Entre 1822, 1922 e 2022: dois séculos de modernização incompleta

‘Estrada de Ferro Central do Brasil’, de Tarsila do Amaral. Foto: Acervo MAC USP

As comemorações que fazemos em relação a eventos passados são positivas para o entendimento sobre os itens que compõem nossa trajetória, mesmo que muitas vezes tenhamos uma tendência em usá-las como elementos estáticos, como fotografias. Por isso, as analogias são sempre perigosas: é uma abordagem que mais atrapalha do que ilumina a reação de alguns que, ao primeiro sinal de uma manifestação de descontentamento de parte da sociedade, por exemplo, imediatamente a compreende pela analogia com algum evento pretérito.  Ou não hesita em estabelecer paralelos entre qualquer revolta estudantil e maio de 1968. Ou ainda entre qualquer crise econômica e financeira com aquela de 1929. E o pior, que ainda entende as relações econômicas, políticas e sociais do mundo contemporâneo a partir da fotografia tirada em 1848. 

Contudo, mesmo que as lembranças de datas especiais possam servir a estas generalizações e analogias históricas pouco rigorosas, elas podem nos ajudar em outras tantas reflexões, que acabam por justificar os motivos pelos quais reconstruímos e debatemos os eventos do passado. Duas motivações parecem ter resultados positivos. A primeira, mais simples, indica a necessidade de usarmos algumas datas e eventos do passado para lembrarmos nossos equívocos e, porque não, nossos acertos. Assim é, por exemplo, a importância de lembrarmos e refletirmos sobre o Holocausto realizado pelos nazistas. Ou, como indica pesquisa recente, de lembrarmos o que ocorreu em dezembro de 1968* no Brasil. A outra, mais complexa, usa as datas e eventos do passado para estabelecer um parâmetro cronológico que nos dê a possibilidade de termos algum modelo inteligível. Ou, um marco que, a partir dele, possamos refletir sobre o que movimentou aqueles agentes históricos, como eles se reproduziram ao longo do tempo, o que mudou desde então, assim como o que pode ser visto como continuidade. E, mesmo em julgamentos, quem acertou e quem se equivocou ao longo da trajetória que começou com aquele evento. 

Insisto nisso, pois, em breve, duas comemorações estarão em nossa pauta. Em 2022 será o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário do modernismo brasileiro e de sua fundação na icônica Semana de Arte Modena de 1922. Ambas, pertinentemente, muito disputadas entre os tantos e variados interpretes da História brasileira. Em suas versões, a Independência teria sido, em suma, o momento de ruptura e liberdade, para alguns; assim como, o do acordo e da continuidade, para outros. A Semana de Arte Moderna, por sua vez, teria sido a possibilidade da superação do atraso rural, barroco e oligárquico por uma elite ilustrada e cosmopolita, mas não entreguista; ao mesmo tempo em que teria sido a ascensão de uma elite que, não obstante sua erudição, pouco enxergava a relevância, a moralidade e a permanência de valores do “Brasil profundo”. 

Desta forma, alguns questionamentos podem ser feitos nesta dupla comemoração que teremos em 2022. Notadamente aqueles que podem nos ajudar a reconstruir a trajetória dos cem anos que separaram eventos tão relevantes para a História brasileira. No caso do bicentenário da Independência, a coordenação de um projeto de ruptura com Portugal, seguida pela instalação da Monarquia, guardava relação com a manutenção da escravidão – e, claro, do tráfico.  O entrave a este arranjo estava no fato que tanto os dois imperadores da casa dos Bragança, como também membros destacados da elite brasileira, eram contrários à continuidade da escravidão e de seus mecanismos de reprodução. Este embate esteve presente em ao menos duas dimensões: nas querelas entre partes da elite e D. Pedro I e na conciliação entre partes da mesma elite e D. Pedro II. No caso de D. Pedro I, a briga teve como resultado inicial a ascensão do centralismo do imperador ante uma elite que buscava a predominância, ironicamente, por meio do modelo à época tido como mais moderno: a monarquia constitucional. Ou seja, não foi a cooperação entre o Imperador e os membros da elite mais influente que resultou no híbrido modelo entre Monarquia Constitucional e formalização do Poder Moderador. Foi o conflito entre eles.

No segundo caso, ao contrário, não foi o enfrentamento entre a elite e D. Pedro II que definiu a segunda metade do século XIX, mas sim a conciliação entre eles. Talvez pela personalidade do jovem imperador, menos voltado à disputa e mais ao arranjo. Ou, em outras palavras, menos disposto à negociação política cotidiana e acirrada e mais à contemplação, aos estudos e à moderação. Esta característica do jovem Imperador, em associação ao Poder Moderador que dava a ele prerrogativas políticas acima dos outros poderes constituídos (Legislativo e Judiciário, em especial), criou uma combinação que, por aproximadamente 20 anos, garantiu razoável estabilidade ao Império. 

Contudo, esta estabilidade, forjada pela associação entre elementos plausíveis naquela circunstância, não sobreviveu às transformações do fim dos oitocentos. Ou seja, o jogo havia mudado. E os resultados desta mudança foram, entre outros, a ascensão de novas ideias e organizações que avançaram sobre as estruturas da Monarquia brasileira: a influência do liberalismo e de sua condenação moral à escravidão, as divisões mais rígidas entre países industrializados e primários, os resultados econômicos dos EUA após a Guerra de Secessão (1861-65), os resultados da Guerra do Paraguai (1865-70), a imigração europeia para a América, o imperialismo na África e Ásia, a radicalização das ideias iluministas e, por fim, a derrubada da Monarquia e instalação da República no Brasil. Todos eles revelavam mudanças que ocorriam, principalmente, pela combinação entre transformações da conjuntura, novos eventos históricos e diversificadas parcerias entre grupos, ideias e pessoas que se adaptavam às novas condições. 

