O fascismo em camisas verdes

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O Estado da Arte, em parceria com o Projeto Bolsonarismo: o Novo Fascismo Brasileiro, do Labô/PUC-SP — coordenado pelos professores Luiz Felipe Pondé e Eduardo Wolf —, apresenta fragmentos da obra O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo, de Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto.

Lançado pela FGV Editora, a obra é, como Octavio Guedes anuncia em seu prefácio, mais que um livro de história: é “um belo trabalho de investigação, um manual para se entender o Brasil de hoje”.

Com a gentil autorização dos autores, reproduzimos aqui trechos que trazem o arco do livro, do caráter histórico à atualidade. O primeiro excerto é um trecho do primeiro capítulo, que cobre a caracterização do integralismo como expressão fascista. O segundo excerto é um recorte do quarto capítulo, em que os professores Pereira Gonçalves e Caldeira Neto analisam a aproximação de grupos neointegralistas à candidatura de Jair Bolsonaro.

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Nossos profundos agradecimentos aos autores.

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A formação do Sigma: a Ação Integralista Brasileira

A versão brasileira do Mussolini seria, certamente, o próprio Plínio Salgado, que se autodenominava gênio, dando aos intelectuais um papel de destaque nesse novo Brasil: “É preciso que nós, intelectuais, tomemos conta do Brasil. Definitivamente. Temos de romper com a tradição medíocre da política. Estamos fartos de vivermos, nós, intelectuais, à sombra dos poderosos. Queremos mandar.

Havia, portanto, um apelo à participação dos intelectuais na política, obviamente, sobretudo daqueles que fossem conectados com seu projeto nacionalista. A sedução em torno do regime fascista e a crítica à democracia — que era associada ao liberalismo e ao comunismo — foram elementos que o moveram nessa euforia em torno da política italiana.

Apesar de sua admiração pela política italiana e sua clara influência sobre ele, Plínio buscava colocar-se em posição de destaque no cenário político brasileiro. Seu objetivo era ser uma espécie de marco zero, por isso dizia não ter sido inspirado pelo fascismo, pois possuía ideias formadas. Para ele, era um grande erro pensar que alguém o influenciou. Gostava de discursar que tinha um pensamento próprio, original e sem relação com qualquer outro político ou escritor. Entretanto, o que se viu foi o contrário.

Há diversos indícios das relações entre Plínio, o integralismo brasileiro e outras organizações conservadoras e fascistas. Um deles foi o Integralismo Lusitano, movimento conservador inspirado na Action Française — uma das precursoras do conservadorismo organizado. Ambos se inspiravam no modelo de organização social proposto pelo papa Leão XIII, por meio da encíclica de 1891, a Rerum novarum.

O fascismo italiano foi o elemento sedutor para o líder integralista, e os militantes sabiam disso. Era justamente a imagem fascista que carregava multidões para formar as fileiras do integralismo. Um dos mais destacados militantes, Roland Corbisier, não tinha dúvidas: “Claro que era fascismo!”

Plínio Salgado (Reprodução: Arquivo Público do Paraná)

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O neointegralismo do século XXI: das redes sociais à violência política

Bolsonaro despontava como líder do sentimento antipetista que havia se desenvolvido, com força, desde as marchas de 2013 e no processo de deposição de Dilma Rousseff. Não tardou a ser reconhecido como o candidato das novas direitas. No início da campanha eleitoral, a Frente Integralista Brasileira (FIB) publicou um texto em que, parafraseando, mais uma vez, o trecho de abertura do Manifesto comunista de 1848, denunciava um perigo ao Brasil.: “Um sério e grave perigo ronda a nossa amada Terra de Santa Cruz.” O discurso e o imaginário anticomunistas seriam utilizados novamente contra os partidos de esquerda, em especial o PT.

Nesse momento inicial, os grupos neointegralistas não se engajaram na campanha de Jair Bolsonaro (PSL) e de seu vice, General Hamilton Mourão (PRTB), mas algumas relações ficaram nítidas em questão de tempo. O PRTB, como visto, se relacionava com alguns grupos neofascistas, como a Frente Nacionalista. No dia 22 de setembro de 2018, a FIB divulgou um vídeo em que Victor Barbuy aparecia ao lado de Rodrigo Tavares, candidato ao governo de São Paulo pelo PRTB, em coligação com o PSL. No vídeo, gravado na sede do partido, o presidente da FIB indica o voto em Tavares e em Levy Fidelix, candidato a deputado federal: “Todos estamos unidos em defesa de Deus, da pátria e da família.” Ao fim do vídeo, Rodrigo Tavares fez a defesa do lema integralista e, juntamente com Victor Barbuy, fizeram a saudação integralista: “Anauê!”

Cartaz da Ação Integralista Brasileira (Reprodução)

Em outros momentos, Victor Barbuy apareceu ao lado de Levy Fidelix. O líder do PRTB segurava um exemplar do livro O pensamento revolucionário de Plínio Salgado, antologia organizada pela antiga militante integralista Augusta Garcia Rocha Dórea — esposa de Gumercindo Rocha Dórea. Dessa forma, afirma a existência de algumas similaridades de suas propostas com o pensamento integralista, principalmente ao dizer: “Deus, pátria e família, é o que queremos para todos os brasileiros.”

Essa aproximação entre a FIB e o PRTB foi intensa. Logo, os dois principais candidatos do PRTB paulista incorporaram o lema integralista nas suas campanhas, da inserção em horário eleitoral gratuito aos santinhos distribuídos nas ruas. Além da sinalização de voto ao PRTB em São Paulo, a FIB indicou outros candidatos. No Distrito Federal, a indicação foi no destacado membro Paulo Fernando Melo da Costa, vinculado ao Patriota.

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Durante o segundo turno, o clima de radicalização das direitas tornou-se ainda maior. Os eventos de campanha de Jair Bolsonaro eram atos em que era possível ver algumas bandeiras comuns a diversos movimentos antidemocráticos: crítica ao STF, aos partidos políticos e pedidos de retorno à ditadura, além de elogios a torturadores.

Os integralistas voltaram a participar das marchas, em especial daquelas realizadas na cidade de São Paulo. No ato realizado em 21 de outubro, Victor Barbuy foi um dos oradores entre os diversos carros de som estacionados na avenida Paulista. Após se apresentar e mencionar a FIB, Barbuy disse que rejeitava qualquer hipótese de vinculação do pensamento integralista com o fascismo italiano e o nazismo. Ao afirmar apoio ao candidato Jair Bolsonaro, declarou:

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“No próximo dia 28, nossa escolha não será entre Bolsonaro e Haddad, mas, sim, entre o Brasil e o antibrasil […] é nosso dever votar no candidato que menos distante se encontra dos valores cristãos e brasileiros consubstanciados no lema ‘Deus, pátria e família’. Sejamos a onda verde e amarela que destruirá a onda vermelha lulopetista! A nossa bandeira é verde e nela jamais brilhará nenhuma estrela vermelha!”

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(Reprodução)

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