Lebedev: um poeta contra Stálin (parte 2)

Soljenítsin e Putin

por Astier Basílio

Imaginei um café, talvez nas cercanias de Chistye Prudy, ao qual eu chegaria antes. Checaria, nas folhas com as perguntas, algumas palavras grifadas em vermelho e repassaria a pronúncia em russo delas. Eu estaria bebendo uma água mineral com gás quando Sergei Lebedev chegasse e eu o saudaria à maneira russa, com nome e patronímico, dizendo: “obrigado por ter aceito o convite, Sergei Sergeivich”. Mas não aconteceu assim.

Acompanhando a esposa, Sergei Lebedev, de 38 anos, passará os próximos dois anos em Berlim, na Alemanha. Nossa conversa se deu por Skype. E em inglês, com algumas palavras e expressões em russo. Senti-me num jardim, do qual era possível ver o busto do escritor Pushkin, poeta que dá nome ao instituto no qual curso mestrado em literatura. A imagem que me apareceu mostrou-o em um quarto com alguns papéis colados com imagens que não consegui identificar. Estava com um fone de ouvido com microfone. Bebia, o que imagino ser chá, em uma caneca. Eram 17 horas, em Moscou, quando esta entrevista teve início.  

Começo mal. Por um descuido meu, julguei dele uma história referente a um amigo seu, que se encontrou, nos Estados Unidos, com um tio-avô, sobrevivente de um campo de trabalho forçado, da época de Stálin. A história ocorreu com um amigo, não com ele. Perco meu roteiro. Recordo que uma de suas maiores influências é Joseph Brodsky. Pergunto se há algum autor não-russo que ele considere de igual importância. 

Meu favorito é Marcel Proust. Quando se trata da questão da linguagem, escrever sobre o passado soviético é algo um tanto ardiloso. Porque se você escrever sobre o passado soviético com a mesma linguagem soviética você como que cai numa armadilha. Tudo o que nós sabemos sobre o passado é muito impreciso e desperto. Existe e não existe ao mesmo tempo. Então, é preciso ter uma linguagem bem específica, vamos dizer assim, uma linguagem antissoviética. Uma linguagem que ponha fora os feitiços, jogue fora essa magia obscura dos tempos soviéticos. De modo que, neste caso, o meu professor foi, claro, Marcel Proust, na prosa, com sua precisão, com uma raiz para cada fenômeno e Brodsky, com sua precisão poética. Porque com os sentidos da poesia é possível fixar, capturar, estas questões um tanto imprecisas. 

Li Oblivion. Em inglês. Ontem, enquanto terminava de de gravar e traduzir esta entrevista, li a abertura em russo. É completamente de outra natureza o trato que Lebedev dá ao som e à escolha precisa das palavras. Uma artesania e um requinte que se perdem na tradução, por mais bem feita que tenha sido. Lebedev também é poeta. Publicou poemas na tradicional revista Zvezda. Fiz menção ao fato de que a prosa instaurava uma atmosfera reflexiva pela palavra. Perguntei em que medida a poesia contribuía nisso.

Quando estou me preparando para escrever, eu viajo muito. Então, eu viajo a muitos lugares que mantêm relação com meu romance. Algumas vezes, eu trabalho com arquivos, mas, algumas vezes, muito frequentemente os arquivos não ajudam. Não há documentação, não há coisas ou fatos reais dos sobreviventes. E neste caso é preciso ser uma espécie de explorador, é preciso sentir algo; é preciso buscar, ou procurar por sinais, e neste caso você usa a poesia como uma espécie de dispositivo mágico para olhar pelas cidades, pelas vilas, nos lugares que tem a ver com o passado dos personagens. E com os sentidos da escrita poética, de repente, é possível captar algo que não está na realidade, um entendimento que se alcança apenas quando se está terminando de escrever um poema.

Não são poucas as vezes em que Lebedev faz uso da metáfora. Em Oblivion, o falso avô, cujo passado é objeto de investigação, é um cego. A construção desse efeito se arraiga com força e verdade dentro de um universo coeso. Comento esse aspecto. 

Sabe, a melhor metáfora é aquela que é comprovada pela própria vida. Na verdade, quando eu trabalhava como geólogo em meados dos anos 90, no norte de Rússia, eu conheci alguns dos antigos guardas de campos de trabalhos forçados, eles já eram velhos, e todos eles tinham tendência à cegueira. E isso é bastante explicável: por causa da ausência de vítimas. Melhor dizendo, essa tendência tem razões bastante naturais, mas também uma metáfora muito forte e convincente quando você vê não apenas um, mas vários deles que simplesmente fecham seus olhos para o passado.  Isto é o melhor momento da vida, quando a metáfora é produzida pela própria vida.

