A reconstrução do País nasce no chão da escola pública

por Priscila Cruz Gabriel Correa

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Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. 
Relembro, e uma angústia 
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. 
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
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Álvaro de Campos, Na Noite Terrível

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Fernando Pessoa

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Atravessamos uma noite terrível. Pandemia, aumento das desigualdades, flagrante intolerância à diversidade, economia deprimida, risco à democracia. Estamos frente a um tempo de incertezas e as escolhas que fizermos nas próximas semanas e meses ecoarão por décadas, e o irreparável do passado é cadáver.

Assim, sem tirar os olhos das emergências atuais, está colocada para esta geração a tarefa de construir um projeto de Nação sustentado em pilares capazes de, na laboriosa reconstrução do País no contexto da pandemia, amparar um novo e mais alto patamar de desenvolvimento social e econômico.

São muitas as evidências de que um desses pilares, provavelmente o central, é a escola de qualidade e para todos. Uma Educação que, como diria o sociólogo francês Edgar Morin, coloque em perspectiva as incertezas, abrindo espaço para a transformação dentro e fora da escola. Uma Educação que, mudando a si mesma, transforme as trajetórias de vida, as comunidades, os países e o mundo. Afinal, uma boa Educação não enseja apenas ganhos individuais — é também aspecto fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade, como já demonstraram inúmeras pesquisas.

Estudos do professor de Stanford, Eric Hanushek, por exemplo, apontam o “poder de arranque” do ensino de qualidade para um país, tão necessário nos tempos de reinvenção que se aproximam. Em um deles, Hanushek mostra que um aumento de 100 pontos no resultado médio de um país na avaliação internacional de desempenho dos alunos (PISA), realizado pela OCDE, está associado a dois pontos percentuais a mais na taxa de crescimento anual média do PIB per capita desse país no longo prazo. Em outras palavras, não há prosperidade coletiva duradoura sem a oferta de uma Educação de qualidade.

Mais do que nunca, é hora de revisitarmos os bons exemplos e os estudos para demarcarmos o alvo que queremos atingir nas próximas décadas. Temos de sair da retórica repetitiva e esvaziada que diz “educação é a base de tudo” e agir; do contrário, o Brasil continuará a encarar a sombra do que poderia ter sido. Seremos capazes, finalmente, de abdicar do medalhão e da inópia mental e enfrentar a dura e duradoura trilha do conhecimento, da ciência e da valorização da Educação — não aquela na qual cabem frases feitas e fake news, mas pensamento e honestidade intelectual. A Educação da intenção verdadeira de melhorar o País para todos os brasileiros.

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“Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. […] E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.”

(Teoria do Medalhão, Machado de Assis)

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Machado de Assis, em sua imagem clássica colorida pelo Projeto Machado de Assis Real

A escolha está aqui e agora nas salas de aula.

A situação sem precedentes abriu espaço para uma relação também inédita com o ensino: nunca antes foi tão clara a importância dos profissionais da Educação e seus desafios. Trata-se de um momento em que indignação e otimismo caminham juntos: se, por um lado, há uma grave inação do Ministério da Educação (MEC), do outro está o esforço de cidadãos e organizações sem fins lucrativos, educadores e gestores educacionais — atores anônimos que vêm minimizando as múltiplas crises que a pandemia cria e amplia na Educação. Devemos aproveitar esse esforço como força-motriz e aumentar o volume da vocalização dos caminhos e da cobrança por resultados, pois a inépcia nesse momento terá enormes consequências.

Gestores públicos, professores, diretores escolares e demais profissionais da área educacional estão buscando reagir, de forma inédita e emergencial, à suspensão das aulas presenciais. Iniciativas de ensino remoto têm sido empregadas por diversas redes de ensino, com maior ou menor uso de ferramentas digitais, para mitigar os efeitos no aprendizado dos alunos. Mas não nos iludamos: trata-se de reduzir prejuízos, que ainda serão enormes. Há também preocupação com outras dimensões para além da aprendizagem, como os impactos na saúde mental, a disseminação de informações corretas para controle da pandemia e, especialmente na rede pública de ensino, o apoio àqueles em situação de maior vulnerabilidade para garantia de condições básicas, como a alimentação diária — antes provida pela merenda escolar. São Adamastores a serem encarados em um cenário em que os profissionais da Educação também estão travando suas batalhas pessoais e familiares.

Apesar do contexto tão complexo, o setor educacional brasileiro vem aprendendo com experiências de outros países que passaram por situações emergenciais e já é possível identificar elementos que, ao ganharem holofote no atual momento, podem impulsionar mudanças de médio e longo prazos na Educação Básica. Há quem projete, a partir dessas lições, uma revolução no setor; mas é importante, sobretudo, valorizarmos os aspectos que dialogam com a realidade em que vivemos. É a partir deles que se poderá ter esperanças de que a Educação brasileira conseguirá extrair aprendizados de um dos maiores desafios da história do país e se adaptar.

O primeiro e mais relevante desses pontos, ainda que intangível, é a compreensão da importância da escola como alavanca ou freio do bem-estar da sociedade em que vivemos. A crise tem realçado as desigualdades sociais e vem mostrando como a escola deve ser vista como locus de redução das exacerbadas iniquidades brasileiras. As diferenças no acesso a recursos tecnológicos, na escolaridade dos pais e responsáveis e nas condições de estudo nos domicílios, por exemplo, sempre foram desafios para o ensino no Brasil, sendo agora escancaradas. Conseguimos pensar em como seriam as desigualdades do país se não fossem nossas escolas? Ainda que haja muito a ser feito para oferecermos as mesmas oportunidades educacionais a todos, subverter essa realidade passa por valorizar e buscar melhorar as escolas brasileiras.

