A miséria da vida, a miséria da forma

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A miséria da vida, a miséria da forma

Álvaro Lins leitor de Jorge Amado

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Álvaro Lins na sua posse na Academia Brasileira de Letras, 1956

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por Eduardo Cesar Maia e José Roberto de Luna Filho

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Houve um tempo — acreditem — em que a crítica literária desempenhava um papel central na vida cultural brasileira, pelo menos entre aqueles que faziam parte do chamado “mundo letrado”. O debate literário era divulgado e reverberado fundamentalmente através dos periódicos jornalísticos; e os críticos mais influentes costumavam ter suas colunas nos maiores jornais das grandes cidades do País. Os textos críticos, relativamente curtos e de tom muitas vezes personalista — o que se refletia no apuro retórico e estilístico — eram publicados nos chamados “rodapés” desses diários. A linguagem, ainda que muitas vezes rebuscada estilisticamente, era normalmente fluida e clara, porque levava em conta o leitor não especializado. A frialdade analítica e a impessoalidade, tão comuns na crítica acadêmica que então começava a ganhar espaço, não eram predicados relevantes para a maioria desses críticos. O apego a formulações conceituais rigorosas e a jargões teóricos, pré-requisitos do discurso científico que começava a se impor no campo das Humanidades, tampouco eram características comuns a essa crítica jornalística. Mas havia uma coisa fundamental no exercício público da crítica literária: o crítico efetivamente encontrava um caminho de diálogo e influenciava o gosto dos leitores, principalmente quando tratava de obras recém-publicadas e de autores ainda não entronizados. Estamos falando da crítica jornalística que se desenha ainda no século 19 e alcança a primeira metade do século 20.

As décadas finais desse período foram marcadas pela proeminência inconteste de uma figura muito particular: o pernambucano Álvaro Lins, que tinha seu rodapé literário no importantíssimo Correio da Manhã. Intelectual incansável, resenhou os mais importantes livros lançados durante a era modernista/moderna de nossa literatura — talvez sua fase mais prolífica e interessante. Isso quer dizer que Lins resenhou livros de Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector e Guimarães Rosa quando eles ainda não trajavam as túnicas sagradas da glória literária.

Só por isso, ler Álvaro Lins já se torna um dever incontornável para compreender aquele período e suas reverberações em nosso tempo. Mas há um outro aspecto, que diz respeito a seu método crítico, que merece também ser comentado e revisitado, principalmente numa época como a nossa. Por acercar-se ao texto através de uma perspectiva humanista, que, por si só, é ampla e antidogmática, podia mobilizar os mais diversos conhecimentos nas suas análises. Isso porque tentava compreender quais ideias melhor dialogariam com a visão de mundo que depreendia das obras. Afinal, percebia a ficção literária não como mero deleite, nem como um veículo de discursos ideológicos dogmáticos, mas como forma particular de acesso à realidade humana. É particularmente instrutiva, nesse sentido, as críticas que dedicou à obra de Jorge Amado.

Álvaro Lins, como se sabe, não era um comunista, e nem mesmo um simpatizante — ainda que distante — dos ideais da esquerda naquele período de sua vida. Mas isso não implicou, na leitura dos romances de Jorge Amado, algum tipo de repreensão ideológica infértil, que partiria da condenação a priori dos ideais defendidos pelo escritor baiano, propondo a substituição deles pelos do crítico. Não, deu-se justo o contrário: Lins tentou compreender o texto dentro da sua própria realidade enquanto obra de arte literária, dentro de uma espécie de mundividência particular conferida aos objetos estéticos. Aquilo que ela nos pode oferecer de bom e o que poderia ser aperfeiçoado num romance, por exemplo, só devem ser colocados a partir dessa mesma consideração: de que se trata, antes de qualquer coisa, de um fenômeno artístico.

O tom da crítica de Lins a Amado reflete uma tentativa real de diálogo, de apontar possíveis qualidades e defeitos; e mesmo de ajudar um escritor, que o crítico considerava talentoso, a melhor desenvolver seu potencial. Nesse sentido, é interessante a nota adicionada pelo próprio Álvaro Lins em trecho que critica um procedimento formal do escritor baiano: “[…] já neste estudo — e a despeito da data: 1943 — buscava estimular Jorge Amado no sentido de suas ideias políticas de então, e não no caminho reacionário da arte pela arte ou da arte torre de marfim” (LINS, 2015, p. 105). Ou seja, como já dissemos, nunca foi objetivo do crítico realizar as reprimendas de caráter moral e/ou teórico (como muito se fez) diante de um romance com claras inspirações marxistas, mas sim tentar compreender como se constrói aquela linguagem e perceber quais são suas qualidades e falhas. Vejamos, então, de modo mais detido, a análise de Álvaro Lins.