Poucos dias após a editora russa me dar o email de Lebedev, recebi um convite de amizade dele no Facebook. Olhando seu perfil, vi fotografias de idas suas a antigos gulags. Encontros com sobreviventes. Vi-o posando ao lado de um monumento a Varlam Chalamov – autor de Contos de Kolimá (publicado no Brasil, em dois volumes, pela editora 34, em 2015 e 2016, com respectiva tradução de Elena Vasilevich, Denise Sales; e Cecília Rosas). No começo de seu texto na New York Review of Books, Orlando Figes escreve: “Desde Alexander Soljenítsin que a Rússia não tem um escritor tão obcecado com a história de seu país ou pelos marcas deixadas na consciência coletiva como Sergei Lebedev”. Pensando em minha leitura de Os escombros do mito – a cultura e o fim da União Soviética (Companhia das Letras, 1997), concluí que havia uma rivalidade entre Soljenítsin e Chalamov — no Ocidente, o brilho da obra de um eclipsou o trabalho do outro. Citei o artigo de Figes. E falei: se não estou enganado, me parece que você é mais próximo de Chalamov, não é?

Sim.

Há alguma razão especial para isto?

Eu acho que a primeira razão é que Chalamov é um escritor melhor. Porque ele trouxe a arte da prosa a um território que antes não havia sido habitado nem pela arte, nem pela prosa. Porque os campos de concentração de Kolimá foram os piores da União Soviética e a vida dele lá, no final de contas, não foi vida: foram pequenos lampejos de consciência, pequenos lampejos de sua mente, dentro das trevas eternas. E o fato de que Chalamov ter sido capaz de descrever, e de ter sido capaz de encontrar uma maneira própria, não como um romance, porque como romance teria sido uma mentira, não haveria continuidade numa vida como aquela, mas a coletânea de contos, Contos de Kolimá, eu acho que é excelente peça de arte. Não sobre política, não sobre a luta contra o comunismo, é algo muito, muito mais profundo. E que nos coloca nas verdadeiras fronteiras do humano e vai além até a espaços não-humanos. Eu acho que em termos de arte ele é melhor do que Soljenítsin. Porque Soljenítsin fez o que fez porque era uma coisa verdadeiramente histórica, com grande significado, e tudo o mais, porém Chalamov foi além. 

Pensei que a pergunta tinha sido respondida, me preparei para falar, mas como que despertado, Lebedev retoma o discurso.

Sim, e a segunda razão é que a figura de Chalamov ficou mais clara pra mim porque depois, quando eu próprio testemunhei isto: Soljenítsin apertou as mãos do sr. Putin. Para mim aquilo foi, simplesmente, inexplicável. Então, como é que você pode lutar a vida inteira contra a KGB e então você aperta as mãos de um coronel do serviço secreto? Há algo de errado com ele. Soljenítsin se tornou uma espécie de louco messias russo, eu diria. O que é uma história triste.

Há o provérbio bíblico de que um profeta não faz sucesso em sua própria casa. O escritor mais importante da Rússia, para os russos, é Pushkin e não Dostoiévski ou Tolstói.  Talvez Chalamov seja russo demais, penso. Pergunto sobre isso. Não seria o caso de, nem sempre, as percepções estéticas de um país coincidirem com as do mundo? 

