Kafka e os Diários: uma conversa com Sergio Tellaroli

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Tudo para Kafka era metabolizado em literatura. A prova disso são seus Diários, um dos monumentos literários do século xx traduzido integralmente pela primeira vez no Brasil em lançamento da todavia.

Para o Estado da Arte, Ana Cristina Braga Martes conversou com o tradutor Sergio Tellaroli, sobre Kafka, os Diários, a tradução e tudo o mais.

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(Reprodução)

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Você trabalhou com as obras do Kafka na iniciação científica e na pós-graduação. Quais são os maiores desafios que um tradutor de língua portuguesa tem que enfrentar para traduzir este autor?

O foco tanto da iniciação como do doutorado, que nunca escrevi, era sobre a Contemplação e seu caráter “exemplar”. Queria mostrar que nessa obra já se encontravam todos os elementos que iriam caracterizar o chamado “Kafka maduro”, ou seja, o Kafka a partir de O veredicto. O veredicto é de setembro de 1912, mas vários textos da Contemplação também são. Cheguei a fazer uma extensa pesquisa em Marbach, onde fica o maior arquivo literário da Alemanha e onde está o manuscrito de O processo, e passei inclusive pela qualificação, mas acabei desistindo. Tinha, sim, portanto, um contato anterior e acadêmico com a obra de Kafka. Tradução, porém, é outra coisa. Ela passa, é claro, pelo estudo e pelo entendimento ou interpretação da obra, mas demanda outras habilidades, sobretudo a de conseguir verter o original para o português, não é? Isso o saber acadêmico não te garante. Só mesmo a experiência de traduzir e a técnica que você vai desenvolvendo ao longo do tempo, além de, claro, muita pesquisa direcionada para problemas específicos que vão surgindo.

No caso dos Diários, foram várias as dificuldades, mas creio que a principal tem a ver com o caráter de um diário, que não é escrito para comunicar alguma coisa aos outros, e sim um diálogo com você mesmo. Aí você pode ser sucinto, esquemático, pouco claro (se não tiver clareza sobre o que está registrando). É flagrante nos Diários a diferença entre as entradas propriamente pessoais, ou seja, aqueles típicas de um diário, e os esboços literários. A estes se aplicam os códigos e as regras do fazer literário, da comunicação pela via da literatura, e aí temos parâmetros objetivos também a nos guiar na interpretação do que está sendo dito e como. Ao longo da tradução, essas passagens deliberadamente literárias foram para mim uma espécie de oásis. Digo isso porque, como tradutor de literatura, se me vejo diante de um texto literário, sei o que fazer. O mesmo não se aplica à anotação puramente subjetiva e, muitas vezes, enigmática, de caráter estritamente pessoal, como muitas vezes acontece nos Diários, sem contexto nenhum de que o tradutor possa se socorrer.

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E do ponto de vista da linguagem? Algum desafio especial na tradução dos Diários?

Não há nada de revolucionário na linguagem de Kafka. Na sua literatura, o fator preponderante para mim está na lógica que ele cria. É um processo de afirmar, negar, voltar a negar a negação, e o leitor — ou, antes, o próprio narrador — rodopia em círculos, até se ver num beco sem saída. Acho A construção um conto exemplar nesse sentido. O que para mim define o termo “kafkaniano” é essa lógica labiríntica, como muito bem a definiu Modesto Carone, graças a quem, aliás, lemos Kafka desde a década de 1980 em traduções primorosas. Antes disso, as traduções eram feitas do francês ou do inglês. Mas, do ponto de vista da linguagem em si, do alemão, não posso dizer que os Diários sejam particularmente desafiadores. Desafiador é Kafka, e não seu alemão.

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Nos Diários fica claro que o único texto que Kafka escreveu nesse período e gostou foi O veredicto. Me parece que isso está ligado aquilo que ele acreditava ser um processo criativo autenticamente literário, por um lado, e ao fato de este texto ter sido finalizado, por outro. Você concorda?

