Pérez-Reverte: Ganhar no futebol é coisa de fascista

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Escuto no rádio. Um entrevistado assegura, com aquela pose típica dos fanáticos e dos idiotas, que, nas partidas de futebol infantil, não deveria haver vencedores e vencidos. Que os gols não devem contar, pois isso cria frustações e destrói a autoestima. Que, ao proclamarmos alguns meninos como ganhadores, deixamos os outros para trás. Que não importa o quanto marque uma ou outra equipe, o resultado final deve ser equilibrado, solidário, igualitário. E eu fico ali esperando que o fulano termine dizendo que ganhar no futebol também é coisa de fascista. No fim não disse, mas penso que não está muito longe. Demos um pouco mais de tempo a seu Twitter, a seu Facebook. Elejamo-lo deputado, como esses outros intelectuais que embelezam nossa vida lá do Parlamento. E logo logo a sociedade ocidental inteira clamará por meninos jogando futebol sem gols, sem pênaltis, sem expulsões, sem troféus, sem nada. Construamos o futuro. Transformemos os parquinhos e os campos de futebol infantil, incluindo os estádios para os mais velhos, em uma adorável Disneylândia.

Poucas vezes eu vi, embora seja um contumaz leitor de História, a criação de ovelhas com o entusiasmo da última década. E não falo apenas de ovelhas manipuláveis, mas de carne dócil para o abatedouro. De vontades dispostas a subirem no trem cuja última e única parada é um lugar onde se vê fumegantes lareiras simbólicas, ou não tão simbólicas. Onde se queima a inteligência e o bom senso. Onde analfabetos, embriagados de poder midiático ou político, liquidam três mil anos de razão e de cultura. Onde, esperando sua vez no crematório, definhando e famintos, estão Homero, Virgílio, Platão, Sócrates, Kant, Cervantes, Voltaire, Dante, Montaigne, Shakespeare e os demais. Aqueles que fizeram da Europa um foco de luz, direito e liberdades, que iluminaram o mundo. Essa Europa hoje estéril, caricatura de si mesma, contaminada pelo bom-mocismo que tomou conta dos campi universitários norte-americanos há meio século e agora, retorcido até o absurdo, contamina tudo e envenena todos.

A vantagem de se chegar a minha idade, de se ter leitores e não se ter muito o que ganhar ou perder, é poder ficar apocalíptico sem que aconteça nada. Dizer o que se pensa sem importar a quem isso agrade ou desagrade. E o que eu penso é que isso acabou. Não exatamente agora, é claro. As eras demoram a passar; os impérios, séculos para cair. Mas a Europa em cujo respeito fui educado, o mundo cultural e intelectual do qual se nutrem minha vida e meu trabalho está sentenciado a morte. Esse lugar que foi luz do mundo, berço de ideias, humanismo e cultura, virou hoje uma palhaçada grotesca, um arremedo do que ele próprio gerou e que, devolvido após a manipulação do tempo e da estupidez, encara a própria caricatura.

Há um futuro, naturalmente. Sempre há. Um futuro inevitável, resultado da dinâmica da história. Mas aquela Europa não tem lugar nesse futuro. Virá outra, melhor ou pior, regida por novas regras quando os cordeiros, que hoje criamos incapazes de se defender física e intelectualmente, forem comidos a dentadas por lobos totalitários de todo tipo. Quando nossos filhos e netos, transformados por nós mesmos em vítimas por vocação, aplaudem e compreendem seus carrascos e seus novos senhores. Sobre esse caos difuso forjar-se-á um novo império e caberá à Europa fazê-lo servo ou senhor: ignoro se melhor ou pior, não me importa tanto assim, já que não estarei aqui para desfrutar de suas vantagens ou sofrer suas inconveniências. Extingo-me devagar junto com o mundo do qual eu venho, como deve ser. Os impérios passam e a História ensina a aceitar isso com naturalidade, sem alarde; com a estoica certeza de que, uma vez mais, acontece o que sempre aconteceu. Como o príncipe Salina que, ao fim de El Gatopardo, deixa pra trás as luzes e a música sabendo que não voltará a dançar com Angelica porque ela e sua esplêndida juventude estão já comprometidas com o belo e promissor sobrinho Tancredi.

Muito bem. Errado ou não, é isso que penso. Nessa triste mediocridade que assombra o horizonte, os livros, a ciência esclarecida, a cultura, os pequenos núcleos de resistência que enfrentam a batalha perdida serão — e para muitos já são — como os antigos monastérios que colocaram a salvo parte do mundo que desaparecia, preservando-o pro futuro. Neles, conscientes da vitória impossível, estarão refugiados alguns poucos enquanto lá fora cavalgam e vociferam os bárbaros. E ali se reconhecerão uns aos outros, com sorrisos de cumplicidade, como monges medievais, oferecendo calor contra o tenebroso inverno que se anuncia.

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(A biblioteca de São John Henry Newman no Birmingham Oratory)

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Arturo Pérez-Reverte
XLSemanal 05.12.2020
www.perezreverte.com

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Todos nossos profundos agradecimentos ao autor, Don Arturo, e a Ana Lyons, da RDC.

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