Comecemos por uma crítica de 1943 intitulada Valor instintivo de romancista e miséria objetiva de escritor. O objeto da reflexão é o então recém-saído romance Terras do sem-fim, publicado quando o escritor estava em exílio. O primeiro comentário é positivo: para Álvaro Lins, as preocupações políticas e sociais conseguiram encontrar uma forma literária na obra. Isto é, a narrativa não parece uma desculpa para serem colocadas em circulação ideais políticos, pois os ideais políticos emergem como consequência verossímil do que é narrado. Sobretudo porque os acontecimentos conseguem inspirar horror e tristeza àqueles que não compartilham da mesma visão ideológica.

Há, então, na perspectiva marxista plasmada literariamente com êxito, certo traço íntimo que permitiria uma contemplação do mundo plural e multissignificativa que é bem explorada nessa narrativa: “o horror de uma situação social igual à da escravidão — aquela do capitalismo do cacau — provoca sentimentos idênticos nos homens mais diferentes e separados. E isto representa um dos privilégios da literatura” (LINS, 2015, p. 101-2). De certa forma, podemos dizer que essa é uma excelente falha no projeto romanesco de Jorge Amado. É uma falha porque não parece convencer o crítico da inexorabilidade da solução apontada pelos marxistas aos problemas do mundo. E é uma excelente falha pelo mesmo motivo: porque permite transmitir uma indignação diante da miséria social que habita os desmandos de um capitalismo atrasado e patrimonialista nas plantações de cacau. E provoca tal sentimento mesmo no leitor que não compactue com seu ideal. Isso graças à literatura: porque se trata de um romance, não de um estudo ou panfleto. E a literatura, segundo nos diz Álvaro Lins, tem esse lugar privilegiado de unir os seres sem enquadrá-los.

O crítico chama atenção para os processos literários justamente porque, em muitos casos, Jorge Amado se descuida em relação à realização estética e à composição literária. Para Lins, mesmo nos melhores romances do autor de Mar morto, podemos observar uma paradoxal convivência entre o bom e o péssimo. Seu talento quase intuitivo para compor histórias excelentes é praticamente afogado pela sua completa imperícia de romancista, que sequer sabe bem distinguir o simples do complexo. Aliás, é no simples que sua obra se torna complexa, porque os personagens do povo, vistos como pessoas rasas pelos padrões da cultura letrada, ganham uma psicologia mais profunda.

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Jorge Amado

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Jorge Amado seria, então, nesse sentido, um bom observador das gentes simples. É capaz de perceber nas pessoas marginalizadas o que têm de mais poético, mesmo nas suas relações mais cotidianas. No entanto, quando essas mesmas criaturas parecem exigir maior complexidade de análise, prefere recair na simplificação irreal e grotesca. Talvez seja um bom exemplo a figura de Balduíno, do romance Jubiabá. Quando se encontra ferido de tantas derrotas em sua vida, se vê novamente feliz quando abandona seus problemas subjetivos e entra na causa operária. É inegável, por outro lado, que se trata de uma personagem excepcional na maior parte da história. O mesmo ocorre quando tem de lidar com as figuras de maior poder econômico: todas são bastante planas e parecem ser iguais. Isso pode ser consequência de um projeto explícito de condenar a “burguesia”, mas, na composição do romance, é um grande defeito. Aliás, um defeito desnecessário, que poderia ser corrigido em obras futuras sem prejuízo de seus ideais.