O veredicto foi escrito numa única noite, de uma só vez.  Kafka não dispunha do tempo de que necessitava para escrever, isso fica claro nos Diários. E escrita é, em grande parte, ritmo — cada interrupção provoca um retrocesso. No caso de O veredicto, ele alcançou controle total sobre a escrita, pôde começar, desenvolver e finalizar o texto de uma vez só. Não sou estudioso da obra de Kafka e muito menos biógrafo, mas é isso que entendo quando ele diz que só assim é possível escrever. Talvez isso ajude a explicar por que ele não concluiu nenhum dos romances. Em nenhum deles pôde “mergulhar” como fez em O veredicto.

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Especificamente sobre o processo criativo, numa passagem dos Diários, Kafka escreve que nada mais fez do que imitar, na sua escrita, Charles Dickens e cita David Copperfield. Como entender essa autodeclaração?

Kafka se refere ao David Copperfield só em relação específica a O foguista e ao romance O desaparecido. A afirmação não se aplica a sua obra como um todo. Entendo que, em O desaparecido, ele pretendia escrever uma espécie de romance de formação, acompanhando a vida e a formação de um garoto. É aí que entra a “imitação de Dickens”. Mas os Diários só contemplam o começo dessa história, que, aliás, não tem fim, porque Kafka não chegou nem perto de concluir o romance.

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A quem este livro pode interessar e quais são os temas abordados?

Aos leitores interessados no Kafka e na literatura, nas suas várias dimensões. O mais importante é que eles foram escritos por um dos maiores autores do século XX e nos permitem espiar seu processo criativo, quando não ler verdadeiras obras-primas, concluídas ou não, que foram registradas em suas páginas.

Não são, em si, literatura, apenas porque foram escritos por um grande escritor. Mas têm passagens de grande valor literário, certamente de interesse ao leitor de Kafka, além de muitas vezes explicitarem sua visão da escrita e da literatura, a própria e a dos outros. Claro, mostram também o ser humano atormentado, muitas vezes desesperado, mas banal também, brincalhão ou superficial — o ser humano de carne e osso — e, por vezes, entranhas. E nos dão um amplo panorama literário, sociopolítico, humano etc. do tempo e do lugar em que ele viveu.

Para resumir rapidamente, eu diria que os principais temas abordados nos Diários são: o trabalho cotidiano no escritório versus escrever literatura (o principal conflito de sua vida); a vida familiar e seus conflitos, a paixão e o interesse pelo teatro iídiche (despertada pela trupe teatral que chegou a Praga no fim de 1911), o relacionamento sobretudo com Felice, as conversas e encontros com os amigos (especialmente Max Brod) e com certo círculo literário, seu dia a dia, seus problemas de saúde.
A mim, o que mais me chamou atenção foram a ideia de literatura, os comentários à própria obra e, sobretudo, os esboços literários. Sou meio antigo: a mim me interessa sobretudo a obra. A vida particular do autor, nem tanto, embora, em se tratando de Kafka, seja difícil a gente ficar alheio à vida pessoal.

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Os Diários foram escritos de 1909 a 1923. Mas nem todos os textos escritos neste período foram esboçados ali. Também é curioso que vários textos, jamais finalizados, sequer desenvolvidos, possam ser encontrados nos Diários. Queria que você comentasse.

Kafka publicou 40 textos principais em vida. Não é propriamente uma produção escassa. Começou com duas publicações. Alguns contos que acabariam integrando Contemplação foram publicados em 1908, na revista Hyperion, e em 1910, no jornal Bohemia. Depois, publicou, ainda em 1913, Contemplação (18 contos), O veredicto e O foguista; em 1915, A metamorfose; em 1919, Na colônia penal e Um médico rural (14 contos); e, em 1924, Um artista da fome (4 contos).
No total, portanto, 40 textos. Um artista da fome foi publicado postumamente, mas Kafka já tinha concluído os textos. Outras 11 narrativas menores foram publicadas apenas em jornais ou revistas. Os romances, publicados postumamente com edição de Max Brod, lhe deram notoriedade, mas Kafka seria “menor” se só tivesse publicado esses contos?

