A desproporção do homem, por Blaise Pascal

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A desproporção do homem, entre os abismos do Infinito e do Nada. Fragmento dos Pensamentos de Blaise Pascal. Port-Royal, 1670 d.C.

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Pascal por François II Quesnel, c. 1690

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Eis aonde nos levam os conhecimentos naturais. Se eles não são verdadeiros, não há verdade no homem; e se são, ele encontra um grande motivo de humilhação, forçado a se rebaixar de um modo ou de outro. E, dado que ele não pode subsistir sem crer, eu gostaria que, antes de entrar nas mais vastas investigações sobre a natureza, ele a considerasse por um momento seriamente e detidamente, e que olhasse também para si mesmo, conhecendo as suas proporções… Que o homem contemple portanto a natureza inteira em sua altura e plena majestade, que ele afaste sua visão dos objetos baixos que o cercam. Que ele observe esta luz ofuscante, posta como uma lâmpada eterna para iluminar o universo; que a terra lhe pareça um ponto ante a imensa rotação que esse astro percorre, e que ele se assombre com o fato de que essa imensa rotação não é senão um ponto bastante ínfimo em relação àquelas que os astros no firmamento percorrem. Mas se nossa visão para aí, que a imaginação vá além; ela deixará de imaginar, antes que a natureza deixe de fornecer material. Todo esse mundo não é mais que um traço imperceptível no amplo seio da natureza. Nenhuma ideia sequer chega perto. Podemos inflar totalmente nossas concepções para além dos espaços imagináveis; não pariremos mais do que átomos em confronto com a realidade das coisas. É uma esfera infinita cujo centro está por toda a parte e a circunferência em parte alguma. Enfim, é o maior sinal sensível da onipotência de Deus; que a nossa imaginação se perca nesse pensamento.

Que o homem, entrando em si, considere aquilo que ele é em confronto com tudo aquilo que existe; que ele se veja como perdido nesse recanto desviado da natureza; e que deste pequeno cárcere no qual ele está instalado, digo, o universo, ele aprenda a avaliar a terra, os reinos, as cidades e a si mesmo segundo uma justa medida. O que é um homem no infinito?

Mas para lhe apresentar um outro prodígio tão assustador quanto esse, que ele averigue entre as coisas que conhece as mais diminutas. Que um ácaro lhe ofereça, na pequenez de seu corpo, partes incomparavelmente menores, pernas com junturas, veias nas pernas, sangue nas veias, humores no sangue, gotas nesses humores, vapores nessas gotas; que, dividindo ainda estas últimas coisas, ele esgote suas forças em tais confabulações, e que o último objeto que ele possa atingir seja agora este do nosso discurso; ele pensará, talvez, que é a extrema pequenez da natureza. Quero fazê-lo ver aí dentro um abismo novo. Quero lhe pintar não somente o universo visível, mas a imensidade que puder imaginar da natureza, no âmbito deste pedacinho de átomo. Que ele veja uma infinidade de universos, nos quais cada um tenha o seu firmamento, seus planetas, sua terra, na mesma proporção que o mundo visível: e nele terra, animais, e finalmente ácaros, nos quais ele reencontrará aquilo que os primeiros lhe apresentaram; e encontrando ainda nos outros a mesma coisa, sem fim e sem repouso, que ele se perca nestas maravilhas, tão extraordinárias em sua pequenez quanto os outros em sua imensidão; pois quem não se admirará com o fato de que nosso corpo, que há pouco não era perceptível no universo – ele mesmo imperceptível no seio do todo –, seja agora um colosso, um mundo, ou antes um todo, em relação ao nada no qual ninguém pode chegar.

Quem considerar as coisas nesses termos se espantará consigo mesmo, e, considerando-se suspenso na massa que a natureza lhe deu entre estes dois abismos do infinito e do nada, ele tremerá à vista destas maravilhas; e creio que, transformando sua curiosidade em admiração, ele estará mais disposto a contemplá-las em silêncio do que a investigá-las com prepotência.

Pois, enfim, que é o homem na natureza? Um nada ante o infinito, um tudo ante o nada, um intermediário entre nada e tudo. Infinitamente distante da compreensão dos extremos, o fim das coisas e seu princípio estão para ele infinitamente escondidos em um segredo impenetrável, igualmente incapaz de ver o nada de onde ele foi arrancado, e o infinito no qual ele é engolido.

Que fará ele, então, se não perceber alguma aparência daquilo que é mediano nas coisas, num desespero eterno por não conhecer nem seu princípio nem seu fim? Todas as coisas surgiram do nada e são levadas até o infinito. Quem poderá acompanhar esses extraordinários processos? O autor dessas maravilhas as compreende. Ninguém mais seria capaz.

