A tolice no Brasil de Bolsonaro pelas lentes de Robert Musil

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A tolice no Brasil de Bolsonaro pelas lentes de Robert Musil, Über Dummheit / Sobre a Tolice, 1937

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Caricatura da semana: Chanceler Dr. Dollfuss (Verfassungsgerichtshof: Corte Constitucional; Parlament: Congresso) “Até quando basta ridicularizar as tolices e loucuras dos ‘Mini-Metternichs’?” (Metternich sufocou o espírito republicano da sociedade civil austríaca em 1815, com consequências graves até o século XX)

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por Kathrin H. Rosenfield

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A erosão das instituições democráticas por tumultos, grosserias, notícias distorcidas ou plantadas sempre se estendeu sobre longos prazos de acontecimentos aparentemente inócuos. Por isso, é capital observar os processos ainda embrionários para a correção de seus desvios nefastos. Ninguém observou melhor esse tipo de acontecimento do que Robert Musil, embora poucos o escutassem. O ensaio Sobre a tolice é a última palestra do autor do Homem sem Qualidades antes do seu exílio em 1937. O título alude a uma série de outros escritos sobre as tolices (às vezes aparentemente inofensivas) que podem se tornar armas políticas brutais e sangrentas. Isso fica claro nas entrelinhas, pois o título evoca um outro ensaio, também intitulado “Sobre a Tolice” — um texto antigo de 1866, no qual o hegeliano Eduard Erdmann[1] escreveu que a “crueza e a crueldade [seriam] tolices em ação ou a própria prática da tolice”. O ensaio de Musil é o resultado de inúmeras observações sobre o relaxamento cotidiano da retidão linguística, da degradação do gosto, de pequenas falhas éticas acumuladas, que abrem espaço para aquela esperteza “sonsa” que persegue finalidades ocultas sob a máscara da ingenuidade ou da grosseria boba. As loucuras de Hamlet captam bem a zona cinzenta na qual se movem as ambivalências emocionais das tolices aparentemente loucas que oscilam entre mansidão e fúria. Como mostrou a história de um certo tolo chamado Hitler, “esse tipo de tolice pode ser perfeitamente focado e conforme a fins definidos” (Karl Corino) — uma advertência que Musil antecipou ao criticar a dubiedade (às vezes sem intenção) de gestos ou do estilo da expressão, mostrando sua possível sintonia com “tolices mais perigosas”.

Já antes de Erdmann, Erasmo elevou o Elogio da Loucura (Stultitiae Laus ou Moriae Encomium) a um gênero literário: uma forma satírica de crítica da cultura, da sociedade e do (des)governo político na base de ideologemas desvirtuados. O autoelogio da figura alegórica Tolice denuncia as tolices da superstição e das tradições anacrônicas com as quais a Igreja abusa do espírito da religião. Na tradução, o termo “loucura” já dá a medida da periculosidade do assunto; pois da loucura há um passo apenas para surtos furiosos e violentos. O título em latim, ao contrário, propõe termos tratando das formas ainda mansas: stultitia / moria são aquelas tolices, bobices estúpidas, ou imbecilidades que evidenciam uma falta de inteligência e educação, que costumamos olhar com certa condescendência.

Escolhendo um termo igualmente atenuado, Musil enfatiza o perigo da condescendência com gestos e linguagens tolas. No seu diário, a tolerância — o deixar-acontecer (Geschehenlassen) — é um perigo que quase sempre vem de mãos dadas com uma falta de atenção, afrouxamento do juízo alerta que torna a indignação ineficaz. A falta de precisão intelectual muitas vezes suscita condescendência no lugar da necessária indignação e assim torna nossas reações afetivas (alma) sem a necessária reação adequada. Pois as tolices idiossincráticas podem ser — melhor: muitas vezes tendem a ser — balões de ensaio que testam e preparam o terreno no qual pessoas que podem ser ineptas e ridículas armam truques dignos de desprezo (mas não de condescendência).