Nos Diários, são várias as histórias começadas que a gente lamenta muitíssimo ele não ter desenvolvido e terminado. Que os Diários de Kafka são também um lugar do fazer literário é o que mostram O veredicto, O foguista, vários dos textos de Contemplação e todos os ensaios que Kafka faz aí, por vezes modificando diversas vezes um mesmo texto, dando pistas de como escrevia. E ele faz também comentários reveladores, como ao dizer que Karl Roßmann e Josef K. são “o inocente e o culpado”. No começo de O processo (e durante todo o romance), Josef K. afirma não saber do que está sendo acusado, mas, como se sabe, ele é executado na cena final. Roßmann, por outro lado, não é executado em O desaparecido, mas essa passagem dos Diários deixa claro que ele seria morto no decorrer ou no fim do romance. Só que se trata de uma passagem que Kafka não chegou a escrever.

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Você fez também um trabalho de pesquisa extenso, quase artesanal, sobre as fontes, a ordenação da cronologia etc. Como foi esse processo?

Toda tradução demanda muita pesquisa. Desde a pesquisa constante em todos os dicionários possíveis, que é a primeira e mais óbvia, passando pelos trabalhos dos colegas tradutores e até as pesquisas localizadas e suscitadas pelas referências feitas nos Diários. Minha pasta de trabalho tem 133 arquivos, só para dar um parâmetro. São textos que precisei juntar para entender uma coisa ou outra. Consultei duas traduções espanholas, duas traduções francesas, uma tradução portuguesa (de Portugal), uma tradução inglesa/americana, uma tradução italiana, uma tradução romena, a edição de Max Brod dos Diários, uma cronologia de Rainer Stach, as traduções do Modesto Carone da Contemplação, de O foguista e de O veredicto, e por aí vai. Sem considerar, claro, que cada volume dos Diários (três volumes na minha edição) tinha cerca de 200 páginas de notas, na edição crítica. Em quase 600 páginas dos Diários, com referências médicas, literárias, teatrais, locais (ruas e localidades de Praga e arredores) etc., fica difícil quantificar. Até o limite das possibilidades, pesquisei tudo o que foi possível para compreender o texto. Isso é parte de todo trabalho de tradução. E, claro, me ajudou também tudo que eu já tinha lido de e sobre Kafka, na pós-graduação ou como mero leitor. Não sou um estudioso da obra de Kafka; sou um tradutor que, por acaso, já tinha me dedicado uma vez na vida a estudar Kafka. E, claro, me ajuda o fato de eu traduzir do alemão há mais de 30 anos.

Uma das poucas vantagens de nosso fabuloso atraso cultural é sermos — nós, os brasileiros — dos últimos a publicar obras capitais da literatura universal. Aqui vai um exemplo simples: Jakob von Gunten, do suíço Robert Walser, foi publicado originalmente em 1909. A edição brasileira (que traduzi) é de 2011. Não me dou o direito de cometer os mesmos erros já cometidos anteriormente. Por isso, preciso saber onde eles estão. Não cometo erros? É claro que sim, e provavelmente muitos. Mas, se é para cometer erros — e, em tradução, isso é inevitável —, prefiro cometer outros, erros novos. Daí eu entender como fundamental, num trabalho como esse, a pesquisa também nos trabalhos dos colegas tradutores de outros países, para aprender tanto com seus acertos como com seus erros.

