Editorial: Investigar a peste de Jair Bolsonaro

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Ao longo desses 14 meses de pandemia, o Estado da Arte — com seus fundadores e editores — tem, reiterada e firmemente, marcado posição de recusa e denúncia da absolutamente revoltante, escandalosa e degradante gestão da crise conduzida pelo governo negacionista e não irresponsável, mas completamente responsável de Jair Messias Bolsonaro.

No momento em que ultrapassamos a trágica e inadmissível marca de trezentas e cinquenta mil vidas perdidas, é chegada a hora de investigar, legalmente, as responsabilidades — a respeito das quais, pessoalmente, não temos dúvida alguma — do governo de Bolsonaro e das autoridades que, por alguma razão, aceitam ficar a ele subordinadas.

É nesse sentido que tornamos público e inequívoco nosso apoio à CPI da pandemia, tratando esse apoio como um gesto cívico e, como imperativo moral, a necessidade de uma ampla investigação e apuração sobre o que foi feito e o que não foi feito por quem tem um dever institucional de liderar como autoridade legítima. Não há definição ou concepção de democracia que faça sentido sem que indivíduos em posição de poder respondam por seus atos.

Ainda que, cada vez mais, nossa crise não seja percebida como ‘nossa’ — a fragmentação é tanta que parecemos divididos em diferentes jogos de linguagem, sem compartilharmos sequer os princípios primeiros a partir dos quais nossos desacordos são inteligíveis, a partir dos quais perspectivas diferentes são encaradas como legítimas e valiosas —, nossa condição inescapável é a de estarmos todos juntos.

Estamos juntos, é verdade, em uma situação na qual há aqueles dos quais tudo o que podemos esperar é que não transmitam a peste conscientemente; há quem insista em justificar o injustificável, cedendo (a que custo?) seus nomes e suas consciências à defesa do vírus e não da vida, para, com isso, defender o governo (com que interesses?). Nosso cenário é o resultado infelizmente previsível de um contexto no qual, por vil oportunismo ou indesculpável estultice, as esferas da saúde e da economia foram colocadas como se fossem antagônicas — como se fosse necessário escolher uma à outra, e como se salvar a economia de um país em crise não passasse exatamente por conter o avanço de um vírus capaz de deixar em colapso os sistemas de saúde.

Mas estamos juntos, todos, queiramos ou não. Também já passa da hora de reconhecermos isso, num momento em que enfim surge no horizonte a possibilidade de investigar quem preferiu dividir a unir e, na hora do sacrifício comum, escolheu a morte dos outros.

O Senado Federal tem uma chance única de fazer a coisa certa. Talvez a História não faça qualquer justiça — com frequência, a reivindicação da História também terminou contando seus mortos —, mas tudo passa a ser em vão quando perdemos de vez a fé na consciência individual, nas noções de responsabilidade e de decência comum. Precedentes não são formados apenas por aquilo que se faz, mas por aquilo que se deixa de fazer também: cabe àqueles que tem a oportunidade de fazê-lo deixar claro que certas coisas não são aceitáveis em uma república digna do nome.

Finalmente, registramos também nosso apelo austero àqueles que nos leem para que observem e respeitem as condições, exigências e cuidados das recomendações emitidas pelas autoridades sanitárias — as únicas medidas que realmente funcionam e que teriam sido recomendadas desde o início por qualquer governo que estivesse realmente comprometido com o bem comum e com todos os slogans adotados em campanha.

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(AFP/Acervo)

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Eduardo Wolf, Marcelo Consentino e Gilberto Morbach

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