Voltando ao exemplo do cartaz inicial: os leitores dos jornais austríacos riram de uma charge como essa acima, ridicularizando Dollfuss como “Millimetternich” (versão milimétrica-diminuta do chanceler Metternich — aquele príncipe-diplomata que a partir de 1815 começou a esmagar o espírito republicano da revolução francesa e manteve na Áustria os hábitos monárquicos e autocráticos do Biedermeier). Nisso ele foi tão eficaz que o “eterno Biedermeier” se prolongou até o século XX — Hitler elogiava essa submissão à autoridade da Ostmark como uma garantia para o êxito da anexação da Áustria,[2] e inúmeras milícias rurais e urbanas se encarregaram de terrorizar os civis até sua chegada triunfal.

E o triunfo do Führer foi preparado, paradoxalmente, pelas medidas do político que pretendia manter a Áustria independente do regime Nazista: pelo miniditador Engelgert Dollfuss, que fechou, em 1932, o Parlamento e a Corte Constitucional, com o comentário “senti nesse momento um sinal de Deus!”.[3] Essa impostura não veio à toa. Ela foi, no entender de Musil, o resultado de inúmeras “tolices” anteriores que o ardil político de Dollfuss armou de longa data, aproveitando-se da falta de reação adequada. Uma sucessão de crises tumultuando o frágil equilíbrio das forças democráticas; e um desses tumultos no Parlamento levou os três líderes do conselho nacional (Nationalrat)[4] a cometer um equívoco crucial: eles se demitiram do cargo, presenteando Dollfuss com a oportunidade de alegar a inoperância do parlamento. Em seguida, induziu o público leigo a confundir as fricções do debate democrático e os ocasionais tumultos das sessões com inoperância e falta de legitimidade — para, em seguida, suspender toda a atividade democrática e “corrigir” a Constituição de 1920 com decretos e medidas de emergência.

Nos diários de Musil, encontramos a pré-história desse evento da charge que marca o início oficial do Austrofascismo. Musil mostra que essa oportunidade não se ofereceu por acaso: eis o que podemos ler nas anotações que mostram o autor em alerta máxima desde 1930, quando ocorreu uma ominosa reforma da Corte Constitucional. Já em 6 de fevereiro 1930, Musil fez uma anotação a respeito do remanejamento dos 2 juízes mais eminentes dessa corte — justo os mais capazes e dignos juristas, Hans Kelsen e Max Layer, ambos social-democratas e artesãos da Constituição de 1920, foram substituídos por personagens então pouco expressivos. Um dos novos juízes era professor universitário e funcionário do Ministério cristão-social, o outro um dos chefes de Secção chamado Robert Hecht — e sua principal “qualidade” residia no fato de eles estarem mais dispostos a colaborar com os pendores conservadores e autocráticos do governo. Já no ano 1930 Musil comentou então: “Está na hora de fundar uma associação contra a disseminação da tolice”, pois essa “reforminha” fazia parte, no entender dele, de uma longa guirlanda de tolices: tolices dos gostos e afetos, da sociabilidade e da política austríacos, cujos deslizes conjugados criariam a força avassaladora de uma avalanche social e política.

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Robert Musil, c. 1935 (adoc-photos/Corbis/Getty Images)
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Em todas as épocas a barbárie se prepara muito antes dos ditadores ocuparem o primeiro plano. Isso já fica claro no primeiro romance de Musil de 1906 (O Jovem Törless), e as análises de Musil prolongam-se nos ensaios e aforismos ao longo das décadas de 1900-1920, bem antes do Austrofascismo e do regime nazista inviabilizarem todas as suas publicações, banirem seus livros e levarem a velha Europa para o abismo da Segunda Guerra Mundial.