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Nos Diários você faz uma espécie de apresentação do trabalho de tradução. Nela, você escreve:  “O que se deseja aqui é, antes, apresentar ao leitor brasileiro o texto integral dos Diários na forma exata como ele foi escrito, ou seja, sem as intervenções de Max Brod, cuja edição exclui passagens consideradas comprometedoras ou mesmo quase incompreensíveis, bem como textos literários publicados à parte, entre os quais O veredicto e O foguista, para citar apenas dois”. Os Diários não foram escritos para serem lidos por outras pessoas. É um registro pessoal do autor, embora você comente, também na apresentação, que ele foi entregue a Milena Jesenská em 1921. Como eles foram parar nas mãos de Max Brod? E o que ele fez com os Diários. Quais foram as passagem que ele subtraiu?

Eu não sei te dizer, assim, de cabeça, qual foi a trajetória dos manuscritos. Que Kafka entregou os Diários a Milena é dito expressamente numa das entradas. Milena foi tradutora de Kafka e teve com ele um relacionamento que se desenvolveu sobretudo por intermédio de cartas. Brod excluiu de suas edições dos Diários passagens que julgava comprometedoras (passagens mais íntimas, umas poucas de caráter sexual, por exemplo, nomes completos de pessoas ainda vivas etc.), mas também passagens incompreensíveis ou pouco claras. E excluiu textos literários que seriam publicados em separado, depois. Ele os editou, de acordo com aquilo que, suponho, julgava melhor para o amigo. A própria edição de O processo é contestada, mas hoje temos tudo isso na chamada versão do manuscrito. Todos podem ler, na íntegra, o que Kafka escreveu e como ele o escreveu.

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Como você define seu trabalho? O que é ser tradutor?

Durante a maior parte da minha vida, eu vivi da chamada “tradução editorial” e, mais especificamente, literária. Minha trajetória começou ainda na graduação, como revisor de tradução. Depois recebi uma proposta para traduzir Elias Canetti, O jogo dos olhos, publicado em junho de 1990. Ao Canetti, seguiram-se Jacob Burckhardt e Friedrich Dürrenmatt. E essa sequência de traduções mais ou menos definiu meu caminho, o tipo de obra que sempre me foi oferecida para traduzir. Poucas vezes escolhi um autor ou obra. Dei a sorte de sempre receber excelentes autores para traduzir. Que eu me lembre, minha única escolha pessoal — ou seja, a única obra cuja tradução propus — foi Jakob von Gunten, de Robert Walser, o que só foi acontecer lá por 2010, mais ou menos. E sempre insisti também para traduzir mais livros do Thomas Bernhard, embora o primeiro (O náufrago, 1996) me tenha sido oferecido, na verdade. Todo o resto me foi proposto, inclusive os Diários. Boa parte das pessoas acha que o tradutor escolhe o que traduz. Não é o meu caso.

O trabalho em si, eu gosto de compará-lo ao do ator. Você procura se pôr na pele de outra pessoa, só que para “escrever como ela”. Toda tradução pressupõe uma interpretação. Se você der o mesmo texto a cinco tradutores, vai, claro, receber cinco traduções diferentes.

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Kafka, c. 1920

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Sergio Tellaroli nasceu em Araraquara (SP), em 1959. Graduado em alemão e inglês pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP), trabalhou nas editoras Ática, Companhia das Letras e Conrad. É um dos mais reconhecidos tradutores da língua alemã no Brasil. Verteu ao português, entre outros, Elias Canetti, Thomas Bernhard, Robert Walser e Sigmund Freud. Como bolsista, tem diversas temporadas pelo Colégio Europeu de Tradutores de Straelen, na Alemanha, onde foi “Translator in Residence”, de abril a junho de 2011.

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Ana Cristina Braga Martes é escritora e socióloga, formou-se em Ciências Sociais pela UNESP/Araraquara, fez mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP) com bolsa sanduíche no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi Pesquisadora Visitante na Universidade de Boston (BU) e fez pós-doutorado na Universidade de Londres (King’s College). Publicou e organizou diversos artigos e livros acadêmicos. A origem da água (2019) é seu primeiro romance. Atualmente é colunista da Revista Pessoa.