Não creio, na verdade. Do meu ponto de vista, o problema é agora, na verdade. Nós temos poucos escritores que seguem as antigas fórmulas da tradição literária russa. Vou tentar explicar o que eu quero dizer. Na atual prosa russa se escreve sobre tudo no mundo, exceto sobre os problemas atuais, sobre a dor atual, sobre os traumas atuais da sociedade russa.  Em dezembro deste ano, serão 35 anos do início da guerra da Tchetchênia, 35 anos, é mais que um terço de século, é muito. Mas onde estão os livros sobre isso? Nenhum. Não há. Com exceção dos livros de Anna Politkovskaia (jornalista que cobriu a guerra e foi assassinada, em Moscou, em 2006) . Ok. Por uns bons anos nós vivemos em um país religioso e depois, passamos 70 anos como um país antirreligioso. Mas o que aconteceu? Quem somos nós? Não há resposta.  Ok, o regime do sr. Putin e a terrível situação atual, e assim por diante.  Não há resposta, ninguém escreve. E só por causa disso, eu acho, há poucas pessoas, poucos nomes lidos no Ocidente, pois, pela minha experiência, as pessoas no Ocidente esperam que algo seja dito, eles esperam que algo seja explicado sobre o que porra está acontecendo nas terras daqui. E quando eles não recebem resposta e tudo é meio arte pela arte, ou algo assim, ok, mas não há interesse. É claro que Vladimir Sorokin (autor participante da Flip, em 2014, cuja peça de teatro Dostoiévski-Trip foi publicada no Brasil) é um dos que tentam explicar; Svetlana Alexievich não é russa, mas bielorrussa, mas escreve em russo, e ela é uma grande figura, porque ela claramente segue esses sentidos metafísicos muito precisos. Por exemplo Vozes de Chernobyl é, também, o único documento real disponível na Rússia. Isso é inexplicável! Porque Chernobyl foi um acidente da significação muito ampla. Foi um símbolo para toda a população do mundo. Não. Ninguém aqui ficou interessado. Ninguém mais aqui se arriscou a escrever a respeito. 

Não sei bem como fazer a pergunta seguinte. Me enrolo. Inicio mencionando uma série de aulas do escritor russo Dmitri Bykov sobre prêmios Nobel de Literatura. Quando assunto foi J. M Coetzee, Bykov disse que a literatura não era para ter como fim a adaptação cinematográfica, mas, sim, almejar a uma leitura meditativa. Lebedev não escreve para ser adaptado ao cinema, mas para que se pense junto com ele. Fico sem jeito. Mas menciono uma romancista contemporânea, Guzel Yakhina. Ela escreveu o romance Zuleika abre seu olhos (sem tradução para o português ainda). O tema também é a repressão stalinista.  Meu acanhamento foi compreensível. Era como se eu pedisse desculpas por pedir a Lebedev por ter que comentar a obra de sua colega. Ele entendeu meu constrangimento.  

 É um tema um pouco complicado, eu acho. Porque para mim Guzel Yakhina escreve exatamente o que o povo quer ler. É um tipo de telenovela com ambientação em um Gulag, com um background muito simplório, expresso numa maneira que é também bastante usada por muitos sobreviventes. No geral, não é de todo ruim. Seu romance tem momentos luminosos; nele, encontramos pessoas interessantes; há até mesmo espaço para final feliz. Mas isso é um claro ponto de vista dos que conseguiram sobreviver. E isso é um erro clássico dos sobreviventes. Porque há um monte de gente que não retornou. Que nunca retornou e nunca chegou a dizer coisas estúpidas como estas. Então, ela escreveu um tipo de história sobre um Gulag light. Esse tipo de história você pode imaginar que poderia ser publicado, mesmo nos anos 70 ou anos 80, na União Soviética, porque claramente segue a tradição realista soviética. A mulher, de uma nação tribal oprimida, tem a chance de ir para um mundo grande. E em meio às turbulências do Gulag, ela encontrou o amor, e etc. E a respeito do real sucesso do livro… o livro foi um sucesso de vendas, de tiragem, nitidamente se observa que o livro providencia uma espécie de, vamos dizer, sentimento confortável, para aqueles que pensam a respeito do assunto, ok, não foi tão tenebroso. Mas quando se bate nisso, é como uma casca: tem que ir mais além. E, por fim, na adaptação do romance pro cinema, o cenário do Gulag foi feito de uma maneira muito diferente do que foi na realidade. Eram casas muito boas, roupas muito boas, e tal. Na minha opinião, isso é algo muito perigoso. Não é pelo fato de que ache que este tema tenha que ser sagrado. Estou totalmente de acordo com quadrinhos ou charges sobre Gulags. O que seja.  Ainda que sejam filmes de amor. Mas é necessário ser preciso em alguma coisa. E é importante lembrar que o destino do seu personagem principal não é o destino da maioria. Todos têm que ficar atentos a estas armadilhas das histórias dos sobreviventes. Então, pra mim, honestamente falando, Guzel Yakhina é uma agente do esquecimento e não um agente do esclarecimento. Ela está atuando do lado do esquecimento, infelizmente.

Sergei Lebedev já afirmou que seus avós exerceram grande influência em sua vida. Zakhar Prilepin também. Mas as semelhanças entre os escritores param por aí. Veterano da guerra da Tchetchênia (e ainda não traduzido no Brasil), Prilepin vê o passado soviético com olhos benevolentes.  

