A dimensão racial no pentecostalismo brasileiro, uma questão difícil

por Rodrigo Toniol

Na última pesquisa do Datafolha (jan/2020) que atualizou o perfil sociodemográfico dos evangélicos no Brasil, um dado já esperado e constatado anteriormente se repetiu: pretos e pardos respondem por nada menos do que 60% dessa população. Se o Brasil é um país cada vez mais evangélico, o universo evangélico também é profundamente brasileiro em seus traços raciais. Para que se dimensione esse dado basta dizer que, no cruzamento entre raça e religião, segundo o censo do IBGE de 2010, pretos e pardos correspondiam a 70% dos que se autodeclararam pertencentes ao candomblé. No entanto, esses são percentuais relativos, e não números absolutos, da presença daqueles se autodeclaram negros nas duas religiões. Enquanto no caso do candomblé estamos falando de um contingente de menos de 168 mil pessoas, no caso das igrejas evangélicas esse volume está próximo de 45 milhões de pessoas.

No entanto, se os números são contundentes, qualitativamente a conversa é outra. A visibilidade pública dos evangélicos do país não é apresentada a partir de seus contornos raciais. Pouco se fala sobre essa presença negra. As formas de apresentação pública desses grupos não passam por aí e mesmo as pesquisas das ciências sociais que já produziram milhares de teses e dissertações sobre o campo evangélico são tímidas quanto à análise mais detida da dimensão racial. Em que pese importantes exceções, como aquelas feitas pelo Movimento Negro Evangélico e pelas formulações que estão sendo feitas a partir da Teologia Negra, no interior dos movimentos negros a presença dos evangélicos é de difícil acomodação. Soma-se a isso o fato de que os líderes de algumas das maiores igrejas evangélicas do país e aqueles com maior penetração midiática e política são brancos, contribuindo para uma face pública branca de um rebanho de fiéis negros.

Sobretudo pelos pesquisadores do tema, a invisibilidade da raça diante de um dos principais universos religiosos brasileiros é uma questão de urgente reflexão. Regina Novaes, Lívia Reis, Ronilso Pacheco, Jacqueline Teixeira, José Carlos dos Anjos e João Chaves são apenas alguns dos pesquisadores que direta ou indiretamente têm se dedicado ao assunto. Em algumas de suas formulações chama a atenção o esforço de produzir análises sobre o crescimento evangélico no Brasil justamente a partir de uma matriz de pensamento que dá centralidade à questão da raça. E é dessa matriz que algumas das reflexões mais instigantes têm emergido, enquadrando o próprio processo massivo de conversão pentecostal pelo qual o Brasil vem passando também como uma resposta racial.

Nesse caso, não se trata simplesmente de reproduzir certo senso comum que apela à “recusa da raça” por parte dessa parcela de fiéis, mas sim de reconhecer que, ao aderir ao pentecostalismo, ela inicia também uma operação de branqueamento. Não há nenhuma denúncia aqui, trata-se de uma modalidade de resposta ao racismo estrutural da sociedade brasileira, uma resposta que também se apresenta como um plano de fuga. Há pouca novidade nesse processo. Ele apenas reproduz o mecanismo colonial de esvaziamento da centralidade da raça nas relações de poder e, ao mesmo tempo, oferece como contrapartida dispositivos de subjetivação de um horizonte não negro. É isso o que também Frantz Fanon descreve em Pele negra, máscaras brancas: “Da parte mais negra de minha alma, através da zona sombreada, irrompe em mim este súbito desejo de ser branco. Não quero ser reconhecido como negro, mas como branco”. Mais uma vez, o que está em operação nesse processo é a própria estrutura racializada das sociedades coloniais e não, como alguns querem crer, que esse desejo é a prova de que a força estrutural do racismo é menor do que afirmam os movimentos identitários.

Há inúmeras questões teológicas, políticas e também relativas a contextos mais específicos, além de reações importantes de movimentos sociais nesse debate. Além disso é necessário reconhecer algumas ambivalências do pentecostalismo, que ao mesmo tempo que embranquece também produz lugares de circulação iconográficas de corpos negros. Aspecto que se relaciona com o crescimento de lideranças negras evangélicas em igrejas e partidos políticos, algo certamente associado à (re)emergência pública do debate racial no país.

Seja como for, o que importa aqui é jogar algumas luzes sobre mais essa questão difícil envolvendo esse fenômeno fundamental que atravessa o Brasil desde o fim do século XX, o crescimento evangélico, colocando-o em perspectiva com a força descomunal e invariavelmente pouco tratada do racismo brasileiro.

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Rodrigo Toniol

Rodrigo Toniol é Professor de antropologia da UFRJ e Pesquisador do LAR/Unicamp.