Embora esse seja um momento particular de convocação à revalorização de nossa escola pública como pilar de uma Nação mais justa, trata-se de uma questão atemporal. Já há oito décadas, um grupo de intelectuais e educadores já anunciava a importância das escolas brasileiras em um contexto de renovação do País. Em 1932, nascia o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova:

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“Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação. Nem mesmo os de caráter econômico lhe podem disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional. Pois, se a evolução orgânica do sistema cultural de um país depende de suas condições econômicas, é impossível desenvolver as forças econômicas ou de produção, sem o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões à invenção e à iniciativa que são os fatores fundamentais do acréscimo de riqueza de uma sociedade.”

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Anísio Teixeira, um dos Pioneiros da Educação Nova

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Mais do que isso, além da importância social da escola, o momento tem servido também para evidenciar a relevância do professor. Mesmo em um mundo cada vez mais conectado e digital, as tentativas de Educação remota têm mostrado que ensinar é um quebra-cabeça complexo. Isso reforça ainda mais o valor da escola, do ensino presencial, da busca pela contínua profissionalização da docência e, por fim, da valorização da Pedagogia, da didática e das ciências da aprendizagem nos cursos de formação de professores. Se tal compreensão não esvaecer, será um importante legado para a Educação brasileira.

Nas palavras de Raj Chetty, “as pesquisas mostram que bons professores são de imenso valor para seus alunos. Elevar a qualidade da prática pedagógica traz grandes benefícios para o desempenho acadêmico das crianças, adolescentes e jovens, e isso se traduz, no longo prazo, em ganhos econômicos e sociais para todos eles.”

Raj Chetty

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No campo das políticas públicas também há lições em curso. Pesquisas sobre regiões e países que já passaram por fechamentos prolongados de escolas como o atual, compiladas em uma Nota Técnica do Todos Pela Educação, apontam desafios que as escolas terão no retorno às aulas presenciais; por exemplo, a necessidade de ações integradas entre diferentes áreas, como a Educação, a Saúde e a Assistência Social. Os danos da crise, afinal, não se limitam à queda dos níveis de aprendizado dos alunos e provável ampliação das desigualdades educacionais. Além do forte impacto emocional na comunidade escolar, é de se esperar também um aumento dos níveis de pobreza e maior quantidade de alunos sob situações de estresse tóxico em seus domicílios. Tamanhos desafios implicarão, necessariamente, uma resposta intersetorial — uma demanda que, aliás, não diz respeito à lógica puramente emergencial do momento. O cuidado integral dos alunos brasileiros precisa ser perene, com ações articuladas dos governos. É algo que exige esforço, comprometimento e muito diálogo, mas se fortalecido e perpetuado, será um passo muito significativo para o futuro do País.

Ainda no campo educacional, há outros possíveis legados. Por exemplo, quando os alunos retornarem às aulas presenciais, pode haver maior abertura por parte da comunidade escolar (estudantes, profissionais da Educação e famílias) para introduzir a tecnologia como instrumento pedagógico de apoio ao ensino e, portanto, à aprendizagem. Não se trata de “digitalizar a sala de aula”, e, sim, utilizar soluções para apoiar o trabalho dos professores sem substituir o protagonismo do ensino presencial. Tecnologia como complemento, nunca como substituta do insubstituível: as conexões humanas e os vínculos que só o relacionamento cotidiano permite.

Por fim, o enfrentamento da pandemia vem, cada vez mais, demonstrando como a colaboração e a troca de experiências e boas práticas, tanto a nível nacional quanto internacional, são úteis para o fortalecimento das políticas públicas. Para a Educação brasileira, está nítido como o setor se beneficiaria com uma melhor governança interna, com maior articulação e mais colaboração entre União, Estados e Municípios na formulação e implementação das políticas educacionais. Globalmente, espaços de trocas de experiências podem ser ainda muito fortalecidos, para que os aprendizados mundo afora possam ensinar e inspirar novas respostas e avanços educacionais.  É certo que as realidades são muito diferentes, exigindo adaptações; porém, se os aprendizados forem contextualizados e vistos sem preconceitos, eles podem fortalecer significativamente os sistemas de ensino.

As incertezas do presente, portanto, são convites à mudança. A transversalidade e a interdependência da Educação com outras áreas dão-nos a confiança de defendê-la como catalisadora da reconstrução do Brasil e, portanto, de legado da crise que vivemos. É no chão da escola que estão as respostas criativas para as transformações e adaptações que estão por vir.

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“Somos Todos por uma escola para todos. 

Onde crianças e jovens e se reconheçam o mundo e se reconheçam.

E a Educação seja direito de todos e a aprendizagem, um compromisso.

Uma escola democrática, participativa, inovadora,

na qual todos os alunos aprendam a serem cidadãos críticos e

conscientes de si, de suas comunidades, do país e do planeta.”

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Manifesto A Escola que Queremos, do Todos Pela Educação

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(Reprodução: Acervo USP)

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Priscila Cruz é cofundadora e Presidente Executiva doTodos Pela Educação
Gabriel Correa é Gerente de Políticas Educacionais doTodos Pela Educação