Por não ter contemplado esses infinitos, os homens se encaminharam temerariamente para a investigação da natureza, como se tivessem alguma proporção em relação a ela. É uma coisa estranha que eles tenham desejado compreender os princípios das coisas, e a partir daí chegar a conhecer tudo, por uma presunção tão infinita quanto seu objeto. Pois não há dúvida de que não se pode formar tal desígnio sem uma presunção ou sem uma capacidade infinita, como a natureza.

Quando se é instruído, compreende-se que, uma vez que a natureza gravou sua imagem e a de seu autor em todas as coisas, elas têm quase todas esta dupla infinidade. É assim que vemos que todas as ciências são infinitas e também a extensão das suas investigações: pois quem duvida que a geometria, por exemplo, tem infinitas infinidades de proposições a expor? Elas são tão infinitas na multidão quanto na sutileza de seus princípios; pois quem não vê que aqueles que são apontados como os princípios últimos não se sustentam por si mesmos, e que eles se apoiam sobre outros, os quais, tendo ainda outros por apoio, não admitem jamais um último? Mas nós fazemos princípios últimos que se apresentam à nossa razão tal como fazemos com as coisas materiais, nas quais chamamos indivisível um ponto além do qual nossos sentidos já não percebem mais nada, ainda que, pela sua natureza, ele seja infinitamente divisível.

Desses dois infinitos das ciências, aquele da grandeza é muito mais perceptível, e é por isso que poucos tiverem a pretensão de conhecer todas as coisas. “Quero falar de tudo”, dizia Demócrito.

Mas a infinidade da pequenez é bem menos visível. Os filósofos, sobretudo, foram aqueles que tentaram chegar a ela, e é exatamente aí que todos eles empacaram. Foi isso que levou a tais títulos tão corriqueiros quanto Os princípios das coisas, Os princípios da filosofia, e outros semelhantes, por sinal tão suntuosos, ainda que em aparência pareçam menos, quanto este que salta aos olhos: Sobre todas as coisas conhecíveis.

Cremo-nos naturalmente bem mais capazes de chegar ao centro das coisas do que de abraçar a sua circunferência. A extensão visível do mundo nos ultrapassa visivelmente; mas como somos nós que ultrapassamos as pequenas coisas, nós nos cremos mais capazes de as dominar; e, não obstante, não é preciso menos capacidade para ir até o nada do que para ir até o todo: é preciso que tal capacidade seja infinita para um e para o outro, e me parece que aquele que tivesse compreendido os últimos princípios das coisas poderia também chegar a conhecer o infinito. Um depende do outro, e um conduz ao outro. Estas extremidades se tocam e se reduzem à força de se afastarem, e se reencontram em Deus, e somente em Deus.

Conheçamos, portanto, nossa condição: nós somos alguma coisa, e não somos tudo; o tanto que possuímos de ser nos subtrai o conhecimento dos primeiros princípios, que nascem do nada; e o pouco que possuímos de ser nos esconde a visão do infinito.

Nossa inteligência tem na ordem das coisas inteligíveis a mesma condição que nosso corpo na extensão da natureza.

Limitados de todos os modos, este estado que tem o meio entre dois extremos se encontra em todas as nossas potências. Nossos sentidos não captam nada de extremo; barulho demais nos ensurdece, luz demais nos ofusca, distância demais e proximidade demais impedem a visão, um discurso demasiado longo ou curto se torna obscuro, verdade demais nos aturde (conheço pessoas incapazes de compreender que se subtraímos 4 de 0, ele continua a ser 0); os primeiros princípios são demasiado evidentes para nós, prazer demais incomoda, consonâncias demais são desagradáveis na música, benefícios demais irritam, queremos poder pagar com juros a dívida. Não sentimos nem o calor extremo nem o frio extremo. As qualidades excessivas são nossas inimigas, e não são perceptíveis: nós não as sentimos, as sofremos. Velhice demais e Juventude demais obliteram o espírito: instrução demais e de menos. Enfim, as coisas extremas existem para nós como se elas não existissem e nós não existimos em relação a elas; elas nos escapam e nós a elas.

Eis o nosso verdadeiro estado; aquilo que nos torna incapazes de saber infalivelmente e de ignorar absolutamente. Nós vagamos num espaço imenso, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um extremo ao outro. Qualquer que seja o extremo em que pretendamos nos prender e repousar, ele oscila e nos deixa; e se nós o seguimos, ele escapa das nossas mãos, escorrega e foge uma fuga eterna. Nada se fixa para nós. É o estado natural para nós, e, todavia, o mais contrário à nossa inclinação; queimamos de desejo de encontrar um posto firme, e uma base definitiva e constante para edificar uma torre que se eleve ao infinito; mas todo o nosso fundamento se despedaça, e a terra se abre até os abismos.

Não busquemos, portanto, nenhuma segurança ou firmeza. Nossa razão é sempre frustrada pela inconstância das aparências, nada pode fixar o finito entre os dois infinitos que o prendem e que lhe escapam.

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Salvator Rosa, ‘Filosofia’, c. 1645

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Publicado originalmente n’O Grande Teatro do Mundo.

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