Para Álvaro Lins, então, o problema não estava na presença de ideias que apontem a algum tipo de ideal político; o problema estava no descuido em relação a como ideias políticas são literariamente formatadas no romance. Um romance falha como literatura não quando apresenta vocação ideológica, mas quando essa característica se apresenta através de ideias desencarnadas, como dizia o crítico francês André Maurois. Para Lins, o romance podia justificar a si mesmo, em sua inovação, pela temática revolucionária (que de fato era inovadora); mas precisaria encontrar a composição adequada para tal, e não repetir formas passadistas de literatura, acreditando que, para ser revolucionário, basta enxertar, aqui e ali, brados partidários. Ou seja, nos momentos em que não tratava do clímax da questão analisada na narrativa, o livro encarna um gosto romântico caricato pela palavra, pela sentença poética. O crítico cita um trecho como exemplo, mas vale citar o parágrafo inteiro, a fim de melhor evidenciar o juízo negativo:

A mata dormia o seu sono jamais interrompido. Sobre ela passavam os dias e as noites, brilhava o sol do verão, caíam as chuvas do inverno. Os troncos eram centenários, um eterno verde se sucedia pelo monte afora, invadindo a planície, se perdendo no infinito. Era como um mar nunca explorado, cerrado no seu mistério. A mata era como uma virgem cuja carne nunca tivesse sentido a chama do desejo. E como uma virgem era linda, radiosa e moça, apesar das árvores centenárias. Misteriosa como a carne de mulher ainda não possuída. E agora era desejada também (AMADO, 2008, p. 37).

Assim como ocorria com alguns escritores naturalistas brasileiros, a face objetiva e reconstrutora da realidade às vezes se perdia para recair em um sentimentalismo romântico. Neste caso, é ainda mais patente a influência do gosto pela retórica romântica em razão da descrição do idílio natural. Não é que fosse errado, é só que, na visão de Álvaro Lins, essas partes são demasiado frequentes, daí que o crítico haja considerado que por vezes Jorge Amado fizesse o mau gosto de troféu.

Ainda nesse caminho argumentativo, Álvaro Lins critica a escolha feita pelo romancista em ampliar a extensão do livro, enxertando um caso amoroso dos mais folhetinescos. Para ele, romance popular não é romance frouxo, mal construído. O problema está na quase incapacidade de Jorge Amado em desenvolver até o fim suas inovações estéticas; em vez disso, decide recair na pura convenção formal que estava em voga nos períodos anteriores à renovação da linguagem romanesca de nosso país. Não era contra essa convenção ultrapassada que se levantaram tantos os artistas de 1922 como os de 1930? É por isso que a análise do romance não pode ser baseada em uma perspectiva restrita, do contrário, será considerada obra excelente aquela que tão somente cumpra aqueles critérios preestabelecidos: e o resto, convencionalíssimo, pode continuar como está.

Mas essa crítica, como já dissemos, não quer tornar a obra de Jorge Amado outra; ao contrário. Quer, ao dialogar com as ideias do escritor, que ele seja capaz de melhor desenvolvê-las em forma literária. Afinal, e esse é o ponto central da crítica de Álvaro Lins, um romance mal escrito não é capaz de alcançar seu papel crítico diante da sociedade, de passar aos mais distintos leitores os males da sociedade. Um romance mal escrito falha como arte e como manifesto: fala apenas aos já convertidos, é incapaz de levar os contrários à reflexão. Aqui se sobressai o caráter humanista de Lins. Pois a literatura está longe de ser um deleite inocente ou passatempo descompromissado; a literatura seria, na verdade, um meio privilegiado de compreensão da realidade, de transmitir uma mundividência que, sem a forma ficcional, não seria possível.

É bastante curioso que Álvaro Lins, um crítico praticamente abandonado pelos estudos literários contemporâneos, pareça-nos hoje muito mais atual em sua concepção da atividade crítica do que muitos dos seus adversários, que alardeavam o fim da crítica jornalística e a ascensão do paradigma teórico-acadêmico como única possibilidade de uma crítica cientificamente relevante. Em 2022, ano que promete aprofundar as guerrilhas e os entrincheiramentos ideológicos no Brasil, a lição de autonomia intelectual e de abertura ao diálogo que nos deixou o crítico pernambucano merece ser reavaliada.

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Álvaro Lins e o presidente Juscelino Kubitschek, 1956

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Referências:

AMADO, Jorge. Terras do sem-fim. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

LINS, Álvaro. “Valor instintivo de romancista e miséria objetiva de escritor”. In: LINS, Álvaro. Sete escritores do Nordeste. MAIA, Eduardo Cesar (Org.). Recife: Cepe, 2015.

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Eduardo Cesar Maia é Professor do curso de Comunicação Social (CAA) e do Programa de Pós-Graduação em Letras (Teoria da Literatura) da Universidade Federal de Pernambuco.
José Roberto de Luna Filho é Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco.