge-se demência — o profeta sempre prometeu exatamente isso, vocês é que não entenderam —; se aparecem dados que mostrem resultados ruins, é porque eles são falsos e os inimigos estão distorcendo as informações. Para cada ação, há uma pregação. Para cada fracasso, uma conspiração. Para cada heresia, uma punição.

Se ainda não estava subentendida, aqui fica esclarecida a diferença entre um líder carismático e um conquistador de votos comum. O sucesso político não depende exclusivamente de qualidades pretensamente sobrenaturais. Um presidente pode chegar ao cargo — e por lá se manter — por um marketing bem construído, um capital político eficientemente mobilizado na construção de alianças sólidas ou até mesmo pela fortuna. A paixão não é a única peça em jogo. Dependendo da situação, interesses econômicos e valores morais são tão eficientes quanto uma promessa de salvação. O conquistador de votos, portanto, pode até possuir certa demagogia, mas não se caracteriza por promessas proféticas, não constrói uma relação personalizada de dominação e, consequentemente, nunca atinge o estágio de metanoia. Não é incomum que um político burocrático, cuja maior virtude é cumprir as funções de processador de texto, papagaio de políticas públicas e de escarrador de números, alcance sucesso. Mas as suas contradições são notadas. O apoio se esvai quando os interesses ou os valores não são satisfeitos. Os corpos não se curvam às suas vontades.

Com o advento das redes sociais, o processo de metanoia se intensificou. A verdade do líder pode ser transmitida diretamente aos fiéis, excluindo-se a necessidade de intermediários. Os afetos agora parecem ainda mais íntimos, tudo soa pessoal. Os seguidores assistem ao discurso na palma da mão, como se fosse feito diretamente para eles. Não há uma multidão compartilhando o espaço como nos comícios. Escutam com atenção, balançando a cabeça positivamente para todas as revelações enquanto fazem carinhos com os dedos na tela do celular. Todas as palavras são lindas, os palavrões são poemas e assim ele faz rir e chorar. Não importa que o cafajeste diga o mesmo para todas as outras pessoas, omnia vincit amor.

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Amor Vincit Omnia, Caravaggio, c. 1602-03

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É por esse motivo que a luta contra a desinformação, ou aquilo que ficou popularmente conhecido como fake news, parece tão infrutífera. Vamos supor que você aponte para o sujeito cultista que uma notícia é falsa. Mesmo que ele seja derrotado pela própria ignorância e não tenha a mínima noção de como contestá-lo, a resposta vai ser a cega denegação. Ele vai procurar desesperadamente pela verdade que se esconde entre as mentiras, e ao encontrar um pequeno resquício dela, em uma frase, uma linha, uma palavra ou o que for, apegar-se-á ao pequeno lampejo de veracidade como confirmação de todo o resto. A partir de então, o mentiroso é você que por partidarismo e ideologia negou a sinceridade da palavra santificada. Nada mais pode ser feito. Não há como convencer uma pessoa de que a sua interpretação dos fatos está equivocada se, em primeiro lugar, ela nem sequer interpretou nada. Tudo lhe é transmitido. As ideias já chegam prontas, sem resistência, ocupando o vazio que estendia entre a testa e a nuca.

Por vezes, percebe-se que o séquito fica perdido no momento imediato após um fato novo. É porque ainda não houve tempo suficiente para a narrativa oficial alcançá-lo; sem as ordens do líder, eles não sabem se o que está sendo dito é verdade ou mentira, se a nova lei discutida deve ser defendida ou combatida ou se o valor moral em questão no espaço público é belo ou monstruoso. O buchicho aumenta, cada um se agita para um canto. No que eu acredito?, perguntar-se-ão, clamando por Deus. A resposta divina chega, como prometido, e tudo se organiza novamente, os soldados se enfileiram: é óbvio que isso que está sendo dito é mentira; mas é claro que essa lei de qualidades inegáveis deve ser defendida; e como assim querem discutir essa imoralidade monstruosa? Todas as dúvidas são sanadas quando a palavra da verdade é anunciada. A metanoia pode ser uma droga cômoda; quando as respostas simplesmente são reveladas, não existe a maçante tarefa de procurar por elas. O profeta é escolhido antes da informação. Em suas versões mais extremas, o líder carismático é a privada em que todas as verdades universais são depositadas.

As lentes distorcidas pela metanoia são, para o chefe, as garantias da manutenção de sua força. Como elas não podem ser retiradas, sob o risco de um vislumbre do mundo real, é impossível realizar uma antissepsia eficiente. Mesmo com o vício, os efeitos da droga podem se deteriorar e a relação de submissão aos poucos vai se arruinando. Diante de tudo isso, a insanidade pode parecer perene, mas os grilhões são mais frágeis do que a eternidade. Se a revolta difusa antecede a submissão concreta, a submissão pode preceder uma nova revolta.

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O fim e o remake

É difícil de manter o poder carismático concentrado em uma única figura por tanto tempo. Há exemplos extraordinários, como o de Jesus Cristo, cujo carisma foi institucionalizado pelas estruturas da Igreja, abraçando milênios. Contudo, a maior parte dos nomes outrora amados se tornaram alvos de revoltas. Eles podem cumprir o seu destino em cartas de suicídio, amarrados pelas tripas ou compulsoriamente aposentados em uma ilha-asilo qualquer. As promessas são muito grandiosas, os profetas se tornam falsos deuses e a divindade passa a ser vista como idolatria. Isso aconteceu mesmo com nomes mais gloriosos e conquistadores do que as suas versões vulgares e preguiçosas que brotaram no Brasil, onde tanto a democracia quanto o despotismo são feitos pela metade. Até mesmo aqueles que foram sepultados sob medo, que ainda ordenavam com os olhos vazios e se faziam ouvir com as bocas cerradas, tiveram as suas memórias reescritas, os seus feitos ressignificados, tornando-se representantes de uma era a ser esquecida. Todo seu carisma foi expelido em seu último suspiro. O tirano tem como seu destino ser a desgraça da história. O projeto de tirano, mais trivial, é a desgrama da década. Mas as boas novas chegam com um alerta. Como sei que pode ser difícil viver por tanto tempo com o fígado no lugar dos tímpanos, antecipo aos infiéis ansiosos que, não importa o quão medíocres os profetas sejam, nem todos constituem apenas um apêndice perfunctório na história do país. A alegria do fim é no máximo uma pequena compensação por alguns anos de resiliência insalubre.

Mesmo com a metanoia, a rotina tende a se impor aos líderes mais efêmeros. Não há razões para acreditar que não é com eles que estamos lidando. Com as lentes enuviadas, a paciência em frangalhos, as massas, com um sentimento de profundo engano, passam a reavaliar os anos que passaram com náusea e enxaqueca. Ao olhar para os lados encontram a mesma miséria de antes. Olhando para frente, encaram uma bunda caída. Meu Deus, o rei está nu, exclamarão assustadas. De repente as narrativas, as conspirações, os plágios e os enredos mal construídos param de fazer sentido. É a ressaca que precede o interregno. Muitos vão manter alguma fidelidade. Só não deu certo porque vocês torceram contra, dirão. Com a nova revolta contra tudo que está aí, finalmente o líder se vai, deixando-nos novamente apenas a esperança. Daqui em diante tudo já é bastante conhecido, os elementos são os mesmos do começo da história. A dúvida que nos colocamos é de quem assumirá a fila dos projetos desmoralizados. Há espaço para algum suspense: nosso novo taumaturgo será inédito, com traços originais? Será o retorno de algum santo de tresantontem, favorecido pela nossa amnésia periódica? Ou será uma mistura de ambas as coisas, com um nome novo reeditando algum “ismo” que esquecemos que odiávamos? Se pareço um pouco otimista ao acreditar que os suplícios que agora vivemos são temporários, temo cair no mesmo fatalismo de Faoro ao enxergar um futuro enclausurado pelo passado.

A indústria realmente gosta de copiar ou refazer as franquias que alcançaram sucesso. Isso causa certo incômodo nos fãs de longa data, mas reúne multidões de entusiastas. A nova versão tem outros intérpretes e algumas mudanças. O carisma não é um termo moral, não possui preconceitos ideológicos, podendo assumir diferentes perspectivas políticas, sociais e econômicas. Sem contradição, pode ser utilizado para descrever Hitler e Jesus Cristo, capitalistas e comunistas, progressistas e reacionários. O paraíso prometido possui muitas formas para cada era, líder ou fiel. Eu sei que, no fim das contas, ninguém se reconhece como membro de uma seita e por isso podem me acusar de cometer injustiças. Tudo que eu escrevi, dirão, vale para os outros, para aquele outro lado fanático, para eles, não para nós. O nós, é claro, não representa uma seita nem a idolatria, o nós detém a verdade, apenas eles, da outra facção que não a minha, adoram falsos deuses. Existem diferenças óbvias em cada igreja, eu assumo. Algumas podem ser mais eficientes, menos violentas e até alcançar resultados satisfatórios. Mas não é porque um culto não comete o ato canibal de devorar uma carne bovina no altar que ele vai deixar de ser um culto.

De qualquer maneira, o fato é que as nossas mazelas nunca foram arrebatadas nem nossas angústias atenuadas. Talvez fosse o momento de apostar em uma nova proposta, menos imediatista, com políticas públicas baseadas em evidência, encarando cada problema com a engenhosidade exigida pelo desafio. Mas isso soaria trabalhoso demais aos nossos roteiristas. Encarando o tamanho do nó, veem-se com apenas uma opção: incensar o oculto deus ex machina, que remediará todos os males e mitigará todos os sofrimentos, agora de maneira oficial. Qualquer espectador se sentiria ludibriado com um enredo viciado cuja única solução é a reedição do próprio problema. Então, num domingo qualquer, passeando descuidadamente por uma praça ensolarada durante o interregno, somos pegos de surpresa por uma doidivana balbúrdia. Um homem nu passa ao nosso lado correndo, acabadiço, mas como um herói retumbante, seguido por uma multidão de fiéis e esbravejando contra a perversão da nudez. Enquanto tentamos esconder a carteira, afivelar firmemente os cintos e se esquivar pela tangente com uma distração dissimulada, é difícil não soltar um suspiro queixoso, talvez até involuntário, diante da eterna condição que nos assola: um país cheio de gente metanoiada que levou longe demais o ditado de que Deus é brasileiro.

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(Hugo Jaeger—The LIFE Picture Collection/Getty Images)

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Notas:

[1] Cf. SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[2] FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, p. 828, 2012.

[3] WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UNB, 2003. Apesar de se tratar de um conceito de Weber, este ensaio não se propõe a ser uma análise do pensamento do sociólogo alemão.

[4] WILSON, Bryan. The Noble Savages: The Primitive Origins of Charisma and Its Contemporary Survival. Berkeley: University of California Press, p. 7, 1975.

[5] ANDERSEN, Hans Christian. Histórias Maravilhosas de Andersen. São Paulo: Cia das Letrinhas, 1995.

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Roger Laureano

Roger Laureano é doutorando em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).