É fácil olhar para a União Soviética com bons olhos. Tem que se ter uma motivação ideológica, então, é possível se ver tudo por meio destes bons olhos. Prilepin não é um escritor. Infelizmente. Ele é claramente mais um político. O que mais se pode esperar dele? De um político e militante?  Eu não acredito em nenhuma palavra dele. Ele está completamente equivocado em tudo o que ele diz.  Você não deve tratá-lo como escritor diante de escritores. Ele é um ator político, ideológico. Se ele diz que tem uma boa experiência ao se recordar da União Soviética, ok. Mas não, a gente não deve falar seriamente disso. Pode se falar seriamente sobre Prilepin como um fenômeno? Sim. Mas não sobre suas palavras ou declarações.

Em uma entrevista, Lebedev mencionou a morte por fome dos inimigos de Stálin. Disse que há quem queira justificar seus crimes porque Stálin modernizou a Rússia. Usar a fome como arma é algo pré-histórico, diz Lebedev. Já citado por Lebedev, o escritor Vladimir Sorokin é autor do romance Dias de Oprichnik (também não traduzido no Brasil). Publicado em 2006, a ação se passa num futuro próximo, quando a Rússia volta a ter um czar. Oprichnik era nada menos que a guarda de Ivan, o Terrível, utilizada para exercício de sua tirania. Na ficção, o futuro russo está no passado. Seria isso mesmo?

Não é uma completa repetição do passado. Não haverá um retorno, em certa medida. Mas é claro que há coisas do passado, mas de modo diferente. Elas vêm porque as pessoas estão agora no comando, elas tratam do passado de modo, absolutamente, instrumentalizado. Eles vêm como isso funciona: quais dogmas ideológicos, quais princípios, quais modelagens, coisas que eles podem pegar e jogar como uma cortina de fumaça. A legitimação do atual governo russo está no passado, não está mais no futuro. Está tudo no passado. É como o hino russo, por exemplo. As palavras são novas, mas a melodia é soviética. Este é princípio essencial. E ainda que as palavras sejam totalmente diferentes, você sempre recorda e reconhece a melodia. E é esta a melodia em toda a nossa vida. Em todas as esferas. Absolutamente do passado. E isto só acontece porque o senhor Putin está apertando o laço. Tudo o que ele representa foi ensinado na escola da KGB. Isto tudo ainda está à disposição. E o povo não está tão longe da mentalidade da União Soviética.

Este ano, a aprovação do legado de Stálin atingiu o recorde. O maior índice em 20 anos. Como é possível explicar isso? 

Eu sei que nos anos 1990, a aprovação dele era próximo de zero. E se você cuidadosamente comparar através dos anos e das atividades políticas, você vai ver que o crescimento, ou melhor, o verdadeiro crescimento foram conduzidos pelos trilhos do sr. Putin. Não se trata apenas da instrumentalização de Stálin pela política atual. Para muitas pessoas, ele representa o deus da História, o sangrento deus da História, que trouxe sacrifício aos seus homens, mas alcançou a vitória e nós nos tornamos o número 1 do mundo. Mas agora as pessoas sentem, ao menos a maioria das pessoas sente, que a Rússia está indo para trás. Na história atual, na política atual. Nada de importante no mundo acontece na Rússia hoje. E esse desejo por Stálin é o desejo pelo retorno da grandes jogada desse império do poder. E Stálin representa esse poder. E foi, realmente, o último imperador.

Perguntei ainda se a literatura russa desempenha o mesmo papel de tribuna que no tempo dos czares, Lebedev respondeu que não. Os autores não escreviam sobre as dores atuais, sobre os problemas atuais da Rússia. Para terminar, fiz uma pergunta provinciana. Não me arrisquei a constrangê-lo ao perguntar sobre literatura brasileira, ampliei o arco. Literatura na América Latina. Lebedev falou que sua paixão recente é Mario Vargas Llosa. Embora não tenham se visto, o peruano participou do mesmo festival que o russo, na Dinamarca. A entrevista acabou. Comentei com Lebedev que vi semelhanças entre seu trabalho e a obra de Roberto Bolaño, com um gesto afirmativo de cabeça, o russo concordou.  

Astier Basílio

Astier Basílio é jornalista, poeta, ficcionista e dramaturgo. Venceu o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014.