Nas entrelinhas de O jovem Törless de Musil encontramos uma verdadeira “teoria do sadismo político”, e talvez também uma sinalização do sadomasoquismo do eleitorado apolítico da população civil, muito inexperiente no exercício da observação, da ação e do juízo na cena política — uma situação próxima da apatia atual diante das ameaças (explícitas ou implícitas) de policiais, militares e milicianos, ou o crescente apetite de certas faixas da população por ações diretas, contundentes ou violentas. Hoje, como nas décadas de 1920 e 30, delineia-se de novo o que Musil já rastreou no seu primeiro romance, que mostra com clareza a lógica dos “ditadores in núcleo” que a atualidade do entre-guerras iria revelar. O romance captou toda a dinâmica de grupos da realidade do início do século XX e radiografou os comportamentos e as práticas que marcaram a ascensão do fascismo na Áustria e do Nazismo na Alemanha dos anos 1920-30: nos rituais de degradação e humilhação que os personagens Beineberg e Reiting infligem ao colega de internato Basini  já há a estrutura e todos os detalhes do funcionamento das milícias do Partido nazista (SA e SS) e os rituais da Gestapo.[5] Numa reflexão retrospectiva em 1935, Musil se pergunta: “Teriamos então [isto é, em 1906!] pensado que os oficiais putschistas se tornariam os líderes típicos do mundo?! . . . Beineberg o pensou!”

Musil não fez uma estatística do papel que assumiram todos os colegas do internato militar no qual ele foi educado na história da Áustria e da Alemanha durante a primeira metade do século XX. Mas Ernst Salomon, estimulado pelo Törless de Musil, escreveu páginas memoráveis sobre o espírito de militares e milicianos quando suas corporações se enraizaram firmemente na vida civil e nos governos. No posfácio do seu romance Os Cadetes, ele assinala que a catástrofe se prepara quando os antigos recrutas e cadetes, militares e milicianos começam a dominar a vida pública. Ele lista todos os nomes hoje sombriamente emblemáticos do nazismo como dirigentes da vida civil e da pseudodemocracia do entreguerras. A maioria deles são militares como

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o cadete Ludendorff e o cadete Hindenburg, o cadete Schleicher rivalizando contra o cadete Papen (seu Vicechanceler, e vice versa); […] também nos ministérios encontram-se figuras como o cadete Göring que mandou matar os cadetes Detten, Beulwitz e Geertz e muitos outros; […] Cadetes se ergueram e caíram, a serviço de e contra Hitler, fazendo justiça sobre outros cadetes. É uma imagem grandiosa, uma imagem horrenda.

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Como na Áustria dos anos 1920, há também no Brasil de hoje inúmeras vozes que nos oferecem insights aforísticos como os de Musil. Tomara que não falte a organização daquela população ainda capaz de conjugar a precisão do intelecto com a retidão moral e o esmero dos afetos para inibir todo aquele vazio de pensamento que usa os arroubos sentimentais ou o pathos vago para a manipulação de tolices e loucuras criminosas.

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Berlin, 1926 (Reprodução: ADN-Zentralbild Archiv/Wikimedia Commons)

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Notas:

[1] Eduard Erdmann, Sobre a Tolice. Berlin, Wilhelm Hertz, 1866.

[2] O “eterno Biedermeier” é o Erwartungshorizont [horizonte de expectativas] cultivado, mas pacato [bieder] e pronto para compromissos (com o sorrateiro clericalismo católico e toda a mentalidade autoritária legada pela era de Metternich)  que preservou o hábito da submissão à autoridade (Obrigkeit). Hitler conhecia bem esse reflexo de acomodação com as convenções do poder autoritário e elogiava essa atitude da Ostmark explicitamente ao planejar a anexação da Áustria em 1938 (cf. Brigitte Hamann, Hitlers Wien. Lehrjahre eines Diktators, 1996., p. 125).

[3] Formulação posterior de Dollfuss numa assembleia com milícias rurais.

[4] Renner, o presidente do Nationalrat renunciou, seguido pelos seus dois Vices dos partidos cristão-social e do partido da Grande Alemanha.

[5] cf. Jan Valtin, Tagebuch der Hölle.

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Kathrin Holzermayr Rosenfield

Kathrin Holzermayr Rosenfield é Professora Titular de Filosofia e Literatura na UFRGS, autora de vários livros sobre literatura, filosofia e arte. Aborda com perspectivas filosóficas, antropológicas e psicanalíticas autores de diversas literaturas. Seu ensaio Desenveredando Rosa — a obra de J. G. Rosa ganhou o Prêmio Mário de Andrade. Atualmente, Kathrin traduz obras ficcionais e ensaísticas do romancista austríaco Robert Musil. Trabalha em projetos vinculando a pesquisa acadêmica e dramaturgia com o público amplo.