O problema, ou um deles, é que os elementos que foram recombinados a partir do impacto que estas mudanças exerceram em fins do século XIX e início do XX, não se movimentaram de modo uniforme. Se vistos isoladamente, tais elementos tiveram comportamentos diferentes e, portanto, produziram, por meio de seus encontros, contextos também diferentes. A prudência de D. Pedro II, antes vista como positiva, foi transformada em indecisão que atrasou o fim da escravidão. Esta demora, fruto do que antes parecia ser uma virtude, foi vista como responsável pela quase inexistente inclusão dos descendentes de escravos na sociedade brasileira, mesmo após a instalação da República. A posição privilegiada do Brasil no mercado internacional de café, antes vista como positiva, passou a ser criticada, pois, não só teria adiado o desenvolvimento do país, como também ampliado a desigualdade regional em favor de São Paulo e Minas Gerais. E, por fim, o federalismo, que passou a ser visto como responsável pela ampliação do controle dos coronéis e caudilhos, e, consequentemente, como determinante à precariedade da cidadania e dos direitos políticos e sociais no país. 

Ou seja, os arranjos e combinações entre os elementos que no ocaso da Monarquia pareciam ser modernos e progressistas, não se mantiveram linearmente de modo que, décadas depois, permanecessem iguais. Ao contrário, quem tirasse uma foto que contemplasse republicanismo, federalismo e exportação de café em 1890, possivelmente não chegaria à mesma conclusão se tirasse uma foto similar com os mesmos elementos em 1920. Mais interessante ainda é que muitos daqueles que no fim do século XIX levantavam as bandeiras então associadas à modernização, notadamente os membros da elite cafeicultora de São Paulo, tinham em seus descendentes os mais fervorosos defensores de uma modernização cujos elementos eram contrários aos que haviam defendido. Se a semana de Arte Moderna de 1922 inaugurou o modernismo no Brasil, também apontou para a possiblidade de pensarmos o desenvolvimento a partir da indústria e das cidades. Condenou moral e esteticamente, dando-lhe às costas, a sociedade oligárquica e rural, mesmo sendo filha dela. E, novamente, assim como seus pais, pouco se dispôs a ouvir o “Brasil profundo”. Na geração anterior, dos oligarcas do café, pouco se incluiu do ponto de vista político e social. Já na geração seguinte, fundadora do modernismo, pouco se inclui do ponto de vista estético e moral os representantes deste “Brasil Profundo”.  De algum modo, nem a Independência, nem a República e muito menos o Modernismo de 1922 apresentaram – não, ao menos, em suas versões mais influentes – uma proposta de inclusão que levasse em conta o indivíduo e sua liberdade no sentido amplo; aquele que atribui legitimidade e autonomia a todos os indivíduos independentemente de seus antepassados, de seus sobrenomes, de suas vinculações religiosas, estéticas e culturais. 

Pelo contrário, se arvoraram na condição de ‘déspotas esclarecidos’, o primeiro passo para se enxergarem no papel de lideranças do desenvolvimento. Na Independência venceu, mesmo que parcialmente, o projeto que deu ao centralismo monárquico a responsabilidade sobre o projeto civilizatório. A Inclusão, que não veio, seria feita ‘de cima para baixo’, fosse pelo resultado da disputa entre o Imperador e as elites, fosse pela conciliação entre eles. Na República, pelo federalismo e pelo poder dos coronéis.  Já o modernismo de 1922, mesmo com sua pretensão de ser democrático, apenas reforçou a defesa de uma inclusão que pouco considera aquele que deve ser incluído: definiu os itens que comporiam a nacionalidade de modo arbitrário, a partir do que entendia ser a estética que representaria o Brasil moderno em oposição ao que considerava o Brasil arcaico. O problema é que não negociou tal proposta com este vasto país, criando uma nova situação de exclusão ou, no mínimo de diferenciação, entre os membros iluminados da intelligentsia e aqueles que, mesmo formando uma grande parte do país, são, segundo este olhar, analfabetos políticos, ignorantes religiosos, facilmente manipuláveis e/ou pouco conhecedores da própria história. 

Portanto, podemos aproveitar estas comemorações para refletirmos sobre os significados dos eventos em si mesmos. Isso já seria suficiente para não as usarmos como base de analogias históricas que, embora possam ser úteis e interessantes, podem também se transformar em armadilhas metodológicas que nos aprisionam em análises fotográficas. Contudo, podemos e devemos aproveitá-las para refletirmos sobre as trajetórias históricas e sobre como os elementos que as compõem são recombinados ao longo do tempo, de modo a produzir resultados diversos e novos contextos a partir de mudanças e permanências. Os cem anos que separam a Independência do Brasil da Semana de Arte Moderna de 1922 podem servir de inspiração para refletirmos sobre o século ou mesmo os dois séculos que se encerrarão em 2022. E principalmente, sobre os motivos que nos dificultam em realizar uma sociedade, no longo prazo, realmente moderna, inclusiva e mais democrática do ponto de vista político, social e econômico.  Mas, também, estético, artístico e ético.  

*Pesquisa realizada  pelo Datafolha revela que, em 2008, 82% da população brasileira não sabia   o que tinha sido o AI5 (Ato Institucional número 5), decretado em dezembro de 1968 pelo governo do presidente militar Artur da Costa e Silva. Este número, em pesquisa realizada pelo mesmo instituto em 2019, foi de 65%. 

Vinícius Müller

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.